26 de janeiro de 2017

Capítulo 6

Halt os ouviu saindo às três da manhã. Eram ladrões e estavam acostumados a se mover silenciosamente. Mas os sentidos dos arqueiros eram finamente aguçados e ele tinha sono leve. Ouviu seus movimentos furtivos e passos silenciosos enquanto reuniam seus equipamentos e saiam secretamente pela noite. A lua tinha ficado cheia e pálida horas atrás e havia uma proteção de nuvens dispersas no vento, enviando longas sombras que corriam através do acampamento silencioso.
Kord e Jerrel não tiveram problema em despistar as sentinelas. Os homens na vigia estavam cansados e entediados ao se aproximar o fim do seu turno de três horas. E, além disso, estavam mais propensos a esperar intrusos vindo de fora do acampamento do que pessoas de dentro saindo.
O rumor de que a companhia iria seguir para o sul e continuar a campanha era falso. Halt tinha planejado obrigar os ladrões a revelar suas intenções, assim, com a companhia tendo a obrigação de retornar para casa e debandar em um futuro próximo, não havia razão para os homens desertarem.
Ele esperou quinze minutos até que o perímetro do acampamento estivesse livre. Rolou, então, para fora das cobertas e saiu da tenda como um fantasma em seu encalço.
Apanhou suas próprias roupas da tenda de comando da companhia. Griff esperava por ele, uma lanterna escura lançava uma luz turva no interior.
— Morderam a isca? — perguntou.
Halt concordou com a cabeça. Trocou de roupa e colocou a bolsa pesada contendo seus lucros em cima da mesa.
— Pode colocar isso no cabedal da companhia — disse.
Ele sabia que a maioria dos companheiros contribuía para um cabedal que era usado para ajudar as famílias daqueles que morreram em uma campanha. Griff agradeceu com um aceno.
— Se você os pegar, sinta-se livre para trazê-los de volta para cá. Eu ficaria muito feliz em ver seu futuro desconforto.
— Oh, eu os pegarei, com certeza — Halt lhe disse. — E quando o fizer, eles decidirão o que farei com eles.
Apertou a mão do sargento e foi para o fundo da tenda, onde Abelard esperava. Subiu na sela e trotou para fora do acampamento. Não tentou se esconder, se identificando para as sentinelas enquanto ia.
Encontrou a estrada do norte e fez Abelard andar mais devagar. Ele não queria alcançar os dois homens tão rápido. Escondido em sua capa de arqueiro, eles poderiam não reconhecê-lo como seu antigo companheiro de tenda, mas a visão de um arqueiro viajando na mesma estrada poderia fazê-los entrar em pânico, abandonando seus planos por um tempo.
Enquanto o amanhecer chegava e a primeira luz cinzenta tomava a região, ele apertou o passo. Dentro em pouco, virou numa curva e teve a visão de duas figuras se arrastando ao longo da estrada, centenas de metros à sua frente. Agradeceu que a dor de cabeça e a visão turva que o tinham incomodado haviam sumido e ele não tivera nenhum problema em reconhecer os dois homens – Kord, alto e magro, Jerrel, mais compacto e rijo. Checou Abelard e saiu da estrada, onde o verde escuro das árvores iria escondê-los de vista.
Quando Kord e Jerrel viraram em outra curva e desapareceram, andou vagarosamente a meio-galope atrás deles.
Prosseguiu àquele passo pelo resto do dia. Quando a luz aumentou, foi capaz de distinguir suas pegadas na estrada poeirenta – suas sandálias de tachas do exército deixavam uma trilha fácil de seguir. Deixou-se ficar para trás, só se aproximando de novo quando a luz começou a faltar no fim de tarde.
Enquanto o crepúsculo caía, os dois homens saíram da estrada e montaram um acampamento.
Halt passou a noite enrolado em sua capa, encostado contra uma árvore e observando a luz do fogo que eles fizeram. Cochilou por breves instantes, confiante de que Abelard o acordaria se houvesse qualquer movimento no acampamento distante.
Acordou com frio e com cãibras na luz da manhã. O fogo tinha se extinguido antes do amanhecer e havia uma fina espiral de fumaça erguendo-se dele. Depois de meia hora, ele viu os dois homens se levantando e se movendo ao redor de seu acampamento.
Abelard estava de volta, entre as árvores, e Halt não precisava se esconder. Enrolado em sua capa, estaria invisível, mesmo que olhassem diretamente para ele. Seu estômago roncou quando eles reacenderam o fogo e ele sentiu o cheiro de bacon frito. Depois disso, o cheiro de café sendo feito encheu sua boca de água. Halt se contentou com o discreto punhado de água fria do seu cantil. Um parco substituto.
A dupla estava lentamente começando a se mover. Halt se mexeu desconfortavelmente algumas vezes, esperando sua volta para a estrada. Finalmente, enrolaram seus fardos e desmontaram o acampamento, seguindo a norte outra vez.
Ele esperou até que tivessem virado na curva mais próxima e foi até onde Abelard o esperava no meio das árvores. Ele apertou as correias da cintura – tinha deixado o cavalo selado à noite em caso de uma emergência – montou e cavalgou lentamente atrás deles.
Quando alcançou a curva, desmontou e foi em frente perscrutar o trecho seguinte da estrada.
Não havia sinal deles.
Por um momento, seu coração acelerou em pânico. Este trecho da estrada tinha pelo menos trezentos metros de comprimento – e de jeito nenhum eles poderiam ter alcançado o fim antes que ele tivesse feito a curva.
Onde tinham ido? Estiveram cientes de que estavam sendo seguidos? Talvez tivessem se abaixado em algum lugar ao longo da estrada e agora esperavam em um arbusto por quem quer que estivesse atrás deles. Ou tinham se movido mais rápido do que tinha pensado, e agora estavam além da curva distante?
Tentou se acalmar. Ambas as teorias tinham fundamento, admitiu. Mas era mais provável que tivessem saído da estrada e tomado um trilha paralela ao caminho. Agora estavam dentro do feudo Aspienne e poderiam estar perto da fazenda de Daniel.
Montou novamente em Abelard e bateu de leve com seus tornozelos nas ancas do cavalo. A tentação era galopar a toda para verificar se houvera, de fato, um desvio. Mas fazê-lo causaria barulho e poderia chamar-lhes a atenção. Ele trotou com o pequeno cavalo suavemente ao longo da superfície dura da estrada.
Depois de quarenta metros, encontrou o que procurava. Uma trilha estreita seguia para fora da estrada principal. Era usada por muitas pessoas e parecia ter sido estabelecida há algum tempo. Lançou os olhos à frente, mas a trilha serpenteava e se enroscava entre as árvores e não havia sinal de Kord e Jerrel. Mas enquanto estudava o chão, viu uma pegada conhecida. A bota direita de Kord deixava uma pegada mais profunda – resultado de uma postura irregular. Lá, na areia que formava a superfície do caminho, Halt podia ver o rasto distinto. Escorregou da sela e guiou Abelard ao longo da trilha. Assim não correria o risco de se encontrar com eles inesperadamente.
Logo, ele começou a sentir o cheiro de madeira queimando, depois o odor rico e característico de uma fazenda. Era uma mistura de esterco, feno recém-cortado e grandes animais que lhe disseram que estava se aproximando da fazenda de Daniel. Então ouviu um som que confirmou o fato.
Em algum lugar próximo, uma mulher gritou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)