25 de janeiro de 2017

Capítulo catorze


Call acordou de repente, engasgando. Estava na enfermaria.
O Mestre Rufus falava com alguém, provavelmente Mestra Amaranth. Ela gostava de andar com cobras no ombro, mas era uma excelente feiticeira da cura.
— Não achei que o teste o tivesse esgotado tanto. Tem certeza de que ele vai ficar bem? — perguntou Rufus.
Ela soou como se já tivesse respondido aquela pergunta antes.
— Ele está bem, só está exausto. Os dois meninos usando as respectivas magias daquele jeito, ao mesmo tempo; não sei se deveria ter deixado que continuassem sendo o contrapeso um do outro. O que acontece se os dois forem longe demais?
— Levarei isto em consideração. — Call sentiu a mão do Mestre Rufus ir até seu ombro, e ele manteve os olhos fechados, fingindo dormir. — É nossa obrigação mantê-lo seguro. Temos que mantê-los todos seguros, ou estaremos condenados a repetir o passado.
— Bem, ao menos ele não é tão tolo quanto o jovem Alex Strike ali, que conseguiu cair em um monte de estalagmites. Juro, os alunos do Ano de Ouro se tornam mais tolos na medida em que se aproximam do portão final.
— Soube do acidente — disse Mestre Rufus, sem muito interesse, mas alguma coisa em sua voz fez com que Call pensasse que ele sabia mais do que estava revelando.
Mestre Rufus apertou o ombro de Call e em seguida deixou a enfermaria. Call ouviu seus passos à medida que se afastava. Manteve os olhos fechados. Em algum lugar do outro lado do recinto, Mestra Amaranth cantarolava, fazendo algo que envolvia vidros tilintando.
Vou contar até trinta, Call pensou. Depois finjo acordar. Assim ela não vai saber que eu estava fingindo na frente do Mestre Rufus.
Ele começou a contar... mas acabou dormindo.


Quando acordou de novo, Call viu Tamara diante de si. Quando tentou falar, ela colocou a mão em sua boca. Cheirava a sândalo.
— Consegue levantar? — disse ela num sussurro. — Faça que sim ou que não com a cabeça.
Ele deu de ombros e ela, exasperada, tirou a mão.
— Não acorde Alex e não dê nenhum motivo para a Mestra Amaranth vir até aqui. Ela levou horas para sair.
— Pode deixar. — Call sussurrou de volta e saiu da cama. Suas pernas o sustentaram. Sentia-se muito bem, na verdade. Descansado. Ainda estava com as mesmas roupas de quando tinha desmaiado na via expressa. — O que aconteceu?
— Shhhh. Vamos. — Tamara o levou para fora da enfermaria. No corredor, Call deu uma última olhada antes de a porta se fechar. Alex aparentou continuar dormindo, com uma atadura no ombro.
Mestra Amaranth não estava em lugar nenhum.
Aaron e Alma estavam esperando por eles. Assim como Tamara, Aaron estava com o uniforme escolar. Seus olhos se iluminaram ao ver Call, e ele deu um passo para a frente para lhe dar um tapinha nas costas.
— Você está bem? — perguntou.
— Um pouco dolorido, mas sim, estou melhor — disse Call. Ele olhou para Alma, que usava um vestido flutuante de algodão e casaco cinza longo. Seus braços estavam cheios de curativos. — Está toda coberta de mordidas de raposa?
A expressão de Alma ficou sombria. Aaron balançou a cabeça e fez um gesto de cortar a garganta para Call, por trás dela.
— Não vamos falar sobre isso! — disse Alma, se irritando.
— Tudo bem. — Call imaginou se Alma teria se arrependido de ter aberto a porta do caminhão. A culpa era basicamente dela por ele e seus amigos quase terem sido mortos por ursos. — Então, o que estão fazendo aqui?
— Vocês cumpriram sua parte do acordo — disse Alma. — Está tudo pronto para eu cumprir a minha.
Isso significava que Jennifer estava em algum lugar por perto. Tinha que estar. Call estremeceu só de pensar. Ele não sabia se estava pronto para ver outra pessoa morta falando. Era muito parecido com a cabeça de Verity Torres e os enigmas. Tinha sido uma coisa muito Suserano do Mal.
O rosto de Aaron era o de alguém com os mesmos questionamentos. Mas Tamara parecia determinada.
— Ótimo — disse ela. — Vamos acabar logo com isso.
Alma começou a marchar pelo corredor e o trio foi atrás. Ao contrário de Alex, ela não parecia interessada em fazer nenhuma magia complexa de ar para escondê-los. Devia ser tarde e os corredores estavam bem desertos. Eles ficaram perto das paredes e se aproveitaram das sombras.
— Alex está bem? — perguntou Tamara.
Call sentiu sua pele formigar. Era normal que ela se preocupasse com Alex, disse a si mesmo, ainda que jamais tivesse prestado atenção nele antes. Não significava nada.
— Ouvi Rufus e Amaranth conversando mais cedo — disse Call. — Ele vai ficar bem. Então, você sabe, pode avisar para Kimiya.
Tamara pareceu confusa.
— Ela não sabe que ele se feriu.
Call acenou.
— Bem, você nunca sabe o que perdeu quando está desmaiado, certo?
— Shh — disse Alma, indicando que ficassem quietos. Tinham entrado na parte do Magisterium onde ficavam os quartos dos Mestres. Atravessaram em silêncio até o de Anastasia.
Alma bateu à porta com três soquinhos rápidos, parou e bateu novamente. Um instante depois Anastasia abriu a porta. Estava com um vestido branco coberto por uma longa capa, bordada com fios pretos. Acenou para que todos entrassem e, uma vez lá dentro, Call quase engasgou. O local estava imaculado, assim como antes, mas sobre a mesa de mármore no meio do recinto estava Jennifer.
Ela parecia dormir. Seu cabelo negro e longo formava uma poça em volta da sua cabeça. Estava descalça e com o mesmo vestido manchado de sangue da festa. As mãos estavam cruzadas sobre o peito.
— O corpo estava no Collegium desde o assassinato — disse Alma, trancando a porta. — Eles a preservaram contra a decomposição, para quando fosse necessária como evidência.
Call ficou imaginando se teria sido assim que Constantine preservou a cabeça de Verity Torres há tantos anos. Ele tinha a impressão de que, independente do que fizesse, estava cada vez mais próximo da vida e das decisões de Constantine. Era como estar em uma rota de colisão com ele mesmo.
— Não vão notar que ela está desaparecida? — perguntou Aaron.
— Vamos devolver antes que qualquer um do Collegium procure por ela — informou Anastasia.
Call pensou na velocidade com que elementais viajavam e na habilidade específica dos membros da Assembleia em controlá-los. Se Anastasia pegasse um dos elementais do Magisterium emprestado, provavelmente conseguiria devolver Jennifer ao Collegium rapidinho. Mas se ela e Alma conseguiam roubar um corpo do Collegium, então o espião provavelmente conseguiu fazer muitas coisas também.
Afinal, ele ou ela era o maior Makar da geração deles.
— Vou explicar o que precisamos fazer — disse Alma para Call e Aaron. — Vocês terão que aprender uma habilidade relativamente difícil, e rápido.
Call se lembrou de Alma tentando ensiná-los sobre o toque da alma. Foi difícil aprender a fazer alguma coisa com alguém que entende a teoria já tinha visto sendo feito, mas nunca realizado a ação pessoalmente. Ele e Aaron levaram horas para aprender. Call não tinha certeza de que teriam horas desta vez.
— E você — disse Anastasia para Tamara — precisa impedir que qualquer pessoa procure por Callum ou Aaron.
— Quê? — perguntou Tamara.
— A Mestra Amaranth provavelmente vai checar os pacientes antes de terminarmos. Vá até lá diga a ela que Callum voltou para o quarto e que irá a enfermaria amanhã se ela desejar. Precisamos ter certeza de que a escola inteira não entre em frenesi procurando por Call enquanto estamos no meio de um experimento mágico ilícito.
Tamara suspirou.
— Tudo bem. Eu vou.
— Um de nós não deveria ir junto com ela? — perguntou Call. Ele não sabia se gostava da ideia de algum deles vagando sozinho pelo Magisterium com um espião à solta. Olhou para Aaron para ver se ele estava pensando a mesma coisa, mas o amigo estava com o rosto pálido, encarando o corpo de Jen sobre a mesa.
— Eu levo Devastação. Pelo menos assim faço alguma coisa, em vez de apenas ficar parada olhando. Detesto não poder ajudar — disse Tamara indo para a porta. Depois virou para Call, sorrindo, as tranças balançando. — Boa sorte na conversa com os mortos.
Depois que Tamara saiu, Call se sentiu muito sozinho. Eram só ele e Aaron, duas senhoras malucas e um cadáver.
— Muito bem — disse ele. — O que faremos?
— Pelo que sei — disse Alma, lembrando a Call que ela provavelmente não tinha tanta certeza — você precisa imaginar a magia do caos correndo pelo cérebro do morto, como sangue. Você precisa enviar energia caótica para ele, ativando a mente.
Parecia difícil. E não muito específico.
— Ativando a mente? — repetiu Aaron. Ele parecia tão espantado quanto Call.
— Sim — disse Alma com mais certeza na voz. — A magia do caos aproxima a faísca da vida, permitindo que o morto se comunique.
Anastasia gesticulou para o corpo de Jen sobre a mesa.
— Call e Aaron. Aproximem-se e olhem para a garota.
Incertos, os dois aproximaram-se da mesa. Os olhos de Jen estavam fechados, mas havia uma mancha de sangue em sua bochecha. Call se lembrou dela rindo na cerimônia de premiação. Parecia incompreensível que nunca mais fosse sorrir ou mexer o cabelo ou sussurrar uma mensagem ou correr pelos corredores.
Era isso que Constantine queria conter, pensou. Essa sensação de coisa errada. A perda de uma vida e de seu significado. Ele tentou imaginar se fosse alguém que realmente amava deitado ali; Alastair, Tamara, Aaron. Era difícil não entender a motivação de Constantine.
Ele forçou a mente de volta ao presente. Entender as motivações de Constantine não era o que ele deveria estar fazendo. E sim encontrar o espião.
— Alcancem um ao outro — instruiu Alma. — Usem-se como contrapesos. Vocês carregam em si o poder do caos, do verdadeiro nada. O que estão alcançando é a alma. A verdadeira existência. Usem isso para alcançar Jennifer.
Isso fazia um pouco mais de sentido, Call pensou. Talvez. Ele trocou um rápido olhar com Aaron antes de ambos fecharem os olhos.
No escuro, Call se equilibrou. Agora que ele já tinha praticado, era mais fácil cair naquele espaço interior. Era como se tudo fosse embora muito depressa, até a dor mesmo da perna. Tudo ficava escuro e silencioso, mas de um jeito reconfortante, como se enrolar num cobertor familiar. Ele alcançou e sentiu Aaron presente. A vida de Aaron, sua essência, sua confiança alegre que encobria um núcleo mais sombrio de determinação e raiva. Aaron o alcançou de volta, e Call sentiu a força fluir para dentro de si. Conseguia ver Aaron agora, seu contorno brilhante contra a escuridão.
Outro contorno, mais fraco, pareceu flutuar em direção a eles, com um cabelo que parecia ser branco como se num negativo de foto.
Jen.
Os olhos de Call se abriram e ele quase gritou. Jen não tinha se movido na mesa, mas seus olhos estavam bem abertos, as íris negras cobertas por uma camada. Aaron também encarava aquilo, chocado e um pouco nauseado.
A boca de Jen não se moveu, mas uma voz seca saiu por entre seus lábios.
— Quem me chama?
— Hum, oi? — disse Call. Quando viva, Jennifer sempre o deixou nervoso. Ela era uma das garotas mais velhas e populares e ele tinha muitos problemas para falar com ela. Mas agora, falar com ela dava nervoso de um jeito totalmente diferente.
— Call e Aaron — prosseguiu ele. — Lembra da gente? Queríamos saber se você poderia nos dizer quem matou você?
— Estou morta? — perguntou Jennifer. — Estou me sentindo... estranha.
Ela também soava estranha — havia um vazio em sua voz. Um vácuo. Call não achava que sua alma estava presente, não de verdade. Era mais como se houvesse traços dela, a lembrança do que foi deixado para trás quando se foi. Só ouvi-la falar já arrepiava Call de um jeito que ele temia ser capaz de começar a gargalhar de pânico. Seu coração bateu forte e ele sentiu como se não conseguisse respirar. Como poderia contar para ela que ela não estava mais viva?
Ele lembrou a si mesmo que não era realmente ela. Não tinha sentimentos que pudessem ser feridos.
— Pode nos contar sobre a festa? — perguntou Aaron, educadamente como sempre. Call olhou para o amigo com gratidão. — O que aconteceu naquela noite?
A boca de Jennifer se curvou na sombra de um sorriso.
— Sim, a festa. Eu me lembro. Eu estava me divertindo com meus amigos. Tinha um menino que eu gostava, mas ele estava me evitando e aí... aí as luzes se apagaram. E meu peito doeu. Tentei gritar, mas não consegui. Kimiya! Kimiya! Fique longe dele!
— O quê? — perguntou Call. — O que tem Kimiya? O que aconteceu? De quem ela tinha que ficar longe? Não foi ela que fez isso, foi?
Mas Jennifer parecia perdida em lembranças. Seu corpo começou a se debater, as palavras transformando-se em um grito longo e contínuo.
Call tinha que se concentrar na magia. Ele fechou os olhos e tentou voltar a ver aquele contorno desbotado de Jen, aquela versão de negativo de foto. Conseguiu identificá-la no escuro, desbotada e esfarrapada. Se quisesse, poderia fazê-la falar palavras que não eram dela. Mas ele precisava que ela tivesse a própria voz, e não a dele. Então perseguiu aquelas sobras brilhantes de uma alma, feliz por ela só ter sido preservada por pouco tempo depois que a alma partiu. Ele canalizou mais magia caótica para fortalecê-la.
Quando abriu os olhos, as feições de Jen estavam tranquilas.
— Jennifer, está me ouvindo? — perguntou.
— Sim — disse ela, sua voz seca e sem afeto. — O que ordena?
— Quê? — Call olhou para Aaron, que estava muito pálido.
— Ah, não — disse Anastasia, levando as mãos à boca para cobri-la. Os olhos de Alma tinham se arregalado e ela se esticou como se pudesse impedir algo que já estava feito. — Call, o que você fez?
Call olhou para Jennifer e ela olhou para ele com olhos que estavam começando a girar.
— Call — sussurrou Anastasia. — Ah, não, de novo não... de novo não.
— O quê? — Call estava recuando, uma sensação de choque se espalhando por ele. “O quê?” parecia a única coisa que ele conseguia falar ou pensar. — Eu... eu não... eu nunca fiz isso antes...
Mas como Constantine fiz centenas, milhares de vezes.
Jen sentou sobre a mesa. O cabelo preto caindo sobre os ombros brancos como ossos. Seus olhos eram fogo girando.
— Ordene, Mestre — disse ela a Call. — Só desejo servir.
— E você — disse Alma, olhando para Call com horror. — Pequeno Makar... por que ninguém me contou?
Aaron se moveu para bloquear Call dos olhares horrorizados das duas mulheres e da encarada de Jennifer e seus olhos de fogo.
— Nunca deveriam ter sugerido que fizéssemos isso — disse ele furiosamente. — É horrível. Roubar o corpo dela foi horrível.
— Vão embora vocês dois — disse Anastasia. — Cuidaremos disso.
Call sentiu a mão de Aaron em seu ombro, e um instante depois ele tinha sido guiado para fora do quarto e estava de volta ao corredor. Ele puxou as mangas do casaco sobre as mãos. Estava congelando de frio, o corpo todo tremia.
— Não tive a intenção de fazer aquilo — disse ele. — Só estava tentando me prender à alma dela.
Os olhos de Aaron ficaram mais suaves.
— Eu sei. Poderia ter acontecido com qualquer um de nós.
— Não poderia — disse Call. — Eu sou o único de nós dois que é o Inimigo da Morte!
Aaron apertou o ombro de Call e soltou.
— Você não é o Inimigo — disse ele. — O Inimigo foi Makar um dia, assim como eu. Talvez tenha sido um acidente quando ele fez isso pela primeira vez. Existe um motivo — disse ele com a voz mais baixa — pelo qual eles todos têm tanto medo da gente.
Call olhou para trás, para a porta fechada do quarto de Anastasia. Ah, não, de novo não, disse ela.
Será que ela achava que Call já tinha feito antes, ou ela só estava dizendo Ah, não, outro Constantine não?
Ele começou a andar de volta na direção do seu quarto, mancando. Aaron o seguiu, com as mãos enfiadas nos bolsos do uniforme.
— Acho que Anastasia sabe — disse Call. — Quem eu realmente sou. Talvez Alma também.
Aaron abriu a boca como se quisesse dizer Você é Call, e depois a fechou novamente. Um segundo depois, ele disse:
— Ela o viu controlando todos aqueles animais Dominados pelo Caos ontem. E você falou umas coisas estranhas antes de desmaiar. Quer dizer, nada muito claro, só alguma coisa sobre como os animais deveriam saber quem você era.
— Espero que ela descarte isso como um momento extremamente estranho para alguém se gabar — disse Call. — Alex ouviu?
— Não. Ele estava desmaiado.
Pensar em Alex fez com que Call se lembrasse de Kimiya. Ele ficou todo tenso outra vez.
— Temos que encontrar Tamara. Temos que contar que Jennifer falou sobre a irmã dela.
— Kimiya não assassinou ninguém — disse Aaron com desdém. — Além disso, seria muito estranho se ela de repente fosse a maior Makar da nossa geração. Seria uma bela distração dos magos.
— Não... não acho que tenha sido ela — disse Call, tentando entender seus pensamentos embaralhados. A cabeça dele tinha começado a latejar. — Quer dizer, se Jennifer estava chamando Kimiya, ou queria chamar na hora em que morreu, então talvez Kimiya saiba de alguma coisa. Talvez alguma coisa que ela não tenha achado importante antes.
Aaron assentiu.
— Queria que tivéssemos respostas, mas pelo menos temos uma pista.
— Aaron? — Call tinha outra pergunta sobre aquela noite e não sabia ao certo se queria a resposta. — O pai de Jasper está bem?
— Viu, você considera Jasper como amigo! — disse Aaron.
— Se o pai dele estiver machucado por nossa causa, não.
— O pai dele está bem. Nós nos certificamos disso antes de o amarrarmos e vendarmos. Eu o ouvi xingando enquanto íamos embora. — Aaron estava sorrindo, como se tivesse vencido uma aposta. Call ficava feliz por um deles ainda conseguir sorrir.
Eles foram até a enfermaria, mas Tamara não estava lá, nem Alex. A cama dele estava vazia.
A Mestra Amaranth, que estava refazendo uma das camas com magia do ar, lançou um olhar severo a Call.
— Queria que alguém por aqui me ouvisse quando mando ficar na cama até eu liberar — falou.
— O que aconteceu com Alex? — perguntou Aaron.
— Eu o matei — respondeu Mestre Amaranth, dando uma risada seca ao ver as expressões deles. —- Eu dei permissão para que saísse, na verdade; verifiquei os ferimentos e estavam curados. Ele estava bem quando saiu. Ao contrário de você.
— Você viu Tamara Rajavi? — perguntou Call.
— Vi, ela veio me avisar que você tinha voltado para o seu próprio quarto porque não gosta da enfermaria. Não sei qual é o problema de vocês, meninos. A enfermaria é o lugar mais seguro da escola inteira. Os elementais daqui garantem isso.
Call olhou em volta desconfortável. Ele nunca percebeu que havia elementais observando os pacientes na enfermaria. Considerando a quantidade de vezes em que tinha saído daqui, ele supôs que não eram orientados a impedir que as pessoas entrassem e saíssem. Ele não sabia o que observavam — doenças, talvez —, mas se sentiu melhor quanto a estar inconsciente sabendo que não poderiam simplesmente entrar e atacá-lo, pelo menos não sem disparar um alarme.
— Ela disse para onde estava indo? — perguntou Aaron.
Mestre Amaranth olhou para ele confusa.
— Estamos no meio da madrugada. Presumi que estivesse voltando para o quarto para que todos vocês pudessem dormir um pouco antes das aulas. Agora, Callum, já que voltou, talvez devesse considerar passar o resto da noite aqui.
— Não — disse ele, fingindo não estar com dor de cabeça. — Estou me sentindo bem. Estou bem.
— Bem, nenhum de vocês deveria vagar pelo corredor tão tarde assim. Voltem para o quarto. Callum, venha me ver amanhã depois da aula. E nada de magia do caos por alguns dias, ok?
Call, pensando na magia que já tinha usado naquela noite, fez que sim com a cabeça, se sentindo culpado.
Eles voltaram para os próprios quartos. Chegaram à porta e Call estava prestas a abri-la com a pulseira quando ouviram passos pesados no corredor. Call e Aaron se viraram e viram Alex correndo em direção a eles. Estava com os olhos arregalados e tinha um hematoma fresco no rosto.
Ele desacelerou e parou, se curvando sobre as mãos apoiadas nos joelhos enquanto recuperava o fôlego.
— Tamara. — Alex engasgou. — Ele levou a Tamara!
Aaron e Call se olharam confusos.
— Do que você está falando? — perguntou Aaron.
— O espião — disse Alex. — Ele pegou a Tamara.
Call ficou rijo. De repente seu coração batia muito rápido na garganta.
— Do que você está falando, Alex? — perguntou.
— Diga exatamente o que aconteceu. — Aaron parecia tão perturbado quanto Call. — Exatamente.
— Eu saí da enfermaria quando acordei — disse Alex. — Vi Tamara indo para o Portão da Missão com Devastação. Fui atrás dela porque queria agradecer pela ajuda de ontem. Gritei para ela, mas ela não me ouviu. Ela foi para o lado de fora, e já estava escuro. Achei que tivesse visto alguma coisa se mexendo nas árvores, então corri para Tamara, mas não cheguei a tempo. Alguém a pegou. Eu não estava perto o suficiente para ver o rosto, mas foi definitivamente um adulto. Joguei mágica, mas a pessoa lançou um raio imenso de alguma coisa em mim e eu caí. Quando consegui me recuperar e ir atrás deles, já tinha perdido o rastro. — A camiseta azul de Alex estava manchada de sangue onde os curativos estavam, em volta do ombro. Ele provavelmente tinha reaberto o ferimento. — Preciso que vocês dois vão comigo atrás dele. Seja quem for aquele cara, é poderoso. Não acho que consigo lutar sozinho.
Aaron e Call trocaram um olhar de pânico.
— Temos que contar para alguém — disse Aaron.
— Não temos tempo. — Alex balançou a cabeça loucamente. — Primeiro vamos ter que convencer as pessoas de que estamos falando a verdade, e até lá, qualquer coisa pode ter acontecido com ela.
Call se lembrou da terrível noite em que Aaron foi levado por Mestre Joseph e Drew. Ele se lembrou do terrível elemental do caos. Naquele dia também não teve tempo de avisar a ninguém. Se tivesse esperado, Aaron teria morrido.
— Tudo bem — disse ele. — Vamos.
Correram atrás de Alex em direção ao Portão da Missão e adentraram na noite. Call corria o mais rápido possível, a perna gritando de dor.
— Por ali — disse Alex, arfando e apontando para uma trilha que seguia pela floresta. O luar iluminava o caminho. De uma forma meio terrível, a noite estava linda, cheia de estrelas e luz branca. Até as árvores pareciam brilhar.
Eles correram para a trilha, finalmente desacelerando quando ela se transformou em pedras e galhos que tomavam correr perigoso. Call tentou imaginar Tamara sendo arrastada por um mago adulto assustador, alguém que a estivesse ameaçando, talvez machucando. Então tentou não imaginar e uma fúria quase o oprimiu.
— Devastação — disse ele de repente.
Alex, que estava avançando o mais depressa possível, virou.
— Quê?
— Você disse que ela estava passeando com Devastação — disse Call. — O cara também levou Devastação?
Alex balançou a cabeça.
— Devastação correu para a floresta.
— Devastação não faria isso — disse Call. — Ele não abandonaria Tamara.
— Talvez a esteja seguindo — apontou Aaron. — Devastação sabe ser sorrateiro; ele é muito mais inteligente do que um lobo comum.
— Deve ser isso que está acontecendo — disse Alex. — Não tenha medo, Call. Vamos pegar esse cara.
Call não estava com medo. Ele vasculhou a paisagem em busca de Devastação. Se seu lobo estivesse com Tamara, eles conseguiriam escapar. Tamara e Devastação formavam um belo time.
— Você falou que era um adulto, certo? — perguntou Call, ignorando o comentário condescendente de Alex. Ele era mais velho do que Call, e provavelmente se considerava mais sábio. Talvez fosse, mas não sabia de tudo.
Call pensou sobre de onde estavam vindo. Tinham deixado Anastasia e Alma com uma Jennifer dominada pelo caos, então não podia ser nenhuma das duas. As duas estavam diante de uma crise totalmente diferente e estranha para resolver. Call não conseguia pensar em nenhum outro adulto que estivesse agindo de forma estranha. Mestre Lemuel? Call não o via há um ano e parecia maldoso desconfiar dele só porque nunca se deram muito bem.
— Pode ter sido um dos membros da Assembleia? — perguntou. — Mas por que levariam Tamara? — A resposta veio assim que ele fez a pergunta em voz alta. — Para me atrair para fora do Magisterium.
— Por que você falou que foi o espião? — perguntou Call a Alex. — Ainda não sabemos quem ele é.
— Bem, faz sentido, não? — disse Alex. — Quem mais seria, se não a pessoa que está tentando machucá-lo?
— O que significa que estamos indo para uma armadilha — disse Aaron. — Vamos ter que ter muito cuidado e fazer muito silêncio. Quem quer que seja, sabe que estamos indo. Provavelmente se certificou de que você o visse, Alex. Consegue fazer aquele truque que nos deixa invisíveis outra vez?
— Boa ideia — disse Alex, erguendo as mãos. O ar girou em volta deles, soprando as folhas.
Call franziu o rosto. Fazia sentido que Tamara tivesse sido levada pelo espião e que ele o tivesse feito na frente de Alex, que logo iria buscá-los e levá-los para fora do Magisterium. Mais ou menos. Fazia mais ou menos sentido. Mas como o espião saberia que Alex iria atrás de Aaron e Call em vez dos Mestres?
Como o espião saberia que Alex estava lá?
Isso, por outro lado, tinha uma resposta. O espião, quem quer que fosse, sabia que levar Tamara e Devastação eventualmente tiraria Call e Aaron do Magisterium. Eles iriam procurar a amiga.
Mas eles poderiam ter levado consigo todos os magos do Magisterium.
Pensando bem, Call não se lembrava de ter visto qualquer evidência de explosão do lado de fora. Estava escuro, mas mesmo no escuro não sentia o cheiro de ozônio e madeira queimada que denunciavam o uso de magia.
Ele olhou para Alex e franziu a testa. Estavam longe do Magisterium agora, e estava cada vez mais escuro. A floresta os enclausurava pelos lados e ele não conseguia enxergar a expressão de Alex.
— Este é o caminho para a Ordem da Desordem — disse Aaron, interrompendo os pensamentos cada vez mais perturbadores de Call. — Mas está abandonada. Alma disse que eles foram forçados a sair quando a Assembleia começou a reunir os animais.
— Talvez seja lá que o espião esteja segurando Tamara. — Alex soou animado, mas não como se essa fosse uma grande aventura, e também não como se estivesse em pânico por causa de Tamara.
Havia uma ansiedade em sua voz da qual Call não gostou nem um pouco.
A floresta parecia profunda e estranhamente vazia sem os Dominados pelo Caos, ecoando sua ausência. Ocasionalmente, uma coruja distante piava. O vento soprava, empurrando-os. Mas os passos de Call tinham desacelerado e se tomado incertos.
Alex era seu amigo. Quando Call chegou ao Magisterium, Alex foi gentil com ele, apesar de Call ser um garotinho fracote e Alex ser inteligente e legal, cheio de amigos. E Alex desabafou com Call depois de ter seu coração partido por Kimiya. Ele realmente acreditava que Alex gostasse dele.
Mas Alex tinha acesso. Ele era o assistente do Mestre Rufus. Poderia ter obtido o cantil de Call e feito um buraco. Teria tido acesso ao que quer que Rufus tivesse feito para fazer com que suas pulseiras abrissem a sala compartilhada deles; poderia ter usado isso para esconder Skelmis no quarto de Call.
Será que Anastasia poderia tê-lo deixado entrar na prisão dos elementais quando esteve lá? Call supôs que sim; ele era enteado dela, afinal. Será que ela teria notado se ele tivesse desaparecido por um instante? E, além disso, no ano anterior, tinha sido Alex quem disse a Call que os magos tinham decidido matar Alastair, apesar de Mestre Rufus ter dito que isso nunca foi verdade.
Mas por que Alex faria isso? Call olhou para seu rosto impassível enquanto seguiam pelo escuro banhado pela luz da lua. Estavam quase na vila da Ordem. Call conseguia ver a clareira na frente, as sombras das instalações.
Ele se lembrou da boca de Jennifer se mexendo, e das suas últimas palavras: Kimiya, Kimiya, fique longe dele. Mas perto de quem Kimiya estava na festa? Quanto a quem ela teria que ser alertada?
Só poderia ser contra seus amigos. E seu namorado.
Alex. Não fazia o menor sentido. Mesmo assim. Algo ainda incomodava Call, vinha incomodando desde que viram Alex na porta do quarto. Sem fôlego, parecendo apavorado, com sangue na camisa azul.
Camisa azul. Engrenagens giraram na mente de Call. A imagem de uma foto rasgada, Drew com Mestre Joseph e mais alguém, alguém de camisa azul com listras pretas nítidas descendo das costuras do ombro.
— Estou com frio — disse Call, de repente — Alex, me empresta o seu casaco?
Alex pareceu confuso. Aaron pareceu confuso. Call não costumava pegar roupas de outras pessoas emprestadas. Mas Alex tirou o casaco ainda assim, e o entregou a Call.
Call parou onde estava. A camisa azul de Alex tinha duas linhas pretas nos ombros.
Os outros dois meninos pararam e olharam para ele. A expressão de Aaron era de preocupação.
A de Alex não.
— Alex — disse Call com a voz tão calma quanto foi capaz —, como você conheceu Drew?
Alex levantou a cabeça lentamente.
— Por que você se importa? — perguntou ele. — Você o matou.
Aaron parou onde estava. O vento uivou pelos galhos das árvores que os cercavam.
— Por que você diria isso, Alex? — Ele olhou de Call para Alex. — O que está acontecendo?
— É ele — disse Call, sentindo-se entorpecido. — Alex é o espião.
Alex deu um passo em direção a Call. Aaron esticou a mão, como se quisesse impedi-lo de se aproximar mais.
— Afaste-se de Call — alertou. — Sou um Makar, Alex. Posso machucá-lo feio.
Mas o menino mais velho o ignorou.
— Drew era como se fosse meu irmão — disse Alex. — O Mestre Joseph me recrutou no meu Ano de Cobre, precisava de um mago do ar talentoso. E não havia ninguém mais talentoso do que eu. Até vocês dois aparecerem.
Call respirou fundo.
— Meu pai era velho — disse Alex. — Mal notou quando entrei no Magisterium. Então Joseph se tornou meu pai. Ele ensinou a mim e a Drew juntos. Nos deu aulas extras. Por isso me tomei bom o bastante para ser assistente de Rufus. E meu Deus, como Joseph riu quando contei isso para ele. — Um sorriso repartiu o rosto bonito de Alex. — Foi mais difícil enganar Anastasia. Mas ela também caiu na minha cena de bom enteado. Estava ocupada demais fingindo se importar com meu pai para prestar atenção em mim. — Os olhos dele ardiam. — Enquanto isso, Joseph me contou tudo. Ele me contou a verdade sobre o Inimigo da Morte. Ele me contou sobre você.
— Então você sabia quem eu era esse tempo todo? — perguntou Call.
Alex mal pareceu ouvi-lo.
— Sabe o quão ingrato você é? — disse Alex. — Joseph se importa com você mais do que com qualquer outra coisa. Vocês dois têm poder, mas você, Call, você é especial. Sabe o que significa ser especial? Tem ideia do que está jogando fora?
— Se ser especial significa ser como você — disse Call —, então eu não quero.
O rosto de Alex se contorceu. A mão de Aaron brilhou de forma protetora, o fogo já crescia em sua palma, mas, naquele instante, sombras explodiram da floresta, de ambos os lados deles. Adultos com roupas e máscaras pretas cobrindo seus rostos. Mãos fortes e braços agarraram Call e Aaron.
— Levem-nos até a vila — disse Alex.
Call foi empurrado para a frente, tropeçando. Ele e Aaron foram conduzidos violentamente ao longo do caminho. Não fazia ideia de quem o estava segurando — não era um Dominado pelo Caos; Alex não podia controlar um Dominado pelo Caos.
Ou podia? O maior Makar da sua geração.
Não, se Alex fosse usuário do caos, ele teria se gabado disso, Call tinha certeza. Pelo visto uma pessoa não precisava ter nada a ver com o caos para ter ambições de Suserano do Mal.

13 comentários:

  1. AAAAAAAAAAA


    EU SABIAAAAA

    SABIAAAA

    FDP ! (Sorry, precisava desabafar, rs)

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  2. Eu sabia, mas queria muito que não fosse. Gosto tanto dele 😢

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  3. Como eles são burros MEU DEUS!!!!!!!!

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  4. Sempre tive uma leve desconfiança nele

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  5. Suspeitei desde o princípio (desde o meio na realidade)...

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  6. gente do ceu eu nao to acreditando, bem eu via todo mundo comentando que era e ele e que era obvio mas eu sinceramente nao esperava quer dizer ele era tao fofinho, mas realmente tava muito na cara

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  7. Cara, tava óbvio, não só porque tinha tudo para ser o Alex, e ele ser muito bonzinho desde o começo, mas também porque ninguém na história suspeitou dele, porque se suspeitassem teriam investigado e descoberto, então cada vez que eu via que ninguém desconfiava de Alex, eu tinha cada vez mais certeza que era ele mesmo.

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  8. Como o Call é lerdo, pelo amor de deus

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  9. Sabiaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

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  10. Eu sabbbiiiaa ninguém ligava para o que eu dizia tds dissipam que nao podia ser Alex mas desde o momento em que mestre Rufus disse que nunca planearam aleijar que quer que fosse mesmo sendo Alastair quando o Alex disse que eles o matariam quando encontrassem EU SABIAAAA

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  11. Eu queria tanto estar errada, mas estava certa. Ai que raiva dele!! Vai morrer também? Ele me enganou por quase três livros!!! Como eles puderam cair nessa história, já começou errado com Tamara saindo sozinha com Devastação sabendo que existia um expião. Ela nunca seria burra assim. A cada passo que eles davam com o Alex meu coração parecia saltar pela boca.

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Boa leitura :)