26 de janeiro de 2017

Capítulo 9

Toscana

— Então eu vou com você!  Will disse impulsivamente.
Halt sorriu para si mesmo ouvindo a resposta instantânea. Ele esperava nada menos do seu ex-aprendiz. Horace, afinal, era o melhor amigo de Will. Eles cresceram juntos, lutaram lado a lado e salvaram a vida um do outro em numerosas ocasiões.
Evanlyn favoreceu Will com um sorriso caloroso.
— Eu tinha certeza que você diria isso  ela disse. — Meu pai me deu permissão para pedir a sua ajuda nessa missão, mas eu disse a ele que não era necessário pedir. Obrigada, Will. Eu me sinto bem mais confiante com você do meu lado.
— É claro, eu vou também  Halt disse, então adicionou com uma sobrancelha levantada — isso se eu for necessário?
— Lady Pauline me contou que você diria isso  Evanlyn disse para ele. — Ela disse que você deveria ir com a benção dela.
Will olhou rapidamente para seu mentor, sem saber como Halt iria reagir à suposição que ele precisava da permissão de lady Pauline para ir à missão. O Halt que ele conhecia viria com uma resposta vigorosa dizendo que ele era bem capaz de tomar suas próprias decisões, muito obrigado. Ele estava um pouco surpreso de ver Halt sorrir afetuosamente para as palavras da Evanlyn.
— Bem, isso é um alívio  Halt disse, sem o menor traço de ironia.
Agora era a hora de Will levantar uma sobrancelha – uma expressão que ele copiou cuidadosamente de Halt com o passar dos anos. As coisas mudaram, ele pensou.
Alyss limpou sua garganta nervosamente e eles se viraram para olhar para ela. Havia um ponto brilhante de cor em cada uma de suas bochechas.
— Eu gostaria de ir também  ela disse. — Horace é um de meus amigos mais velhos. Ele ajudou Will a me resgatar do Castelo Macindaw e eu lhe devo essa. Aliás, vocês irão precisar de alguém que saiba falar nihon-jin.
As palavras eram formuladas como uma sugestão. Mas o seu tom não deixou dúvidas que era uma declaração firme de intenção. Ela não estava pedindo permissão. Estava falando para Evanlyn que não iria deixá-la ir para o outro lado do mundo com Will. Não dessa vez.
— Sim, lady Pauline falou que você diria isso também  Evanlyn disse secamente.
Ela desejava que pudesse assegurar à garota alta que não tinha intenções em Will além da amizade. Ela podia ver que Alyss poderia ser uma valiosa amiga e aliada – não apenas nesse caso, mas nos anos que viriam – e ela queria um jeito de poder quebrar barreira entre elas. Talvez essa viagem desse essa oportunidade.
Halt pensou que seria melhor se ele entrasse em cena.
— Soa como uma boa ideia para mim  ele disse. — Alyss é uma pessoa útil para se ter por perto.
Alyss permaneceu corada. Ela estava preparada para argumentar e não tinha esperado que Evanlyn cedesse tão facilmente. No fundo de sua mente, uma pequena dúvida se formou. Talvez ela estivesse julgando Evanlyn muito duramente. Mas ela esqueceu esse pensamento quando Will fez uma pergunta para ela.
— Você fala nihon-jin? Quando aprendeu?
Ela encolheu os ombros, sentindo o pulso voltar ao normal agora que não havia mais perguntas sobre ela estar acompanhando a missão.
— Eu tenho estudado a língua por mais ou menos um ano  ela respondeu. — A maior parte usando as traduções do George. Não sou fluente, mas dá para me virar.
Will levantou as duas sobrancelhas.
— Bem, você aprende algo novo todo dia  ele disse reflexivamente.
— No seu caso, não é exagero  Halt disse, completamente sério.
Will apertou os lábios em aborrecimento. Ele teria que aprender a não dar oportunidades como a essa a Halt, ele pensou. Em seguida, outra questão ocorreu em sua mente curiosa e ele virou-se para Evanlyn.
— Como nós chegamos lá? E como você chegou aqui, afinal?
Ele ouviu o suspiro profundo de Halt e percebeu que ele fez de novo.
— Você alguma vez  o arqueiro mais velho disse com grande deliberação — pretende fazer uma pergunta a cada vez? Ou tem de ser sempre múltiplas questões?
Will olhou para ele com surpresa.
— Eu faço isso?  perguntou. — Tem certeza?
Halt não disse nada. Ele levantou as suas mãos em gesto de “Vê o que eu digo?” E apelou para os outros do cômodo.
Selethen se divertiu com a mímica entre os dois. E desde que a alegria neste tipo de debate confuso e sem importância era parte do caráter arridi, ele não podia se ajudar. Ele tinha que entrar.
— Halt  ele disse — eu posso estar errado, mas eu acho que você fez o mesmo erro. Eu tenho certeza de ter ouvido você fazer duas perguntas agora a pouco.
— Obrigado por apontar isso, senhor Selethen  Halt disse com uma formalidade gelada.
Will sorriu para o wakir, que inclinou a cabeça solenemente para Halt. Então se lembrou que Evanlyn não respondeu nenhuma de suas perguntas.
— Então, como você chegou aqui?  ele a lembrou.
— Eu usei o navio do tratado escandinavo  ela disse.
O tratado entre Araluen e Escandinávia estava em vigor há alguns anos e agora era renovado regularmente. Uma das últimas cláusulas decretava que um navio escandinavo a cada ano devia ter base na costa de Araluen, com sua tripulação à disposição do rei de Araluen. Desde de que os navios escandinavos eram um dos mais rápidos do mundo, era uma adição valiosa.
Em troca, o rei Duncan pagava uma taxa à Escandinávia e garantia condições favoráveis de comércio a outros escandinavos procurando comprar água, lenha e provisões. Em resposta a outras nações como Ibérion e Gálica, que reclamaram que Duncan estava ajudando os escandinavos a atacar sua costa, o rei simplesmente encolheu os ombros.
— Nenhum sistema é perfeito  ele disse. — E, aliás, eles poderiam sempre pagar os escandinavos para não atacar.
O que era, claro, verdade.
— Eu imagino que iremos a Nihon-Ja no navio escandinavo?  Halt perguntou.
Evanlyn assentiu.
— Meu pai me deu permissão para isso. Vai ser mais rápido que qualquer navio comercial que pudéssemos fretar. E, aliás, Gundar está ansioso para ver Nihon-Ja. Ele foi o primeiro escandinavo a visitar lá.
— Gundar?  Will disse.
Era um nome comum entre os escandinavos, ele sabia, mas não poderia não esperar que fosse um velho amigo. Evanlyn já estava assentindo.
— Sim. É o navio de Gundar Hardstriker. Ele está ansioso para ver você e Alyss de novo, e tem um tripulante que diz que nada iria impedir ele de resgatar o General. Eu assumo que ele quer dizer Horace?
Will e Alyss trocaram olhares divertidos.
— Sim. É assim que a tripulação de Gundar chama o Horace. Soa como se Nils ainda esteja com ele  Will disse.
— Ele vai ser uma pessoa útil para se ter  Alyss apontou, recordando da forma massiva e da habilidade furiosa com o machado de batalha de Nils Ropehander.
— Qualquer escandinavo é útil quando se tem uma luta por perto  Halt disse.
Então, mudando de assunto, ele virou-se para Evanlyn.
— Tem alguma necessidade de se apresentar para a corte do imperador toscano? Você tem alguma obrigação oficial?
Evanlyn balançou sua cabeça.
— Oficialmente, eu não estou aqui. É por isso que estou viajando como Evanlyn. Então não, eu estou livre para ir e vir.
— Então eu sugiro que devemos ir o mais cedo que pudermos. Nós já fizemos nossas despedidas oficiais. Vamos ter uma boa noite de sono e de manhã desceremos primeiramente às docas.
— Você pode pegar meu quarto, lady Evanlyn. Eu irei dormir em um dos sofás — Alyss disse rapidamente.
Mas Evanlyn balançou a sua cabeça.
— Nós vamos dividir o quarto, Alyss  ela disse firmemente. — Não quero nenhum privilégio especial. Nós devemos também nos acostumar a isso. Um navio escandinavo é muito pequeno para toda essa tolice.
Alyss era astuta o suficiente para reconhecer um pedido de paz quando via um. Ela sorriu para Evanlyn – um sorriso genuíno pela primeira vez.
— Vai ser um prazer dividir com você  ela disse.
Os outros levantaram agora e Selethen apertou a mão de todos enquanto se despedia.
— Boa sorte para vocês  ele disse. Depois adicionou um pouco melancólico: — Soa como uma viagem interessante. Estou tentado a juntar. Horace é um amigo meu também. Mas...
Ele fez um gesto com a mão elegante, recusando a ideia.
Halt assentiu.
— Você é bem vindo a se juntar a nós a qualquer momento, Selethen. Mas você tem suas obrigações para atender. Nós entendemos.
Selethen fez o gesto arridi de saudação e despedida, tocando com a sua mão a boca, a testa e a boca de novo.
— Sim  ele disse finalmente. — Eu tenho meus deveres, que é uma amante dura. Mas como eu disse, estou tentado.
Ele sorriu para todos e saiu para retornar pro seu alojamento.


Eles chegaram às docas um pouco depois da primeira luz. O navio de Gundar, chamado de WolfWill em homenagem a Will, estava ancorado ao longo do porto. Will franziu a testa quando o viu primeiramente. Ele tinha visto o navio quando foi construído. Mas agora tinha algo diferente nele.
— Algo parece estranho  ele disse pensativamente.
Halt estava estudando o navio também.
— Eles moveram o mastro?  perguntou para ninguém em particular. — Parece um pouco mais distante do que eu me lembro.
— E onde está o mastro que cruza?  Will perguntou.
Normalmente, esse mastro quadrangular era fixado sete oitavos para cima do mastro, com a grande vela quadrada recolhida em cima quando estivesse a bombordo. O mastro do WolfWill estava nu, além de um complicado sistema de cordames no mastro principal, e o que parecia ser um par de velas cuidadosamente enroladas estendidas da frente para trás do convés na sua base.
— Tudo o que eu sei  Evanlyn disse — é que este é o navio mais rápido que eu já entrei. Olhe, aí vem Gundar. Você pode perguntar a ele.
Ela apontou para onde uma figura familiar, enorme como todo escandinavo era, estava bamboleando no seu andar de marinheiro através do convés em direção a eles.
— Will Tratado!  ele gritou, assustando as gaivotas em um raio de cinquenta metros para um voo de grasnidos barulhentos.
Will se firmou enquanto a figura enorme se aproximava. Ele sabia o que estava vindo, contudo havia pouca coisa que poderia fazer a respeito.
Claro, Gundar o levantou do chão com um abraço de urso sufocante. Will só podia grunhir uma saudação enquanto sentia suas costelas no limite de se quebrarem.
— Pelas barbas de Gorlog, garoto, como é bom te ver! Eu esperava que nos encontrássemos quando Erak me designou para basear-me em Araluen. Como você está? O que você tem feito?
— M' deix' ir e eu vo' tentar... contar a você  Will tentou grunhir sem fôlego.
Finalmente, Gundar o abaixou. Will cambaleou quando o escandinavo o liberava, e seus amigos ficaram um pouco alarmados pelo gemido enquanto inspirava ar, que foi a primeira e reflexiva resposta de Will enquanto seus pulmões vazios puxavam ar desesperadamente.
Então, vendo Alyss, o enorme marinheiro pegou a mão dela com um de seus punhos enormes e botou um beijo desajeitado e esmagador nele.
— Lady Alyss!  ele gritou. — Como você pode ter ficado mais bonita do que era?
Evanlyn tinha que admitir, fez uma careta com esse comentário. Gundar nunca tinha comentado a sua aparência e ela estava ciente que ao lado da garota elegante e loira, ela era um pouco... moleca.
Alyss estava sorrindo deleitada para ele.
— Ah, Gundar, eu vejo que você não perdeu nenhum de seu charme cortês. Você vai virar a cabeça de alguma garota com essa sua lábia.
Ele sorriu para ela, então desviou a sua atenção para a figura de barba grisalha, pequena em pé atrás dela.
— E você deve ser o famoso Halt!  ele disse. — Eu esperava alguém um pouco maior  ele adicionou, em parte para si mesmo, enquanto avançava.
Halt, com experiência nas maneiras dos escandinavos, recuou no mesmo ritmo.
— Sim. Eu sou Halt  ele disse. — E preciso de todas as minhas costelas intactas, muito obrigado.
— É claro que você precisa.
Ao invés de dar um abraço de urso no Halt, Gundar se contentou com um aperto firme e másculo. Os olhos de Halt vidraram enquanto sentia seus dedos e suas juntas esmagarem dentro do punho do tamanho de uma ilha. Ele balançou a sua mão dolorosamente enquanto Gundar a soltava.
— Qualquer amigo de Erak é meu também!  Gundar olhou em volta curiosamente. — Mas onde estão aqueles pôneis desgrenhados de vocês?
— Nós deixamos nossos cavalos em Araluen — Will falou.
Desde que a viagem havia sido concebida como uma breve missão de dez dias para a capital Toscana, não tinha nenhuma razão para trazer Puxão e Abelard. Eles foram deixados sobre os cuidados do Velho Bob, o criador de cavalos do Corpo dos Arqueiros. Agora, Will não tinha certeza se tinha se arrependido dessa decisão ou não. Ele gostaria de ter Puxão com ele, mas a viagem marítima para Nihon-Ja seria longa, muito mais longa que qualquer uma que Puxão já tivesse enfrentado. Haveria poucas chances de ir para a terra para exercitar os cavalos, e ele não tinha certeza de como eles lidariam.
Similarmente, Ébano, a cadela de Will, fora deixada com lady Pauline. Ébano estava somente meio treinada e ele sentia que seu comportamento turbulento poderia causar problemas com os oficiais toscanos engomados.
Gundar assentiu vagamente. Ele não tinha ideia da procura na alma que tinha acontecido nos dois arqueiros antes de decidirem de deixar seus cavalos para trás. Ele olhou para acima do cais.
— E quem é esse de pernas longas?  ele disse. — Ele está com vocês?
Os quatros araluenses se viraram rapidamente para olhar para cima no pontão. Andando propositalmente na direção deles, um pacote jogado sobre um ombro, uma figura alta e magra.
— A tentação ganhou  Selethen disse enquanto chegava mais perto. — Eu decidi ir com vocês.

7 comentários:

  1. Respostas
    1. Essa viagem já tinha ficado interessante com Alyss e Cassandra

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  2. Fui só eu que notei que ele deixou a Evanlyn no vácuo?

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  3. Meu Deus! Essa viajem vai pegar fogo! kkkkkkkkkk.
    Ass: Bina.

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  4. Eu tenho a impressão de que este será o melhor livro!! <3

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  5. Mal comecei a ler e já estou amando ♥♥♥
    Ass: Lua

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Boa leitura :)