30 de janeiro de 2017

Capítulo 58

Kaltain Rompier tinha acabado de virar a maré daquela guerra.
Dorian nunca ficara mais envergonhado de si mesmo.
Ele deveria ter sido melhor. Deveria ter visto melhor. Todos deveriam ter.
Os pensamentos rodopiavam e corriam enquanto Dorian voltava para o complexo do templo meio afundado, silenciosamente observando enquanto Aelin estudava a urna no altar como se fosse um oponente.
A rainha agora era flanqueada por Lady Elide, Manon do outro lado da menina de cabelos escuros, Lysandra esparramada em forma de leopardo fantasma aos pés da rainha.
O poder naquele grupo sozinho era assombroso. E Elide... Manon tinha murmurado algo a Aelin em seu passeio de volta para as ruínas sobre Elide ser observada por Anneith.
Zelada, como o resto deles parecia ser por outros deuses.
Lorcan entrou nas ruínas, Rowan ao seu lado. Fenrys, Gavriel e Aedion aproximaram-se deles, as mãos nas espadas, corpos ainda tremendo com tensão conforme mantiveram Lorcan à vista. Especialmente os guerreiros de Maeve.
Outro círculo de poder.
Lorcan – Lorcan, abençoado pelo próprio Hellas, Rowan lhe contara naquela viagem de esquife às Ilhas Mortas. Hellas, deus da morte. Que viajara aqui com Anneith, sua consorte.
Os pelos dos braços de Dorian se ergueram.
Descendentes — cada um deles tocado por um deus diferente, cada um deles sutilmente, silenciosamente, guiado até aqui. Não era uma coincidência. Não podia ser.
Manon percebeu que ele estava a poucos metros de distância, lendo o que estava em seu rosto, e saiu do círculo de mulheres que conversava silenciosamente para vir para o seu lado.
— O que foi?
Dorian cerrou a mandíbula.
— Eu tenho um mau pressentimento sobre isso.
Esperou a dispensa, a zombaria. Manon apenas disse:
— Explique.
Ele abriu a boca, mas Aelin ergueu a tampa.
O cadeado – o cadeado que conteria as chaves de Wyrd, permitiria a Aelin colocá-las de volta em seu portão. Graças à Kaltain, graças a Elide, eles só precisavam de mais uma. Onde quer que Erawan a guardasse. Mas conseguir aquele cadeado...
Rowan estava instantaneamente ao lado da rainha enquanto olhava para dentro da urna.
Lentamente, ela olhou para eles. Para Manon.
— Venha aqui — chamou a rainha em uma voz nervosa.
Manon, sabiamente, não se recusou.
— Este não é o lugar ou a hora para explorá-lo — disse Rowan à rainha. — Nós o movemos para o navio, então descobriremos a partir daí.
Aelin murmurou em concordância, seu rosto empalidecendo.
— O cadeado esteve alguma vez aqui em primeiro lugar? — Manon perguntou.
— Eu não sei.
Dorian nunca tinha ouvido Aelin pronunciar essas palavras. Foi o suficiente para fazê-lo correr para cima, pingando água enquanto olhava.
Não havia cadeado. Não da maneira que eles esperavam, não da maneira como a rainha que foi prometida fora instruída a encontrá-lo.
A urna de pedra tinha apenas uma coisa:
Um espelho ligado ao ferro, a superfície quase dourada com a idade, salpicada e coberta de sujeira. E ao longo da borda trançada, intrincadamente esculpida, dobrada no canto superior direito...
Uma marca do Olho de Elena. Um símbolo das bruxas.
— O que diabos é isso? — Aedion exigiu dos degraus abaixo.
Foi Manon quem respondeu, olhando de soslaio para a rainha de rosto sombrio:
— É um espelho de bruxa.
— Um o quê? — Aelin perguntou.
Os outros se aproximaram.
Manon passou uma unha na borda de pedra da urna.
— Quando você matou Pernas Amarelas, ela deu alguma dica sobre por que estava lá, o que queria de você ou do antigo rei?
Dorian procurou sua própria memória, mas não encontrou nada.
— Não. — Aelin olhou para ele fazendo uma pergunta, mas Dorian balançou a cabeça também. Ela perguntou à bruxa: — Você sabe por que ela estava lá?
Uma sugestão de um aceno de cabeça. Um suspiro de hesitação. Dorian se preparou.
— Pernas Amarelas estava lá para se encontrar com o rei... para mostrar a ele como seus espelhos mágicos funcionavam.
— Eu quebrei a maioria deles — disse Aelin, cruzando os braços.
— Tudo o que você destruiu foram truques baratos e réplicas. Um verdadeiro espelho de bruxa... não se pode quebrá-los. Não é fácil, pelo menos.
Dorian tinha uma sensação horrível sobre onde aquilo daria.
— O que eles podem fazer?
— Podem ver o futuro, passado, presente. Você pode falar entre espelhos, se alguém possuir a irmã do vidro. E depois há as raras pratas... cuja forja exige algo vital do fabricante — a voz de Manon baixou. Dorian se perguntou se, mesmo entre as Bico Negro, essas histórias só haviam sido sussurradas em suas fogueiras. — Outros espelhos amplificam e mantêm explosões de energia bruta, para serem liberados se o espelho estiver apontado para algo.
— Uma arma — disse Aedion, fazendo um gesto de cabeça para Manon. O general também devia estar juntando as peças porque perguntou antes que Dorian pudesse: — Pernas Amarelas se encontrou com ele por causa dessas armas, não é?
Manon ficou em silêncio por tempo suficiente para que ele soubesse que Aelin estava prestes a forçar. Mas Dorian lhe lançou um olhar de advertência para esperar. Então ela o fez. Todos esperaram.
Finalmente, a bruxa falou:
— Eles estão fazendo torres. Enormes, contudo capazes de serem transportadas através de campos de batalha, forradas com aqueles espelhos. Para que Erawan use seus poderes... para incinerar seus exércitos com algumas explosões.
Aelin fechou os olhos. Rowan pôs uma mão em seu ombro.
Dorian perguntou:
— Isso é... — ele gesticulou para a urna, para o espelho lá dentro. — É um dos espelhos que eles planejam usar?
— Não — Manon respondeu, estudando o espelho de bruxa dentro do baú. — O que quer que este espelho seja... não tenho certeza do que significa. O que ele pode fazer. Mas certamente não é esse o cadeado que procuram.
Aelin tirou o Olho de Elena do bolso, pesando-o na mão, soltando um suspiro forte pelo nariz.
— Estou pronta para acabar com isso hoje.



Quilômetro após quilômetro, os machos feéricos carregaram o espelho entre eles.
Rowan e Aedion pressionaram Manon para obter detalhes sobre as torres das bruxas. Duas já estavam prontas, mas ela não sabia quantas mais estavam sendo construídas. Estavam no Desfiladeiro Ferian, mas com outras possivelmente em outros locais. Não, ela não sabia o modo de transporte. Ou quantas bruxas para cada torre.
Aelin deixou que as palavras se instalassem em alguma parte profunda e silenciosa de sua mente. Pensaria nisso amanhã – depois que dormisse. Pensaria naquele maldito espelho de bruxas amanhã, também.
Sua magia estava esgotada. Pela primeira vez em dias, aquele poço de magia dormia agora.
Ela podia dormir por uma semana. Um mês.
Cada passo através daqueles pântanos, de volta para onde os três navios estariam esperando, era um esforço. Lysandra frequentemente se oferecia para se transformar em cavalo e levá-la, mas Aelin recusou. A metamorfa estava drenada também. Todos estavam.
Ela queria falar com Elide, queria perguntar sobre tantas coisas a respeito desses anos separadas, mas... a exaustão que a incomodava tornou a conversa quase impossível. Ela sabia que tipo de sono acenava – o sono profundo e restaurador que seu corpo exigia depois de muita magia ser gasta, depois que ela tinha se segurado por muito tempo.
Portanto Aelin mal falou com Elide, deixando a senhora se inclinar sobre Lorcan enquanto se apressavam para a costa. Enquanto levavam o espelho com eles.
Muitos segredos – ainda havia muitos segredos com Elena e Brannon e sua guerra há muito tempo. O cadeado já existira? Ou o espelho de bruxa era o cadeado? Muitas perguntas com poucas respostas. Ela descobriria. Uma vez que estivessem de volta à segurança. Uma vez ela tivesse a chance de dormir.
Uma vez... que tudo se encaixasse, também. Então eles atravessaram os pântanos sem descanso.
Foi Lysandra quem percebeu com os sentidos de leopardo, a oitocentos quilômetros da praia de areias brancas e do mar cinza e calmo além, uma parede de dunas de areia ervosas bloqueava a vista à frente.
Todos tinham armas desembainhadas enquanto subiam pela duna, a areia escorregando debaixo deles. Rowan não se transformou – a única prova que mostrava sua total exaustão. Primeiro subiu a colina. Tirou a espada de suas costas.
A respiração de Aelin queimava em sua garganta quando ela parou ao lado dele, Gavriel e Fenrys gentilmente parando com o espelho do outro lado.
Porque uma centena de velas cinzas se estendia à frente, cercando seus próprios navios.
Estendendo-se ao horizonte ocidental, totalmente silenciosos, exceto pelos homens que mal conseguiam distinguir a bordo. Navios do oeste... do Golfo de Oro.
A frota de Melisande.
E na praia, esperando por eles... um grupo de vinte guerreiros, liderados por uma mulher de roupa camuflada cinza. As garras de Lysandra escaparam de suas patas enquanto ela soltava um grunhido baixo.
Lorcan empurrou Elide para trás dele.
— Nós nos retiramos para os pântanos — disse ele para Rowan, cujo rosto estava petrificado enquanto media o grupo na praia, a frota ameaçadora. — Podemos ultrapassá-los.
Aelin enfiou as mãos nos bolsos.
— Eles não vão atacar.
Lorcan zombou:
— Você está adivinhando isso com base em seus muitos anos de experiência na guerra?
— Cuidado — Rowan rosnou.
— Isso é um absurdo — Lorcan cuspiu, se contorcendo como se para agarrar Elide, de rosto pálido ao seu lado. — Nossos reservatórios estão drenados...
Lorcan foi impedido de puxar Elide por sobre um ombro por uma fina parede de fogo. Tanto quanto Aelin poderia invocar.
E por Manon e suas unhas de ferro pisando diante dele enquanto ela rosnava:
— Você não levará Elide a qualquer lugar. Nem agora, nem nunca.
Lorcan ergueu-se a toda sua altura. E antes que pudessem destruir tudo com suas brigas, Elide colocou uma mão delicada no braço de Lorcan – sua própria mão enrolada em torno do punho de sua espada.
— Eu decido isso, Manon.
Manon apenas olhou para a mão no braço de Lorcan.
— Discutiremos isso depois.
De fato. Aelin olhou para Lorcan e fez um movimento com a cabeça.
— Vão discutir em outro lugar.
A mulher encapuzada na praia, junto com seus soldados, agora vinha na direção deles.
Lorcan grunhiu:
— Ainda não acabou, esse negócio entre nós.
Aelin sorriu um pouco.
— Você acha que não sei disso?
Mas Lorcan rondava para Rowan, seu poder sombrio tremulando, ondulando como se estivesse em uma explosão silenciosa de um trovão. Assumindo uma posição defensiva.
Aelin olhou para o príncipe de pedra, depois para Aedion, a espada e o escudo de seu primo em ângulos e prontos, depois para os outros.
— Vamos dizer olá.
— Aelin... — Rowan começou.
Mas ela já estava andando pela duna, fazendo o melhor que podia para não cair na areia traiçoeira, para manter a cabeça erguida. Os outros que se arrastaram atrás ficaram tensos como cordas em arcos, mas a respiração deles permaneceu neutra – preparados para qualquer coisa.
Os soldados estavam vestidos com uma pesada e desgastada armadura cinzenta, os rostos ásperos e cicatrizados, avaliando-os quando atingiam a areia. Fenrys rosnou para um deles, e o homem desviou os olhos.
Mas a mulher encoberta puxou seu capuz quando se aproximou com graça felina, parando talvez a três metros de distância.
Aelin conhecia todos os detalhes dela.
Sabia que ela tinha vinte anos agora. Sabia que o cabelo de comprimento médio, vermelho cor de vinho era a sua cor de cabelo real. Sabia que os olhos castanhos avermelhados eram os únicos que ela tinha visto em qualquer terra, em qualquer aventura. Sabia que a cabeça do Lobo no pomo da poderosa espada em sua cintura era o brasão de sua família. Conhecia as sardas, a boca cheia, o sorriso, conhecia os braços enganosamente finos que escondiam o músculo duro enquanto ela os cruzava.
Aquela boca cheia inclinou-se em um meio sorriso enquanto Ansel de Penhasco dos Arbustos, Rainha dos Desertos, disse:
— Quem te deu permissão para usar meu nome em lutas sujas, Aelin?
— Eu me dei permissão para usar o seu nome quando eu desejar, Ansel, pelo dia em que poupei sua vida em vez de acabar com você como a covarde que é.
Aquele sorriso arrogante se alargou.
— Olá, cadela — Ansel ronronou.
— Olá, traidora — Aelin ronronou de volta, examinando o exército espalhado diante deles. — Parece que você chegou a tempo, afinal.

19 comentários:

  1. Vou parar por um minuto,apenas para terminar de ler A Assasina e o Deserto

    ResponderExcluir
  2. Tava me perguntando quando os outros personagens de A Lâmina da Assassina iriam aparecer

    ResponderExcluir
  3. Eu falei que a Ansel ia aparecer :v Todo mundo se reecontrando!

    -B.Bunny

    ResponderExcluir
  4. Li duas vezes a descrição antes de continuar e eu so não gritei de felicidade porque era duas da manhã

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Então somos duas kkk
      To na msm aq!
      Cara a Ansel!

      Excluir
  5. to tendo mini infartes com esses reencontros

    ResponderExcluir
  6. Ahhhhhhhhhhh

    Isso é tudo o que eu tenho a dizer.

    ResponderExcluir
  7. Pqp mano, vou marcar uma consulta com o cardiologista pq tô infartando aqui, AEEEEEEEEE FINALMENTE O POVO DO LIVRO NA LÂMINA DA ASSASSINA ESTÁ BROTANDO

    ResponderExcluir
  8. to pensando como o Dorian , se os deuses esta colocando eles todos juntos , e o que no inicio quando Helena disse que esperava que os descendentes perdoassem o que ela ia fazer , me parece que coisa boa nao vem . Tbm to com mal pressentimento com isso

    ResponderExcluir
  9. arrependida de não ter lido a lâmina da assassina... uma pausinha de um dia e volto pra cá

    ResponderExcluir
  10. Ooops pausa também não li A Lâmina da Assassina, vou ler e volto depois..afss esse livros é viciante

    ResponderExcluir
  11. Aelin cobrando suas dívidas!!!! Estava me perguntando quando isso iria acontecer.

    ResponderExcluir
  12. Melhores amigas si comprimentando kkkk.

    " — Olá, cadela — Ansel ronronou.
    — Olá, traidora — Aelin ronronou de volta "

    ResponderExcluir
  13. Lysandra tem q ficar mais na forma humana,fica difícil as coisas se desenrolarem com o Aedion assim.To esperando ate agr eles conversarem sobre ele praticamente ter pedido ela em casamento.

    ResponderExcluir
  14. Eu amo a Ansel kkk mesmo ela sendo uma vaca eu adoro ela , e o clube da lulusinha está crescendo kkkk só falta a Ansel se apaixonar por um dos dois feéricos solteiros kkkk e pronto

    ResponderExcluir
  15. Me lembrei q eu não li o livro todo .
    De tanto que eu amo essa saga to me sentindo invegonhada 😥
    Ass: Milly *-*
    Obs:recomendo a os leitores lerem a lâmina dá assassina/estou criando coragem para parar esse o ir no outro

    ResponderExcluir
  16. Bom já que a Ansel apareceu acho que Ilias também irá aparecer já que Aelin ta cobrando todas as dividas dela .

    - Larissa

    ResponderExcluir
  17. PQP QUE ENCONTRO MARAVILHOSO FOI ESSE ? AGORA SO VAI SER CONFUSAO E TIROTEIO! Só eu q n consigo odiar Ansel?

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)