26 de janeiro de 2017

Capítulo 5

Nihon-Ja

Horace franziu o cenho, confuso. George obviamente sentia o mesmo. Ele se inclinou para perguntar ao mensageiro.
— Mas por que o povo se voltou contra o imperador?  ele perguntou. — Eles amam senhor Shigeru.
Não era uma bajulação desleixada ou o tipo de elogio que você pode esperar para ouvir perto de um governante. Tanto Horace quanto George tinham visto uma ampla evidência da popularidade de Shigeru enquanto viajavam ao norte com ele para seu palácio. Mas Shigeru estava sacudindo sua cabeça para eles, um olhar de imensa tristeza em suas feições normalmente alegres.
— Não o povo  ele disse amargamente. — Os Senshi. Lorde Arisaka levou seu clã a uma revolta contra meu governo. Eles se apoderaram do palácio de Ito e mataram vários de meus auxiliares. O clã Umaki se juntou a eles.
Aqueles eram os dois clãs Senshis com maior poder e influência do país. Horace e George trocaram olhares horrorizados. Então George chamou a atenção do imperador.
— Mas, Vossa Excelência, esses clãs juraram sua obediência ao senhor, não é? Como puderam quebrar o juramento?  George sabia que entre a classe senshi, um juramente era inviolável.
Os lábios de Shigeru se esboçaram em uma linha reta e ele balançou a cabeça, incapaz de falar naquele momento, dominado pela emoção. Foi Shukin quem respondeu por ele.
— Eles afirmam que o imperador havia violado seu próprio juramente tentando levantar as pessoas comuns contra seus superiores. Afirmam que ele traiu sua classe – a classe senshi – e já não é digno de ser imperador.
— E como resultado  Shigeru adicionou amargamente. — Seu juramento de lealdade não vale nada para mim. Eu sou o infrator do juramento, não eles.
— Mas...  Horace hesitou, procurando as palavras certas. — O senhor não estava “levantando as pessoas comuns contra seus superiores”. Simplesmente estava tentando fazer de suas vidas melhor, reconhecendo seu valor. Como Arisaka pôde distorcer tanto os fatos verdadeiros?
Shigeru conhecia o olhar do jovem. Ele recuperara um pouco do controle agora e falou calmamente.
— Ora’ss-san, as pessoas vão acreditar em meias-verdades e distorções se elas corresponderem ao que querem acreditar. Se elas refletirem seus medos. Os senshi têm um medo irracional de que eu quero tirar o poder sobre o povo e Arisaka barganhou com esse medo.
— Mas Arisaka não acredita em si mesmo?  George diz.
— Arisaka acredita em outra coisa  Shigeru replicou. — Quando o antigo imperador morreu sem um herdeiro, Arisaka acreditou que ele poderia ser escolhido como imperador no meu lugar.
— Ele tinha ficado ocupado por meses  Shukin disse a eles, seu desprezo pelo traidor Arisaka muito óbvio em sua voz. — Espalhando medo e discórdia entre os senshi, mentiras que meu primo estava traindo sua classe e planejando dar o poder às pessoas comuns entre eles. Seu esforço teve sucesso, pelo que parece.
— Como todas as mentiras, essa foi baseada no menor grão de verdade  Shigeru disse. — Eu quero que as pessoas tenham uma maior participação no jeito do país ser governado. Arisaka foi distendido de toda relação.
Horace se virou para o mensageiro. Ele o reconhecia agora como um dos assessores que ele tinha visto no palácio Ito.
— Você disse que dois clãs se juntaram a essa revolta  ele disse. — E os outros? E o clã do imperador?
— Muitos do clã do imperador estão mortos agora. Eles tentaram resistir a Arisaka, e seus homens mataram todos. Diminuíram de cinco ou seis para um. Aqueles que não estão mortos estão espalhados e escondidos.
— E os outros?  George perguntou. — Os Meishi, os Tokoradi e os Kitotashi? Eles juraram não obedecer Arisaka.
— Nenhum deles pode tomar posição contra os shimonseki em seu juramento. E cada qual está esperando para ver o que os outros vão fazer. Até agora, todos eles vão dizer que o que lorde Arisaka diz é verdade, então talvez seus atos sejam justificados.
George bufou de desgosto.
— Se e talvez  ele disse. — A língua da protelação e da incerteza. São as pessoas que procuram justificar a sua própria falta de ação.
— Arisaka tem o impulso  Horace disse.
Como um soldado, ele entendia o valor de uma ação rápida e determinada que apresentassem possíveis dissidentes com um fato consumado.
— Se eles tivessem resistido desde o começo, Arisaka não seguiria com isso. Agora ele tem o controle do palácio e o jogo está rolando. É muito tarde para pará-lo facilmente — ele olhou para Shigeru. — A questão é, Vossa Excelência, o que está planejando fazer sobre isso?
Shigeru fez uma pausa pensativa e olhou para o mensageiro.
— Onde Arisaka está agora?
— Ele está rumo ao norte para a capital, Vossa Excelência. Planeja pegar seu prisioneiro.
Shukin e o imperador trocaram olhares rápidos.
— Há quanto tempo ele está daqui, Reito-san?  Shukin perguntou e o mensageiro encolheu os ombros.
— Provavelmente vários dias. Ele não estabeleceu de imediato. Mas há alguns sobreviventes do exército real não muito atrás de mim. Eles poderiam estar aqui em algumas horas.
— Quantos deles?  Horace perguntou rapidamente.
Sem qualquer decisão consciente de sua parte, ele estava começando a pensar sobre a possibilidade de um rápido contra-ataque, mas as palavras de Reito dissiparam sua ideia.
— Apenas quarenta ou cinquenta  ele respondeu. — E Arisaka tem pelo menos trezentos homens com ele.
Horace assentiu mordendo o lábio, nervoso. O exército de Shigeru era pequeno. Ele governava por simpatia, não força. Razão pela qual, ele pensou, o golpe de Arisaka obteve sucesso.
— Mais uma razão para fazermos uma pausa aqui por algumas horas  Shigeru disse, se responsabilizando pela situação. — Arisaka não estará aqui por muitos dias. Mas meus soldados vão chegar em breve. Nós podemos nos juntar a eles. E enquanto esperamos, podemos decidir nosso próximo movimento.
Eles se moveram para fora da trilha em uma pequena clareira ao lado. Os homens armaram dois pavilhões – um para o grupo de comando e um para o restante. Eles não acampariam essa noite, então tudo o que precisavam era de um abrigo temporário contra o tempo enquanto esperavam os sobreviventes do exército de Shigeru chegarem.
Enquanto os líderes tinham tempo para analisar a situação e fazer seus planos.
Um tapete tecido de bambu foi colocado sobre o solo úmido por dentro de um pavilhão, uma mesa baixa e cinco bancos. Shigeru, Shukin, Reito, Horace e George se sentaram em volta da mesa. Um funcionário colocou vários potes de chá verde e manejava copos de porcelana antes deles.
Horace sorveu o chá com gratidão. Não era tão bom quando um café, pensou, mas qualquer bebida quente nesse tempo era bem-vinda.
As paredes de tela do pavilhão agitaram-se com uma rajada de vento e a primeira chuva sacudiu contra eles.
— Norte  Shukin estava dizendo. — Nós temos que ir para o norte.
— Lógico, desde que Arisaka e seu exército estejam no sul  Horace disse. — Mas há alguma outra vantagem no norte? Você tem aliados lá, clãs que possa convocar de modo que possa enfrentar Arisaka?
Shigeru balançou sua cabeça.
— Não há clãs senshi no norte  ele disse. — Há os Kikori, isso é tudo. Eles não são guerreiros.
Seus dois conterrâneos assentiram de acordo. Mas Horace queria mais informações.
— Quem são os Kikori?
— Lenhadores  George disse a ele. — Trabalham entre as árvores altas nas montanhas. Suas vilas estão espalhadas por toda parte.
— Se eles são lenhadores, são hábeis e fortes, e terão machados  Horace disse. — E vão saber como usá-los. Poderíamos recrutá-los como soldados? Será que eles lutariam por você, Vossa Excelência?
Shigeru e Shukin trocaram olhares e o imperador balançou sua cabeça.
— Eles lutariam. São intensamente leais. Mas não vou pedir isso a eles. Eles não são guerreiros treinados, Ora’ss-san. Os homens de Arisaka podem massacrá-los. Eu não vou pedir para eles lutarem quando eles não têm esperança.
George se inclinou na direção de Horace e tocou sua manga, chamando sua atenção. Ele acrescentou, em tom baixo.
— Há outro problema, Horace. Os Kikori podem lutar. Mas não acreditam que terão chance contra os Senshi porque acreditam que não tem o direito de lutar contra eles.
— Não tem direito? Do que você está falando? Claro que eles...
— É uma questão de mentalidade. Eles passaram séculos acreditando que eram piores que os Senshi. Shigeru-san está tentando inverter a situação, mas vai levar muito tempo para fazer isso. Assim como os Senshi são determinados em acreditar que são melhores que as outras classes, os Kikori acreditam que os Senshi são seus superiores. Podem entrar em uma batalha contra eles. Mas farão isso esperando perder.
— Isso é loucura  Horace disse.
Contudo ele conseguia ver o raciocínio na declaração de George.
— Você é um soldado, Horace. Consegue liderar um exército para uma batalha se os homens esperam ser derrotados? Ainda pior, se os homens pensam que não tem direito para vencer?
— Acho que não.
Os ombros de Horace abaixaram. Por um momento, ele pensou que havia um possível curso de ação, mas George estava certo. Um exército que acreditava que seu destino era perder poderia estar marchando para sua morte.
— Tem os Hasanu  Shukin estava dizendo pensativo. — E lorde Nimatsu é um homem honesto. Ele não virou as costas para seus juramentos de fidelidade.
— Os Hasanu são certamente lutadores  Shigeru disse. — Mas estão no extremo norte, com uma série de montanhas enormes nos separando deles. Pode levar semanas, até meses, para alcançá-los. E nós não temos ideia do que eles podem responder. Eles são um povo estrangeiro.
— Se é que são humanos, pra falar a verdade  Reito interferiu.
Shikeru deu a ele um olhar de repreensão.
— Não acredite em velhas superstições, Reito  ele disse. — Os Hasanu são... incomuns, digamos? Mas estou convencido de que são humanos.
— Quem são os Hasanu?  Horace sussurrou para George. — Eles são outro clã de guerreiros?
George estava balançando sua cabeça, um olhar confuso em seu rosto.
— Eu nunca ouvi falar deles. Eles não são um clã. Tenho certeza que sei tudo sobre clãs.
Antes de poderem levar o assunto adiante, Shukin falou em tom autoritário.
— Querendo ou não, nós podemos reunir forças para um contra-ataque contra Arisaka, porém nosso primeiro curso é ter certeza de que o imperador está seguro. Nós temos que nos dirigir para o norte por dentro das montanhas. Não vamos pedir para os Kikori lutar, mas eles estarão dispostos a nos esconder de Arisaka.
Shigeru assentiu de acordo.
— Talvez não seja o mais bravo a fazer  ele disse. — Mas certamente é o mais sábio. Se nós pudermos evitar os homens de Arisaka por um mês ou dois, eles estarão aqui no inverno e o tempo vai nos proteger.
— Há sempre a fortaleza de Ran-Koshi  Reito sugeriu e o imperador e seu primo olharam para ele rapidamente.
— Ran-Koshi?  Disse Shukin. — Sempre pensei que isso fosse um mito.
Reito sacudiu a cabeça.
— Muitas pessoas pensam. Mas eu tenho certeza que é real. O problema é como encontra-lo.
— O que é essa fortaleza?  Horace perguntou.
— Ran-Koshi é uma fortaleza citada em um conto folclórico antigo  Shigeru falou a eles. — É por isso que Shukin duvidou de sua existência. Dizem que fica no alto das montanhas, em um vale escondido. Muitas centenas de anos atrás houve uma guerra civil sobre a sucessão do trono.
— Não diferente de agora, na verdade  Shukin disse severamente e o imperador olhou para ele.
— Precisamente  concordou e então se voltou para os dois araluenses. — O campeão usa Ran-Koshi como sua base de poder. Dizem que é uma fortaleza invencível, com paredes maciças e um fosso profundo.
— Soa como um tipo de lugar que você poderia usar  Horace disse.
Shigeru assentiu pensativo.
— Estaria abandonado agora  ele disse. — Isso se existe mesmo.
— Se isto está lá, só existe um grupo de pessoas que vão saber onde está  Reito disse. — Os Kikori. Eles passaram gerações vasculhando as montanhas em busca de árvores, em seguida construíram caminhos para trazer os troncos caídos para a região baixa. Eles conhecem cada centímetro das montanhas do norte.
— Então por que eles nunca revelaram sua localização?  Shukin perguntou.
Shigeru inclinou sua cabeça na direção de seu primo.
— Por que eles deveriam?  ele respondeu. — Ao longo dos anos, os Kikori tiveram poucos motivos para amar a classe dominante desse país. Se eles soubessem desse segredo, duvido que diriam aos Senshi. Eles não vão lutar contra a classe guerreira, mas não há nenhuma razão pela qual deveriam fazer alguma coisa para ajudá-los.
— Bom ponto de vista  Horace disse. — Então tudo o que temos que fazer é ir para o norte, falar com os Kikori e nos abrigarmos na fortaleza mística?
Shigeru deu a ele um aceno bem-humorado. Depois de seu primeiro choque das notícias da traição de Arisaka, ele havia recuperado um pouco de seu espírito normal.
— Talvez nós possamos dar um passo de cada vez, Ora’ss-san — ele disse. — Nossa prioridade é simplesmente fugir de Arisaka, e para isso, concordo que temos que ir para o norte. Mas temo que vocês não venham conosco.
Horace abriu sua boca para responder, sentiu a mão de George em seu braço e parou.
— Nós estamos em uma missão diplomática, Horace  George disse tranquilamente. — Não temos direito de interferir em problemas internos entre os nihon-jin.
Essa declaração fez Horace se levantar. Seu primeiro instinto ao ouvir sobre a rebelião de Arisaka foi ajudar o imperador a achar um jeito de derrotar o chefão traiçoeiro. Agora, esclarecido, não tinha direito de fazer tal coisa. Ele se sentou confuso. Shigeru viu o conflito em seu rosto e ofereceu a Horace um pequeno sorriso triste.
— George-san está certo. Essa não é sua batalha. Vocês são observadores do nosso país. Assim como não posso pedir para os Kikori lutarem, não espero que vocês arrisquem suas vidas em meu nome. Vocês podem voltar para sua própria terra.
— Seria melhor se Ora’ss-san e George-san também evitassem os homens de Arisaka — Shukin disse. — Os Shimonseki podem não entender as sutilezas da imunidade diplomática.
Shigeru olhou para seu primo. Shukin tem um bom ponto de vista, ele pensou. Os homens de Arisaka teriam seu sangue. Podem ser arrogantes e críticos, e Horace poderia muito bem ser provocado por eles se ele encontrá-los. Eles saberiam que o jovem araluense era um amigo do imperador e saberiam que ele era um guerreiro. Seria melhor ele evitar contato totalmente.
— Há uma estrada secundária para Iwanai aqui perto ao norte  ele disse. — Não é tão bom quanto viajar na estrada principal. De fato, é mais como uma trilha na montanha. Mas seria melhor vocês irem por ela, eu acho. Talvez vocês possam nos acompanhar até lá, então nos deixarem.
Horace balançou sua cabeça impotente. Ele sabia que estavam certos, mas odiava abandonar um amigo em perigo.
— Não gosto disso, Vossa Excelência  ele falou finalmente.
— Nem eu, Ora’ss-san. Mas, acredite em mim, é para o seu bem.

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