26 de janeiro de 2017

Capítulo 8

Nihon-Ja

O anúncio de Horace encontrou uma onda de exclamações. A mais alta de todas foi a de George.
— Horace, você não pode ficar aqui! Você não entende? Não temos o direito de interferir na política interna de Nihon-Ja!
Horace franziu a testa e olhou torto para o seu compatriota.
— Isto é um pouco mais grave do que apenas política, George  ele disse. — Esta é uma rebelião contra o governante legítimo. Você não entende que não é apenas uma matéria de política. Para começar, é uma traição.
George fez um gesto pedindo desculpas para os dois líderes de Nihon-Ja. Ele percebeu que suas palavras poderiam ser consideradas nada diplomáticas.
— Meu pedido de desculpas, Vossa Excelência  disse ele apressadamente. —Não leve como uma ofensa.
Shigeru assentiu.
— Não levei, George-san. Eu entendo seu ponto de vista. Se isto é um caso de política ou de traição, é uma questão interna de Nihon-Ja.
— Isso é verdade  disse George, e virou-se para Horace. — Não é como se Araluen tivesse qualquer tipo de tratado formal com o imperador. Você e eu estávamos aqui apenas como diplomatas. Concederam-nos liberdade de circulação em todo o país, mas temos que manter nossa neutralidade. Se nos envolvermos, se tomarmos qualquer um dos lados, vamos invalidar as credenciais  exclamou. — Você não entende? Nós simplesmente não podemos dar ao luxo de fazer isso!
— De fato, eu não entendo  disse Horace. — Mas é um pouco tarde para começar a se preocupar com o que acontecerá se tomarmos os lados. Temo que já fiz isso.
George franziu o cenho, sem entender.
— Eu não...
Horace o cortou rapidamente.
— Enquanto você estava tendo sua soneca ao lado da trilha lá atrás, matei dois soldados de Arisaka. Acho que ele pode entender que tomamos um dos lados, não é?
George levantou as mãos num gesto de perplexidade.
— Você o quê? O que poderia ter levado você a fazer esta coisa incrivelmente estúpida, Horace? Certamente você poderia ter feito melhor do que isso! Por quê? Basta me dizer o por quê!
O imperador tossiu educadamente antes de Horace poder responder e avançou para colocar sua mão em cima do ombro de George para acalmá-lo.
— Talvez tenha sido porque estavam tentando me matar na hora  disse ele.
George, mais uma vez, olhou devidamente chateado. Como um especialista sobre o protocolo, ele não estava se saindo tão bem, pensou. Horace, vendo George momentaneamente perdido com as palavras, pegou essa vantagem.
— Eu simplesmente não acho, George  disse ele, com um pequeno sorriso no canto da boca. — que deveria ter verificado os protocolos para ver o que eu devo fazer se alguém tentar matar o imperador. Mas, que merda, eu só consegui correr e pará-los do melhor jeito que pude.
Shukin começou a sorrir também. Mas as próximas palavras do imperador rapidamente desfizeram a expressão de seu rosto.
— De fato, Arisaka poderia ver o ato de salvar a minha vida como uma grande afronta por matar seus dois homens  disse Shigeru.
— Vossa Excelência está certo  Shukin concordou, totalmente sério agora. — Isso colocará Ora’ss-san como seu inimigo jurado. Arisaka não gosta de ter seus planos frustrados.
George olhou de um rosto para outro, tentando desesperadamente ver um caminho para sair desta situação.
— Mas ele não precisa saber sobre ele, certo? Estamos à milhas de qualquer lugar, em uma floresta remota numa montanha! Quem é que vai dizer a ele?
— Provavelmente, os atacantes que escaparam vão mencionar — Horace falou. — Sei que irão, eu mencionaria em seu lugar.
George, ao ver o chão ruir sob seus pés, balançou a cabeça em resignação desgostosa.
— Oh, ótimo!  disse ele, cansado. — Você deixou testemunhas fugirem! Se estava pensando em participar, Horace, por que não fazer um trabalho completo?
Horace olhou para ele.
— Você está dizendo que o nosso estatuto diplomático estaria em melhor posição se eu tivesse matado o dobro dos homens de Arisaka?  perguntou.
A lógica da posição de George parecia escapar dele.
— Não. Não. Não  disse George, finalmente decidindo aceitar o inevitável. — Bem, suponho que você fez a nossa cama. Agora só temos de mentir sobre ela.
Um silêncio caiu sobre o pequeno grupo. Shukin e o imperador trocaram olhares estranhos. Horace olhou para eles e acenou com a cabeça quase imperceptivelmente. Ele percebeu o que eles estavam pensando.
— Eu me pergunto se pode nos dar licença por um momento, Vossa Excelência?  disse.
Shigeru inclinou a cabeça e Horace gesticulou para George andar alguns metros de distância do grupo reunido em volta do imperador. George seguiu, olhando perplexo.
— O que é isso agora?  Perguntou logo que eles estavam fora do alcance da voz. — O que mais você fez quando eu estava inconsciente, porque eu estava inconsciente, você sabe. Eu tinha uma grande flecha presa em meu braço!
Ele acrescentou a ultima palavra com um pouco mais de ênfase. A referência divertida de Horace a sua “soneca” tinha atingido um nervo exposto.
Horace fez um gesto apaziguador.
— Eu sei. Eu sei. Desculpe-me pelo o que fiz. Afinal, você salvou minha vida.
George parecia um pouco amolecido. Não havia muitas pessoas que poderiam alegar algo parecido, ele pensou. Horace normalmente não precisava de alguém para salvar a sua a vida. Ele parecia muito hábil para fazer isso sozinho.
Agora que pensava sobre isso, George encontrou se perguntando se seu companheiro já formado, Will Tratado, tão famoso como ele poderia ter se tornado, poderia ter salvo a vida de Horace como ele salvou.
— Bem, sim. Tudo bem. Mas o que você quer falar?
— George  Horace começou, depois hesitou. — Não há nenhuma maneira diplomática de colocar isso, então eu vou simplesmente dizê-lo. Você não vai ficar.
— Bem, claro que eu vou!  George explodiu. — Se você vai ficar, vou ficar com você. Eu sou seu amigo. Amigos não fogem e desertam outros amigos só porque há um pouco de perigo! Tudo bem, eu continuo com meu braço doendo. Mas não tenho medo, Horace. Eu não sou algum tipo de covarde que vou pular fora e deixá-lo para enfrentar o perigo sozinho!
Horace estava acenando quando o escriba entregou a resposta veemente. George não era um covarde, ele sabia. Longe disso. Mas fatos são fatos e eles tinham que ser enfrentados.
— George — ele disse calmamente — você está gravemente ferido no braço. Mas mesmo se estivesse em saúde perfeita, não ajudaria na viagem que iremos realizar.
— Não se preocupe comigo!  George respondeu com uma vontade considerável, independentemente do fato de que sua voz seria levada claramente aos guerreiros nihon-jins a poucos metros de distância. — Eu vou me manter totalmente bem. Não vou atrasar vocês!
Mas ele viu Horace balançando a cabeça de novo e, no fundo, George sabia que o guerreiro jovem e alto estava certo.
— Você não gostaria de nos atrasar  disse Horace. — E eu sei que você tentaria o seu melhor. Mas você não está pronto para este tipo de vida, George. Para começar, você não é um equitador bom o suficiente.
— Eu...  George parou. Ele sabia que era verdade.
— Você está montando o cavalo mais lento no grupo  destacou Horace. — Se o resto de nós tiver que acompanhar seu ritmo, estará nos atrasando. Não será culpa sua, George. Mas se Shigeru vai escapar de Arisaka, vamos ter que andar rápido e viver brutamente. E se nós tivermos que ficar a espera de seu cavalo lento o tempo todo, estaremos colocando a vida do imperador em risco. Certamente você não quer isso, né?
Horace pensou que era mais diplomático culpar o potencial do cavalo de George para retardar o grupo. Era verdade até certo ponto, mas George viu através do disfarce. Ele tinha um cavalo lento e velho porque era um pobre cavaleiro lento e um cavalo velho e lento era tudo que ele poderia suportar.
Ele baixou a cabeça miseravelmente.
— Eu não sou bom o suficiente, sou?  perguntou em voz baixa.
Horace chegou perto e deu um tapinha no ombro.
— Não é que você não é bom o suficiente  disse ele. — Você não é treinado para este tipo de vida. Você fica em casa, em reuniões diplomáticas, elaborando tratados complexos entre os países, e em salas de audiência, chegando com um argumento brilhante para salvar a vida de alguém ou uma propriedade. Isso é o que você faz bem. É para o que você tem treinado. Por outro lado, isto é para o que eu treinei — Horace apontou com braço em torno da paisagem montanhosa que os cercava.
George não ousou discutir. Seus ombros estreitos caíram quando ele soltou um suspiro profundo.
— Eu sei — falou finalmente.
— Além disso, eu preciso de você para mandar uma resposta de volta para Araluen, então eles saberão o que aconteceu comigo. Eu não posso simplesmente desaparecer da face da terra sem dizer às pessoas onde eu fui.
George ergueu os olhos para atender Horace então falou:
— Você pensa que vai morrer aqui, não é?  Ele disse calmamente. — Não acha que Shigeru tem uma chance.
Horace balançou a cabeça.
— George, eu nunca entraria em qualquer luta pensando que vou perder.
— Mas você disse que não pode simplesmente desaparecer da face da terra. Isso não soa como se estivesse muito confiante.
Horace sorriu para ele então.
— Esse é o problema com você e os advogados  disse ele. — Você é muito literal. Vamos apenas dizer que o meu desaparecimento será uma questão temporária.
O rosto de George fez uma careta quando sua mente se moveu rapidamente.
— Se eu pudesse falar com Will e Halt  disse ele — eles poderiam vir ajudá-lo. Na verdade, eles certamente viriam para te ajudar.
— É uma ótima ideia  disse Horace tristemente.
O pensamento de ter os dois arqueiros ao seu lado neste caso era extremamente atraente.
— Mas é um sonho. Vai levar meses para você tomar todo o caminho de volta para Araluen. Nesse tempo, as coisas aqui vão estar bem e verdadeiramente resolvidas – de uma forma ou de outra.
Mas agora George quem estava borbulhando com entusiasmo pela sua ideia.
— Não! Não! Não! Eu não tenho que pegar todo o caminho de volta! Só preciso chegar a Indus! De lá, posso usar o serviço de mensagens rápidas Silasianas. Isso levará o recado para eles dentro de poucos dias!
Horace olhou para seu companheiro com novo respeito.
— Você vê? — disse. — Isso é em que você é bom. Pensando. Descobrir algumas ideias. Deixe-me dizer, se você puder, diga a Will e Halt, assim você estará fazendo muito mais bem do que se simplesmente ficar aqui conosco.
— A começar agora?  George disse, sorrindo agora.
Horace devolveu o sorriso.
— Exatamente.
Ele ofereceu a mão para George, que a segurou e apertou calorosamente. Antes de soltar seu aperto de mão, Horace acrescentou:
— Outra coisa. Eu nunca vou esquecer que você se ofereceu para ficar aqui, George. Foi preciso muita coragem para se oferecer a ficar aqui comigo. Agradeço-lhe e, quando eu chegar em casa, vou deixar as pessoas saberem sobre isso.
George finalmente retirou sua mão e fez um pequeno gesto auto-depreciativo, apesar de Horace ter dito palavras que tinham aquecido o coração.
— Bem... você sabe. Não foi muito. Quero dizer... nós éramos colegas no Castelo Redmont, não éramos? Isso é o que colegas fazem por si. Eles se unem. Não é grande coisa.
— Na verdade, é uma coisa muito grande  disse Horace com firmeza. — E eu não vou esquecer.

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