26 de janeiro de 2017

Capítulo 8

Ele enterrou a mulher numa pequena clareira atrás do estábulo, marcando o túmulo com uma pedra. Ele não sabia o nome dela nem o sobrenome. Então escreveu na pedra um simples epitáfio: UMA MÃE VALENTE.
Kord e Jerrel não mereciam tal tratamento. Eles destruíram uma família feliz, então ele arrastou seus corpos para a floresta, deixando-os para as raposas e corvos.
O bebê dormiu em silêncio no seu berço enquanto Halt cuidava deles. Quando Halt se sentou, bebendo um copo de café na casa desarrumada, o bebê acordou e murmurou baixinho. Halt percebeu com aprovação que ele não tinha chorado.
— Espero que esteja com fome — disse.
Tinha um copo quente de leite de vaca e um tecido de linho limpo pronto. Ele torceu a ponta do tecido numa forma estreita e mergulhou-o no leite, depois colocou na boca do bebê. Os lábios se fecharam em volta do tecido torcido e o bebê sugou o leite dele. Halt mergulhou-o no copo novamente e repetiu o processo. Esse sistema consumia tempo, mas parecia funcionar. O bebê o observava enquanto se alimentava, grande e sérios olhos castanhos fitando-o por cima do tecido molhado de leite.
— A questão é — disse Halt — o que eu vou fazer com você?
A fazenda, ele sabia, voltaria ao barão do feudo, que apontaria outra família para ficar com ela. Então não havia nada para o bebê herdar.
Ele não podia deixá-lo ali – como a mãe tão desesperadamente apontara. E ele não podia criar a criança. Simplesmente não estava equipado para cuidar de um bebê, nem estava em posição de fazê-lo. Seu trabalho como arqueiro iria mantê-lo ausente de casa por longos períodos e o bebê seria deixado sozinho e sem cuidados.
Mas uma ideia estava se formando. O Barão Arald criara uma ala no Castelo Redmont onde os órfãos de homens e mulheres que morreram a seu serviço eram cuidados. Era um lugar feliz e animado, cheio de pessoas afetuosas e gentis, e havia várias adições recentes ao número de crianças sendo cuidadas ali. Uma garotinha chamada Alyss e outro garoto – Horace era o nome dele.
Will encontraria afeto e companhia ali. E conforme crescesse, lhe seria dada uma escolha de diferentes vocações para seguir. No geral, parecia uma solução ideal.
— O problema é — Halt disse para o garoto observador — não podemos deixar ninguém saber que eu trouxe você. As pessoas têm suspeitas quando se trata dos
Arqueiros. Se achassem que está associado comigo, iriam se portar cautelosas ao seu redor.
Arqueiros tinham uma aura de mistério e incerteza neles. E isso poderia ser descontado na criança. As pessoas geralmente temiam coisas que não conseguiam entender, e ele não queria esse medo sendo transferido para o jovem Will. Melhor se seu passado permanecesse um mistério.
— E é — meditou Halt. — Eu nem sei seu sobrenome.
Ele considerou isso. Poderia perguntar no vilarejo. Mas como descobriu, a família era nova na área e as pessoas poderiam não saber seus nomes. Em acréscimo, ele teria que revelar seus planos para o bebê, e não sabia se o que ele estava planejando era exatamente legal. Will era a criança de dois sujeitos do barão local e Halt tecnicamente não tinha o direito de levá-lo para outro feudo.
Mas mesmo assim, na sua vida, Halt tinha o costume de ignorar o que era tecnicamente legal. Tecnicalidades não lhe agradavam. Na maioria das vezes, simplesmente ficavam no caminho de fazer a coisa certa.
Ele mergulhou o tecido no resto do leite e segurou na boca do bebê. Will sugou ansiosamente, seus olhos ainda fixados no arqueiro.
— Sim, a ala é o melhor lugar para você — Halt lhe disse. — E é melhor se você estiver no anonimato. Falarei com Arald, é claro, em sigilo. Mas ninguém mais saberá. Só nós dois. O que você me diz?
Para a sua surpresa, o bebê soltou um alto arroto, depois sorriu para ele.
— Vou aceitar isso como um sim — falou.
Quatro dias depois, logo antes que os primeiros feixes cinzentos de luz anunciassem o amanhecer, uma figura escura carregando uma cesta atravessou em silêncio o pátio do Castelo Redmont até o prédio em que se situava a ala.
Colocando a cesta nos degraus da porta, Halt colocou a mão dentro e tirou o cobertor do rosto do bebê. Ele colocou a nota que escreveu na cesta, aos pés do bebê.

A sua mãe morreu no parto.
O pai morreu como herói.
Por favor, cuidem dele. Seu nome é Will.

Uma mãozinha emergiu do cobertor e agarrou seu dedo indicador.
— Eu juraria que você estava sacudindo a minha mão em adeus — sussurrou Halt.
Então, gentilmente soltando-se, passou o dedo na testa do bebê.
— Você ficará bem aqui, jovem Will. Com os parentes que teve, suspeito que crescerá e se tornará uma boa pessoa.
Olhou em volta, não viu sinal de ninguém observando, então estendeu a mão e bateu rapidamente na porta da ala antes de desaparecer nas sombras do pátio.
O pessoal da ala já estava na porta e ele ouviu-a se abrir alguns minutos depois, em seguida o grito de surpresa.
— Ora, é um bebê! Senhora Aggie, venha rápido! Alguém deixou um bebê na porta!
Envolto em sua capa, escondido nas sombras do alto muro, Halt observou várias mulheres apressarem-se para fora, gritando em surpresa ao verem o bebê. Em seguida, elas o levaram para dentro, fechando a porta atrás delas.
Ele sentiu uma sensação incomum de ardência nos olhos e uma estranha sensação de perda.
— Adeus por enquanto, Will — sussurrou. — Ficarei de olho em você.


Halt sentiu a mesma sensação de ardência novamente quando terminou a história. Virou-se levemente para que Will não pudesse ver as lágrimas que se formavam em seus olhos.
— Mas, Halt, por que você não me contou todos esses anos? Por que disse que minha mãe morreu no parto?
— Achei que seria mais fácil para você — Halt respondeu. — Achei que se soubesse que sua mãe foi assassinada, isso te deixaria amargurado. E, como eu disse, achei que seria mais fácil para você se ninguém soubesse do meu envolvimento. Se eu dissesse que sua mãe foi assassinada, as pessoas começariam a fazer perguntas. Eu não queria isso. Eu queria que você fosse aceito.
Will assentiu pensativo.
— Acho que sim.
O arqueiro mais velho se mexeu com incômodo.
— Tinha mais uma coisa...
Will abriu a boca, depois a fechou. Sentiu que seria melhor deixar Halt falar no seu próprio tempo.
No fim, seu mentor falou, numa voz baixa que Will mal podia ouvir:
— Eu tinha medo que você me odiasse.
Will recuou espantado com as palavras.
— Te odiar? Como eu poderia te odiar? Por que eu odiaria você?
Agora Halt virou-se de volta para encará-lo, e Will pôde ver a angústia em seus olhos.
— Porque eu fui responsável pela morte dos seus pais! — As palavras saíram violentamente, como se tivessem sido arrancadas dele. — Daniel morreu salvando minha vida em batalha. Então sua mãe veio à minha ajuda quando eu estava lutando com Jerrel. Se ela não o tivesse feito, ainda estaria viva.
— E você estaria morto — Will ressaltou.
Mas Halt sacudiu a cabeça.
— Talvez sim. Talvez não. Mas o fato permanece, foi minha culpa que sua família foi destruída e até hoje eu não fui capaz de te contar. Achei que você iria me culpar.
— Halt, não foi culpa sua. Quem poderia te culpar? Você estava mantendo uma promessa que fez ao meu pai. Culpe Morgarath. Culpe os Wargals. Ou culpe Kord e Jerrel. A culpa é deles. Não sua.
Observando Halt, Will agora via os ombros dele caíam em alívio.
— É o que Pauline disse que você diria — Halt sussurrou e Will colocou um braço ao redor dele. Parecia estranho reconfortar o homem que o confortara durante todos esses anos.
— Halt, você não destruiu minha família. Isso foi o destino. Você me deu uma segunda chance de ter uma família. Você me deu uma vida nova. Como eu poderia te odiar por isso? Além disso — acrescentou — dá para me imaginar como um fazendeiro?
Ele sentiu os ombros de Halt começarem a tremer, e por um momento ele teve medo que o homem mais velho estivesse chorando. Depois percebeu com alívio que ele estava rindo.
— Não — o mentor respondeu — eu certamente não consigo vê-lo como um fazendeiro. Fazendeiros são pessoas disciplinadas.
Os dois riram com o pensamento de Will arando e plantando. Então, depois de um tempo, o jovem arqueiro ficou sério.
— Eu quero ver o túmulo da minha mãe — disse e Halt assentiu.
— Eu te levo lá.
E depois eles não disseram mais nada, apenas se sentaram juntos em silêncio enquanto as sombras aumentavam e o sol finalmente se punha.

4 comentários:

  1. Will é foda desde que nasceu. Só eu que vomitei arco-íris imaginando o Will bebê?'

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)