26 de janeiro de 2017

Capítulo 6

Nihon-Ja

Uma hora passou sem nenhum sinal dos restos do exército do imperador. Shukin tomou uma decisão.
— Não podemos esperar muito, primo. Cada minuto de atraso faz Arisaka chegar mais perto de nós.
— Eu não gosto de abandonar meus homens. Eles lutaram em meu nome, afinal de contas. É um mau prêmio para eles se eu abandoná-los — Shigeru retrucou.
— Será ainda pior se eles verem você ser pego por Arisaka. Reito-san pode ficar para trás e levá-los até nós. Nós podemos arranjar um encontro. Mas agora, você deve pegar a estrada de novo.
— Reito disse que os homens de Arisaka estão há muitos dias atrás dele  o imperador apontou, mas Shukin não ficou convencido.
— Seu exército principal, sim. Mas nesse lugar, eu teria enviado rápidos exploradores para procurar por você. Eles podem ficar na nossa direção a qualquer momento. Afinal de contas, os sobreviventes das tropas de Ito estão viajando a pé e trazendo seus feridos com eles. Eles vão se mover muito mais devagar do que exploradores montados a cavalo.
Relutante, Shigeru concordou. Os homens da escolta começaram a desmontar os dois pavilhões e embalá-los. Reito e Shukin juntaram suas cabeças em um longo mapa e concordaram em um ponto de encontro onde Reito poderia levar os sobreviventes.
— Espere por nós aqui  Shukin disse a ele, apontando para uma vila marcada no mapa. — Nós vamos fazer contato com você.
Ele estava muito consciente da possibilidade de Reito e o resto dos homens de Shigeru poderem ser seguidos e capturados. Seria melhor se eles não pudessem falar a Arisaka exatamente onde o imperador deixou a área. Reito encontrou seu olhar, entendeu e assentiu.
— Procure-nos em alguns dias  falou.
Então, curvando-se às pressas para Shigeru, ele montou seu cavalo e cavalgou descendo a trilha para o sul.
Os outros montaram e viraram seus cavalos em direção do norte, começando descer junto à trilha que os trouxera para o alojamento de verão. Depois de alguns quilômetros, foram na direção de outra trilha ramificada para o oeste, e desceram dentro dos vales.
Shukin, cavalgando na frente, freou seu cavalo e esperou enquanto Horace o alcançava. Ele indicou uma nova trilha.
— Nós vamos pegar esse caminho. Vai nos conduzir para longe do Iwanai, onde vocês vão nos deixar.
Horace assentiu infeliz.
— Eu odeio deixá-los  ele disse. — Sinto como se estivesse desistindo de vocês.
Shukin se inclinou e segurou o antebraço do jovem guerreiro.
— Eu não consigo imaginar alguém que eu queira ter ao meu lado, Ora’ss-san. Mas como o imperador disse, essa não é sua luta.
 Eu sei disso  Horace respondeu. — Mas não tenho que gostar.
Shukin sorriu severamente.
— Olhe pelo lado positivo. Pelo menos a chuva parou.
Então ele impulsionou seu cavalo a um galope e o montou para retomar sua posição na cabeça da pequena coluna.
George cavalgou ao lado de Horace. Ele se mexeu em sua sela, recostando-se um pouco para dar conforto às suas costas doendo. George não era um cavaleiro especializado e Shukin empurrara o ritmo nas últimas horas. A procura por uma posição mais confortável durou muito tempo e ele tinha certeza que seu traseiro estaria roxo. Seus músculos da coxa estavam doloridos e duros. Seu desconforto era físico, mas sabia que Horace estava sentindo uma angústia mental que era tão ruim e ele queria tomar conta de seu amigo.
— Já estamos chegando?  Ele perguntou, escondendo um sorriso enquanto sua voz denunciava a velha queixa de crianças em uma viagem.
Horace não pôde deixar de sorrir de volta.
— Você não foi recrutado para isso, não é? Você provavelmente pensa que tudo seria reuniões políticas e banquetes formais no palácio de Ito.
— É verdade  George respondeu, com alguma simpatia. — Nunca me ocorreu que nós gastaríamos nosso tempo subindo e descendo montanhas a galope em trilhas que uma cabra que se preze evita. Se você... Olhe!  Ele gritou e se ajeitou na sela para empurrar Horace para um lado.
Horace ouviu um silvo selvagem quando algo passou por seu rosto, errando-o por centímetros. Então ele viu George agitando uma longa flecha fincada na parte de cima de seu braço. Enquanto ele assistia, George deslizou pela lateral de sua sela e bateu solidamente na terra da trilha.
Os atacantes saíram das árvores de ambos os lados. A saraivada inicial de flechas atingiu três homens, assim como George. Agora nove espadachins atacavam no pequeno espaço. Horace desembainhou sua espada e deixou seu escudo redondo em posição, seu braço esquerdo escorregando através das tiras e apertando a mão com velocidade de longas práticas.
Essa foi uma emboscada bem planejada, ele pensou. O inimigo tinha deixado o grupo passar, fluiu uma saraivada, então saíram das árvores enquanto a pequena coluna circulava na confusão.
Três dos atacantes convergiram no imperador, que estava andando a cavalo no meio do grupo, alguns metros à frente de George e Horace. Um agarrou as rédeas do cavalo do imperador, e assim que Shigeru sacou sua espada e o golpeou, o homem mergulhou para baixo do pescoço do cavalo para evitar o golpe. Instantaneamente, os outros dois foram sobre o imperador como chacais em um cervo. Eles agarraram seus braços e o empurraram contra sua sela, a espada caindo de sua mão enquanto ele batia no chão.
Seus retentores foram pegos de surpresa, envolvidos com outros seis atacantes. Horace tomou sua decisão em meio segundo. Seu instinto normal seria atacar a cavalo. Mas ele não estava montado em Kicker e ele não tinha ideia se seu cavalo tinha sido treinado para batalha. Além disso, o imperador estava no chão e ele tinha o risco de ser atropelado. Ele jogou uma perna por cima do cavalo e caiu no chão, correndo para frente para proteger Shigeru.
Um dos Senshi levantou sua espada com as duas mãos, mirando um em um só golpe o imperador indefeso. A espada de Horace era mais pesada do que a katana que os guerreiros de Nihon-Ja usavam. Mas ele também era maior e o agressor de Shigeru não tinha esse fator.
O Senshi pensou que só tinha tempo para matar Shigeru e se voltar para o guerreiro investindo. Teve um momento de surpresa quando o golpe de Horace na horizontal apanhou-o nas costelas, expondo enquanto ele levantava a espada para o alto, e destruiu sua armadura de couro envernizada. Então não sentiu mais nada.
Horace viu quando o segundo homem oscilou com a katana por cima da cabeça a partir da esquerda. Ele girou naquela direção e seu escudo parecia se mover por vontade própria, interceptando a lâmina afiada com um tinido ecoante. Ele sentiu o aço extremamente duro da katana dilacerar seu escudo, apunhalando em uma fração de segundo.
Assim que fez isso, ele avançou, limitando o homem por espaço, e chutando a parte chata do lado de seu joelho. A perna do homem desabou e ele tropeçou para frente com um grito agudo de dor. Uma estocada rápida acabou com seu choro e ele caiu aos pés de Horace.
Em uma luta contra vários inimigos, é fatal ficar em uma direção por muito tempo. Horace girou cento e oitenta graus, escudo levantado, apenas a tempo de bloquear a estocada do terceiro homem – aquele que tinha pegado as rédeas do imperador. Antes de Horace poder revidar, o homem levantou os braços com um grito asfixiante. Ele caiu de joelhos, com choque e surpresa em seu rosto. Atrás dele, Shukin estava equilibrado com sua espada pronto para outro golpe. Mas isso não era necessário. O assassino caiu para frente, seu rosto abaixado na terra molhada.
Horace olhou em volta rapidamente. A retaguarda da sentinela se apertou e foram cuidar dos dois outros agressores Senshi. Ele ouviu um som de colisão e alguém correndo pelo mato do declive do lado da trilha. Pelo menos um dos atacantes escapou. Shukin embainhou sua espada. Então ajudou Shigeru aos seus pés.
— Está tudo bem, primo?  Ele perguntou ansiosamente.
Shigeru deixou sua preocupação de lado.
— Eu estou coberto de lama e sem fôlego, mas são e salvo, graças ao Ora’ss-san.
Ele sorriu de gratidão para o jovem araluense.
Horace balançou sua cabeça.
— Estou feliz por estar a serviço  ele disse, um pouco formalmente.
Horace sempre ficava desconfortável quando as pessoas agradeciam por fazer o que ele considerava nada mais do que seu trabalho. Ele embainhou sua espada. O homem sênior da retaguarda foi abordado e estava falando para Shukin no rápido nihon-jin.
— Eles não são os homens de Arisaka?  Horace perguntou para o imperador.
Shigeru assentiu.
— Aquele é o elmo dos Shimonseki  ele disse, indicando um emblema de coruja estilizado no peitoral dos agressores, sobre o coração.
Shukin andou para se juntar a eles.
— Meu cabo contou nove deles  ele disse. — Dois fugiram. Meus homens mataram outros quatro, Ora’ss-san cuidou de dois e eu terminei com o sétimo.
Ele lançou um olhar de desprezo para as figuras esparramadas na trilha, então de má vontade tinha que admitir que aquele ataque quase obteve sucesso.
— Eles estavam bem organizados. Dois dos três se moveram para cortar o avanço da retaguarda, enquanto os três restantes te atacaram, primo. Eu não acho que eles contavam com a habilidade de Ora’ss-san com sua espada. Foi seu erro principal. Nós perdemos dois homens e um foi ferido na saraivada de flechas que eles lançaram.
Suas palavras trouxeram uma terrível percepção para Horace.
— Ah, Deus!  Ele exclamou.
Ele virou-se e correu de volta pela trilha para onde George estava caído na sela. Em toda a ação, ele havia se esquecido do escriba. Seu coração deu um surto de alívio quando viu a figura magra sentada ao lado da trilha lamacenta, dolorosamente cuidando de seu braço direito, ainda empalado por uma longa flecha de penas brancas. Sua manga estava encharcada de sangue e seu rosto estava pálido – mais pálido que o normal – mas ele estava vivo. Horace se ajoelhou ao lado dele.
— George!  Ele disse o alívio evidente em sua voz. — Você está bem?
— Não! Não estou!  George respondeu com espírito notável. — Eu tenho uma flecha enorme presa no meu braço e dói pra caramba! Como pode estar tudo bem nessas circunstâncias?
Por impulso, Horace foi tocar a flecha, mas George o empurrou, então gemeu como se o movimento repentino enviasse dor através de seu braço.
— Você salvou minha vida, George  Horace disse gentilmente, lembrando como sua companhia desengonçada o havia empurrado para fora do alcance da flecha mirada nele.
George fez uma careta.
— Bem, se eu soubesse que isso machucaria tanto, eu não teria feito! Eu deveria ter deixado eles te acertarem! Como se sobrevive desse jeito?  Ele exigiu com uma voz muito alta. — Como você consegue aguentar isso? Esse tipo de coisa é muito, muito doloroso. Eu sempre desconfiei que esses guerreiros fossem loucos. Agora eu sei. No futuro, eu...
Tanto faz o que ele planeja fazer no futuro, Horace nunca descobriria. Naquele momento, chocado com a dor da ferida e enfraquecido pela perda de sangue, os olhos de George giraram e ele deslizou para o lado.
— Pode ser uma boa coisa  o líder Senshi disse. — Nós vamos tirar essa flecha dele enquanto está inconsciente.
George se manteve inconsciente por alguns minutos. Mas isso deu tempo suficiente para Shukin e o curandeiro do imperador removerem a flecha do ferimento. Eles aplicaram um remédio na entrada e saída do ferimento e compeliram seu braço com roupa limpa.
Shukin observou o resultado com um olhar de satisfação.
— Isso vai curá-lo  ele disse. — O remédio vai tomar conta de qualquer infecção, mesmo que a flecha parecesse nova e limpa o suficiente. Ele vai ter uma dor no braço por algumas semanas, contudo.
Como numa deixa, os olhos de George se abriram. Ele olhou em volta com interesse nos rostos olhando para baixo sobre ele, então franziu o cenho.
— Meu braço dói  ele disse.
Horace e os outros caíram na gargalhada aliviados, que não fizeram nada para acalmar os sentimentos de George. Ele os fitava com indignação.
— Pode ser divertido para todos os tipos de guerreiros heroicos  ele disse. — Eu sei que todos tem o hábito de só ignorar esse tipo de coisa. Mas dói.
Horace gentilmente o ajudou a se levantar e o levou até onde seu cavalo estava esperando pacientemente.
— Vamos lá  ele disse, ajudando sua companhia a subir na sela. — Nós temos um longo caminho a percorrer ainda.
Ele estava feliz que George, geralmente um acompanhante tagarela, não teve vontade de falar enquanto eles montavam em direção da junção com a trilha de Iwanai. Horace tinha muito para pensar e ele queria preparar suas palavras com cuidado. Ele sabia que George poderia discutir com o que ele tinha em mente e sabia que George foi treinado em coerência e a habilidade de expressar pensamentos com clareza e precisão.
Eventualmente, a hora chegou quando o imperador e Shukin frearam seus cavalos e indicaram um despenhadeiro, uma faixa estreita que conduzia para baixo para o sudoeste.
— Vocês nos deixam aqui  o imperador disse. — É um dia cavalgando para o Iwanai por esse caminho. Duvido que vocês vão correr mais que os homens de Arisaka nessa trilha.
— Tenham cuidado quando chegarem ao porto, de qualquer jeito. Fiquem fora de vista tanto quanto conseguirem até estarem a bordo de seu barco.
— Um de meus homens vai guiá-los  Shukin disse.
Mas Horace balançou a cabeça.
— Nenhum de seus Senshi  ele disse. — Um criado está bom. Vocês precisam de todos os homens lutadores que tem com vocês.
Shukin assentiu, reconhecendo a prudência.
— Tem razão. Muito bem, um dos criados vai guiá-los.
Horace ficou sentado em silêncio enquanto George fazia suas despedidas. O imperador, ele notou, parecia olhar divertido enquanto tudo estava acontecendo, talvez percebendo o que Horace tinha em mente. Eventualmente, George bateu as rédeas no pescoço de seu cavalo e virou sua cabeça em direção da trilha íngreme e estreita.
— Vamos lá, Horace. É hora de ir.
Horace pigarreou desconfortável.
— Esse é o assunto, George  ele disse. — Eu vou ficar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)