20 de janeiro de 2017

Capítulo catorze


Mestre Joseph estava exatamente como da última vez em que Call o vira: o mesmo bastão, o mesmo uniforme, o mesmo brilho insano no olhar.
— Você está com o Alkahest, que bom — disse ele a Alastair. — Eu sabia que trabalharíamos melhor juntos. De verdade, queremos a mesma coisa.
Alastair, por outro lado, parecia exausto. As roupas pareciam sujas; ele usava jeans velhos e uma jaqueta surrada. A barba estava por fazer.
— Não queremos a mesma coisa. Só quero meu filho de volta.
Meu filho. Por um segundo, quando Call viu o pai, sentiu uma onda de alívio. Uma sensação de familiaridade. Agora parecia que tinha levado um soco no peito. Ele sabia quem o pai queria de volta, e não era ele.
O olhar de Mestre Joseph se desviou para as sombras, onde Call e Stanley se encontravam. Call congelou, tentando ficar o mais imóvel possível. Não queria nem respirar por medo de ser notado. Aaron e os outros deviam ter sentido que alguma coisa estava errada, porque permaneceram na segurança da escada.
Como sempre, Stanley acompanhou Call e também permaneceu parado.
Alastair seguiu o olhar do Mestre Joseph para onde Call e Stanley estavam escondidos.
— Os Dominados pelo Caos. Não deveria simplesmente deixá-los soltos assim.
— Todo túmulo precisa de sentinelas — retrucou Mestre Joseph. Talvez fosse normal encontrar Dominados pelo Caos aleatórios vagando pelo mausoléu de Constantine Madden. Talvez ele só estivesse distraído por Alastair. — Seu menino está morto. Mas ele pode ser reerguido. Você reergueu Constantine, o maior mago de nosso tempo, talvez de todos os tempos, e que voltará a sê-lo. Assim que retornar ao próprio corpo, ele poderá devolver a alma de seu filho ao dele. Se você realmente resgatou o Alkahest, então só precisamos de Callum.
— Preciso de uma demonstração de que o Alkahest não irá matá-lo logo de cara — avisou Alastair. — Eu disse que não o traria até você se não soubesse que ele ficaria seguro.
— Ah, não se preocupe — garantiu o Mestre Joseph. — Eu me certifiquei de que Callum se juntasse a nós.
Alastair deu um passo em direção a Mestre Joseph, e Call viu que Alastair estava com o Alkahest na mão esquerda. O metal brilhava quando ele mexia os dedos, exatamente como vira no desenho.
— Como assim?
— Ele fugiu do Magisterium para procurá-lo, é claro. Está tentando salvá-lo da ira dos magos. Eu sabia para onde ele ia, então deixei um rastro que o traria diretamente até nós. Cheguei a enviar acompanhantes que o trouxessem em segurança até aqui. Prometo, Alastair, trabalhei muito pela segurança de Callum. Ele significa muito mais para mim do que para você.
O coração de Call bateu forte no peito. Pensou nas cartas; latitude e longitude marcadas cuidadosamente em cada uma, a menção de uma data específica para o encontro, um encontro que acontecia bem a tempo de eles chegarem. Call achou que tivesse tido sorte, que estava um passo à frente dos adultos. Mas tinha caído direitinho na armadilha de Mestre Joseph.
Por um instante, Call perdeu a calma. Era apenas um menino. Seus amigos eram crianças, mesmo que um deles fosse o Makar. E se estivessem tentando abraçar o mundo com as pernas? E se não pudessem ajudar?
Alastair começou a falar, e, por um instante, Call nem conseguiu se concentrar.
— Posso garantir que está errado. Callum significa muito mais para mim do que jamais significará para você. Fique longe dele. Não sei se ele é o maior mago da geração dele ou nada disso, mas ele é um bom menino. Ninguém o corrompeu como você fez com os irmãos Madden. Eu me lembro deles, Joseph, e me lembro do que fez com eles.
Call sentiu uma dor no peito. Alastair não parecia detestar Call, apesar de ter vindo aqui trocá-lo por um novo filho.
— Pare de balançar o Alkahest de um lado para o outro. Você sabe que essa coisa não pode me machucar. — Mestre Joseph ergueu o bastão. — Por mais que eu quisesse ter a habilidade de utilizar a magia do caos, não a tenho, então não adianta me ameaçar com isso. A única razão pela qual os Dominados pelo Caos me ouvem é porque Constantine assim comandou.
— Não estou aqui para ameaçá-lo, Joseph. — Alastair deu um passo em direção ao corpo de Constantine Madden.
Mestre Joseph fez uma careta.
— Tudo bem. Basta. Dê-me o Alkahest. Gostaria de recompensá-lo, mas não pense nem por um instante que eu não hesitaria em matá-lo se você se rebelar. Muito conveniente, morrer em um mausoléu. Não terá de ser levado longe para ser enterrado.
Alastair deu mais um passo cuidadoso em direção ao corpo.
Mestre Joseph ergueu uma das mãos, e uma dúzia de cordas finas, que pareciam prata, surgiram da escuridão. Elas envolveram Alastair, amarrando-o, como uma aranha faz com uma mosca antes de devorá-la. Alastair gritou de dor, lutando para libertar a mão enluvada.
Call precisava fazer alguma coisa.
— Pare! — gritou ele. — Deixe meu pai em paz! Stanley, faça alguma coisa! Pegue-o!
Tanto Mestre Joseph quanto Alastair ficaram olhando enquanto se tornava claro que tinham confundido Call com um Dominado pelo Caos parado ao pé da escada. Stanley começou a avançar em direção a Mestre Joseph, mas o comando de Call foi impreciso, pois ele não sabia ao certo o que o Dominado pelo Caos poderia fazer de fato. Mestre Joseph certamente não parecia preocupado; ignorava Stanley, como se ele não estivesse lá.
Em vez disso, começou a sorrir.
— Estamos descendo — sussurrou Aaron.
Call virou a cabeça sem querer e viu Tamara, Jasper e Aaron descendo pelas escadas. Acenou para que ficassem para trás.
— Ahhh, Callum, que bom que veio — disse Mestre Joseph. — Vejo que trouxe amigos, apesar de eu não estar vendo quais. Aquele leal Makar está com você? Que surpresa agradável.
Stanley já tinha quase chegado aonde Mestre Joseph estava. Poderíamos ganhar a guerra, pensou Call. Se eu ordenar que Stanley o mate, a guerra será vencida.
Mas será? Será que a guerra poderia ser vencida pelo bem se o Inimigo continuava vivo?
— Call? — chamou Alastair, ainda apavorado. — Saia daqui!
Tamara e Jasper desceram o último degrau aos tropeços. Ambos estavam claramente espantados com a visão do corpo do Inimigo e de quem estava ao lado dele. Aaron tentou passar por eles, mas Tamara e Jasper o bloquearam.
— Deixem-me passar. — Aaron esticou o pescoço para ver o que estavam olhando.
— Sem chance — sussurrou Tamara, severa. — O pai de Call está com o Alkahest. Aquela coisa pode matá-lo.
— Papai tem razão. Vocês precisam sair daqui — disse Call. — Levem Aaron para algum lugar seguro.
Call viu a indecisão nos rostos deles, e ele também estava dividido. Não queria colocá-los em perigo, mas também não sabia se seria tão corajoso sem eles.
— Olhem! — Jasper apontou. Stanley alcançara Mestre Joseph. O Dominado o pegou pelos pulsos e os segurou nas costas do Mestre, mantendo-o imobilizado.
Mestre Joseph não se mexeu. Agia como se nada estivesse acontecendo. Como se não estivesse sendo preso contra a vontade. Como se Call não tivesse acabado de imobilizá-lo. Em vez disso, ficou encarando o menino de onde estava, os olhos intensos fulminando Call.
— Não há necessidade disso, Callum — retrucou Mestre Joseph. — Constantine, sou seu servo mais devoto.
— Ouvi o que falou para meu pai — avisou Call. — E eu não sou Constantine.
— E ouviu o que seu pai me falou. O que ele estava pronto para fazer. Sua única verdadeira casa é aqui, comigo.
Call foi para onde o pai estava. Alastair, com a luva de cobre firme na mão, continuava combatendo as cordas que o prendiam. Ele se encolheu quando viu Call se aproximando.
— Call! — grunhiu ele. — Fique longe de mim!
Call hesitou. Seu pai estava com medo? Será que odiava Call?
— Nós vamos soltar você — murmurou Tamara, enquanto ela e Jasper iam até Alastair.
— Vocês deveriam fazer o que Call está dizendo. Saiam daqui! — gritou Alastair, enquanto Tamara se abaixava para inspecionar a corda de prata que o amarrava. Era mágica e não tinha nós. Call torceu para que Tamara soubesse soltá-la, porque ele não fazia a menor ideia. — Levem-no com vocês! Ninguém está seguro aqui, muito menos Call.
— Você quer dizer muito menos Aaron. Entregue o Alkahest — disse Jasper, incorrigivelmente prático. — Entregue, e podemos todos sair juntos. — Ele colocou a mão no braço de Tamara. — Não o solte até que ele entregue.
A atenção de Mestre Joseph permaneceu em Call.
— Achou engraçado? — perguntou ele. — A cabeça de Verity Torres? As charadas? Foi você quem elaborou a planta deste lugar, da entrada. Claro, não teria sido a cabeça dela naquela época, mas foi um improviso engraçado, você não acha?
Call não estava com nenhuma vontade de rir. Teve tanta certeza de que tinha sido uma coisa boa conseguir desvendar algumas das charadas, mas aparentemente ele era bom nesse tipo de coisa porque era um sujeito que achava cabeças decepadas hilárias.
— Dê o Alkahest a Jasper, pai — gritou Callum, perdendo a paciência com tudo aquilo.
Contudo, Alastair virou a cara como se não quisesse olhar para Call. Estava segurando o Alkahest contra o próprio corpo, desviando quando Tamara tentava tocá-lo.
— Deixe o Alkahest comigo! — berrou ele. — Saiam daqui! Levem Call e o Makar!
Aaron tinha ido para o lado do corpo de Constantine Madden e olhava para ele, espantado. Call mancou em direção ao amigo. Conseguia imaginar o que Aaron estava pensando: que aquelas eram as mãos que tinham matado Verity Torres, que tinham destruído mil magos. As mãos de um Makar, como as dele.
— O Inimigo morreu há treze anos — falou Aaron secamente. — Como pode parecer que não está morto? Como eles podem estar assim?
— Você acha que este é um simples mausoléu — disse Joseph.
— Certamente é o que parece — concordou Call. — Com todos esses corpos e tudo mais.
— Esta foi sua última fortaleza contra a morte — explicou Mestre Joseph. — Foi aqui que aprendeu a utilizar o vazio para preservar corpos, suspensos, sem vida, mas intactos. Aqui preservou o corpo de seu irmão para o dia em que pudesse reerguê-lo. Aqui, utilizei a mesma magia para conservar seu corpo...
— Não é meu corpo! — gritou Call. — O que precisa acontecer para você desistir? Eu não me lembro de nada! Nunca vi este lugar antes! Não sou quem você quer que eu seja, e não vou me transformar nele!
Mestre Joseph sorriu, um sorriso largo.
— Levei anos para ajudá-lo a aperfeiçoar sua magia no Magisterium. Quando trabalhamos com o caos, juntos. Pelas costas de seu Mestre. Você se irritava e gritava comigo assim mesmo. Não sou o que você quer que eu seja. Era exatamente o que me dizia antes. Depois que devolvermos sua alma a seu corpo, acredito que se lembrará de mais. Talvez esta vida se torne a que parece um sonho. — Ele tentou avançar, mas Stanley o conteve. — Porém mesmo que nunca se lembre, não pode mudar sua própria natureza, Constantine.
— Não o chame assim. — A voz de Aaron era fria como gelo. — As pessoas mudam o tempo todo. E isso é doentio. Essa coisa toda é doentia. Constantine Madden colocou a própria alma no corpo de Cal. Tudo bem, ninguém pode mudar isso. Deixe Call em paz. Deixe que os mortos continuem mortos.
O rosto de Mestre Joseph se contorceu.
— Você fala como se já tivesse sentido a dor de uma perda de verdade.
Aaron se virou. Poucas vezes Call o vira com aquela expressão. Não era mais Aaron. Era o Makar, o manejador do caos. Suas palmas começaram a escurecer.
— Sei muito sobre perdas — garantiu ele. Você não sabe nada a meu respeito.
— Sei sobre Constan... sobre Call — disse Joseph. — Não quer sua mãe de volta, Call? Não quer que ela volte a viver?
— Não se atreva a falar de Sarah! — berrou Alastair. Ou ele tinha arrancado as cordas de metal, ou Tamara e Jasper tinham conseguido soltá-lo. De qualquer forma, Alastair continuava com o Alkahest.
Ele correu até Call.
Naquele instante de parar o coração, Call soube que iria morrer. Lembrou-se das correntes que o pai havia preparado no porão da própria casa, lembrou-se do que Mestre Joseph havia lhe contado, das palavras talhadas no gelo pelas mãos de sua própria mãe, com a mesma lâmina que Alastair havia jogado nele. Mate a criança.
Finalmente, treze anos depois, Alastair ia fazê-lo.
Call não se mexeu. Se seu próprio pai realmente o odiava com todas as forças, se Alastair estava preparado para tirar a sua vida, então talvez ele fosse mesmo monstruoso demais para viver. Talvez devesse morrer.
Tudo desacelerou ao redor de Call: Aaron, Tamara e Jasper correndo em sua direção, mas longe demais para alcançá-lo a tempo, Mestre Joseph se debatendo e gritando nas garras do Dominado pelo Caos.
— Solte-me, eu ordeno. — Call ouviu o Mestre Joseph dizer, e, para o choque de Call, Stanley o soltou. O velho mago correu para cima do menino, jogando-se sobre ele para protegê-lo do próprio pai. Os joelhos de Call falharam, e ele caiu, o corpo de Mestre Joseph o prendia no chão.
Mas Alastair não se deteve. Ele passou correndo por Call e por Mestre Joseph e foi direto para o corpo preservado do Inimigo da Morte. Lá, ele parou.
— Joseph, você realmente achou que pudesse me tentar a trair meu próprio filho? Assim que recebi seus recados sobre colocar a alma dele no corpo deste homem maligno, eu soube o que precisava fazer. — Com isso, ele ergueu o Alkahest, brilhante e lindo sob a luz fraca, e o abaixou com força, enfiando a mão coberta de metal sobre o coração de Constantine Madden.
Mestre Joseph gritou, empurrando Call, que tossiu e rolou sobre os joelhos.
Uma luz brilhou debaixo da pele do Inimigo da Morte — e, onde ela brilhava, o corpo começou a escurecer, como se fosse fogo. Alastair uivou de dor enquanto o Alkahest se avermelhava com o calor. Estava gritando quando soltou a manopla, a mão inteiramente coberta por queimaduras vermelhas.
— Pai! — Call se levantou, cambaleando. O recinto estava preenchido por um fedor de queimadura que irritou seus olhos.
— Não! NÃO! — Mestre Joseph pegou seu bastão e foi até o corpo de Constantine. Tirou o Alkahest, gritando de dor quando sua mão fechou sobre o metal quente. Nem assim o soltou. Em vez disso, balançou o bastão, e dele explodiu magia, cercando o Inimigo, tentando conter a força que devorava o corpo de Constantine. A energia estalou no recinto enquanto ele repetia sem parar o feitiço de preservação.
Call mancou para a frente e então parou, dominado por uma onda de tontura. As bordas da visão começavam a escurecer. O que está acontecendo comigo?, pensou ao cair de joelhos. Não sentia dor, mas seu corpo tremia, como se estivesse sendo destruído com Constantine.
— Corra, Call! — gritou Alastair, segurando o braço queimado. — Afaste-se do túmulo!
— Eu... não consigo — engasgou Call, e então havia figuras ao seu redor, Aaron, Tamara, Jasper e mais alguém estavam tentando ajudá-lo a se levantar, mas as pernas não funcionavam. — Vão — sussurrou. — Vão sem mim.
— Nunca. — Um punho o agarrou pelo braço, e ele percebeu que era Aaron.
— O que está acontecendo com ele? — O sussurro assustado de Jasper foi afogado pelos gritos de Mestre Joseph. O peito de Constantine Madden sofria um colapso, como um balão cujo ar era extraído.
— Pegue o Makar e os amigos! — ordenou Mestre Joseph para Stanley. — Mate todos, exceto Callum!
O Dominado pelo Caos partiu em direção a eles. Call ouviu o grito assustado de Tamara e sentiu os braços dela ao seu redor. Todos tentavam puxá-lo para a escada, mas ele era um peso morto. Call escorregou das mãos deles e atingiu o chão em frente aos degraus.
Então tudo pareceu sumir, as vozes dos amigos desbotando até se transformarem em silêncio. Tudo que ele podia fazer era tentar continuar respirando enquanto um redemoinho de escuridão se erguia diante de seus olhos, um negror tão puro que ele só tinha visto antes quando saía das mãos de Aaron, a escuridão completa do vazio. O caos o preencheu, seus pensamentos foram rasgados por ele, as respostas dominadas pelo poder que se expandia em seu interior.
Lentamente, o ar voltou ao corpo de Call. Ele levantou a cabeça, seu rosto estava molhado.
O recinto se tornara um verdadeiro caos. Stanley havia obedecido ao comando de Mestre Joseph e atacado os amigos de Call. Ele se ergueu sobre Tamara, que estava recuando, invocando o fogo. Ela lançou as chamas, mas pareceu apenas chamuscar de leve o Dominado pelo Caos, deixando uma marca no peito de Stanley, embora ele mal notasse.
Aaron pulou nas costas de Stanley, o braço se fechando no pescoço do Dominado, apertando-o, como se tentasse arrancar a cabeça de Stanley. Jasper estava utilizando magia do ar e da terra ao mesmo tempo, a fim de jogar poeira nos olhos da criatura. Stanley se sacudiu, mas parecia mais irritado que prejudicado.
Alastair e Mestre Joseph lutavam pelo Alkahest. Mestre Joseph atingiu o pai de Call com o bastão. Ele cambaleou para trás, o rosto ensanguentado.
— Deixe-o em paz — gritou Call, engatinhando em direção ao pai.
Mestre Joseph pronunciou uma palavra, e as pernas de Alastair falharam. Ele caiu no chão.
O corpo de Constantine estava parcialmente queimado, o peito côncavo e escurecido. Call pôde ver os ossos queimados das costelas através da pele incinerada. De repente, uma nova onda de magia o inundou, voltando a imobilizá-lo. Parecia que ele estava assistindo a uma coisa irreal, acontecendo ao longe.
— Call. — A voz de Tamara cortou a fumaça na mente do menino. — Call, você precisa fazer alguma coisa. Ordene que o Dominado pare.
— Tem alguma coisa errada comigo — sussurrou Call, com pontos dançando em sua visão. A pressão dentro dele continuava se expandindo, ultrapassando os limites do controle. Ele não sabia o que era, mas parecia que alguma coisa ia quebrá-lo.
Tamara apertou o punho ao redor do braço dele.
— Não tem nada de errado com você — garantiu ela. — Nunca teve. Você é Callum Hunt. Agora diga para aquela coisa parar de nos atacar. Sua ordem está acima da de Mestre Joseph. Você pode contê-la.
Então Call levantou uma das mãos, pretendendo lançá-la à frente para conter Stanley, querendo mandar o Dominado pelo Caos parar. Mas ao levantar a mão, a pressão dentro dele rompeu a casca fina de controle, como uma explosão em slow motion. Ele ficou olhando, em choque, enquanto seus dedos encolhiam e esticavam, e, pela primeira vez na vida, Callum Hunt invocou o caos para o mundo.
Escuridão explodiu da palma de sua mão. As sombras se elevaram, cercando Stanley, cercando-o com laços de escuridão. O Dominado voltou seus olhos torturados para Call, que pôde sentir a sensação de traição que emanava deles.
Stanley começou a gritar, e Call entendeu os grunhidos como palavras. Cada uma delas perfurava seus ouvidos: Mestre, você me criou, então por que me destrói?
As sombras colidiram, acabando com Stanley.
A escuridão espalhou seus tentáculos em busca de novas presas. Esticou-se, espalhando-se em direção aos outros, a Tamara, Jasper, Mestre Joseph, que se virou e correu, agarrando o Alkahest, desaparecendo pela porta na parede da qual ele e Alastair surgiram. O pai de Call tentou contê-lo, mas era tarde demais.
A porta se fechou atrás de Joseph, trancando-se automaticamente.
Call não parecia conseguir conter a magia do caos que fluía de dentro dele, como um rio, e ele sentiu que fluía com ele. Lembrou-se de como era voar sem um contrapeso, flutuar sem qualquer preocupação humana.
Sentiu a mão de Aaron em suas costas, puxando-o para a realidade, forçando-o a se concentrar.
E, de algum jeito, isso permitiu que Call desligasse a torrente. Não conseguia revertê-la, mas, pelo menos, não estava mais saindo dele, como se fosse seu próprio sangue. Tremendo, ele olhou ao redor. O caos que tinha liberado havia se transformado em sombras vivas, sombras que ultrapassavam as bordas do recinto. A escuridão se espalhava inexoravelmente, devorando as paredes da tumba e os pilares que sustentavam o teto, mastigando a massa que unia os tijolos subterrâneos, até eles começarem a soltar e cair.
— Temos de sair daqui! — Alastair virou-se de costas para a porta pela qual Mestre Joseph escapara, e correu para a escada, acenando para que os outros o seguissem. — Todos vocês, vamos!
Tamara se levantou, puxando Call com ela. A garota, Jasper, Aaron e Call começaram a correr em direção a Alastair e à escada. Ali perto, um pedaço do teto cedeu, e pedras caíram, quase colidindo com um pedaço de sombra negra que se espalhava. Jasper gritou e deu um salto para trás.
A escuridão avançou para cima deles. Aaron esticou uma das mãos, e um raio de luz negra brilhou de sua palma, atingindo a sombra e a envolvendo. Call olhou para Aaron, impressionado.
— Caos contém caos — explicou Aaron.
— E não sei fazer magia do caos — sussurrou Call.
— Parece que sabe — observou Aaron, e havia alguma coisa em sua voz, um divertimento sombrio e talvez algo menos confortável.
O rosto de Tamara estava manchado.
— A magia do caos está devorando todo esse mausoléu. Aaron, você consegue contê-la até sairmos?
— Acho que sim. — Aaron olhou para as sombras e para a magia que engatinhava e as aprofundava, arrastando tudo que tocava com o vazio. — Mas Call liberou muita energia caótica... não sei.
— Apenas tente. — Call estava se sentindo melhor sem o caos em sua mente, bloqueando seus pensamentos, mas ainda conseguia sentir alguma coisa chiando dentro de si, algo que não estava ali antes.
— Callum — começou Alastair, mas Call o interrompeu.
— Pai, preciso que os tire daqui. Agora.
— E você? — perguntou Tamara. — Nem pense em ficar para trás.
Call olhou nos olhos de Tamara, querendo que ela acreditasse nele, confiasse nele só dessa vez.
— Não vai acontecer. Vão. Seguirei logo atrás.
Como você chama aquilo que nunca pode estar abaixo dos outros membros?, pensou Call sombriamente. Uma cabeça. Cabeça. Entenderam?
Tamara deve ter visto alguma coisa no rosto de Call, porque assentiu uma única vez, Jasper já estava passando por Alastair. Aaron parecia menos certo, mas, com a magia do caos queimando as paredes ao redor, estava muito ocupado. Ele expelia cada vez mais magia, empurrando o vazio enquanto subiam as escadas.
Call só tinha alguns instantes até Alastair perceber que ele não os seguia.
Ele sacou Miri da bainha e foi até os restos de Constantine Madden sobre o pedestal de mármore.

5 comentários:

  1. "... Ele ficou olhando, em choque, enquanto seus dedos encolhiam e esticavam, e, pela primeira vez na vida, Callum Hunt invocou o caos para o mundo..."

    CAPÍTULO ARREPIANTE!!!!!!!!!!

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  2. THE FORNINHO IS DOWN
    Mds gemt, que loucura.

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  3. Minha santa protetoea dos brioco medroso, qua capítulo foi esse?!?

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  4. 100oor RAZIEL que foi isso

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  5. Meudeusdoceuquequeisso!!!!!??????:0 arrepiante parece livro de terror

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Boa leitura :)