26 de janeiro de 2017

Capítulo 4

Halt acordou.
Por alguns segundos, ele se perguntou onde estava. Estava deitado de costas, olhando para o teto de lona dentro de um pavilhão com grandes dimensões. Ele podia ouvir pessoas se deslocando silenciosamente nas proximidades, falando em voz baixa. Em algum lugar mais distante, um homem estava gemendo. Ele tentou virar a cabeça, mas um súbito clarão de agonia acompanhou o movimento e ele grunhiu de dor.
Ele ergueu a mão até a testa e sentiu um grosso curativo. Em seguida, a memória começou a voltar.
A batalha com os Wargals. Ele se lembrou. Lembrou-se da pancada que tinha levado na cabeça, que devia ser a causa da dor que sentia. E se lembrou de um sargento. Qual era o seu nome? David? Não! Daniel. Daniel tinha salvado sua vida.
Em seguida, ele foi dominado pela tristeza ao lembrar das palavras do portador da sua maca. Daniel estava morto.
Por quanto tempo tinha estado ali? Ele se lembrou de que quando os enfermeiros tinham erguido-o sobre a maca, ele perdeu a consciência. Parecia que tinha acontecido há poucos minutos.
Ele tentou levantar a cabeça e sentiu uma pontada atrás dos olhos novamente. Mais uma vez ele grunhiu de dor e desta vez um homem entrou em seu campo de visão, olhando para ele.
— Você está acordado — disse o homem de plantão, dando um sorriso encorajador.
Ele se abaixou e colocou a palma da mão na testa de Halt, testando sua temperatura. Aparentemente convencido de que não havia nada, ele tocou o curativo levemente, certificando-se que ainda estava apertado.
— Quanto... tempo... — a voz de Halt estava arrastada e sua garganta estava grossa e seca.
O enfermeiro levou uma xícara de água fria aos seus lábios, levantando sua cabeça com cuidado para permiti-lo beber. A água estava maravilhosa. Ele a engoliu em seco e ela o sufocou, e tossiu de tal forma que a água borbulhou para fora de sua boca. A tosse trouxe a enxaqueca novamente e ele fechou os olhos em dor.
— Ainda com dor de cabeça, pelo visto? Bem, os curandeiros disseram que não houve danos graves. Você só precisa descansar mais alguns dias e a dor de cabeça vai passar.
— Há quanto tempo... estou aqui?
O enfermeiro franziu os lábios.
— Vamos ver. Te trouxeram na noite de anteontem, então eu diria que cerca de trinta e seis horas.
Trinta e seis horas! Ele tinha ficado dormindo ali por um dia e meio! Um arrepio de medo súbito o atingiu.
— Será que nós ganhamos?
Lembrou-se que os Wargals tinham recuado frente o ataque de Daniel, mas poderia ter sido um evento localizado.
O enfermeiro sorriu, acenando com a cabeça.
— Oh sim, de fato. Morgarath e seus brutamontes foram completamente vencidos. Alguém se referiu a isto como uma derrota. Eu ouvi dizer que você teve um pouco a ver com isso, é verdade?
Ele acrescentou a última palavra com curiosidade, como se estivesse interessado em ouvir mais sobre as façanhas de Halt no campo de batalha. Mas o arqueiro deixou isso de lado.
— Então Morgarath está recuando novamente? — perguntou.
— Sim. A cavalaria está perseguindo o inimigo, é claro. Mas o resto do exército ainda está aqui. Não por muito tempo, no entanto. Eles vão sair em breve.
— Para onde irão?
— Irão desbandar. A guerra acabou. Os homens voltarão para suas fazendas e suas famílias. E muito em breve.
Fazendas e famílias. As palavras mexeram em outra memória na mente de Halt. Daniel tinha falado de uma mulher e de um bebê. Halt prometeu ajudá-los. Mas agora ele percebeu que não tinha ideia de onde estavam e se o exército realmente estivesse se separando, ele poderia nunca encontrá-los. O arqueiro sentou-se sem pensar e balançou as pernas para o lado da cama, em seguida, se dobrou, sentindo uma dor incapacitante. O enfermeiro tentou ajudá-lo.
— Por favor! Se acalme, arqueiro! Você precisa descansar.
Mas Halt agarrou seu antebraço e conseguiu ficar de pé, balançando ao lado da cama. Ele piscou várias vezes. A dor diminuiu um pouco. Mas ainda estava lá.
— Eu não tenho tempo. Me dê alguma coisa para essa dor de cabeça. Eu tenho que descobrir onde ele morava.


Ele recordou que os homens que tinham sido enviados para ele liderar eram um grupo misto de Seacliff, Aspienne e Culway. Enquanto passava pela linha de frente, Hal percebera que os soldados a sua volta vestiam túnicas com o símbolo de um texugo negro, assim como Daniel. Ele não tinha ideia de qual grupo marchara sob essa bandeira, por isso foi para a tenda de comando ver o Mestre de Guerra do rei.
Quando chegou ao centro de comando, o Mestre de Guerra estava fora. Claro, ele estava liderando a perseguição a Morgarath e aos Wargals em direção ao canto sudeste do reino. Mas seu secretário ainda estava lá, fazendo anotações de feridos, substituições e promoções. Ele olhou para cima quando Halt entrou e sorriu calorosamente. Todo o exército tinha ouvido falar dos feitos de Halt durante a batalha.
— Bom dia, arqueiro.
Então ele percebeu o curativo ensanguentado e viu como Halt balançava ao entrar na tenda, chegando e se encostando contra a mesa onde o secretário estava sentado.
— Você está bem? — perguntou ansiosamente.
Ele se levantou e correu para encontrar um banco para Halt. O arqueiro caiu sobre o assento com gratidão. Ele piscou várias vezes. Sua visão ainda estava embaçada. Ele esperava que ficasse assim apenas temporariamente. Não poderia se imaginar atirando com a visão tão fraca.
— Apenas uma dor de cabeça. Eu preciso de uma informação. Acho que assumi o comando das tropas da ala direita na fase final da batalha.
— Na verdade você fez! — o secretário disse calorosamente. — O exército inteiro já ouviu falar sobre isso.
— Havia um soldado. Um sargento chamado Daniel. Na verdade, ele liderou o ataque enquanto eu estava derrubado. Alguém mencionou seu nome completo ou tem um registro de onde ele viveu?
O funcionário balançou a cabeça.
— Eu não mantenho uma lista completa. Cada força individual cuida de seus próprios homens. A que unidade ele pertence?
— Eu não tenho certeza. Eles usavam um texugo negro como símbolo.
Os olhos do assistente se estreitaram em concentração por alguns segundos, então sua expressão clareou.
— Um texugo negro? Esta seria a companhia do capitão Stanton, do feudo Aspienne. Eles estão acampados mais ao norte, em uma pequena colina. Stanton foi gravemente ferido antes de você reunir seus homens. Está sendo levado de volta, enfermo, para Castelo Aspienne. Mas o seu tenente deve ser capaz de ajudá-lo.
— Obrigado por sua ajuda.
Halt deixou a tenda. Ele parou por um momento, olhando para o norte. Sobre uma colina baixa há várias centenas de metros de distância, ele podia ver um grupo de tendas em torno de um estandarte. Era longe demais para ver o símbolo da bandeira, mas podia ver que era de cor preta. Ele foi em direção às tendas.
Como era o costume, o estandarte indicava a posição da tenda do oficial comandante. Enquanto Halt se aproximava, ele podia ver que estava certo. A figura no estandarte era de um texugo negro. Ele parou na entrada aberta.
A tenda de comando era maior do que as simples unidades de quatro homens que a rodeavam. O comandante e sua equipe trabalhavam ali, por isso ela era usada como o escritório da companhia. Na parte de trás, uma seção separada ficava do lado de fora, formando os quartos onde vivia o capitão. Agora, é claro, isso não fazia diferença. Mas uma figura corpulenta estava sentada em uma mesa na parte da frente, franzindo a testa sobre folhas de papel.
Era um homem mais velho, um tanto grisalho e com um olhar inconfundível de experiência e autoridade. Sem dúvida, era o tenente que o funcionário tinha mencionado. Ele olhou para cima quando Halt entrou na tenda, vendo a capa e o curativo do arqueiro em torno de sua cabeça.
— Você tem a aparência de já quem esteve em guerra — disse ele, sorrindo.
Halt permitiu-se um leve sorriso.
— Apenas em uma. A mesma que você esteve participando. Eu estou tentando encontrar o endereço da casa de um de seus homens. Um sargento chamado Daniel.
O sorriso desapareceu e o tenente balançou a cabeça tristemente.
— Daniel? Ele era um homem bom. O perdemos na batalha final, temo.
— Eu sei. Ele salvou minha vida pouco antes de morrer.
O homem mais velho considerou Halt com um interesse crescente.
— Oh. É você o tal arqueiro, não é? — ele levantou-se de trás da mesa e ofereceu sua mão. — É uma honra conhecê-lo. Meu nome é Griff.
Halt se sentiu desconfortável. Ele não gostava de ser o centro das atenções. Não era de seu feitio. Ele preferia viver sua vida discretamente, passando despercebido sempre que possível. Mas ele apertou a mão do homem.
— Eu sou Halt.
Griff acenou em direção a uma cadeira e sentou-se mais uma vez. Ele franziu os lábios, pensativo.
— Não tenho certeza se posso te dizer muito. Tudo aconteceu muito rápido quando mobilizamos o exército, e Daniel era muito novo no feudo. Ele e sua esposa tinha se mudado de Norgate não muito tempo antes do início da guerra — indicou as pilhas de papéis e pergaminhos sobre a mesa que servia como uma escrivaninha — nós não tivemos tempo para anotar todos os detalhes dos homens antes de termos de marchar para a luta. Eu estou fazendo isso agora.
— Você pode me dizer alguma coisa sobre ele? — Halt perguntou.
— Ele tinha uma fazenda, creio eu, em algum lugar na parte sudeste de Aspienne. Mas onde ela possa ficar, eu não tenho ideia.
— Ele tem amigos na companhia que poderiam saber?
O sargento estava balançando a cabeça antes mesmo de Halt terminar a pergunta.
— Ele pode ter. Embora, como um sargento, deve ter ficado um pouco distante dos outros homens. Mas você poderia perguntar a eles. Ele tinha o comando da sexta unidade. Você vai encontrá-los uma fileira e meia à frente.
— Eu agradeço.
Ele se levantou, estremecendo mais uma vez com a dor através de sua testa. Ele colocou a mão sobre a mesa para se firmar.
Griff olhou para ele com alguma preocupação.
— Você tem mesmo de ir procurá-los? Você não me parece bem.
Halt balançou a cabeça e imediatamente desejou não o ter feito.
— Eu vou ficar bem — respondeu. — Foi apenas uma pancada. Estou melhor no ar fresco do que na abafada tenda dos curandeiros.
— Isso é verdade — Griff olhou para os formulários e papéis em sua mesa com um ar de decepção, como se tivesse esperança de que eles iriam se preencher sozinhos enquanto falava. — Bem... me desculpe, mas não posso ser de mais ajuda.
Halt acenou com a mão, agradecendo.
— Qualquer informação já ajuda.
Ele avançou pelas fileiras de tendas, e passou entre duas para alcançar a fileira seguinte. Cerca de dez metros abaixo, viu um cartaz gravado com o número 6 pregado sobre um eixo de lança. Ele olhou para baixo, para as próximas cinco tendas, e viu que havia um cartaz semelhante, desta vez com o número 7. Cinco tendas, quatro homens para cada uma, o que fazia vinte homens no total. Assumindo que todos tinham sobrevivido, o que ele sabia não ter acontecido.
Três soldados descansavam ao sol do lado de fora da tenda. Se entreolharam quando sua sombra caiu sobre eles. Tinham uma pitada de desconfiança nos olhos, mas desde que Crowley e ele tinham reformulado o Corpo de Arqueiros, Halt tinha se acostumando a isso. Oficiais e sargentos apreciavam as habilidades dos arqueiros trazidos ao exército, mas os recrutas se sentiam pouco à vontade perto das figuras vestidas de verde e cinza. Ele sabia que circulavam rumores de que os arqueiros praticavam feitiçaria.
— Bom dia — ele cumprimentou uniformemente.
Os homens acenaram com a cabeça, esticando o pescoço para o olhar. Eles estavam sentados em banquinhos baixos. Um deles remendava uma túnica rasgada, um segundo esculpia com uma faca e o terceiro mastigava lentamente um pedaço de carne seca. De onde Halt estava, parecia que a carne estava ganhando a luta. Halt indicou um banquinho, a poucos metros de distância.
— Se importa se eu acompanhá-los por alguns minutos?
O homem que remendava a túnica assentiu.
— Por que não? — Disse, seu tom de voz nem dava boas-vindas, nem desprezo.
Seu companheiro que mastigava a carne estava olhando para Halt com uma carranca de reconhecimento em seu rosto.
— Eu te reconheço — falou, pensativo, tentando recordar. Então lembrou. — Você estava na batalha! Estávamos sendo conduzidos de volta e de repente você estava lá, empurrando-nos para frente, cortando e afastando os Wargals, gritando para que nós te seguíssemos. Você fez um excelente trabalho. Excelente! — Ele se virou para os outros. — Vocês o viram? Primeiro ele derrubou pelo menos uma dúzia deles com seu arco, então ele correu para o meio deles, cortando e apunhalando. E olhe para ele! Ele é pouco maior que um menino.
Halt levantou uma sobrancelha. Ele não era o maior dos homens, mas sabia que o soldado estava exagerando um pouco. No entanto, podia ver que ele não pretendia insultá-lo, por isso deixou de comentar o assunto.
— O sargento me deu uma mão — disse Halt, e o homem acenou com a cabeça vigorosamente.
— Se deu! Ele nos conduziu quando você caiu. Deve ter matado uma dúzia deles também!
Halt sorriu discretamente para isso. O homem estava inclinado a exagerar.
— Ele fez um ótimo trabalho — concordou.
O mastigador virou-se para seus amigos.
— Vocês viram o sargento?
Ambos balançaram a cabeça.
— Estávamos mais longe, à direita — respondeu o mastigador. — Tudo o que vi foi que a linha estava prestes a quebrar, então ele começou a se mover para a frente. Em seguida, os Wargals estavam correndo — a questão tinha sido ignorada e o mastigador de carne estava ansioso para continuar sua história. — Ele matou quatro ou cinco deles com a lança. Então fatiou a cabeça de um e a usou como um martela, girando-a ao redor, batendo em suas pernas. Então pegou uma espada e matou oito ou nove deles antes de chegarem até ele — olhou para Halt esperando confirmação — você viu, arqueiro! Quantos você acha que ele matou?
— Pelo menos oito — Halt confirmou.
Ele não via nenhuma razão para contradizer o homem. A atmosfera estava subitamente muito mais acolhedora do que tinha sido no primeiro momento.
— Eu queria algumas informações sobre ele — falou. — Qualquer coisa sobre onde ele viveu.
Ele ficou desapontado ao ver a expressão anuviada da já conhecida expressão de incerteza nas três faces.
— Desculpe — disse o homem que tinha exaltado os feitos e a coragem de Daniel. — Ele era novo na unidade e na região. Foi promovido rapidamente.
— Isso mesmo — um dos outros confirmou, deixando de lado o gibão remendado. — O capitão gostou da aparência dele. Fez dele um sargento quase que imediatamente. Aparentemente, ele tinha tido alguma experiência militar em Norgate antes de vir à Aspienne.
— Foi promovido tão rapidamente, nós realmente não tivemos tempo para conhecê-lo — disse o homem que estava esculpindo. — Eu acho que o ouvi mencionar uma fazenda em algum lugar...
Ele parou, sem se lembrar dos fatos. Houve um silêncio constrangedor. Halt fez um movimento para levantar-se do banco, pensando mais uma vez que seus esforços para localizar a família de Daniel tinham resultado em fracasso. O primeiro homem que havia falado, o que mastigava a carne, pareceu ter uma ideia.
— Você poderia tentar Kord e Jerrel. Eles poderiam ter uma ideia.
— Se eles falarem com você — o homem vestiu a túnica remendada.
Halt olhou de um para o outro.
— Acho que vocês não são fãs desses dois.
Os três homens trocaram olhares. Então o que havia sugerido os dois nomes respondeu.
— Eles são um par de mentirosos e trapaceiros. Têm um jogo de dados e tentaram fazer amizade com Daniel, inicialmente, até que o convidaram para jogar. Meu palpite é que eles estavam deixando ele ganhar nos dados para cair em sua boa graça. Mas o sargento viu o que queriam antes de conseguirem e eles se encontraram a fazer o seu quinhão de deveres fatigantes. Então eles o largaram.
— O que te faz pensar que eles sabem onde ele viveu? — Halt perguntou e novamente houve uma pausa estranha.
Finalmente, o entalhador falou.
— Eles sempre quiseram saber onde todos viviam. Sempre faziam perguntas sobre de onde você veio, o que o fazia em casa. Não posso provar nada, mas acho que eles estavam mantendo um registro para voltar após o fim da guerra e roubar.
— Principalmente aqueles que tinham sido mortos em combate — disse pesadamente o homem que remendou o gibão. — Conhecendo as famílias, essas seriam presas fáceis. É o tipo de coisa que eles fazem, de qualquer forma. Eles provavelmente sabem onde encontrar a fazenda do sargento.
— O problema é fazê-los dizer — disse o mastigador e os outros concordaram.
Halt olhou ao redor do pequeno círculo de rostos, vendo desgosto em relação aos dois abutres chamados Kord e Jerrel.
— Como eu poderia começar a convencer esses dois? — perguntou.
O mastigador ergueu uma sobrancelha.
— Jogue dados com eles. Mas esteja preparado para perder.

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