26 de janeiro de 2017

Capítulo 53

A maior parte da despedida foi feita. Will, Halt, Selethen e as duas garotas já estavam a bordo do Wolfwill. O navio estava com a proa encalhada na areia, na enseada onde o grupo de araluense chegou inicialmente em terra.
Gundar e seus homens tinham passado o inverno relativamente confortáveis na ilha paradisíaca, embora, Gundar ficou triste ao saber que tinha perdido uma épica batalha. Mas havia abundância de peixes e crustáceos nas águas frias, e um bom suplemento de raízes em terra. Agora, com seus passageiros, os escandinavos estavam ansiosos para voltar o navio para águas mais familiares.
Só Horace permaneceu na praia, de pé diante do imperador, superando o homem menor.
Lágrimas formaram-se nos olhos do jovem guerreiro agora que tinha chegado a hora de dizer adeus. Nos meses que se passou, ele percebeu que tinha passado a amar esse governante corajoso e altruísta, a respeitar o seu senso de justiça inabalável e de seu infalível bom humor. Sabia que perderia o som profundo do riso de Shigeru – um som tão grande que ele sempre quis saber como vinha de tal estrutura pequena.
Agora, confrontados com o momento de partida, havia um enorme caroço na garganta, um nó que bloqueava as muitas palavras que ele queria dizer.
Shigeru adiantou-se e abraçou-o. Ele sabia o quanto devia ao jovem garoto. Conhecia a coragem de Horace, a determinação e a lealdade que ele havia sustentado em seu pequeno grupo de seguidores em toda a semana difícil e perigosa quando estavam fugindo de Arisaka.
Ele se lembrava de como Horace tinha avançado sem hesitação para pegar o lugar de Shukin quando seu primo foi morto na mão de Arisaka.
Os dois arqueiros, é claro tinham feito um grande serviço a ele, com suas inovadoras táticas e planos de batalha, como o tinha feito o de pele escura, nariz de falcão, guerreiro arridi. E Evanlyn e Alyss, por sua coragem e iniciativa, foram os instrumentos que salvaram o seu trono, trazendo o poderoso exército Hasanu para resgatá-lo. Sentiu-se grato a todos eles.
Mas sem Kurokuma, nenhum deles teria estado aqui. Sem Kurokuma, Arisaka seria agora o imperador.
— Shigeru...  Horace conseguiu uma palavra, então, embargado pela emoção, afastou-se do abraço do homem mais velho de cabeça baixa, com lágrimas escorrendo pelas bochechas.
Shigeru deu um tapinha no braço musculoso.
— A despedida é difícil, Kurokuma. Mas eu e você estaremos sempre juntos. Basta olhar em sua mente e coração e vai me encontrar lá. Nunca vou te esquecer. Nunca esquecerei que te devo tudo.
— Eu... eu não...  Horace não podia administrar mais nada, mas Shigeru sabia o que ele estava tentando dizer.
— Eu gostaria que você pudesse ficar com a gente, meu filho. Mas seu próprio país e seu próprio rei precisam de você.
Horace assentiu oprimido pelo seu senso de lealdade em conflito. Shigeru não poderia ter escolhido uma forma mais atraente de dirigir-se do que chamar Horace de “filho”.
Horace tinha crescido órfão, carente de amor de um pai e orientação desde uma idade precoce. Em seguida, Shigeru sorriu e falou em voz baixa, de modo que ninguém mais pudesse ouvir.
— E acredito que certa jovem princesa precisa de você também. Cuide bem dela. Ela é uma joia sem preço.
Horace ergueu os olhos vermelhos para encontrar os de Shigeru. Ele conseguiu um jovem sorriso em troca.
— Ela certamente é  ele concordou.
— Nós vamos nos ver novamente. Eu sei disso no meu coração. Você sabe sempre será bem-vindo aqui em Nihon-Ja. Você é um de nós.
Horace assentiu.
— Eu voltarei um dia. Isso é uma promessa definitiva. E talvez você possa viajar para Araluen.
Shigeru franziu os lábios.
— Sim. Mas talvez não por enquanto. Acho que preciso ficar aqui até que as questões estejam estabilizadas. Mas quem sabe? Se houvesse uma ocasião importante de estado... um casamento no alto escalão, talvez?
Ele deixou o pensamento aberto e novamente eles compartilharam um sorriso conspirador. Então ele enfiou a mão na manga larga de seu manto e apresentou um pequeno rolo de papel, amarrado com uma fita de seda preta. Ele entregou a Horace.
— Nesse meio tempo, lembre-se de mim por isso. Um símbolo da minha amizade.
Horace pegou o pergaminho. Ele hesitou então Shigeru gesticulou para ele abrir. Era um papel de linho fino e sobre ele, pintado e estilizado, traços enganosamente simples que caracterizavam bem a arte de Nihon-Ja, estava a imagem de um urso, representado no ato de pegar um salmão em uma cachoeira. Era uma pintura fascinante, com os adornos dos detalhes. Mas de alguma forma, o olho do espectador foi levado a providenciar as linhas em falta e recursos, criando uma ilustração completa e compreensiva.
Quanto mais Horace olhava, mais o urso parecia tornar-se vivo. Mais ele podia ver a água fluindo ao redor dele. Tudo realizado com algumas pinceladas magistrais sobre o linho.
— Você pintou?  Perguntou, observando as três pequenas cerejas no canto esquerdo.
Shigeru curvou a cabeça em confirmação.
— É um pouco bruto. Mas foi feito com amor.
Horace lentamente enrolou o linho, recolocou a fita e colocou-o em segurança dentro de sua jaqueta.
— É um verdadeiro tesouro  respondeu. — Vou mantê-lo sempre.
— Então eu estou contente  Shigeru falou.
Horace estendeu as mãos num gesto desajeitado. Ele não tinha pensado em encontrar um presente para Shigeru.
— Eu não tenho nada para lhe dar... — começou.
Mas o imperador colocou o indicador para cima graciosamente para silenciá-lo.
— Você me deu meu país  disse simplesmente.
Eles encararam um ao outro por um longo tempo. Não houve mais palavras. Do navio, eles ouviram Halt chamando, a voz um pouco apologética para a intrusão.
— Horace. Gundar diz que a maré está descendo. Ou subindo. Seja o que for, temos que estar em nosso caminho.
Seu tom era delicado. Ele tinha visto seu jovem amigo e Shigeru e sentiu que tinha atingido o ponto estranho que vem em todas as despedidas – quando não há mais nada a dizer, quando ninguém quer fazer o movimento final para quebrar o vínculo entre eles. Quando alguém ou algo tem que dar-lhes o ímpeto pra partir.
— Eu tenho que ir  Horace disse com a voz rouca.
Shigeru assentiu.
— Sim.
Resumidamente, eles se abraçaram mais uma vez, cuidando para não amassar o pergaminho dentro da jaqueta de Horace. Em seguida, o alto e jovem guerreiro virou-se bruscamente e correu até a escada de embarque. Seus pés mal tinham tocando o convés, o grupo puxou a escada a bordo do navio e começou a deixar a clara praia, virando sua proa para o mar aberto. Horace mudou-se para a popa, sua mão levantada em despedida.
Na praia, Shigeru copiou o gesto.
A maré pegou o navio escandinavo, puxando-o rapidamente para longe da praia enquanto a tripulação içava a vela triangular. Então, quando o estaleiro foi apoiado ao redor, a vela encheu e o leme ganhou vida enquanto Gundar definia o rumo para resistir o promontório.
Horace permaneceu na popa, observando a figura na costa ficar cada vez menor. Após vários minutos, Evanlyn se moveu para ficar com ele, deslizando o braço em sua cintura.
Impulsivamente, Will foi se juntar a eles, com a intenção de adicionar seu apoio e conforto com o Evanlyn. Mas Alyss pegou seu braço e o impediu.
— Deixe-os  ela disse calmamente.
Ele franziu a testa, sem entender por um segundo ou dois, então absorveu a mensagem.
Sua boca formou o silencioso “Oh”.
O convés sapateou quando o vento refrescou e a água começou a ruir mais alto, uma vez que deslizou pelos lados do navio escandinavo, acelerando-o. Finalmente, ele virou em um ponto e Horace não conseguia mais ver seu amigo, o imperador de Nihon-Ja.

7 comentários:

  1. Will... Sempre lerdo quando se trata de sentimentos kkkk

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  2. Despedidas sempre ais mais difíceis T.T

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  3. Will é mto Percy pra algumas coisas...

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  4. Pensei a mesma coisa! Igualzinho ao Percy!
    Ass: Bina.

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  5. Achei um erro ( Sabia que perderia o com(som ) profundo do riso de Shigeru )

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Boa leitura :)