26 de janeiro de 2017

Capítulo 49

Quando amanheceu, elas arrastaram o corpo morto do mostro de volta ao castelo de Nimatsu, engatado atrás de um par de cavalos emprestados da aldeia Hasanu.
Ele era, como Evanlyn havia adivinhado quando o viu pela primeira vez, um tigre da neve. Mas era um imenso, medindo cerca de cinco metros do focinho à cauda. Quando a pequena cavalgada fez seu caminho através da rua principal da aldeia, os Hasanus saíram em reverência para vê-los passando. Houve gritos de espanto quando viram o tamanho do gato morto, seu corpo listrado de branco e cinza manchado com sangue e sujeira.
Os sinais deixados pelos tiros de Evanlyn também eram claramente visíveis – a pata dianteira esquerda fora esmagada e retorcida em um ângulo curvado. A mandíbula inferior foi destruída quase separada do crânio da criatura, mantida no lugar apenas por uma rede de nervos, e a mandíbula e o pescoço estavam cobertas de sangue seco e congelado.
O mais notável era o corte de meio metro de comprimento na barriga do animal, com a pele em torno dela saturada de sangue também.
A cabeça da besta batia no chão enquanto os dois cavalos caminhavam lentamente pela vila. Os olhos estavam entreabertos, vidrados. Mas mesmo na morte, o animal ainda ganhava seu título, Kyofu – o Terror.
A palavra voava de boca em boca quando elas escancaravam para a fera que estava aterrorizando o interior. Então eles olharam do cadáver enorme para as duas meninas que o haviam conquistado.
Ambas estavam cansadas e pálidas, lutando contra o choque e as sequelas de medo tanto quanto o cansaço.
Vistas ao lado do corpo inerte, elas pareciam minúsculas, quase insignificantes. O casaco e a calça de Alyss estavam rasgados e manchados do terreno acidentado onde ela tinha caído. Ela tinha descartado o couro de proteção do rosto e dos braços. O escudo estava pendurado do lado esquerdo do cavalo e a luz do dia revelou a extensão do golpe que havia tomado das garras e dentes do Kyofu.
A borda superior foi estilhaçada e dividida e havia goivas maciças nas curvas de madeira que formavam a maior parte do escudo. As tiras de ferro reforçado mostravam cicatrizes brilhantes onde as garras enormes da criatura tinham marcado profundamente no metal.
Quando as duas criaturas esguias, diminuídas pelo Kyofu e pelo povo maciçamente construído de Hasanu, avançaram pela rua da aldeia, os moradores começaram a se ajoelhar, a flexão de corpos e cabeças baixas se deslocavam em sucessão, assemelhando-se a uma plantação de trigo diante de uma súbita brisa varrendo pelo campo.
— Nós nos curvamos ou algo assim?  Evanlyn perguntou pelo canto da boca.
Treinada como ela estava com o protocolo, esta foi uma situação que seus professores nunca tinham previsto.
— Você pode. Estou muito cansada  Alyss respondeu.
Ela olhou para o fim da rua central da aldeia, que subia em direção ao castelo. A figura alta de lorde Nimatsu estava esperando por elas. À medida que se aproximavam, ele se inclinou no menor arco possível diante delas.
Alyss e Evanlyn trocaram um olhar, em seguida, fizeram gestos com as mãos vagas e os prumos um pouco duros da cabeça em resposta.
— Ariss-san, Ev-na-in-san — disse o nobre quando se ajeitou mais uma vez — vocês realizaram um grande serviço para o meu povo.
Evanlyn balançou a cabeça, olhou em volta e apontou para o enorme corpo no chão.
— Senhor Nimatsu, aqui está seu Kyofu. Morto.
— Eu posso ver. Eu posso ver  Nimatsu respondeu suavemente.
Ele se aproximou para examinar o Kyofu mais de perto, observando as lesões terríveis que essas duas estrangeiras franzinas tinham infligido sobre ela.
— Vocês estão ilesas?  perguntou ele.
Alyss encolheu os ombros.
— Eu estou ralada e suja, e meu traseiro está cheio de hematomas.
Evanlyn deu um sorriso cansado.
— Eu tive um inacreditável medo fora de mim. Mas, além disso, nós estamos bem. Você deverá ver o outro. — Ela fez uma pausa, depois acrescentou em falsa surpresa — Oh... você pode.
— É um tigre da neve  Nimatsu falou suavemente.
Ele caiu de joelhos ao lado do corpo inerte, chegando a tocar a pele branca.
— Nunca vi um tão grande. Eu pensei que eles tinham sido expulsos destas partes anos atrás.
— Bem, esse resolveu ficar por perto  Alyss respondeu.
Nimatsu ergueu os olhos do tigre morto e encontrou os olhos das duas garotas gaijins. Em sua vida, ele tinha visto muitas façanhas na batalha. Nunca antes tinha visto coragem igual àquela apresentada por essas duas. Ele se virou para os Hasanus reunidos, agora observando em silêncio.
— Povo Hasanu! — falou, erguendo a voz para que descesse até a rua, onde centenas de rostos estavam assistindo. — O Kyofu está morto!
Foi como se estivessem aguardando a confirmação do fato. Um gigante rugido de triunfo sem palavras surgiu dos aldeões reunidos. Alyss e Evanlyn ficaram sem jeito, não tinham certeza de como responder ao momento.
Verdade seja dita, ambas estavam ansiosas para escapar da opinião pública e recuperar a noite terrível que passaram.
Nimatsu levantou a mão e o rugido da multidão morreu lentamente.
— O Kyofu matou dezessete dos nossos amigos e vizinhos. Agora, essas meninas, essas meninas de outro país, deram um fim no Terror!
Alyss levantou a sobrancelha. Ele não usou a palavra gaijin, notou. Literalmente, significa estrangeiro. Mas o tempo tinha desenvolvido harmonia pejorativa na forma como foi utilizada algumas vezes.
Obviamente, senhor Nimatsu pretendia que ninguém pudesse desferir qualquer tipo de calúnia com suas palavras.
— Povo Hasanu, dê graças a Ev-na-in-san e Ariss-san!
Agora o barulho que se levantou de sua garganta era ensurdecedor. Alyss olhou para Evanlyn, em pé ao seu lado. A princesa sorriu.
— Eu acho que nós poderíamos nos curvar agora  disse ela.
Elas reconheceram os gritos dos moradores, então senhor Nimatsu adiantou-se para se juntar a elas.
— Hoje, vocês devem descansar e se recuperar  disse ele. — Vou enviar mensageiros para recolher um exército Hasanu. Até o fim da semana, devemos estar prontos para marchar para o auxílio do imperador Shigeru.


Alyss deitou no banho escaldante, sentindo a água aliviar suas contusões e dores de sua batalha com o Kyofu. Ela ainda podia lembrar o terror entorpecente que sentiu quando o animal maciço tinha saído da noite e chegado até ela, a boca seca de medo enquanto estava deitada debaixo do escudo de madeira, ouvindo suas garras e dentes rasgarem a madeira, sentindo-o romper e sabendo que não podia resistir ao ataque por muito mais tempo, então o alívio esmagador quando ouviu o disparo de Evanlyn batendo no corpo do animal.
— Ela é tão boa quanto dizem  murmurou para si mesma.
Relutante, ela saiu da água fumegante, envolvendo-se em um gigante manto quente e gemendo um pouco com as pontadas de dor nos músculos das costas. No entanto, a dor era muito menor do que tinha sido antes do banho, ela sabia. Houve um leve toque na moldura da porta.
— Entre  ela falou.
A porta se abriu e Evanlyn entrou. Ela tinha tomado banho também. Usava um manto em volta do cabelo curto loiro que ainda estava molhado.
— Como você está se sentindo?  Evanlyn perguntou.
Alyss fez seu caminho para um banquinho e se sentou. Gemendo um pouco mais uma vez, e indicou para Evanlyn se sentar ao lado dela.
— Eu vou viver — respondeu com um sorriso irônico. — Essa água quente certamente faz maravilhas. O que não me escaldou me deixa mais forte  disse ela, citando incorretamente o velho provérbio.
O sorriso desapareceu e ela estudou Evanlyn por alguns segundos.
— Ocorre-me  ela disse — que em todo o espanto e emoção e aplausos, eu nunca disse obrigada a você.
— Obrigada a mim?  Disse Evanlyn, seu tom incrédulo. — Eu nunca presenciei nada que se igualasse ao que você fez na noite passada! Esse foi o ato mais corajoso que eu já vi! Onde diabos você teve aquela ideia?
Alyss corou um pouco, embora, com o rosto já liberado a partir do calor do banho, foi difícil de perceber.
— Selethen nos disse algo quando estávamos na Toscana. Ele disse que uma das tribos ao sul de Arrida caçava leões desse jeito. Eles deixam os leões pularem neles, em seguida, se escondem sob seus escudos e dão facadas deles. Pareceu-me que podia ser um caminho para lidar com Kyofu. É claro  terminou, sorrindo — eles não têm o benefício de um amigo atirando grandes pedaços de chumbo no leão quando fazem isso. Você não tem ideia de como eu estava aliviada quando você veio ao resgate.
Ela olhou seriamente para a garota menor agora. Todos tinham feito um grande alarido sobre Alyss se dispor para servir de isca na floresta. Só Alyss percebeu que, quando Evanlyn veio em sua ajuda, ela tinha feito isso sem nenhuma proteção. Se seus tiros de estilingue não tivessem sido tão precisos quanto foram, ela teria ficado diante de uma fera enfurecida de perto, sem escudo, armadura ou qualquer outro tipo de arma de defesa.
Se Alyss havia arriscado sua vida para derrotar o Kyofu, Evanlyn não tinha feito menos. Ela questionou se a princesa percebeu isso e sentiu um profundo respeito pela outra menina, e não apenas sua habilidade com o estilingue, mas por sua disposição para se colocar em perigo para salvar um companheiro.
Se apenas... Alyss resolutamente empurrou o indigno pensamento de lado. Mas Evanlyn parecia ter pensado de forma semelhante.
— Alyss  disse ela, hesitante — um dia eu serei rainha. E vou querer que as pessoas ao meu redor sejam corajosas, dedicadas e criativas.
— Assim é como deve ser  disse Alyss.
— Francamente, eu gostaria que boa parte dessas pessoas fossem mulheres. Acho que as mulheres têm uma perspectiva diferente sobre as coisas, como sua mentora tem provado uma vez ou outra. Eu gostaria que você fosse do meu circulo íntimo, Alyss, profissionalmente e pessoalmente. Acho que poderíamos trabalhar bem juntas.
Alyss fez uma meia reverência de sua posição sentada e encolheu-se quando os músculos das costas estenderam-se novamente.
— Sempre serei feliz em servir a minha rainha e meu país de qualquer maneira que eu puder  ela disse educadamente.
Evanlyn estendeu as mãos em exasperação.
— Por que você tem que ser tão formal, Alyss? Eu respeito você. Eu admiro você. Eu gosto de você! Eu quero ser sua amiga! Meu pai revelou que ter bons amigos como conselheiros é a melhor maneira de governar. Halt, Crowley, barão Arald. Eles não são apenas conselheiros. Eles eram seus amigos há anos. E os amigos dirão quando você está errado. Eu quero isso!
— Tenho sido hostil, Vossa Alteza? Eu sempre tentei ser respeitosa.
O rosto de Alyss era uma máscara, mas agora dois pontos de cores apareceram-no rosto de Evanlyn.
— Sempre tem que ter uma discussão entre nós, não é?  Ela falou com raiva. — Obrigada por isso, Vossa Alteza. Eu tenho sido hostil? Eu sempre fui respeitosa— Ela imitou as palavras de Alyss selvagemente. — Eu estou oferecendo a minha amizade. Mas você parece decidida a me empurrar para longe. Por quê? Vamos jogar abertamente, de uma vez por todas!
Alyss respirou fundo. Ela hesitou. Ela era uma garota ambiciosa e sabia que poderia estar comprometendo sua carreira futura se tivesse mais essa questão. Mas então a barragem rompeu.
— Nós sabemos o que é! Deixe suas mãos longe de Will, certo?
Ela levantou-se dominando a garota menor com sua altura superior. Mas Evanlyn manteve sua posição e gritou com ela.
— Será? O que tem Will? O que você acha que existe entre mim e Will?
— Por que você está apaixonada por ele! Você é a princesa e acha que pode ter qualquer coisa que quiser, e você vai querer. Qualquer tolo pode ver isso!
— Então temo que você seja tola, Alyss Mainwaring, porque eu não estou apaixonada por Will. Eu amo Horace.
Evanlyn abaixou sua voz, mas suas palavras não carregavam menos peso pela queda brusca no volume.
— É claro que você ama! Não nego isso. Você...
Alyss de repente percebeu o que a princesa tinha dito e afundou em uma pausa.
— Você está o quê?  Disse. — Quero dizer, eu sei que Horace é apaixonado por você. Mas você...
— Eu estou apaixonada por ele. Amo-o profundamente. E só ele. Porque você acha que eu rodei meio mundo para ajudá-lo? Porque ele é um bom parceiro de dança? Oh, eu gosto de Will, Alyss. Mas não sou apaixonada por ele. Passamos por muita coisa juntos e ele foi um amigo e protetor maravilhoso pra mim. Olha, anos atrás, quando voltamos da Escandinávia, eu achava que estava apaixonada por Will. Eu admito que fiz um jogo com ele então. Mas ele não me quis, e ele estava certo. Nós somos amigos, bons amigos. Certamente você pode lidar com isso?
Alyss hesitou. Ela ainda não estava certa. Não tinha certeza de que ela confiava nos motivos de Evanlyn.
— Eu não estou...  ela começou, mas Evanlyn explodiu de raiva mais uma vez.
— Ah pelo amor de Deus, menina! Diga-me, como você se sente sobre Horace?
— Horace?  Alyss disse em surpresa. — Bem, nós crescemos juntos. Eu o amo, é claro. Ele é como um irmão mais velho.
— Exatamente! Agora isso me incomodou? Ou eu tenho lidado com isso?
Alyss não pôde evitar um sorriso irônico.
— Bem, quando o encontramos, você quase quebrou meu braço deixando-o longe de mim  ela disse e Evanlyn revirou os olhos. — Mas não... Eu suponho que não tem incomodado. Não há nenhuma razão para que deva. Não há nada como... que... entre Horace e eu, como eu digo.
— Aaaaaaaggggggghhhhh!  Evanlyn soltou um grito frustrado.
Alyss efetivamente recuou em surpresa.
— Isso é o que eu estou tentando dizer! Não há nada entre Will e eu! Lide com isso! Pelo amor de Deus, lide com isso!
Mais do que um pouco surpresa, Alyss estudou a postura determinada dela. Alyss era uma pessoa honesta e foi forçada a admitir que Evanlyn tivesse um excelente ponto.
Alyss passou os últimos meses, e um tempo considerável antes deles, desconfiando dela, considerando seu ressentimento e ciúme do tempo que ela passou com Will. No entanto, ela percebeu que Evanlyn, se ela escolhesse, poderia se sentir da mesma maneira sobre seu relacionamento com Horace.
Mas ela não fez. Ela aceitou.
E de repente, Alyss sentiu-se muito pequena quando se lembrou do sarcasmo e das provocações e articulações magoadas que tinham caracterizado sua relação.
Evanlyn se comportou bem, ela pensou. Foi ela quem se comportou mal, que tinha sido mesquinha e desconfiada. Esta era uma menina nobre e corajosa. Ela não hesitou em arriscar a vida quando Alyss estava em perigo. Ela agiu de forma rápida e sem hesitação.
Ela tinha oferecido sua amizade e Alyss, como sempre no passado, a mensageira tinha rejeitado.
— Sinto muito  ela falou calmamente. — Nunca pensei nisso dessa forma.
Alyss sentia-se envergonhada e por poucos segundos ela não conseguia encontrar os olhos de Evanlyn. Mas, em seguida, ela ouviu o sorriso inconfundível na voz da garota menor.
— Bem, graças a Deus, temos que sair desse caminho. Afinal, os nossos futuros maridos são melhores amigos. Seria estranha maldição se continuássemos a odiarmos uma a outra.
— Eu nunca odiei você  Alyss protestou, mas ela viu Evanlyn levantar a sobrancelha em uma expressão familiar.
— É mesmo?  disse a princesa.
Alyss encolheu de ombros desajeitadamente.
— Bem... talvez um pouco. Mas eu estou além disso agora.
Ela olhou para Evanlyn elas sorriram uma para a outra. Havia um novo calor em seus sorrisos e Alyss percebeu que essa era uma amizade que duraria por toda a vida.
— Você realmente vai se casar com Horace?  ela perguntou intrigada.
Evanlyn assentiu.
— Vou precisar de uma dama de honra  disse ela. — Uma alta. Dessa forma, vou ser menor e mais feminina.

5 comentários:

  1. Primeira vez que eu to gostando de Evanlyn

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    1. Eu li Evanlyn, depois Eadlyn, depois Evanlyn de novo... kkkkk

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  2. Sinceramente? Eu preferi a Evanlyn. Nossa a Alyss tava muito chata e mandona e a Evanlyn aceitou tudo, sem ficar reclamando ou de sarcasmo. E olha que ela é uma princesa.

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  3. Meu Deus! Eu pensei que a Evanlyn iria meter umas bolachas na cara da Alyss para ela entender que Will não gosta dela, nem ela dele!

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  4. Ai meus Zeus! Pelo Anjo, posso ler isso cem vezes, nunca vou parar de fazer a dancinha da vitória quando ela admite que ama o Horace. Todo mundo sabe disso, mas é muito melhor admitido. E agora que essas duas se entenderam, Atena nos proteja, ou melhor...proteja Horace e Will.

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Boa leitura :)