30 de janeiro de 2017

Capítulo 49

Elide não falou com Lorcan por três dias.
Ela não teria falado com ele por mais três, talvez por três malditos meses, se a necessidade não tivesse requerido quebrar o silêncio detestável.
Seu ciclo havia chegado. E fosse pela estabilidade, pela dieta saudável que ela tivera naquele mês anterior, passara de um pingo inconsistente para o dilúvio com que ela despertara esta manhã.
Ela pulara da cama estreita na cabine para o pequeno banheiro a bordo, vasculhou todas as gavetas e caixas que pudesse encontrar, mas... claramente, uma mulher nunca tinha passado algum tempo naquele barco infernal. Ela recorreu a rasgar a toalha de mesa em tiras, e no momento em que limpou-se, Lorcan estava acordado e já conduzia o barco.
— Eu preciso de suprimentos — ela disse categoricamente a ele.
— Você ainda fede a sangue.
— Suspeito que vou feder a sangue por mais alguns dias, e vai piorar antes de melhorar, então preciso de suprimentos. Agora.
Ele saiu do seu local habitual, perto da proa, farejando uma vez. O rosto dela queimava, e seu estômago uma bagunça de cólicas.
— Eu vou parar na próxima cidade.
— Quando será isso? — o mapa não era de nenhuma utilidade para ela.
— Ao cair da noite.
Eles navegaram direto através de cada cidade ou posto avançado ao longo do rio, sobrevivendo com os peixes que Lorcan apanhava. Ela estava tão irritada com sua própria impotência que após o primeiro dia, começara a copiar os movimentos dele – e conseguira uma gorda truta no processo. Ela o fez matá-lo e estripá-lo e cozinhá-lo, mas... ela tinha, pelo menos, pegado a coisa.
— Tudo bem — Elide disse.
— Tudo bem — Lorcan respondeu.
Ela se virou para a cabine para encontrar alguns outros tecidos para ajudá-la, mas Lorcan disse:
— Você mal sangrou a última vez.
A última coisa que ela queria fazer era ter essa conversa.
— Talvez meu corpo finalmente tenha se sentido seguro o suficiente para ficar normal.
Porque mesmo apesar de ele assassinar aquele homem, mentir, e depois cuspir a verdade sobre Aelin na cara dela... Lorcan poderia ir contra qualquer ameaça sem pensar duas vezes. Talvez por sua própria sobrevivência, mas ele jurara protegê-la. Ela era capaz de dormir durante a noite porque ele estava no chão entre ela e a porta.
— Certo... não há nada de errado, então. — Ele não se preocupou em olhar para ela quando disse isso.
Ela inclinou a cabeça, estudando os músculos rígidos de suas costas. Mesmo enquanto se recusava a falar com ele, ela o observava – e inventava desculpas para ver enquanto ele continuava com seus exercícios a cada dia, geralmente sem camisa.
— Não, não há nada de errado — disse ela. Pelo menos, ela esperava. Mas Finnula, sua babá, sempre estalava a língua e dizia que os ciclos dela eram fracos, claros demais e irregulares. Para este ter chegado justamente um mês mais depois... ela não tinha vontade de querer saber sobre isso.
— Bom. Nos atrasaria se fosse de outra maneira — Lorcan falou.

Ela revirou os olhos em suas costas, não de todo surpreendida com a resposta, e mancou para dentro da cabine.



Ele precisava parar de qualquer maneira, Lorcan disse a si mesmo enquanto observava Elide permutar com uma estalajadeira na cidade pelos suprimentos de que ela precisava.
Ela envolvera o cabelo escuro em um lenço vermelho descartado que devia ter roubado naquela pequena barca lamentável, e até mesmo usou um sotaque nasal enquanto falava com a mulher, todo o seu semblante muito longe da mulher graciosa e quieta que ele passou três dias ignorando.
Isso tinha sido bom. Ele usou aqueles três dias para resolver seus planos para Aelin Galathynius, como retribuiria o favor que ela dera a ele.
A pousada parecia segura o suficiente, então Lorcan deixou Elide e sua permuta – acabou que ela queria roupas novas, também – e vagou pelas ruas em ruínas da cidade abandonada em busca de suprimentos.
As ruas estavam alvoroçadas com os comerciantes do rio e a amarração dos pescadores para a noite. Lorcan conseguiu intimidar o seu caminho para comprar uma caixa de maçãs, carne de veado seca e um pouco de aveia pela a metade do preço habitual. Só para afastá-lo, o comerciante do cais em ruínas jogou algumas peras dentro do caixonte – para a encantadora senhora, ele dissera.
Lorcan, os braços cheios de suas mercadorias, estava quase na barca quando as palavras ecoaram em sua cabeça, um repicar fora de ordem.
Ele não vira Elide passando por aquela parte do cais. Não vira o homem enquanto ancorava, ou quando eles saíram. Fofocas podiam explicar isso, mas esta era uma cidade ribeirinha: estranhos estavam sempre indo e vindo, e pagando por seu anonimato.
Ele correu de volta para o barco. Nevoeiro ondulara do rio, turvando a cidade e a margem oposta. Na hora que ele atirou a caixa e as mercadorias para o barco, nem sequer se preocupando em amarrá-los, as ruas tinham esvaziado.
Sua magia agitou. Ele examinou o nevoeiro, as manchas douradas onde as velas brilhavam nas janelas. Não está certo, não está certo, não está certo, sua magia sussurrou.
Onde ela estava?
Apresse-se, ele quis dizer a ela, contando os quarteirões que eles percorreram até a pousada. Ela já deveria ter voltado.
O nevoeiro pressionou. Chiados soaram em suas botas.
Lorcan rosnou para as pedras na calçada quando ratos passaram correndo – em direção à água. Eles lançaram-se no rio, pulando e arranhando uns sobre os outros.
Algo não estava chegando – algo estava aqui.



A estalajadeira insistiu para que ela experimentasse a roupa antes de comprar. Ela amontoou tudo nos braços de Elide e apontou para um cômodo na parte de trás da pousada.
Homens olharam para ela – muito ansiosamente – enquanto ela passava e caminhava por um corredor estreito. Típico de Lorcan deixá-la enquanto procurava o que ele precisava. Elide abriu a porta para dentro, encontrando-o escuro e gelado. Ela girou, procurando por uma vela e uma pederneira.
A porta fechou-se, selando-a lá dentro.
Elide se lançou para a maçaneta quando aquela pequena voz sussurrou, Corra corra corra corra corra corra.
Ela bateu em algo musculoso, ósseo e semelhante a couro.
Cheirava a carne estragada e sangue velho.
Uma vela despertou a vida em toda a sala. Revelando uma mesa de madeira, uma lareira vazia, janelas seladas e...
Vernon. Sentado do outro lado da mesa, sorrindo para ela como um gato.
Mãos fortes mergulhadas em garras afundaram em seus ombros, as unhas cortando seus couros. O ilken segurou-a firmemente quando seu tio disse lentamente:
— Que aventura que você teve, Elide.

10 comentários:

  1. Tava tudo calmo demais para ser verdade
    Como diz o ditado,o que é bom dura pouco

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  2. POR QUE TINHA QUE SER COM A ELIDE? PORQUE? EU TO PUTA COM ISSO!

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  3. Putz grila
    Espero q o Lorcan chegue matando tudin e resgatando a Elide antes q algo pior aconteça

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  4. "-Você ainda fede a sangue"
    Lorcan ta longe de ser a mais sutil das criaturas
    😂😂 Eu ri
    Esperando o momento em q ele e Elide se peguem,q demora

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  5. Vernon e um babaca, nogento, desgraçado, fdp. Lorcan mata
    Logo esse cara, mas faz ele
    sofre muito antes de chegar a
    Ter seu fim.
    Ass:Milly *-*
    (Acho q eu tô ficando meio louca lendo essa saga )

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  6. Tenho certeza que depois que encontra Lorcan, Venon vai desejar nunca ter ido atrás de Elide..

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Boa leitura :)