30 de janeiro de 2017

Capítulo 57

Cada passo em direção Aelin era uma eternidade – e cada passo era de alguma forma rápido demais.
Elide nunca estivera mais consciente de seu coxear. De suas roupas sujas; de seu cabelo longo, sem corte; de seu corpo pequeno e a falta de quaisquer dons perceptíveis.
Ela tinha imaginado o poder de Aelin, sonhava com a forma como tinha quebrado o castelo de vidro.
Ela não tinha considerado que a realidade de vê-la desencadeá-lo faria seus ossos recuarem aterrorizados. Ou que os outros também possuíssem dons tão angustiantes – gelo e vento que se entrelaçavam com fogo, até que só a morte choveu abaixo deles. Ela quase se sentiu mal por causa dos ilken que eles tinham abatido. Quase.
Lorcan ficou em silêncio. Tenso.
Ela era capaz de ler o seu humor agora, e pouco dizia se ele acreditava que ninguém poderia detectar. Mas ali – a contração fraca no lado esquerdo da boca. Essa era a sua tentativa de suprimir qualquer que fosse a raiva que agora construía. E ali, o leve ângulo de sua cabeça para a direita... que era sua avaliação e reavaliação ao redor, cada arma e um obstáculo à vista. O que quer que este encontro fosse, Lorcan não achava que iria bem.
Ele esperava lutar.
Mas Aelin – Aelin – tinha virado agora na direção deles de onde estava naquele monte de grama. Seu príncipe de cabelos prateados girou com ela. Deu um passo casual para frente dela. Aelin contornou-o. Ele tentou bloqueá-la novamente. Ela o cutucou com o cotovelo e se manteve firme ao seu lado. O príncipe de Doranelle – o amante de sua rainha. Qual a influência de sua opinião sobre Aelin? Se ele odiava Lorcan, seu desprezo e desconfiança por ela também seriam imediatos?
Ela deveria ter pensado nisso – como ele a olharia por estar com Lorcan. Próxima de Lorcan.
— Lamentando sua escolha quanto a aliados? — perguntou Lorcan com calma cortante. Como se ele fosse capaz de ler seus pensamentos, também.
— Isso manda uma mensagem, não é?
Ela poderia ter jurado que algo como mágoa brilhou em seus olhos. Mas era típico de Lorcan – mesmo quando ela se rompeu naquele barco, ele mal se encolheu.
— Parece que nosso trato está prestes a acabar, de qualquer maneira — ele disse friamente. — Com certeza explicarei os termos, não se preocupe. Eu odiaria que eles a pensassem que você estava se escondendo comigo.
— Não foi o que eu quis dizer.
Ele bufou.
— Eu não me importo.
Elide parou, querendo chamá-lo de mentiroso, metade porque ela sabia que ele estava mentindo e metade porque o seu próprio peito se apertou com as palavras. Mas ela se manteve em silêncio, deixando-o andar na frente, aquela distância entre eles ficando mais ampla com todos os seus passos tempestuosos.
Mas o que ela ainda diria a Aelin? Olá? Como vai? Por favor, não me queime? Desculpe, eu sou tão suja e aleijada?
Uma mão suave tocou seu ombro. Preste atenção. Olhe em volta.
Elide olhou para cima de onde ela estremecia com suas roupas sujas. Lorcan estava a talvez seis metros a frente, os outros meras figuras perto do horizonte.
A mão invisível em seu ombro apertou. Observe. Veja.
Ver o quê? Cinzas e gelo choviam à direita, ruínas elevavam-se do lado esquerdo, pântanos abertos apenas se espalhando pela frente. Mas Elide parou, examinando o mundo ao seu redor.
Algo estava errado. Algo fez quaisquer criaturas que haviam sobrevivido ao turbilhão de magia cair no silêncio novamente. A grama queimada farfalhava e suspirarava.
Lorcan continuou andando, suas costas rígidas, embora ele não tivesse pegado em armas.
Veja veja veja.
Veja o quê? Ela se virou, mas não encontrou nada. Abriu a boca para chamar Lorcan.
Olhos dourados cintilaram no mato a menos trinta passos à frente.
Olhos dourados enormes, fixados em Lorcan enquanto ele estava a apenas alguns passos afastado. Um Leão da montanha, pronto para atacar, para triturar carne e cortar os ossos...
Não...
A besta explodiu do mato queimado.
Elide gritou o nome de Lorcan.
Ele girou, mas não para o Leão. Para ela, o rosto furioso virado em sua direção...
Mas ela estava correndo, a perna gritando de dor, quando Lorcan finalmente sentiu o ataque prestes a cair sobre ele.
O Leão da montanha o alcançou, aquelas garras grossas descendo, enquanto seus dentes foram direto para a garganta.
Lorcan sacou a faca de caça, tão rápido que era apenas o brilho de luz cinzenta sobre o aço.
Besta e macho feérico caírem, indo direto para a água barrenta.
Elide se lançou para eles, um grito sem palavras quebrando saindo dela. Não era um leão normal de montanha. Nem mesmo de perto. Não com a forma como ele sabia de cada movimento de Lorcan enquanto rolavam através da água, enquanto ele se esquivava e passava e avançava, fazendo sangue jorrar, confrontando a magia, escudo contra escudo...
Então o Lobo atacou.
Um lobo branco maciço, correndo do nada, selvagem de raiva e tudo isso focado em Lorcan.
Lorcan rompeu com o Leão, o sangue escorrendo por seu braço, perna, ofegante. Mas o Lobo tinha desaparecido no nada. Onde estava, onde estava...
Ele apareceu do nada, como se tivesse pisado através de uma ponte invisível, a dois metros de Lorcan.
Não um ataque. Uma execução.
Elide subiu entre dois montes de terra, a grama gelada cortando suas palmas, algo machucando sua perna...
O Lobo saltou para as costas vulneráveis de Lorcan, olhos vidrados com sede de sangue, os dentes brilhando.
Elide subiu até a pequena colina, o tempo girando debaixo dela.
Não não não não não não.
Presas brancas viciosas se aproximavam espinha de Lorcan.
Lorcan a ouviu então, ouviu o soluço trêmulo quando ela se jogou contra ele.
Seus olhos escuros queimaram no que parecia terror quando ela caiu em suas costas desprotegidas.
Quando notou o golpe de morte, não vindo do Leão em sua frente, mas do Lobo cujas mandíbulas fecharam em torno de seu braço, em vez do pescoço de Lorcan.
Ela poderia ter jurado que olhos do Lobo queimavam com horror quando ele tentou impedir o golpe, quando uma forma escura a atingiu, roubando sua respiração com sua solidez inabalável...
Sangue e dor, ossos e grama e fúria berrando.
O mundo inclinou-se enquanto ela e Lorcan caíram, seu corpo jogado por cima dele, as mandíbulas do Lobo saindo de seu braço.
Ela se curvou sobre Lorcan, esperando o Lobo e o Leão da montanha terminarem, pegarem seu pescoço com as mandíbulas e mastigarem.
Nenhum ataque veio. O silêncio rachou o mundo.
Lorcan virou-a, sua respiração irregular, o rosto ensanguentado e pálido conforme ele olhava seu rosto, seu braço.
— Elide, Elide, Elide...
Ela não conseguia respirar, não conseguia enxergar a sensação de que seu braço era mera carne desfiada e ossos lascados...
Lorcan agarrou seu rosto antes que ela pudesse olhar e disparou:
— Por que você fez isso? Por quê? — ele não esperou por uma resposta. Ele levantou a cabeça, seu grunhido tão cruel que ecoou em seus ossos, fez a dor em seu braço aumentar violentamente o suficiente para que ela choramingasse.
Ele rosnou para o Leão e o Lobo, seu escudo em redemoinho, o vento de obsidiana em torno deles:
— Vocês estão mortos. Vocês dois estão mortos...
Elide virou a cabeça o suficiente para ver o Lobo branco olhando para eles. Para Lorcan. Viu o Lobo se transformar em um reluzr de luz para o homem mais bonito que ela já tinha visto. O rosto bronzeado se apertou quando ele olhou seu braço. Seu braço, seu braço...
— Lorcan, fomos ordenados — disse uma voz masculina suave desconhecida de onde o Leão, também, tinha transformado em macho feérico.
— Maldita seja suas ordens no inferno, seu bastardo estúpido...
O Lobo chiou, o peito arfando:
— Nós não podemos lutar contra o comando muito mais tempo, Lorcan...
— Coloque o escudo para baixo — disse o mais calmo. — Eu posso curar a menina. Deixá-la ir.
— Eu vou matar vocês dois — Lorcan jurou. — Eu vou matá-los...
Elide olhou para seu braço.
Faltava um pedaço. De seu antebraço. Havia sangue jorrando nos restos queimados de grama. Osso branco se sobressaindo...
Talvez ela tenha começado a gritar ou chorar ou tremer silenciosamente.
— Não olhe — Lorcan estalou, apertando seu rosto novamente para atrair seus olhos para os dele. Seu rosto estava alinhado com tal furor que ela mal o reconheceu, mas ele não fez nenhum movimento contra os machos.
Seu poder foi drenado. Ele quase o apagara protegendo-os contra as chamas de Aelin e quem tivesse descarregado aquela outra magia no campo. Este escudo... era tudo o que restava a Lorcan.
E se ele o abaixasse para que pudessem curá-la... eles o matariam. Ele o avisara sobre o ataque, e eles ainda o matariam.
Aelin – onde estava Aelin...
O mundo estava escurecendo nas bordas, seu corpo implorando para se submeter, em vez de suportar a dor que reordenava tudo em sua vida.
Lorcan ficou tenso como se sentisse o esquecimento que a ameaçava.
— Cure-a — disse ele ao homem de olhos gentis — e então continuamos...
— Não — ela sussurrou. Não por isso, não por ela...
Os olhos de ônix de Lorcan eram ilegíveis enquanto examinavam seu rosto. E então ele falou calmamente:
— Eu queria ir para Perranth com você.
Lorcan deixou cair o escudo.



Não foi uma escolha difícil. E isso não o assustou. Não tanto quanto a ferida fatal no braço dela.
Fenrys tinha atingido uma artéria. Ela sangraria para a morte em minutos.
Lorcan tinha nascido a partir de e dotado da escuridão. Retornar a ela não era uma tarefa difícil.
Mas deixar aquela luz cintilante e encantadora à sua frente desaparecer... em seus antigos e amargos ossos, ele não podia aceitar.
Ela tinha sido esquecida – por todos e tudo. E ainda assim ela tinha esperado. E ainda assim ela tinha sido família para dele.
E ainda assim lhe ofereceu um vislumbre de paz no tempo em que a conhecera.
Ela lhe ofereceu um lar.
Ele sabia que Fenrys não seria capaz de combater a ordem de matar de Maeve. Sabia que Gavriel seria fiel a sua palavra e a curaria, mas Fenrys não conseguiria resistir ao comando do juramento de sangue.
Ele sabia que o bastardo se arrependeria. Sabia que o Lobo tinha ficado horrorizado no momento que Elide tinha saltado entre eles.
Lorcan soltou seu escudo, rezando para que ela não visse quando o derramamento de sangue começasse. Quando ele e Fenrys estivessem garra a garra e presas a presas. Ele lutaria contra o guerreiro. Até Gavriel se juntar a eles novamente.
O escudo desapareceu, e Gavriel ajoelhou-se imediatamente, colocando suas grandes mãos no braço. A dor paralisou-a, mas ela tentou dizer a Lorcan para correr, para colocar o escudo de volta...
Lorcan se levantou, afastando-a suplicante.
Ele enfrentou Fenrys. O guerreiro estava tremendo de contenção, as mãos apertadas em seus lados para impedi-las de pegar qualquer uma de suas lâminas.
Elide ainda estava soluçando, ainda implorando-lhe.
As feições de Fenrys estavam cheias de arrependimento.
Lorcan apenas sorriu para o guerreiro.
Isso apertou a coleira de Fenrys.
A sentinela saltou para ele, a espada para fora, e Lorcan levantou a sua própria, já sabendo o movimento que Fenrys planejava usar. O treinara para fazê-lo. E conhecia a guarda que Fenrys deixou cair no seu lado esquerdo, apenas por um batimento cardíaco, expondo seu pescoço...
Fenrys desembarcou diante dele, balançando e se esquivando para a direita.
Lorcan inclinou sua espada para aquele pescoço vulnerável.
Ambos foram soprados para trás por um vento gelado, inquebrável. O que quer que restasse depois da batalha.
Fenrys estava de pé, perdido para a fúria de sangue, mas o vento o acertou. Mais uma vez. Mais uma vez. Segurando-o para baixo. Lorcan lutou contra ele, mas o escudo que Whitethorn havia jogado sobre eles, o poder cru que usava para mantê-los presos, era muito forte quando sua própria magia estava esgotada.
Botas quebraram na grama queimada. Esparramado no chão de uma pequena colina, Lorcan levantou a cabeça. Whitethorn estava entre ele e Fenrys, os olhos do príncipe envidraçados com ira.
Rowan inspecionou Gavriel e Elide, esta última ainda chorando, ainda implorando para ele parar. Mas seu braço...
Um arranhão marcava aquele braço branco como a lua, mas a cura de campo de batalha de Gavriel preenchera os buracos, a carne ausente e ossos quebrados. Ele deve ter usado toda a sua magia para...
Gavriel oscilou levemente.
A voz de Whitethorn era como cascalho.
— Isso termina agora. Vocês dois não vão tocá-los. Eles estão sob a proteção de Aelin Galathynius. Se os machucarem, isso será considerado um ato de guerra.
Antigas palavras específicas, a única maneira de uma ordem de sangue poder ser detida. Não substituída – apenas adiada por mais um pouco. Para ganhar tempo.
Fenrys ofegava, mas o alívio brilhou em seus olhos. Gavriel cedeu um pouco.
Os olhos escuros de Elide ainda estavam vítreos de dor, os pontos de sardas em suas bochechas marcadas contra a palidez não natural de sua pele.
— Está claro sobre o que infernos vai acontecer se vocês saírem da linha? — Whitethorn disse para Fenrys e Gavriel.
Para o choque eterno de Lorcan, eles abaixaram a cabeça e responderam:
— Sim, príncipe.
Rowan deixou cair os escudos, e então Lorcan voava para Elide, que lutou para sentar-se, boquiaberta com seu braço quase curado. Gavriel, sabiamente, recuou. Lorcan examinou seu braço, seu rosto, precisando tocá-la, cheirá-la...
Ele não notou que os passos leves na grama não pertenciam aos seus ex-companheiros.
Mas ele conhecia a voz feminina que falou por trás dele:
— Que diabos está acontecendo?



Elide não tinha palavras para expressar a Lorcan o que sentira naquele momento em que ele deixaria o escudo cair. O que sentira quando o príncipe guerreiro tatuado de cabelos prateados impedira aquele derramamento de sangue fatal.
Mas ela não tinha fôlego em seu corpo quando olhou por cima do ombro largo de Lorcan e viu a mulher de cabelos dourados andando em sua direção.
Jovem, e ainda assim seu rosto... era um rosto antigo, cauteloso e astuto e limitado pelo poder. Bonito, com a pele beijada pelo sol, os vibrantes olhos azul-esverdeados. Olhos-azul esverdeados, com um núcleo de ouro ao redor da pupila.
Olhos Ashryver.
Os mesmos do bonito homem de cabelos dourados, que veio ao seu lado, o corpo musculosos tenso enquanto ele avaliava se precisaria derramar sangue, um arco balançando em sua mão.
Dois lados da mesma moeda de ouro.
Aelin. Aedion.
Ambos a olhavam com os olhos Ashryver.
Aelin piscou. E seu rosto dourado se enrugou quando ela disse:
— Você é Elide?
Tudo que Elide podia fazer era assentir. Lorcan estava tenso como uma corda, seu corpo ainda meio inclinado sobre ela.
Aelin aproximou-se, os olhos nunca deixando o rosto de Elide. Jovem – ela se sentia tão jovem em comparação com a mulher que se aproximava. Havia cicatrizes nas mãos de Aelin, ao longo de seu pescoço, em torno de seus pulsos... onde estiveram os grilhões.
Aelin escorregou de joelhos, a menos de trinta centímetros de distância, e ocorreu a Elide que ela deveria estar se curvando, abaixando a cabeça para o chão...
— Você parece... tanto com sua mãe — Aelin falou, sua voz quebrando.
Aedion se ajoelhou silenciosamente, colocando uma mão larga no ombro de Aelin.
Sua mãe, que tinha caído oscilante, que tinha morrido lutando para que esta mulher pudesse viver...
— Sinto muito — Aelin falou, os ombros curvados para dentro, a cabeça caindo baixinho enquanto as lágrimas escorriam por suas bochechas coradas. — Eu sinto muito. — Há quantos anos aquelas palavras estavam trancadas?
O braço de Elide doía, mas isso não a impediu de tocar a mão de Aelin, apertá-la em seu colo.
Tocar aquela mão bronzeada e cicatrizada. Pele morna e pegajosa encontrou as pontas dos dedos.
Real. Isso era – Aelin era – real.
Como se Aelin tivesse percebido o mesmo, levantou a cabeça. Ela abriu a boca, mas seus lábios tremeram, e a rainha os apertou.
Nenhuma das companhias reunidas falou.
E finalmente Aelin disse a Elide:
— Ela me ganhou tempo.
Elide sabia de quem a rainha falava.
A mão de Aelin começou a tremer. A voz da rainha quebrou inteiramente quando ela disse:
— Estou viva hoje por causa da sua mãe.
Elide apenas sussurrou:
— Eu sei.
— Ela me pediu para te dizer... — uma inspiração estremecida. Mas Aelin não quebrou seu olhar, mesmo enquanto as lágrimas continuavam cortando a sujeira em suas bochechas. — Sua mãe me pediu para te dizer que ela te ama muito. Essas foram suas últimas palavras para mim. “Diga a minha Elide que a amo muito”.
Por mais de dez anos, Aelin fora a única portadora daquelas palavras finais. Dez anos, através da morte, do desespero e da guerra, Aelin as levara através de reinos.
E aqui, à beira do mundo, tinham encontrado uma à outra novamente. Aqui na beira do mundo, só por uma batida do coração, Elide sentiu a mão quente de sua mãe roçando seu ombro.
As lágrimas picaram nos olhos de Elide enquanto caíam livres. Mas então a grama farfalhou atrás deles.
Ela viu o cabelo branco primeiro. Então os olhos dourados.
E Elide soluçou quando Manon Bico Negro emergiu, sorrindo fracamente.
Enquanto Manon Bico Negro assistia a ela e Aelin, de joelhos na grama, mexeus os lábios formando uma palavra.
Esperança.
Não estava morta. Nenhum deles estava morto.
Aedion disse com voz rouca:
— Seu braço está...
Aelin segurou-o – com suavidade. Inspecionando o corte raso, a nova pele rosada que revelava o que faltava poucos momentos antes. Aelin se virou de joelhos, rosnando para o guerreiro Lobo.
O macho de cabelos dourados desviou os olhos enquanto a rainha demonstrava seu desprazer.
— Não foi culpa dele — Elide conseguiu dizer.
— A mordida — respondeu Aelin secamente, os olhos azul-esverdeados lívidos — sugeriria o contrário.
— Desculpe — disse o macho, para a rainha ou Elide, ela não sabia. Seus olhos se ergueram para Aelin, algo como devastação ali.
Aelin ignorou as palavras. O macho se encolheu. E o príncipe de cabelos prateados pareceu lançar-lhe um breve olhar de compaixão.
Mas se a ordem não tinha vindo de Aelin para matar Lorcan...
Aelin se virou para o outro macho de cabelos dourados atrás de Elide, aquele que a tinha curado – o Leão:
— Suponho que Rowan tenha lhe dito o acordo. Você os toca, você morre. Se sequer respirarem errado na direção deles, estarão mortos.
Elide tentou não se encolher com a crueldade. Sobretudo quando Manon sorriu com um mau prazer.
Aelin ficou tensa enquanto a bruxa se aproximava de suas costas expostas, mas permitiu que Manon ficasse à sua direita. Para olhar Elide com aqueles olhos dourados.
— Bom encontrá-la, bruxinha — Manon disse para ela. Manon enfrentou Lorcan exatamente como Aelin.
Aelin bufou.
— Você parece um pouco pior e desgastado.
— Igualmente — Lorcan rebateu.
O sorriso de Aelin era assustador.
— Recebeu o meu bilhete, não é?
A mão de Aedion tinha deslizado para sua espada...
— A Espada de Orynth, — Elide exclamou, notando o pomo de osso, as marcações antigas. Aelin e Lorcan fizeram uma pausa de pularem na garganta um do outro. — A espada... você...
Vernon a ridicularizara uma vez. Disse que fora tomada pelo rei de Adarlan e sido derretida. Queimada, junto com o trono da galhada.
Os olhos azul-esverdeados de Aedion se suavizaram.
— Ela sobreviveu. Nós sobrevivemos.
Três deles, os restos de sua corte, suas famílias.
Mas Aelin avaliava Lorcan novamente, eriçada, aquele sorriso malvado retornando. Elide disse suavemente:
— Eu sobrevivi, Majestade, por causa dele — ela fez um gesto com o queixo para Manon. — E por causa dela. Estou aqui por causa dos dois.
Manon assentiu com a cabeça, concentrando-se no bolso onde tinha visto Elide esconder aquele pedaço de pedra. A confirmação que ela estava procurando. O lembrete da terceira parte do triângulo.
— Estou aqui — disse Elide enquanto Aelin fixava aqueles olhos irritantes e vívidos sobre ela — por causa de Kaltain Rompier.
Sua garganta fechou, mas ela engoliu o bolo ali enquanto seus dedos trêmulos procuravam o pedaço de pano do interior de seu bolso. A sensação de outro mundo pulsou em sua palma.
— Ela me pediu para lhe entregar isto. A Celaena Sardothien, quero dizer. Ela não sabia que... era a mesma pessoa. Ela disse que era o pagamento... por um manto quente oferecido em um calabouço frio. — Não se envergonhou das lágrimas que caíram, não em honra do que aquela mulher tinha feito. Aelin estudou o pedaço de pano na mão trêmula de Elide. — Acho que ela guardou isso como uma lembrança de bondade — Elide continuou, rouca. — Eles... a quebraram, e a machucaram. E ela morreu sozinha em Morath. Morreu sozinha, então eu não... então eles não poderiam...
Nenhum deles falou ou se moveu. Ela não podia dizer se era pior. Se a mão que Lorcan colocou sobre suas costas a fez chorar mais.
As palavras saíram da boca trêmula de Elide.
— Ela disse p-para lembrar sua promessa de punir a todos. E d-disse que você pode destravar qualquer porta, se tivera ch-chave.
Aelin apertou os lábios e fechou os olhos.
Um belo homem de cabelos escuros agora se aproximava. Era possivelmente alguns anos mais velho do que ela, mas andava tão graciosamente que ela se sentiu pequena e não educada diante dele. Seus olhos de safira fixos em Elide, inteligentes e imperturbáveis – e tristes.
— Kaltain Rompier salvou sua vida? E lhe entregou isso?
Ele a conhecia – a conhecera.
Manon Bico Negro disse em uma voz fraca e divertida:
— Lady Elide Lochan de Perranth, conheça Dorian Havilliard, rei de Adarlan.
O rei ergueu as sobrancelhas para a bruxa.
— M-majestade — gaguejou, inclinando a cabeça. Realmente deveria se levantar. Realmente parar de estar no chão como um verme. Mas o pano e a pedra ainda estavam em sua mão.
Aelin enxugou seu rosto úmido numa manga, depois se endireitou.
— Você sabe o que você carrega, Elide?
— Sim, Majestade.
Olhos de azul-esverdeados, assombrados e cansados, se ergueram dela. Então deslizaram para Lorcan.
— Por que você não pegou? — a voz era oca e dura.
Elide suspeitava que teria sorte se nunca a usasse com ela.
Lorcan encontrou seu olhar sem hesitar.
— Não era meu para levar.
Aelin agora olhava entre eles, vendo demais. Não havia calor no rosto da rainha, mas ela disse a Lorcan:
— Obrigada... por trazê-la até mim.
Os outros pareciam tentar não parecer chocados demais com as palavras.
Mas Aelin virou-se para Manon.
— Eu a reivindico. Sangue de bruxa em suas veias ou não, ela é senhora de Perranth, e ela é minha.
Os olhos de ouro brilharam com a emoção do desafio.
— E se eu a reivindicar para as Bico Negros?
— Bico Negros... ou Crochans? — Aelin ronronou.
Elide pestanejou. Manon – e as Crochans? O que a Líder Alada estava fazendo aqui? Onde estava Abraxos?
— Cuidado, Majestade — a bruxa falou. — Com seu poder reduzido a brasas, terá que lutar contra mim do jeito antigo novamente.
Aquele sorriso perigoso voltou.
— Você sabe, estive esperando pela segunda rodada.
— Senhoras — chamou o príncipe de cabelos prateados, com os dentes cerrados.
Ambas se viraram, dando a Rowan Whitethorn sorrisos horrivelmente inocentes. O príncipe feérico, para seu crédito, só estremeceu depois que elas desviaram o olhar novamente.
Elide desejava poder se esconder atrás de Lorcan enquanto ambas as mulheres fixavam aquela atenção quase feroz nela novamente. Manon estendeu a mão, inclinando a mão de Elide – para onde Aelin esperava.
— Ai está, acabado e feito — disse Manon.
Aelin encolheu-se ligeiramente, mas guardou o pano e a chave dentro. Uma sombra instantaneamente se levantou do coração de Elide, uma presença sussurrante agora silenciada.
Manon ordenou:
— De pé. Estávamos no meio de alguma coisa.
Ela chegou para puxar Elide para cima, mas Lorcan interrompeu e fez isso sozinho. Ele não soltou o braço de Elide, e ela tentou não se inclinar em seu calor. Tentou não fazer parecer que ela não tinha acabado de encontrar sua rainha, sua amiga, sua corte, e... de alguma forma, agora encarava Lorcan como o mais seguro de todos.
Manon sorriu de modo afetado para Lorcan.
— Sua reivindicação sobre ela, macho, está no fundo da lista — os dentes de ferro deslizaram para fora, transformando aquele rosto bonito em pedra. Lorcan não deixou em vão. Manon cantou daquela maneira que normalmente significava morte: — Não. Toque. Nela.
— Você não me dá ordens, bruxa — disse Lorcan. — E você não tem nenhuma palavra sobre o que existe ou não entre nós.
Elide franziu o cenho para ele.
— Você está fazendo isso pior.
— Nós gostamos de chamar isso de “absurdo macho territorial” — confessou Aelin. — Ou “bastardo férrico territorial” funciona tão bem.
O príncipe férrico tossiu intencionalmente atrás dela.
A rainha olhou por cima de um ombro, as sobrancelhas erguidas.
— Estou esquecendo outro termo carinhoso?
Os olhos do príncipe guerreiro brilhavam, mesmo quando seu rosto permanecia fixo com intenção predatória.
— Penso que você cobriu todos.
Aelin piscou para Lorcan.
— Machuque-a, e derreterei seus ossos — ela apenas disse, e se afastou.
O sorriso de ferro de Manon cresceu e ela deu a Lorcan uma inclinação zombeteira da cabeça enquanto seguia na esteira da rainha.
Aedion olhou para Lorcan e bufou.
— Aelin faz o que quiser, mas acho que ela me deixaria ver quantos dos seus ossos posso quebrar antes que ela os derreta. — Então ele também estava caminhando em direção as duas fêmeas. Uma de prata, outra de ouro.
Elide quase gritou quando um leopardo fantasma apareceu do nada, torceu os bigodes na direção de Lorcan, e então trotou atrás das mulheres, sua cauda agitada balançando atrás.
Então o rei saiu, depois os machos feéricos. Até que só o príncipe Rowan Whitethorn estava lá. Deu a Elide um olhar.
Elide imediatamente encolheu os ombros para fora do aperto de Lorcan. Aelin e Aedion tinham parado à frente, esperando por ela. Sorrindo ligeiramente – acolhedores.
Então Elide dirigiu-se a eles, para sua corte, e não olhou para trás.



Rowan se manteve em silêncio durante os últimos minutos, observando.
Lorcan estava disposto a morrer por Elide. Estivera disposto a deixar de lado sua busca por Maeve para que Elide pudesse viver. E então agira territorialmente o suficiente para fazer Rowan se perguntar se ele parecia tão ridículo em torno de Aelin o tempo todo.
Agora sozinhos, Rowan disse a Lorcan:
— Como você nos encontrou?
Um sorriso cortante.
— O deus negro me empurrou até aqui. O exército ilken fez o resto.
O mesmo Lorcan que ele conhecia há séculos, e ainda... não. Alguma borda dura tinha sido entorpecida – não, acalmada.
Lorcan olhou em direção a fonte daquela calma, mas sua mandíbula se apertou quando seu foco mudou para onde Aelin caminhava ao lado dela.
— Aquele poder poderia destruí-la tão facilmente, você sabe.
— Eu sei — admitiu Rowan. O que ela tinha feito minutos atrás, o poder que ela convocara e desencadeara... era uma música que fez sua magia irromper em afabilidade.
Quando a resistência dos ilken finalmente cedeu sob chama, gelo e vento, Rowan não fora capaz de sufocar o anseio de entrar no coração ardente daquele poder e vê-la brilhando com ele.
A meio caminho da planície, ele percebeu que não era apenas o fascínio que o puxava. Era a mulher dentro dela, que poderia precisar de contato físico com outro ser vivo para lembrar-se de que ela tinha um corpo, e pessoas que a amavam, e para se afastar daquela calma assassina que tão impiedosamente apagara os ilken dos céus. Mas então as chamas desapareceram, seus inimigos chovendo como cinza, gelo e cadáveres, e ela o olhou... deuses sagrados, quando ela olhou para ele, ele quase caiu de joelhos.
Rainha, amante, amiga – e muito mais. Ele não tinha se importado que tivessem uma audiência. Tinha necessidade de tocá-la, tranquilizar-se de que estava bem, de sentir a mulher que podia fazer coisas tão grandes e terríveis, e ainda olhá-lo com aquela vida em chamas vibrantes nos olhos.
Você me faz querer viver, Rowan.
Perguntou-se se Elide Lochan de alguma forma teria feito Lorcan querer fazer o mesmo.
— E a sua missão? — ele perguntou a Lorcan.
Qualquer suavidade desapareceu dos traços de granito de Lorcan.
— Por que você não me diz por que está neste lugar de merda, e então discutimos os meus planos.
— Aelin pode decidir o que te dizer.
— Um cão tão bom.
Rowan lhe deu um sorriso preguiçoso, mas se absteve de comentar sobre a delicada jovem de cabelos escuros que agora segurava a própria coleira de Lorcan.

28 comentários:

  1. Quase todos seguem Aelin
    Quase todos querem Elide

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  2. Ufa! Finalmente elas se encontraram!

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    1. Nunca chorei ao ler um livro, mas o encontro das três... Confesso, derrubei lagrimas

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  3. nas reações poderiam botar um: UUUUIIII(e aquela carinha de cu doce) ..kkkkkkk

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  4. o que dizer deste encontro????

    Chorei...ri....me emocionei....vibrei..... (*__*)

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  5. Já estava chorando pensando que iam matar o Lorcan
    Esse capítulo foi sensacional
    Manon e Aelin por Elide. Amei💖

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  6. E essa menina ainda não se achava inportante. Agora ta ai protegida por não uma mas duas rainhas e dois feericos (contando com aedion)

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    1. Né! Não sei como isso aconteceu

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    2. Né! Eu ri muito quando a Lyz torceu os bigodes para o Lorcan kkkkk

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  7. sem palavras tia sarah eu te amo
    amei o encontro da aelin e da elide
    e a aelin e manon <3 <3 todos seguem a aelin
    aelin arrassandooo geral

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  8. Mais um capítulo q me fez chorar.
    "E então agira
    territorialmente o suficiente para
    fazer Rowan se perguntar se ele
    parecia tão ridículo em torno de
    Aelin o tempo todo."
    o bom d ser retardada é q eu ri pra krl desse trecho heuheu
    Elide colocou a coleira no Lorcan e ela ta importante hein protegida por duas rainhas fodas e dois feéricos lindos *-*

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  9. Agora só falta as treze p o exército ficar completo.

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  10. uau ai vc percebe que parou de respirar quando precisa mudar pro proximo capitulo, que capitulo incrivel meu coração ficou na boca , to chorando de felicidade , finalmente todos juntos

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  11. Chorei muito kkkkk amei esse cap. Mais que todos ❤💚💜💙

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  12. Chorei tanto q tive q torar o óculos ficou todo embasado capito muito orado Lorcar muito fofo quando falou q queria ir para Perranht

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  13. Gente parando para pensar o sobrenome Lorchan parace muito com Lorcan kkkkk É o destino! Cara eu amaria se o Rowan cantasse "É o amoooooorrrrr.... Que mexe com a minha cabeça e me deixa assiiiiimmm... Que faz eu pensar em você e esquecer de miimmmm...." só para irritar.

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  14. to aqui nadando em oceanos de lagrimas

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  15. Eu to sem palavfas por esse capítulo, eu imaginei por um minuto, Manon e Aelin irmãs mais velhas de Elide todo mundo reunido, o que me da mais agonia e Fenrys Gavriel e Lorcan presos a Maeve

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  16. "bastardo estúpido"
    Eu ia comentar em outro capítulo mais,bastardo é um termo bem comum quando se xinga um feerico

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  17. Só falta as guerreiras de Manon se juntar a festa, a Corte de Aelin tem agora o fogo, vento, gelo e a escuridão.O encontro de todos fo marcante, vai faltar quarto para os casais...kkkkk

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  18. Gente esse grupo e de arrepiar!!!
    Meu quanto poder!!!!
    To me sentindo a Elide no meio disso tudo. Uma simples humana amada e reivindicada por fericos e bruxas é de se encolher!
    Sério A cena da Manon e da Aelim discutindo sobre quem tem mais direito sobre a Elide e depois totalmente jogando o Lorcam para o fim da lista é genial.
    Da mesma forma q o olhar caloroso da Aelin e do Aedion para a Elide é tão fraternal e lembra tanto uma volta para casa q aconchega o coração.

    E é genial ver como Rowan e os outros 2 fericos da Maeve seguem a admiram a rainha do mesmo feito q é genial ver a convicção e orgulho q eles mostram por fazer isso.
    Sério gente não sei como expressar como amo esse livro essa autora é maravilhosa ela consegue descrever nossos sentimentos na personagem da Elide de uma forma magnífica q eu me sinto literalmente dentro da história!

    Sério muito bom!!!!

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  19. Muito amor envolvido! 😍😍😍

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  20. Ai como eu amo tds eles😍😍😍🤗🤗🤗

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  21. As quatro juntas agora uuuuuuuuuu vai ser o máximo, essa parte foi tão fofinha.

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  22. Mano eu chorei quando ela pulou em sima de Lorcan para salvalo
    Mas depois q eu vi q ela ia ficar bem eu comecei a rir e achorar no mesmo tempo até agora espero estou com um sorriso no rosto e não consegui tiralo
    Ass: Milly*-*

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    1. Néeee! Me doeu o coração nessa parte! Quer dizer, ela já tem a perna ruim, perder o braço seria horrível D:

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  23. Esse capítulo foi tipo : " quê? Ela sabe falar obrigada ?? Como assim?? alguém filmou isso???" e depois... " e agora hein Lorcan... Quem é que é o cachorrinho agora??" ...

    Morri com esse capítulo. Foi um dos melhores..

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  24. — Machuque-a, e derreterei seus ossos — ela apenas disse, e se afastou.
    O sorriso de ferro de Manon cresceu e ela deu a Lorcan uma inclinação zombeteira da cabeça enquanto seguia na esteira da rainha.

    Por mais momentos assim!! 😀😀 Imagina se essas duas ficarem amigas 😄 Vou tentar me iludir com isso

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Boa leitura :)