30 de janeiro de 2017

Capítulo 54

A última etapa da caminhada na manhã seguinte foi mais longa ainda, pensou Manon.
Próximo – tão próximos daquele cadeado que a rainha com um símbolo de bruxa guardado no bolso procurava.
Ela tinha adormecido, ponderando como tudo poderia estar conectado, mas não conseguiu nada. Estavam todos acordados antes do amanhecer, arrastados à consciência pela umidade opressiva, tão pesada que parecia como um cobertor pesando sobre os ombros de Manon.
A rainha estava principalmente tranquila andando à frente do grupo, seu companheiro patrulhando acima, o primo e a metamorfa flanqueando-a, esta última vestindo a pele de uma víbora do pântano verdadeiramente horrível. O Lobo e o Leão ficavam na retaguarda, cheirando e observando se havia alguma coisa errada.
As pessoas que outrora habitavam estas terras não tinham encontrado fins fáceis ou agradáveis. Ela podia sentir a dor delas, mesmo agora, sussurrando através das pedras, ondulando através da água. Aquela besta do pântano que escapara na última noite era o mais suave dos horrores daqui. Ao seu lado, o rosto bronzeado e tenso de Dorian Havilliard parecia sugerir que ele sentia o mesmo.
Manon estava afundada até a cintura no meio de uma lagoa de água quente e espessa e fez uma pergunta, só para tirá-la de onde ela reverberava em seu crânio.
— Como ela vai usar as chaves para banir Erawan e seus valg? Ou, já que começamos, se livrar das coisas que ele criou que não são de seu reino original, mas que são híbridos?
Olhos de safira deslizaram na direção dela.
— O quê?
— Existe uma maneira de eliminar quem é de lá e quem não? Ou será que todos aqueles com sangue valg — ela colocou a mão sobre o peito encharcado — serão enviados para o reino da escuridão e frio?
Os dentes de Dorian brilharam quando ele apertou-os.
— Eu não sei — admitiu, observando Aelin agilmente pular sobre uma pedra. — Se ela conseguir, presumo que vai nos dizer quando for mais conveniente para ela.
E menos conveniente para eles, ele não precisou adicionar.
— E ela que decide, suponho? Quem fica e quem sai.
— Banir as pessoas para viver com os valg não é algo que Aelin gostaria de fazer.
— Mas ela que decide, no final.
Dorian fez uma pausa no topo de uma pequena elevação.
— A decisão cabe a aquele que tiver as chaves. E é melhor rezar para quaisquer deuses perversos que você adora que Aelin as tenha no final.
— E que tal você?
— Porque eu deveria querer estar em qualquer lugar perto dessas coisas?
— Você é tão poderoso quanto ela. Poderia usá-las. Por que não?
Os outros seguiam rapidamente na frente, mas Dorian permaneceu imóvel. Até mesmo teve a audácia de segurar o pulso dela – com força.
— Por que não? — Havia tanta frieza inflexível naquele lindo rosto. Ela não podia afastar-se dele. Uma brisa quente e úmida passou, balançando o cabelo dela. O vento não o tocou, não despenteou o cabelo negro escuro em sua cabeça. Um escudo, ele estava se protegendo. Contra ela, ou contra o que estava naquele pântano? Ele falou suavemente: — Porque fui eu quem fez isso.
Ela esperou.
Seus olhos de safira eram punhais de gelo.
— Eu matei o meu pai. Eu destruí o castelo. Eu expiei a minha própria corte. Então, se eu possuir as chaves, Líder Alada — ele terminou quando soltou o pulso dela — não tenho dúvidas de que eu faria o mesmo mais uma vez... neste continente inteiro.
— Por quê? — Ela respirou, seu sangue gelando. Estava de fato um pouco aterrorizada com a raiva gelada que ondulava dele quando Dorian falou.
— Por que ela morreu. E mesmo antes disso, este mundo viu que ela sofria, e estava com medo, e sozinha. E mesmo que ninguém se lembre quem ela era, eu lembro. Nunca vou esquecer a cor de seus olhos, ou a forma como ela sorria. E nunca vou perdoá-los por levá-la embora.
Frágeis demais – ele tinha dito das mulheres humanas. Não era à toa que ele a procurara.
Manon não tinha resposta, e sabia que ele não estava à procura de uma, mas falou de qualquer maneira.
— Bom.
Ela ignorou o brilho de alívio que atravessou o rosto dele enquanto ela continuava a andar.



Os cálculos de Rowan não estavam errados: eles alcançaram o cadeado ao meio-dia.
Aelin supôs que, mesmo se Rowan não tivesse olhado adiante, teria sido evidente a partir do momento em que vira o complexo labirinto alagado de pilares destruídos que o cadeado provavelmente estava na parte desmoronando da cúpula de pedra em seu centro. Principalmente porque tudo – cada asfixiante erva daninha e gota de água – parecia se inclinar para longe dele. Assim como o complexo escuro parecia ser o centro do batimento cardíaco ondulante dos pântanos.
Rowan se transformou enquanto aterrissava diante de onde estavam reunidos em um gramado, um pedaço de terra seca nos arredores da extensão do complexo, nem mesmo perdendo o passo conforme caminhava para o lado dela. Ela tentou não parecer muito aliviada quando ele retornou em segurança.
Ela realmente os torturava, percebeu, entrando no caminho do perigo sempre que se sentia assim. Talvez ela tivesse que melhorar nisso, se esse medo era parecido com o que eles sentiam.
— Todo este lugar está muito tranquilo — disse Rowan. — Eu sondei a área, mas... nada.
Aedion puxou a espada de Orynth das costas.
— Nós vamos circular o perímetro, dando passos menores até chegarmos ao próprio edifício. Sem surpresas.
Lysandra se afastou deles, preparando-se para a mudança.
— Eu fico com as águas... se ouvirem dois rugidos, vão para um lugar mais alto. Um rugido rápido, e está limpo.
Aelin balançou a cabeça em confirmação para seguir em frente. No momento em que Aedion havia avançado para a parede exterior do complexo, Lysandra tinha deslizado para dentro da água, toda escamas e garras.
Rowan empurrou o queixo para Gavriel e Fenrys. Ambos os machos silenciosamente se transformaram e depois trotaram pela frente, este último se juntando a Aedion, o primeiro na direção oposta.
Rowan se manteve ao lado de Aelin, Dorian e a bruxa em suas costas, enquanto esperavam que tudo estivesse limpo.
Quando o solitário, rugido rápido de Lysandra cortou no ar, Aelin murmurou para Rowan:
— Qual é o truque? Onde está o problema? Está fácil demais. — De fato, não havia nada nem ninguém aqui. Nenhuma ameaça além do que poderia estar apodrecendo nas covas e crateras.
— Acredite em mim, eu estive pensando.
Ela quase podia senti-lo deslizando para aquele gélido, e furioso lugar – onde nascia o instinto e séculos de formação o faziam ver o mundo como um campo de batalha, disposto a fazer tudo para erradicar quaisquer ameaças a ela. Não apenas a sua natureza feérica – mas a natureza de Rowan. Para proteger, para defender, para lutar por o que e quem ele amava.
Aelin se aproximou e beijou-o no pescoço. Aqueles olhos de pinheiro verde aqueceram ligeiramente à medida que desviou o olhar da ruína para examinar seu rosto.
— Quando voltarmos para a civilização — disse ele, sua voz mais grave quando beijou sua bochecha, sua orelha, testa — vou encontrá-la na pousada mais bonita em todo o inferno deste continente.
— É?
Ele a beijou na boca. Uma vez, duas vezes.
— Com boa comida, uma cama repugnantemente confortável, e uma grande banheira.
Mesmo nos pântanos, era fácil ficar embriagada com ele, com o gosto e o cheiro e o som e a sensação dele.
— Quão grande? — ela murmurou, não se importando com o que os outros pensavam conforme regressaram.
— Suficientemente grande para dois — disse ele em seus lábios.
O sangue dela ficou cintilante à promessa. Ela o beijou uma vez – breve, mas profundamente.
— Eu não tenho defesas contra essas ofertas. Especialmente aquelas feitas por um macho tão fofo.
Ele fez uma careta para fofo, beliscando sua orelha com os caninos.
— Eu mantenho um registro, sabe, princesa. Para me lembrar de recompensá-la da próxima vez que estivermos sozinhos por todas as coisas realmente maravilhosas que você diz.
Os dedos dos pés enrolaram-se em suas botas encharcadas. Mas ela deu um tapinha no ombro dele, olhando-o com irreverência absoluta, dizendo quando ela caminhou em frente:
— Certamente espero que você me faça implorar por isso.
Seu grunhido de resposta atrás dela fez florescer um calor em seu núcleo.
O sentimento durou cerca de um minuto, no entanto. Dentro de algumas voltas para o labirinto de paredes em ruínas e pilares, deixando Dorian para guardar a entrada e Rowan deslizando à frente, Aelin encontrou-se ao lado da bruxa – que parecia mais aborrecida do que qualquer coisa. Justo. Ela tinha sido arrastada até aqui, depois de tudo.
Seguindo tão silenciosamente quanto podiam para as arcadas imponentes e pilares de pedra, Rowan sinalizou a partir de um cruzamento à frente. Eles estavam chegando perto.
Aelin desembainhou Goldryn, e Manon puxou sua própria espada em resposta.
Aelin ergueu as sobrancelhas quando olhou entre as duas lâminas.
— Como se chama a sua espada?
— Ceifadora do Vento
Aelin estalou a língua.
— Bom nome.
— A sua?
— Goldryn.
Um reluzir de dentes de ferro enquanto eles eram descobertos em um meio sorriso.
— Não um nome tão bom.
— Culpa do meu antepassado. — Certamente era. De muitas, muitas coisas.
Eles chegaram a uma encruzilhada – um virando para esquerda, outro, à direita. Nenhum oferecendo uma pista do caminho direto para o centro da ruína.
Rowan disse a Manon:
— Você vai para a esquerda. Assobie se encontrar alguma coisa.
Manon se afastou entre as pedras e água e plantas, ombros rígidos o suficiente para sugerir que ela não tinha apreciado a ordem, mas ela não era burra o suficiente para se meter com ele.
Aelin sorriu um pouco com o pensamento enquanto ela e Rowan continuaram. Correndo a palma da mão livre sobre as paredes esculpidas por onde passavam, ela falou casualmente:
— Aquele nascer do sol onde Mala apareceu para você... o que, exatamente, ela disse?
Ele lançou um olhar em sua direção.
— Por quê?
Seu coração trovejou, e talvez fizesse dela uma covarde dizer isso agora...
Rowan agarrou seu cotovelo enquanto lia seu corpo, o cheiro de seu medo e dor.
— Aelin.
Ela se preparou, nada além de pedra e água e espinheiros em torno deles, e dobrou uma esquina.
E lá estava ele.
Até mesmo Rowan esqueceu de exigir uma resposta para o que ela estava prestes a dizer-lhe quando eles examinaram o espaço aberto ladeado por paredes desmoronando e pontuado por pilares caídos. E no seu extremo norte...
— Grande surpresa — Aelin murmurou. — Há um altar.
— É uma arca — Rowan corrigiu com um meio sorriso. — Tem uma tampa.
— Ainda melhor — respondeu ela, cutucando-o com o cotovelo. Sim. Sim, ela diria a ele mais tarde.
A água separando-os do baú ainda era e prata brilhante – também escura para saber se havia um fundo para além dos degraus até o estrado. Aelin puxou a magia da água, esperando que esta sussurrasse o que estava por baixo daquela superfície, mas suas chamas estavam queimando alto demais.
Água espirrou do outro lado, e Manon apareceu em torno de uma parede oposta. Seu foco foi para a enorme arca de pedra no fundo do espaço, a pedra rachada e cheia de ervas daninhas e videiras. Ela começou a andar através da água, um passo de cada vez.
— Não toque na arca— Aelin avisou.
Manon apenas lhe deu um longo olhar e continuou se dirigindo para o estrado.
Tentando não escorregar no piso liso, Aelin cruzou o espaço, derramando água sobre os degraus do estrado enquanto os subia, Rowan logo atrás.
Manon se inclinou sobre a arca para estudar a tampa, mas não para abri-la. Estudando, Aelin percebeu, as inúmeras marcas de Wyrd esculpidas na pedra.
Nehemia sabia como usar as marcas. Fora ensinada sobre elas e era fluente o suficiente para empunhar seu poder. Aelin nunca perguntara como nem porquê, nem quando.
Mas aqui estavam marcas de Wyrd, profundamente dentro de Eyllwe.
Aelin se aproximou de Manon, examinando a tampa mais de perto.
— Você sabe o quais são essas?
Manon jogou para trás seu longo cabelo branco.
— Eu nunca vi essas marcas.
Aelin examinou aos poucos, sua memória se esforçando para traduzir.
— Alguns destes são símbolos que nunca vi antes. Alguns sim — ela coçou a cabeça. — Devemos jogar uma pedra? Ver o que acontece — ela perguntou, girando para onde Rowan olhava por cima do seu ombro.
Mas uma vibração oca do ar pulsou em torno deles, silenciando o zumbido incessante dos habitantes dos pântanos. E foi aquele silêncio absoluto, o latido de surpresa de Fenrys, que fez Aelin e Manon se moverem para flanquear, em posições defensivas. Como se tivessem feito isso centenas de vezes antes.
Mas Rowan continuava imóvel enquanto examinava o céu cinzento, as ruínas, a água.
— O que é isso? — Aelin ofegou.
Antes que seu príncipe pudesse responder, Aelin sentiu novamente. A pulsação, o vento escuro exigindo sua atenção. Não era um valg. Não, aquela escuridão nasceu de outra coisa.
— Lorcan — Rowan respirou, uma mão na espada, mas não a desembainhou.
— Essa é a magia dele? — Aelin estremeceu quando a morte beijando o vento se aproximou dela.
Ela golpeou como se fosse um mosquito. Ele virou-se para ela em resposta.
— É o sinal de alerta — Rowan murmurou.
— Para quê? — Manon perguntou abruptamente.
Rowan estava imediatamente em movimento, escalando os muros altos com facilidade, mesmo quando uma pedra desmoronou. Ele equilibrou em seu topo, examinando a terra do outro lado do muro.
Então voltou suavemente para baixo, água espirrando enquanto ele aterrissava ecoando nas pedras.
Lysandra deslizou em torno de um conjunto de ervas daninhas e parou com um impulso rápido de sua cauda escamada quando Rowan disse muito calmamente:
— Há uma legião aérea se aproximando.
Manon respirou:
— Dentes de Ferro?
— Não — disse Rowan, encontrando o olhar de Aelin com uma firmeza gelada que ele tinha visto através de séculos de batalha. — Ilken.
— Quantos? — a voz de Aelin se tornou distante, oca.
A garganta de Rowan balançou, e ela sabia que ele estava observando o horizonte e em torno das terras não para qualquer chance de vencer a batalha que estava certa por vir, mas por qualquer chance de tirá-la dali. Mesmo se o resto deles tivesse que ganhar tempo com suas próprias vidas.
— Quinhentos.

16 comentários:

  1. — Eu matei o meu pai. Eu destruí o castelo. Eu expiei a minha própria corte. Então, se eu possuir as chaves, Líder Alada — ele terminou quando soltou o pulso dela — não tenho dúvidas de que eu faria o mesmo mais uma vez... neste continente inteiro

    Cara qual o problema dele expia a corte um pouquinho!!???kkkkk

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    1. Espiar e expiar são palavras diferentes e têm significados diferentes. Ele não eSpiava a corte, ele eXpiava.

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    2. Esse 'expiar' é de expiação, sofrimento.

      Espiar, é o que eu faço quando stalkeio o Facebook de alguém.. 😂

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  2. Tava tudo se dando bem ate demais pra durar muito mais

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  3. MERDA MERDA. MERDA. MERDAAAAAAA

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  4. Uma definição para o final do capítulo: Fudeu O.o

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    1. uma definição para 90% dos finais de capítulos de trono de vidro: FUDEU, VAIDAMERDA, SÓ MAIS UM POCO

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  5. Kygfftvdfggfcghh. Que merda! Que a batalha comece!!!🗡🗡🗡⚒🛡❄🔥⚒🛡🔥❄🗡👑

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  6. " Mesmo se o resto deles tivesse que ganhar tempo com suas próprias vidas."
    Aqle momento em q vc lembra q eles passaram o livro inteiro q eles não tm tmpo e se pergunta o q a autora quis insinuar cm isso

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  7. EITAH
    VAI
    DAR
    MERDA

    PS: Eu necessito de mais diálogos ( e outras coisas jskhkj) entre Manon e Dorian 🌺

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  8. Pora do caraleo deu merda...

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  9. Rowan vai tentar salvar Aelin e eu espero que Dorian salve Manon, todo mundo nessa p*** pode morrer desde que Manon e Dorian sobreviva

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  10. Kkk viu?? A Manon tá tentando fazer ele acordar tipo " Você tbm e Rei porra!" ela até falou q ele é muito poderoso tbm.
    Agr elas de flanqueando como se tivessem feito isso inúmeras vezes, só confirma q os destinos delas estão entrelaçados !
    Lorcan e Edile!!!!!!!!
    Quero o reencontro da Manon e da Elide pra já!

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  11. Oh agonia esses capítulos só fazem a gente sofrer, ficamos alegres por 5 segundos e bum tudo explode 😱⚔️💣💣

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Boa leitura :)