30 de janeiro de 2017

Capítulo 6

Dorian Havilliard, Rei de Adarlan, odiava o silêncio.
Este tornara-se seu companheiro, andando ao lado dele através dos salões quase vazios de seu castelo de pedra, agachado no canto de seu bagunçado quarto da torre à noite, sentado à mesa em cada refeição.
Ele sempre soube que um dia seria rei.
Não esperava herdar um trono despedaçado e reduto vago.
Sua mãe e seu irmão mais novo ainda estavam abrigados em sua residência da montanha em Ararat. Ele não tinha enviado para eles. Ele não os mandara buscar. Ordenara que permanecessem lá, na verdade.
Se apenas porque isso significaria o retorno da vaidosa corte de sua mãe, ele ficaria feliz em continuar com o silêncio como acompanhante. Se apenas porque isso significaria olhar para o rosto de sua mãe, o rosto de seu irmão, e mentir sobre quem havia destruído o castelo de vidro, quem matara a maioria de seus cortesãos, e quem matara seu pai. Mentir sobre o que seu pai era – sobre o demônio que vivera dentro dele.
Um demônio que havia reproduzido com sua mãe e não uma vez, mas duas vezes.
De pé na pequena varanda de pedra no topo de sua torre privada, Dorian olhou para a extensão brilhante de Forte da Fenda sob o sol, a fita cintilante do Avery dirigindo-se para o mar, curvando-se em torno da cidade como espirais serpenteantes, e depois fluindo em linha reta através do coração do continente.
Ele ergueu as mãos antes da visão, as palmas das mãos calejadas dos exercícios e treinamento de esgrima que se obrigada a aprender mais uma vez. Seus guardas favoritos – os homens de Chaol – estavam todos mortos.
Torturados e mortos.
As memórias de seu tempo sob o colar de pedra de Wyrd eram muito obscurecidas e turvas. Mas, em seus pesadelos, ele às vezes estava em um calabouço muito abaixo deste castelo, sangue que não era seu cobrindo suas mãos, gritos que não eram o seu próprio zumbido nos ouvidos, pedindo-lhe por misericórdia.
Não ele, ele disse a si mesmo. O príncipe valg fizera aquelas coisas. Seu pai fizera.
Ele ainda tinha dificuldade de encontrar o olhar do novo Capitão da Guarda, um amigo de Nesryn Faliq, desde que pediu ao homem para mostrar-lhe como lutar, ajudá-lo a se tornar mais forte, mais rápido.
Nunca mais. Nunca mais ele seria fraco e inútil e assustado.
Dorian lançou seu olhar para o sul, como se pudesse ver todo o caminho para Antica. Ele se perguntou se Chaol e Nesryn já tinham chegado lá, se perguntou se o amigo já estava em Torre Cesme, tendo seu corpo quebrado curado por seus mestres talentosos.
O demônio dentro de seu pai fizera aquilo, também – quebrado a espinha de Chaol.
O homem lutando dentro de seu pai impedira o golpe de ser fatal.
Dorian possuíra tão pouco controle, força nenhuma, quando viu o demônio usar seu próprio corpo – quando o demônio já tinha torturado e matado e tomado o que queria. Talvez seu pai tivesse sido o homem mais forte no final. O melhor homem.
Não que ele tivesse tido a oportunidade de conhecê-lo como um homem. Como um ser humano.
Dorian flexionou os dedos, faíscas de gelo na palma de sua mão. Magia bruta – ainda não havia ninguém ali para ensiná-lo. Ninguém ousara pedir.
Ele se inclinou contra a parede de pedra ao lado da porta da varanda.
Levantou a mão para a marca pálida na garganta. Mesmo com as horas que ele passara do lado fora por causa do treinamento, a pele onde o colar uma vez estivera não ficara bronzeada como o resto do corpo. Talvez sempre permanecesse pálida.
Talvez seus sonhos sempre seriam assombrados pela voz sibilante do príncipe demônio. Talvez ele sempre acordaria com a sensação do suor como o sangue de Sorscha sobre ele, como o sangue de Aelin quando ele a esfaqueou.
Aelin. Nem uma notícia a partir dela, ou de qualquer pessoa, sobre a devolução da rainha para seu reino. Ele tentou não se preocupar, contemplar por que havia tal silêncio.
Tal silêncio, quando Nesryn e os batedores de Chaol lhe trouxeram a notícia de que Morath estava se mexendo. Dorian olhou para dentro, em direção à pilha de papéis em sua mesa desordenada, e estremeceu. Ele ainda tinha uma quantidade repugnante de papelada para fazer antes do sono: cartas para assinar, planos para analisar...
Um trovão reverberou por toda a cidade.
Talvez um sinal de que ele devesse começar a trabalhar, a menos que quisesse ficar até as horas escuras da manhã mais uma vez. Dorian dera as costas ao céu, suspirando fortemente pelo nariz, e trovões ecoaram novamente.
Muito perto, e o som durando pouco demais.
Dorian esquadrinhou o horizonte. Sem nuvem alguma, apenas o céu dourado avermelho.
A cidade descansando ao pé da colina do castelo parecia estagnada. Mesmo o enlameado Avery pareceu interromper seu fluxo enquanto a explosão soava novamente.
Ele tinha ouvido esse som antes.
Sua magia correu em suas veias, e ele se perguntou o que sentiu enquanto o gelo cobria a varanda contra a sua vontade, tão rápido e froa que as pedras gemeram.
Ele tentou puxá-lo de volta como se fosse um novelo de lã que caíra de suas mãos, mas o gelo ignorou-o, espalhando-se mais espessa, mais rápido sobre as pedras. Ao longo do arco da porta atrás de si, para baixo na face curva da torre...
Um aviso soou a oeste. Uma nota alta e contínua.
Ela foi cortada antes de ser concluída.
Pelo ângulo da varanda, ele não podia ver sua fonte. Dorian correu para o seu quarto, deixando sua magia nas pedras, e arremessou-se para a janela ocidental aberta. Estava a meio caminho através das pilhas de livros e papéis quando espiou o horizonte. Quando sua cidade começou a gritar.
Espalhando-se à distância, cobrindo o pôr do sol como uma tempestade de morcegos, voava uma legião de serpentes aladas.
Cada uma carregando uma bruxa armada, rugindo para a batalha com suas crias da cor do céu manchado.



Manon e suas Treze estiveram voando sem parar, sem dormir. Tinham deixado os dois clãs de escolta para trás no dia anterior, suas serpentes aladas exaustas demais para continuar. Especialmente quando as Treze vinha treinando em todos aqueles voos extras e patrulhas discretas por meses, solidamente construindo sua resistência.
Elas voaram alto para manterem-se ocultas, e através de aberturas nas nuvens, o continente brilhava abaixo em vários tons de verde do verão, e amarelo-manteiga e safira cintilante. Aquele dia fora claro o bastante, sem nuvens para escondê-las enquanto elas voavam para Forte da Fenda, o sol começando sua descida final para o oeste.
Para sua pátria perdida.
Com a altura e a distância, Manon contemplou plenamente a carnificina enquanto o horizonte finalmente revelasse a expansão da capital.
O ataque tinha começado sem ela. A legião de Iskra continuava a cair sobre a cidade, ainda atacando o palácio e a parede de vidro que se erguia sobre a cidade em sua fronteira oriental.
Ela cutucou Abraxos com os joelhos, um comando silencioso para ir mais rápido. Ele fez, mas por pouco. Ele estava drenado. Todos eles estavam.
Iskra queria a vitória para si mesma. Manon não tinha dúvida de que a herdeira Pernas Amarelas recebera ordens para atacar... mas apenas depois que Manon chegasse. Cadela. Cadela por chegar aqui primeiro, por não esperar...
Elas chegavam cada vez mais perto da cidade.
Os gritos as atingiriam em breve. Sua capa vermelha tinha o peso de mil montanhas sobre suas costas.
Manon dirigiu Abraxos para o castelo de pedra no topo da colina, mal aparecendo acima daquele muro de vidro brilhante – o muro que ela havia sido ordenada a derrubar – e esperou que não fosse tarde demais para uma reparação.
E que ela soubesse o que diabos estava fazendo.

13 comentários:

  1. Tadinho do Dorian. Já que ele não vai ficar com a Aelin mesmo, que fique com a Manon <3

    -B.Bunny

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  2. Karina, esses capítulos são da primeira parte do livro 5 ? Pelo que eu entendi a editora dividiu em duas partes né ?
    ~Mih

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    1. Isso, ela dividiu em duas. Mas eu postei o livro inteiro aqui. O tomo I da editora provavelmente vai conter a primeira parte deste livro, e o tomo II, a segunda

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  3. Manon com certeza vai lutar a favor da Aelin ela esta chipada e já esta cheia de duvidas seria o máximo

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  4. Manon e Dorian seria um dos melhores casais de trono de vidro

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  5. Será que demora a vir um capítulo dedicado ao Chaol??? Saudades Chaol, tomara que ele melhore logo. ��

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  6. Nos contos de fada o príncipe fica com a princesa mas trono se vidro... O príncipe fica com a bruxa 😈😈😈rss

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  7. não importa o que aconteça
    chaol e aelin forever

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  8. também acho que o principe vai ficar com a Brucha... rsrsrsrs

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  9. Gente Dorian é tipo Elsa de frozen

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Boa leitura :)