26 de janeiro de 2017

Capítulo 5

O soldado Jerrel da companhia texugo negro estava trabalhando em um par de dados. Já tinha terminado o primeiro e estava quase acabando o segundo. Ele estava limando e arredondando os cantos, de modo que o dado teria a tendência a rolar ligeiramente para um lado pré-selecionado, mostrando a pontuação de seis com mais frequência do que o puro acaso permitiria. Não era tão confiável quanto o método alternativo de fixação. Este envolvia cuidadosamente uma inserção de pesos para fazê-lo cair com a face escolhida para cima. Mas lixar os cantos aumentava sua chance de ganhar na rolagem dos dados.
No bolso, ele tinha um par de dados contrabalanceados, cuidadosamente manipulados para mostrar dezenas de um e dois. Mas essa manipulação nos dados era um negócio complicado de se fazer. Levou muito tempo para remover todos os sinais de que algo havia sido inserido nos pequenos cubos. Seu outro par tinha sido confiscado alguns dias antes por um oficial. Agora, ele teve de recorrer ao arredondamento dos cantos para substituí-los. Você precisaria de dois pares de dados adulterados para fazer uma nova vítima. Você usa um par, permitindo-lhe ganhar as primeiras rodadas, somente para lhe deixar interessado. Então, quando ele pensar que a sorte estava com ele, você sugere aumentar as apostas. E quando ele estiver de acordo, você troca os dados para que ele tire um número baixo.
Uma sombra caiu sobre a entrada da tenda e Jerrel apressadamente empurrou os dados para debaixo de um pequeno cobertor. A entrada da tenda foi bloqueada por um momento, enquanto o homem entrava.
Jerrel olhou para cima, franzindo o cenho. O recém-chegado carregava uma mochila e uma espada ainda na bainha. Usava um uniforme de soldado com um texugo negro gravado no lado esquerdo do peito. Ele olhou ao redor, pelo interior da tenda, viu uma cama vazia e deixou cair seus pertences sobre ela.
— Quem diabos é você? — Kord perguntou.
Ele estava deitado em seu próprio beliche no lado oposto da tenda e seu descontentamento era evidente em sua voz. Ele e Jerrel gostavam de ter a tenda somente para si. Seus companheiros de tenda haviam sido mortos ou feridos na batalha. Agora, ao que parecia, eles tinham um novo soldado se juntando a eles.
— Meu nome é Arratay — disse o recém-chegado. — Eu fui transferido do segundo batalhão. O sargento disse que meu beliche ficava aqui.
Ele era um homem baixo, franzino, mas com ombros poderosos e um peito forte. Sua barba e cabelos eram irregulares e despenteados. Ele tinha uma bandagem suja enrolada em volta da cabeça. Acima dele, o cabelo era preto e os olhos eram escuros e penetrantes.
Como uma ave de rapina, Jerrel pensou. Então ele sorriu com a ideia. Era mais provável que o estranho se tornasse presa fácil para ele e Kord uma vez que tivesse a chance de terminar de trabalhar no par de dados. Mesmo assim, não queria o estranho na tenda com eles.
— Encontre outro lugar para dormir — disse Jerrel. — Aqui está cheio.
— Há apenas vocês dois — Arratay observou razoavelmente, olhando ao redor da tenda.
— Você ouviu — Kord falou incisivamente. — Agora saia daqui.
Arratay encolheu os ombros.
— Se está dizendo...
— É, eu estou — disse Kord. — Agora saia daqui .
Encolhendo os ombros, o recém-chegado pegou sua mochila e deixou a tenda.
Jerrel sorriu para Kord. Foi fácil, pensou. Em seguida, seu rosto empalideceu ao ouvir uma voz do lado de fora da tenda.
— Você aí! Arratty ou o que quer que seja! Onde você acha que está indo? Eu disse que sua beliche é na barraca 43, não disse?
— A tenda está cheia, sargento — Arratay respondeu.
— O inferno que está!
Kord e Jerrel trocaram olhares exasperados quando ouviram os pesados passos se aproximando. Então a abertura da tenda foi jogada para trás e o grande corpo do sargento major Griff apareceu na entrada.
— Minha tia de bigode que está cheia! Entre aqui! — ele olhou para os dois ocupantes. — Vocês dois vão arrumar esse quarto! — gritou.
— Sim, sargento. — Jerrel respondeu mal-humorado.
Kord soltou um grunhido em resposta. Enquanto Arratay entrava novamente na tenda, Griff deu um passo a frente para barrar o seu caminho, com as mãos na cintura e postura agressiva.
— Quanto a você, Aratty, pode ir para a cozinha. Limpará as lixeiras e esfregará as panelas dos cozinheiros pelo resto do dia. Para que da próxima vez não se esqueça de fazer o que eu mandar.
— Sim, sargento — respondeu o pequeno homem.
Seus olhos estavam virados para baixo, não satisfeitos com as ordens do comandante. Quando Griff saiu da sala, Arratay fez um gesto insultuoso para suas costas. Então ele se virou, dando de ombros, para Jerrel e Kord.
— Desculpem-me por isso.
Eles trocaram um olhar, então Jerrel se levantou e tomou a mochila de Arratay, colocando-a em uma cama vazia.
— Ninguém pode te ajudar. Griff pode ser verdadeiramente cruel. Melhor se contentar com a cozinha ou ele vai fazer pior.
Ele chamou a atenção de Kord. Assim que Arratay desaparecesse, eles remexeriam em sua mochila para ver se havia alguma coisa de valor para roubar. Kord acenou discretamente. O mesmo passava por sua mente.
Arratay suspirou e virou-se para ir embora. Quando ele chegou à saída, Kord o chamou:
— Quando você terminar o seu trabalho, talvez queira participar de um joguinho de dados?
Arratay sorriu para eles.
— Parece divertido.


Kord ergueu as mãos, escarnecendo.
— Outro lance vencedor! De onde é que a sua sorte vem, Arratay?
O pequeno soldado sorriu feliz enquanto arrastava os seus ganhos. Ele tinha jogado e vencido três vezes seguidas e já não havia uma pilha respeitável de moedas na frente dos outros dois.
— Apenas um dia de sorte, suponho — disse ele, empurrando uma nova aposta a frente e agitando os dados em seu copo.
Os cubos de osso ressoaram juntos e então rolaram sobre a mesa.
— Dois seis novamente! — Jerrel exclamou. — Eu não acredito! — Ele olhou para Kord. — Eu acho que nós temos um profissional na tenda.
Kord acenou com a cabeça tristemente, mas Arratay apenas riu.
— Não, rapazes. É apenas a vida e a consciência limpa. Querem aumentar as apostas? — ele perguntou em tom casual, mas notou o olhar rápido e furtivo trocado por entre os dois homens.
Kord concordou, depois de um show breve de relutância.
— Bem, eu poderia estar louco, mas por que não? Ele vai nos dar uma chance de ganhar um pouco do nosso dinheiro de volta.
— Ou eu vou limpá-los mais cedo — Arratay sorriu.
Ele colocou outra aposta na frente, esperou até que eles correspondessem, então rolou novamente seus dados. Onze dessa vez, uma vitória automática.
— Você não pode rolar apenas cinco e seis — Jerrel disse.
— Apenas quando eu estou quente.
Arratay sorriu novamente, mas seus olhos se estreitaram desta vez. Ao invés de deixá-lo recuperar os dados, Kord apanhou-os e os entregou.
Ele fez a troca, Halt pensou. Ele pegou os dados, os colocou no copo, sacudiu-os e tornou a jogá-los.
Os outros dois mostraram uma alegria irônica quando os dados caíram virados para cima, mostrando dois e um.
— Três! — disse Jerrel. — Já era hora!
Era um jogo simples. Onze e doze resultava em vitória automática. Dois e três em derrota. Qualquer outro valor não contava. O jogador simplesmente jogava os dados até ganhar ou perder. Halt fez uma careta quando os outros pegaram no dinheiro que ele tinha apostado. Os dados foram passados para Jerrel e ele os rolou, tirando um seis. Em seguida, um quatro, então um dois. Halt ganhou de volta uma pequena fração do que tinha perdido em seu último lance. Kord tomou os dados e se atrapalhou ao colocá-los no copo.
Ele os trocou novamente, Halt pensou. E estava certo, Kord tirou um onze, depois um doze, enchendo suas duas mãos pequenas de moedas, antes de trocar os dados uma vez mais e tirar números baixos. Em seguida, entregou os dados para Halt. No processo de entregá-los, mudou-os novamente para os dados vencedores. As duas fraudes impediam que Arratay, como eles pensavam que ele se chamasse, perdesse o entusiasmo cedo demais. O jogo continuou, Halt ganhou algumas vezes, perdeu outras, mas geralmente permanecia perto de ficar quebrado.
As trapaças funcionavam melhor com um pouco de vinho, o qual ele repetidamente derramava em uma bota vazia quando os dois estavam distraídos. Mas ele fingiu tornar-se mais e mais afetado pela bebida, sussurrando palavras e rindo estupidamente quando ganhava.
— Amanhã será um grande dia — disse ele depois de terem jogado durante algum tempo. — Vamos sair cedo e ir para o sul.
Seus dois companheiros reagiram surpresos.
— Sul? — Kord perguntou. — Por que o sul? Nós deveríamos estar nos separando para ir pra casa.
Halt balançou a cabeça e olhou para eles, com um olhar de coruja.
— Não mais. Não mais — disse ele, tocando no lado do nariz com o dedo indicador. — Os Wargals estão formando resistências mais duras do que o esperado. Morgarath os tem sob controle e Duncan precisa de homens extras. Nós estaremos lá — acrescentou, após uma pausa.
Ele pôde ver que a notícia teve o efeito esperado. Kord e Jerrel trocaram um olhar. Então Jerrel questionou-o ainda mais.
— Onde você ouviu isso? — perguntou.
— Na cozinha. Os cozinheiros tinham feito comida extra para a nossa partida.
Os dois trapaceiros se entreolharam consternados. Os rumores da cozinha eram a fonte do conhecimento dos soldados. E eles tinham a reputação de serem precisos. Halt, é claro, não ouviu tais rumores. Mas ele esperava que o pensamento de uma partida iminente para o sul poderia mudar os planos de Kord e Jerrel. Se eles estavam planejando roubar a fazenda de Daniel, poderiam se precipitar. Ele se inclinou para frente, com os olhos turvos olhando para a mesa.
— Agora, onde estão os dados? — perguntou ele. — É minha vez!
— Estão aqui — disse Kord, jogando os dados no copo e os entregando em seguida.
Ele tinha acabado de perder o último lance e era novamente a vez de Halt. Halt achava que tinham entregado-lhe os dados feitos para perder. Suas suspeitas foram confirmadas pelas palavras do próprio Jerrel.
— Está ficando tarde. Vamos colocar tudo em um último grande pote. O que me dizem?
Kord fingia um olhar duvidoso.
— Quem decide é Arratay.
Halt encolheu os ombros.
— Por que não? Sinto que minha sorte está voltando.
Todos eles empurraram o dinheiro que restava para o centro da mesa. Halt pegou sua caneca e tomou um gole, o maior que tinha tomado por toda a noite.
Então, ele desajeitadamente deixou a caneca cair, derramando o vinho sobre a mesa, sacudindo-o em direção a Jerrel de modo que uma maré vermelha fluía na madeira bruta e em seu colo. Jerrel saltou para trás gritando uma maldição.
— Cuidado!
— Desculpe. Desculpe — disse Halt.
Mas na confusão, trocou os dados que o fariam perder por outro par que tinha no bolso do gibão. Os tinha preparado naquela tarde, enquanto deveria estar na cozinha, e eles foram raspados para que pudessem mostrar doze, duas faces de seis.
Ele os balançou, murmurando o que fazer, e em seguida, os derramou sobre a mesa.
— Que pe... — começou Kord, já estendendo a mão para o dinheiro.
Então ele parou quando viu dois seis brilhando para ele, dois conjuntos de dentes em dois pequenos crânios.
— Como você... ? — Jerrel parou quando percebeu que ia entregar o jogo se fosse mais longe.
Arratay podia ter bebido. Mas ele não estava tão bêbado.
Halt sorriu tolamente enquanto recolhia os dados.
— Dados de sorte! — disse. — Eu amo esses dados!
Ele fingiu beijá-los ruidosamente, e trocou-os mais uma vez para o par dos perdedores que o tinham sido entregues no começo. Feito isso, ele enfiou próprios dados no bolso e deixou cair os outros de volta para a mesa quando começou a remexer em seus ganhos.
— Sem ressentimentos, meninos. Eu darei a vocês uma chance para se vingarem amanhã.
— Sim. É claro. Amanhã — Kord concordou. Mas o tom de Halt dizia que não haveria nenhum jogo na noite seguinte. E que não haveria sinal de Kord ou de Jerrel.
Meia hora depois, Halt estava deitado de costas, respirando pesadamente e ruidosamente pela boca, fingindo dormir. Seus dois companheiros de barraca estavam conversando em voz baixa. Eles esperaram até terem certeza de que Halt estava totalmente adormecido. Kord estava testando os dados, rolando-os uma vez e outra, e perdendo constantemente.
— Eu não entendo — disse ele calmamente. — É simplesmente impossível conseguir um doze com esses dados.
— Cuidado — Jerrel lembrou, lançando um olhar rápido em direção Halt. Mas seu companheiro acenou calmamente.
— Ah, ele está tão apagado quanto o céu — disse ele. — Você viu o quanto ele bebeu? Está tão cheio quanto uma bota.
A boca de Halt se contraiu em diversão. Definitivamente, existe uma bota cheia na tenda, ele pensou. Sua respiração estava tão alta que tornava difícil ouvir o que os outros estavam dizendo, então ele se mexeu, murmurou algo e rolou para o lado, de costas para eles. Parou de roncar quando estava novamente de lado, mas manteve sua respiração profunda e regular. Kord e Jerrel hesitaram quando ele se mexeu, mas logo relaxaram quando se tornou óbvio que ele não tinha acordado.
Mais uma vez, Kord testou os dados. Mais uma vez, tirou três.
— Não é possível — disse Jerrel com raiva. — Foi um acidente. Eles devem ter atingido uma fresta ou um entalhe na mesa. Além disso, temos coisas mais importantes para pensar.
Relutantemente, Kord colocou os dados no bolso.
— Você quer dizer esse rumor sobre nós irmos em direção ao sul?
Jerrel assentiu.
— A última coisa que queremos é ficar amarrados em outra campanha. Poderia continuar por semanas e nós temos lugares melhores para visitar. Se formos com eles, perderemos a chance que teríamos quando os soldados fossem dar a notícia às viúvas.
Halt, afastado do outro lado da tenda, se permitiu uma carranca de raiva. Era verdade, pensou, os dois estão planejando roubar as famílias dos homens mortos em batalha.
— Então, qual é seu plano? — Kord perguntou.
Jerrel fez uma pausa, então chegou a uma decisão.
— Vamos nos retirar esta noite. Vamos sair uma ou duas horas antes do amanhecer e pegar a estrada para o norte. Vamos para fazenda do sargento primeiro. É a mais próxima.
— Seremos açoitados se eles nos pegarem desertando — Kord falou, mas Jerrel dispersou seu protesto.
— Eles não vão nos pegar. Com todas essas perdas recentes, eles nem mesmo vão perceber que sumimos.
— Griff vai saber. Tenho a sensação de que ele está de olho em nós.
Kord bufou escarnecendo.
— Griff vai estar muito ocupado fazendo o seu trabalho, e o trabalho do sargento não é se preocupar conosco. Ele provavelmente ficará aliviado. Agora vamos dormir. Precisaremos levantar cedo amanhã.
— E quanto a ele? — Jerrel perguntou, apontando o polegar em direção à Halt.
Kord hesitou.
— Eu gostaria de bater em sua cabeça e tomar nosso dinheiro de volta. Mas se o matarmos, Griff vai ficar sabendo. E ele não se esqueceria de enviar homens atrás de nós. Melhor o deixarmos em paz.

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