26 de janeiro de 2017

Capítulo 7

Halt soltou as rédeas de Abelard e começou a correr. O cavalo o seguiria, ele sabia.
Outro grito veio por entre as árvores. O primeiro tinha sido um grito de medo e alarme. Mas este tinha raiva misturada. Ele correu rápido, a faca de caça e aljava batiam em seu quadril e ombro quando seus pés tocavam o chão. Já era tarde quando ele percebeu que teria sido melhor se estivesse montado Abelard. Mas não tão cedo lhe ocorreu o pensamento de que tinha passado por uma clareira onde havia uma pequena casa de fazenda, a fumaça ondulando perigosamente da chaminé, várias vacas movimentando-se inquietas no cercado ao lado da casa.
Houve outro grito desafiador, seguido de uma voz de homem com raiva seguido do som inconfundível de um golpe. E um suspiro de dor da mulher.
— Meu marido vai matá-lo por isso — ela chorou.
— Seu marido está morto! — Uma voz respondeu zombando. — E você vai se juntar a ele se não fizer como eu disse. Você e seu bebê!
Halt ouviu um rápido grito de dor da mulher com essas palavras. Fervendo de raiva, ele bateu na porta com o ombro e entrou na sala escura.
Ele pegou os detalhes rapidamente, uma mulher agachada no canto, perto da lareira da cozinha, os braços estendidos protegendo um berço. Jerrel estava em cima dela, com sua mão levantada para bater nela de novo, congelados ao momento em que as dobradiças de couro arrebentaram e a porta caiu. A esquerda de Halt, Kord vasculhava um baú, arremessando roupas e peças de casa para todas as direções, enquanto procurava por itens de valor. Ele também congelou com a súbita aparição do arqueiro. Em seguida, um reconhecimento surgiu em seu rosto moreno e barbudo.
— Você! — ele rosnou. — O que está fazendo aqui?
Ele não esperou por uma resposta, levantou-se e sacou uma simples espada que ele usava na cintura, atravessando a sala e investindo contra Halt.
As ações do arqueiro foram instintivas. Ele desviou para lado o golpe selvagem da espada, balançando para direita, e simultaneamente sacou a faca da caça com sua mão esquerda. Quando estava posicionando a grande faca na defesa, foi o momento de Kord impulsionar lâmina adentro. Kord olhou horrorizado quando a faca de aço temperado deslizou facilmente através dos elos da cadeia de seu colete. Ele engasgou com o sangue que jorrava de sua boca. Seus olhos viraram e seus joelhos cederam.
Halt puxou a faca do corpo em queda e a girou para enfrentar Jerrel, que ainda processava a sequência rápida dos eventos. Então seus olhos endureceram e ele puxou sua própria espada, pisando deliberadamente para frente, não correndo como Kord havia feito, apresentando o ponto da espada em primeiro lugar e deixando-a balançar para frente e para trás, ameaçando o homem menor, que o encarou.
A mulher caiu de joelhos ao lado do berço, assistindo com os olhos arregalados de horror enquanto a cena se desenvolvia a sua frente.
Jerrel avançou um passo. Halt, segurando sua faca de caça com a mão direita, recuou cautelosamente. Ele estava confiante de que poderia lidar com o soldado, apesar da aparente desigualdade em suas armas. Ainda assim, ele estava preparado para deixar Jerrel fazer o primeiro movimento e assim o atrair para mais perto do arqueiro, onde a faca de caça seria mais eficaz.
Jerrel balançou a espada. Halt, fitando seus olhos, não viu perigo e ignorou o movimento. Sua calma enfureceu Jerrel. Halt viu a raiva em seus olhos.
— Você é um homem morto Arratay — Jerrel disse de dentes cerrados.
Halt sorriu.
— Já me disseram isso antes, no entanto, aqui estou eu.
Ele deu um passo pra trás, consciente do corpo de Kord que ainda estava no chão de terra batida da casa da fazenda atrás dele. Jerrel lançou a espada contra ele. Desta vez não era blefe e Halt estava pronto para isso.
Ele a impediu golpeando-a para o lado com a faca, e as duas lâminas se cruzaram por um segundo. A velocidade e a facilidade de sua defesa levantaram uma faísca de duvida na mente de Jerrel. Ele tinha a maior arma. Ele tinha a vantagem.
No entanto, esta figura barbuda e manto estranhamente manchado parecia completamente à vontade. Ele estava pensando sobre isso quando Arratay, como ele o conhecia, avançou com a faca de caça pequena e brilhante.
Jerrel saltou para trás, gritando de surpresa, e conseguiu recuperar a espada desajeitadamente, a tempo. Pela primeira vez, ele percebeu que poderia ser derrotado.
Estava prestes a largar sua arma e pedir misericórdia, quando algo inesperado aconteceu. Halt sentiu uma mão de ferro no tornozelo esquerdo, que em seguida puxou sua perna, derrubando-o no chão da fazenda. Quando ele caiu, se virou e viu-se olhando no rosto de Kord. Os olhos estavam cheios de ódio, os lábios contraídos e um rosnado de seu último triunfo.
Com seu último suspiro, Kord havia conseguido se vingar do pequeno homem que havia estragado tudo pra eles. Agora seus olhos estavam inexpressivos como se sua vida tivesse deixado seu corpo.
Jerrel, que nunca raciocinava muito rápido, viu que seu adversário estava impotente no momento. Com um grito de triunfo, ele levantou a espada com as duas mãos, com a lâmina voltada para baixo, um passo a frente preparando-se para acabar com o corpo caído no chão. Halt tentou se levantar, mas sabia que era tarde demais. A ponta reluzente começou a descer.
Então surgiu uma figura que bateu em Jerrel, agarrando-o e o jogando para o lado, fazendo a espada girar para fora de seu alcance. Halt se esquivou quando a arma caiu perto dele, então percebeu o que tinha acontecido.
A mulher lançou-se em Jerrel, aterrissando sobre suas costas e prendendo-se a ele como um gato selvagem, arranhando o rosto e os olhos com as unhas.
O ladrão cambaleou com o impacto, enquanto os dois chocaram-se contra a mesa da cozinha, fazendo a girar contra a parede quebrando ao meio contra ao vime trançado com barro.
Incapaz de se livrar da figura agarrada em suas costas, Jerrel se torcia para que ela ficasse de frente para ele, aproveitando seu punhal de lâmina pesada e golpeando-a desesperadamente para que o soltasse.
Ela gritou de dor e sucumbiu para trás, as mãos sobre seu ferimento do lado esquerdo. Logo suas vestes de algodão estavam coberta de sangue quando ela caiu de joelhos.
Então Halt estava sobre Jerrel, forçando a mão do homem a soltar a faca, enquanto sacava sua faca de arremesso e batia em seu corpo. Jerrel deu um grunhido de dor. O pesado punhal caiu de sua mão e por um momento Halt segurou seu pulso direito. Então quando o arqueiro o soltou, ele caiu de joelhos, olhando para Halt com o olhar de choque devido a maneira que sua vida chegou ao fim. Ele caiu de lado com as mãos desesperadamente tentando conter o sangue da ferida. De pé, Halt o analisou, certificando-se de que Jerrel fora realmente derrotado. Sua recente experiência com Kord o deixou mais cuidadoso. Convencido de que Jerrel estava derrotado, ele ajoelhou-se ao lado da mulher ferida.
Seu rosto estava pálido e desenhado com a dor selvagem da ferida.
Halt olhou a quantidade de sangue que ela tinha perdido e sabia que não tinha nenhuma chance de sobreviver. Ela olhou para o estranho que tentou salvá-la, que ela tinha protegido com seu ataque desesperado a Jerrel. Viu tristeza nos olhos escuros olhando para ela e sabia a verdade. Ela estava morrendo. No entanto, havia algo que ela tinha que saber.
— Meu... marido... — ela suspirou. — Está realmente morto?
Halt hesitou. Ele quase mentiu para ela, para confortá-la. Mas ele sabia que não conseguiria fazê-lo. Ele balançou a cabeça.
— Sim. Você em breve vai estar com ele.
Ele viu o olhar de angústia em seus olhos voltados para o berço no canto da sala.
— O nosso filho... — ela disse e tossiu sangue enquanto falava. Então fez um esforço enorme e se recuperou. — Não o deixe com os moradores... ele não terá uma vida com eles... nós somos estranhos aqui... eles vão fazê-lo trabalhar como escravo...
Halt assentiu. Daniel e sua esposa eram recém-chegados na área. Eles não tinham amigos na aldeia para cuidar do filho recém-nascido. Um órfão o faria ser um fardo para a maioria dos aldeões. Seria tratado como um escravo.
— Eu vou cuidar dele — ele disse delicadamente e a mulher estendeu a mão e agarrou a sua em um aperto surpreendentemente forte.
— Prometa-me — ela pediu, e ele colocou a outra mão sobre a dela.
— Eu prometo.
Ela estudou seus olhos por alguns segundos e pareceu encontrar tranquilidade lá. Então soltou a mão, que caiu sobre o chão encharcado de sangue.
Ela falou novamente, mas sua voz era tão suave que ele não ouviu as palavras.
Halt se inclinou, aproximando o ouvido da boca.
— Diga novamente — ele falou, e dessa vez conseguiu decifrar as palavras sussurradas.
— Seu nome é Will.
— É um bom nome — Halt falou, mas a mulher não ouviu.
Ela já estava morta.

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