26 de janeiro de 2017

Capítulo 5

Eram várias horas depois da meia-noite quando Philip saiu da grande casa no final da aldeia. Movia-se furtivamente, permanecendo nas sombras das casas. Em sua mão direita, ele carregava um grande saco de lona branca.
Gilan observava de um beco lateral quando o senescal passou por ele, a menos de três metros de distância. Philip nunca o notou, mas ele estava perto o suficiente para que Gilan ouvisse o inconfundível tintilar quando Philip trocou o saco para a outra mão.
Dinheiro, ele pensou. E bastante.
Assim que o senescal se afastou, Gilan correu levemente a parte de trás do beco. Ficando paralelo à estrada da vila, ele continuou a mover-se em uma corrida, os pés mal fazendo som sobre a terra macia. Até o momento em que ele chegou ao fim da aldeia, já havia ultrapassado Philip e agora estava cerca de dez metros a frente dele.
Philip caminhava lentamente, a cabeça pendendo para baixo, sobrecarregado pelo saco pesado.
Ele não tomava nenhum interesse em seu entorno. Neste momento da noite, não esperava ver ou ser visto por alguém.
Gilan virou em ângulo e encontrou a cobertura das árvores. Ele continuou a correr, ainda permanecendo paralelo à estrada, voltando para o castelo e cada vez mais à frente da figura pensativa atrás dele.
Depois do pôr do sol, o posto de guarda externo não ficava aberto. Os guardas retiravam-se para dentro do castelo e o portão pesado de ferro era baixado para barrar a entrada. Mas ainda havia sentinelas nas ameias e o caminho principal estava sendo vigiado.
No entanto, quando Gilan tinha seguido Philip do castelo mais cedo naquela noite, tinha visto o senescal escalar desajeitadamente pela encosta de entulho espalhado ao lado da estrada por vários metros, onde uma trilha rústica e quase imperceptível percorria as rochas caídas. Ali, ele estava escondido da vista das sentinelas do castelo.
Gilan se moveu ao longo da pista até que estivesse a apenas poucos metros das altas muralhas do castelo. Então escorregou rapidamente para trás até ao nível do solo. Pressionando-se contra a pedra áspera, ele moveu-se para a esquerda, virando-se para uma das torres do canto. Depois de poucos metros, ele chegou a uma pequena portinhola que Philip tinha usado para deixar o castelo.
— Há sempre um caminho secreto de dentro para fora — ponderou Gilan quando tinha visto o senescal desbloquear o portão no início da noite.
Esta era a razão por ele estar correndo a frente de Philip. Quando o outro homem entrasse novamente no castelo, ele teria a certeza de trancar a porta. Gilan empurrou e fechou a porta atrás dele e se mudou furtivamente para a torre de guarda. Uma vez lá dentro, ele se escondeu atrás de uma cadeira de espaldar alto, de onde tinha uma visão do escritório de Philip e da porta maciça para a sala forte onde o dinheiro dos impostos era mantido seguro.
Ele tinha estado no local por vários minutos quando a porta exterior se abriu e Philip deslizou para entrar na fortaleza. Ele olhou em volta, certificando-se de que não havia ninguém olhando, então correu para a porta da sala forte. Mais uma vez, Gilan ouviu o tilintar das moedas enquanto ele colocava o saco branco no chão e se atrapalhava com a chave para abrir a sala forte.
Alguns minutos depois, ele saiu mais uma vez e ocupou-se com as várias fechaduras na porta da sala forte. Ele testou a porta para se certificar de que estava segura. Então, com um suspiro cansado, fez o seu caminho para o escritório e entrou.
Gilan sabia que os aposentos privados de Philip estavam localizados por trás do escritório. Ele também notou que, quando o senescal havia emergido da sala forte, ele não estava carregando o saco de dinheiro.
— Fascinante — Gilan disse para si mesmo.


— É um grande risco — Barão Douglas disse, franzindo a testa, quando Gilan contou a primeira parte de seu plano. — Você planeja enviar o dinheiro dos impostos em uma carruagem pequena, sem escolta? Eu não gosto disso.
— Não é exatamente sem escolta— disse Gilan. — Apesar de tudo, eu vou viajar na carruagem.
O Barão Douglas não pareceu convencido. Arqueiro ou não, um homem faria pouca diferença se o bando de Foldar decidisse atacar.
— O ponto é — Gilan continuou — que Foldar vai pensar que o dinheiro do imposto está no comboio habitual. Vamos organizar as coisas de modo que o comboio com a escolta de costume saia dez minutos após a pequena carruagem partir.
O Barão Douglas recostou-se na cadeira, balançando a cabeça, em dúvida.
— Se Foldar decidir roubar o dinheiro dos impostos, vai estar vigiando o castelo. E ele vai ver uma pequena carruagem com você a bordo poucos minutos antes da grande carroça e sua escolta. Ele vai saber que você não iria deixar o dinheiro fora de sua vista e vai sentir o cheiro de uma armação. Ele vai ver através de seu plano. Ele não é bobo, sabia.
— Eu estou apostando nisso — Gilan sorriu — porque estou planejando um blefe duplo. O dinheiro vai estar realmente onde deveria estar – no vagão grande com a escolta. Assim, enquanto Foldar está ocupado atacando a carruagem pequena – dando-me uma chance para capturá-lo – a carroça com o imposto real estará quilômetros de distância e segura.
Por um momento, Douglas estava sem palavras. Seus lábios se moviam silenciosamente enquanto ele interpretava o trabalho complicado feito pela mente de Gilan.
— Então, o grande comboio, que supostamente é um chamariz, vai realmente ter o dinheiro a bordo o tempo todo. Enquanto a pequena carruagem, com você dentro, será o chamariz?
— Exatamente — Gilan respondeu alegremente. — Às vezes eu sou tão malandro que eu confundo a mim mesmo.
— Eu não gostaria de estar no seu lugar quando Foldar alcançar você e perceber que o enganou — disse Douglas.
— Isso é parte do plano. Eu quero que ele me alcance. Vai me poupar de rastreá-lo.
Douglas balançou a cabeça com as palavras.
— Melhor você do que eu. Eu não gostaria de enfrentá-lo quando ele estiver com raiva. Aqueles seus olhos são o suficiente para provocar arrepios na espinha. Eles são frios e sem vida, como os de uma cobra.
— Eu matei algumas cobras no meu tempo — Gilan replicou, deixando sua maneira despreocupada ir embora.
Douglas esfregou o queixo nervoso quando viu o súbito olhar de aço do jovem arqueiro. Ele deixou seu olhar vagar longe e rapidamente mudou de assunto.
— É claro, os homens que conduzem as carruagens vão saber qual tem o dinheiro dentro. Nós vamos ter que ter certeza de que eles não falem.
— Mantenha-os trancados por um dia — disse Gilan e as sobrancelhas de Douglas se reuniram em uma carranca.
— Não é uma medida um pouco drástica? — questionou.
Gilan acenou com o protesto de lado.
— Você não tem que trancá-los em uma masmorra. Apenas mantê-los incomunicáveis por um dia. Não podemos arriscar que uma palavra do blefe duplo chegue a Foldar. E nós sabemos que existe um informante em algum lugar do castelo. Dessa forma, você e eu seremos os únicos que sabem a verdadeira história.
— E Philip, é claro. Ele tem que contar o dinheiro e certificar os formulários de impostos. Você quer que eu o prenda também?
Gilan hesitou por um momento, então disse facilmente:
— Não. Tenho certeza de que podemos confiar em Philip.


— Quantos homens há em sua tropa? — Gilan perguntou ao lavrador de barba ruiva.
Seu nome era Bran Richards e ele era o comandante da tropa local de arqueiros. Cada feudo no reino fora encarregado de manter uma força de arqueiros. Os homens treinavam durante todo o ano, além de suas tarefas normais de arar, colher ou moer. No caso de uma guerra, eles poderiam ser chamados para o exército real e estar prontos para lutar imediatamente.
— Quinze — respondeu o homem. — Deveria ser dezoito, mas perdemos três na guerra. Eu vou ter que recrutar três novos homens e começar a treiná-los em breve.
— Hmm... bem, seis devem ser o suficiente para os meus propósitos. Escolha os seus seis melhores arqueiros e me espere depois de amanhã três quilômetros além do ponto onde a estrada da costa e a estrada alta divergem. Há um pequeno bosque de árvores ali onde vocês podem se esconder. Fiquem fora de vista. Na verdade, pode ser melhor vocês se moverem para a posição antes da primeira luz.
Bran assentiu.
— Será como você diz.
Um novo pensamento atingiu Gilan.
— Mais uma coisa — disse ele. — Diga a seus homens este é apenas um exercício de campo de rotina. Não mencione que eu estou envolvido, tudo bem? Na verdade, não mencione a ninguém.
Bran acenou com a compreensão. Ele apontou para o jarro sobre a mesa entre eles. Eles estavam sentados na sala de estar confortável de sua casa.
— Mais cidra? — ele ofereceu.
Mas Gilan balançou a cabeça.
— Eu preciso manter a cabeça limpa. Tenho um monte de arranjos a fazer.

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