26 de janeiro de 2017

Capítulo 48

— Você tem certeza que essa é uma boa ideia?  Evanlyn perguntou ansiosamente.
Alyss olhou de relance pra cima de onde estava checando seu equipamento.
— Não. Não tenho. Mas esta é uma ideia, e é a única que nós temos. Eu apenas espero que você seja tão boa quanto diz que é com aquele seu estilingue.
— Eu nunca disse que eu era tão boa. Outras pessoas podem ter dito isso, não eu — Evanlyn protestou.
Alyss a considerou cinicamente.
— Talvez. Mas eu nunca ouvi você os contradizer.
A discussão foi interrompida por uma luz clara do outro da porta do quarto que elas compartilhavam.
— Entre  Alyss chamou e a porta deslizou para admitir lorde Nimatsu.
O nobre nihon-jin as olhou com um olhar preocupado no rosto. Ele olhou para a cama e viu o equipamento de Alyss disposto pronto.
— Ariss-san  ele disse, se curvando a ela — vejo que está determinada a continuar com isto.
— Temo que eu esteja, lorde Nimatsu. Seu povo não passará por aquela floresta a menos que nós mostremos para eles que nós matamos o Terror. E este é o melhor caminho que eu posso imaginar pra fazer isso.
— Mas você não pode tentar com outro porco... ou uma cabra, talvez, como isca? — Nimatsu perguntou.
Alyss balançou a cabeça.
— O Terror mostrou que não está interessado em animais. Ele só matou o porco pra silenciá-lo. Assim não suspeitaríamos que ele estivesse lá. Mas uma vez feito isso, não tocou na carcaça. Sentou por horas debaixo da nossa árvore, esperando pra ver se nós descíamos. Ele quer pessoas. É um comedor de homens. Então agora, eu sou o porco.
Ela esperou um segundo e olhou para Evanlyn.
— Você sempre poderia contestar o jeito que eu disse isso  ela sugeriu.
Evanlyn fez um gesto negando.
— Isto é muito sério para se brincar, Alyss. Você está se colocando em perigo terrível. E está colocando muita confiança em minha habilidade com o estilingue. Por que não tiramos na sorte pra ver quem será a isca?
O olhar de Nimatsu mudou rapidamente entre as duas meninas durante esta troca. Ele acenou com a cabeça várias vezes.
— Você esta arriscando muito, Ariss-san. Ev-an-in-san é tão habilidosa como você diz?
— Ela é muito melhor que eu sou com um dardo  Alyss respondeu. — Então, é lógico que eu seja a isca e ela a caçadora. Um amigo nosso diz que ela pode acertar o olho de um mosquito com o estilingue dela.
— Não estou certa de que sou tão boa assim  Evanlyn disse duvidosamente.
Alyss levantou uma sobrancelha.
— Bem, esse não é o melhor momento para me dizer isso.
Evanlyn deixou o comentário passar. Ela sabia que o sarcasmo de Alyss partia dos nervos. A menina estava à altura de se colocar numa posição de perigo terrível. Ela poderia tentar passá-lo calmamente, mas era natural que ela estivesse com medo do que estava por vir.
— De qualquer maneira  Alyss continuou — uma vez que tudo começar, eu vou estar seguramente escondida no meu escudo. Você será a única no aberto, tendo que lidar com o grande gato.
Ela indicou o grande escudo de madeira que tinha sido feito sob suas instruções. Quase dois metros de altura, era retangular, formando uma curva rasa. Era, de fato, idêntico aos que são utilizados pelos Kikori e que planejava usar para se proteger do ataque do Kyofu.
Nimatsu suspirou profundamente. Ele admirava a garota alta e cortês e temia que ela não sobrevivesse à noite seguinte.
— Eu continuo dizendo, não gosto dessa ideia  disse ele, com uma nota de finalidade em sua voz.
Ele sentiu que não iria dissuadi-la. Alyss sorriu para ele, mas havia pouco humor real no sorriso.
— Eu não sou louca por ela também. Mas, atualmente, é a única ideia que temos.


Em algum lugar por perto, uma coruja piou em intervalos regulares. Quando Alyss ouviu o som pela primeira vez, seu cabelo arrepiou-se. Agora ela tinha se acostumado com ele e ele se tornou parte do quadro global da noite, junto com o farfalhar ocasional de pequenos animais noturnos que se deslocavam sob as árvores e o sopro suave do vento entre os galhos.
Ela ficou de costas para a maior árvore que pôde encontrar, o escudo pesado plantado em sua frente, seu braço através da cinta de suporte, pronto para levantá-lo em posição. Apenas sua cabeça estava à mostra acima do escudo. Em uma bainha à direita de seu quadril, ela usava a faca de caça de Evanlyn. A arma mais curta seria mais útil e mais fácil de manejar do que seu longo sabre – assumindo que tudo ocorresse de acordo com o plano. Seus dois dardos estavam no chão ao seu lado. Ela duvidou que fosse de qualquer uso, mas trouxe de qualquer maneira.
Sua cabeça, rosto e braço direito estavam protegidos com couro resistente contra as garras do Terror.
Até agora, ela estava convencida de que era uma forma de gato predador gigante. Tinha ouvido contos de tigres e sua capacidade quase sobrenatural de atacar a presa de forma silenciosa e sem ser vista. Ela não poderia imaginar um animal volumoso e desajeitado como um urso fazendo isso.
Ela se encostou à árvore. Suas pernas estavam doendo. Tinha estado ali de pé por várias horas e o frio implacável foi subindo por suas pernas, enrijecendo os músculos. Ela queria se sentar por alguns minutos, mas sabia que isso iria colocá-la em desvantagem se o mostro aparecesse. De pé, ela poderia se mover instantaneamente, trazendo o escudo até enfrentar um ataque de frente ou de ambos os lados. A árvore protegia sua retaguarda.
Ela moveu suas pernas, tentando fazer o sangue fluir, aliviando o peso de uma para a outra.
A facilidade momentânea só fez piorar o desconforto quando ela colocou o peso sobre os músculos cansados mais uma vez.
Ela se perguntou que horas eram. A lua há muito desparecera e as sombras sob as árvores eram profundas e de tinta preta. Ela olhou para a plataforma que construíram na árvore a sua frente. Ela só poderia fazê-lo de fora e ver o volume escuro da forma de Evanlyn enquanto ela vigiava. Pelo menos Evanlyn poderia sentar-se, pensou. E isso foi...
Alguma coisa estava errada.
Ela percebeu isso. Algo na floresta havia mudado. Seu coração batia forte enquanto tentava localizar a diferença. Então, ela conseguiu. A coruja não piou. Sem perceber, ela estava contando em sua mente após cada pio. A coruja estava fazendo seu som fúnebre regularmente, depois de ela ter contado entre cento e cinquenta e cento e sessenta.
No entanto, sua automática, contagem quase subconsciente tinha passado apenas 173.
Havia alguma coisa ali, algo perto. Acima da borda do escudo, com os olhos movendo rapidamente de um lado para o outro, procurando nas sombras, tentando desesperadamente ganhar sua primeira visão do predador, se esforçando para descobrir de onde o ataque viria.
— Alyss! Esquerda! Esquerda!
O grito de alerta de Evanlyn penetrou pela floresta e Alyss virou para a esquerda, levantando o escudo quando viu um borrão de movimento vindo até ela.
Algo enorme bateu contra o escudo e a mandou voando por alguns metros. Ela agarrou as alças desesperadamente para manter sua posição no escudo, sua única esperança de segurança. Ela caiu de costas no chão, escorregando na neve em pó, o fôlego expulso de seu corpo em um grunhido explosivo. Então algo enorme, pesado e incrivelmente forte estava em cima dela, apenas o escudo de madeira curvado entre eles, e ela encolhida sob ele, puxando-o para proteger a cabeça, o corpo e os pés, agarrando-se desesperadamente ao escudo que o monstro tentava arrancar para obter sua presa.
Agora, ela podia ouvir o rugido, de gelar o sangue, de kyofu, pois ele rasgou a madeira com suas garras e um pequeno pedaço da borda superior do escudo com seus dentes enormes.
Como os gatos enormes fazem, ele tinha arrumado suas pernas traseiras para estripar sua presa com uma descendente selvagem. Mas as garras inclinadas não encontraram carne, mas madeira dura, reforçada com ferro. Eles lascaram primeiro e arrancaram sulcos profundos na segunda.
O animal rosnou em frustração e fúria quando as lascas de madeira longa esfaquearam o almofadado de suas patas. Em algum lugar abaixo desta superfície firme, ele sabia, estavam carne e sangue quente, e redobrou seus esforços para chegar a ela.
Evanlyn viu o súbito borrão de movimentos a partir da borda da clareira quando o kyofu lançou seu ataque. Ela só teve tempo de gritar o aviso antes do monstro se chocar contra o escudo, enviando Alyss voando.
Até o momento, o plano de Alyss estava dando certo. Ela conseguia manter o grande escudo interpondo-se entre o predador e ela mesma. Agora era a vez de Evanlyn. Ela chutou a corda enrolada sobre o lado da plataforma, deslizou alguns metros, depois pulou a distância restante ao chão da floresta.
Seu estilingue já estava na mão quando se recuperou sobre os pés. Ela estava colocando um dos chumbos, em forma de ovo, na bolsa central. Queria a velocidade máxima, assim girou o estilingue duas vezes, em seguida, liberando, chicoteando o projétil brutalmente em toda a clareira até o predador.
A cena parecia se desdobrar lentamente em sua visão. Ela podia ver agora que kyofu era um gato enorme – muito maior do que os leões da areia que Selethen tinha apontado para ela quando estavam viajando através de Arrida. Este era imenso, e seu pelo era branco, marcado com listras borradas de cinza-escuro.
“Um tigre da neve” pensou.
Então seu tiro atingiu o animal fazendo um som de rachadura arrepiador, acertando o ombro esquerdo, esmagando e fragmentando o osso sob a pele. Evanlyn movimentou-se automaticamente, recarregando a bolsa, girando o estilingue, liberando novamente.
Crunch!
O segundo tiro atingiu a costela da criatura, fraturando-a. O tigre uivava de agonia e fúria e girou a cabeça para ver onde estava seu atacante.
Sob o escudo, Alyss ouviu a violenta batida do impacto quando os dois tiros atingiram a besta em rápidas sucessões. Na primeira, ela sentiu a diminuição da pressão sobre o seu lado direito, o antebraço esquerdo da criatura foi destruído no ombro, deixando-o flácido e inútil.
Então ela ouviu outro barulho abafado e o kyofu já não tinha mais a intenção de rasgar o escudo solto. Enquanto levantava a cabeça para procurar Evanlyn, o peso sobre Alyss foi subitamente reduzido e ela podia mover seu braço direito. Ela lançou seu punho direito do suporte do escudo e, com a força do desespero, agarrou a faca de caça da bainha.
Evanlyn colocou seu terceiro tiro cuidadosamente, enviando-o contra a traseira do quadril esquerdo do animal.
Novamente, o osso triturado na perna traseira da esquerda de repente ficou mole, de modo que seu salto destinado para a figura, que agora podia ver, embaixo de uma árvore do outro lado da clareira, não deu em nada. Ele fracassou de forma desajeitada, sem orientação de um lado.
A agonia em sua perna traseira queimando e, louco de dor, ele virou-se para o prejuízo com suas enormes presas.
Quando se virava para fazer isso, o quarto tiro de Evanlyn bateu em sua cabeça com uma força chocante. E no mesmo instante, Alyss alcançou a extremidade do escudo e dirigiu a faca de caça afiada profundamente na barriga da criatura, cortando para cima para criar uma ferida de quase meio metro de comprimento.
O monstro urrou uma nota estridente de terror, a confusão substituindo a selvageria do coração frio de seu desafio normal. Aleijado, eviscerado, morrendo, ele caiu lateralmente sobre a neve, agora manchada de vermelha com seu sangue.
Desesperadamente rastejando com os pés, Alyss forçou seu caminho para trás sob o escudo, deslizando de costas para escapar do alcance da criatura horrível.
Evanlyn correu até ela, agarrou seu braço e arrastou-a rapidamente, trazendo-a aos seus pés. As duas meninas se agarravam uma na outra.
Em seguida, o kyofu deu um último grito estremecendo e ficou imóvel.
— Ele está morto  Evanlyn falou entorpecida.
Alyss não disse nada. Dominada pelo choque em seu calvário, reagindo ao terror daqueles minutos agachados sob o escudo, sentiu seu estômago revirando e ficou violentamente enjoada.

8 comentários:

  1. Queeeeeee Fodaaaaaaa. Duas meninas conseguiram matar um tigre que matou pra mais de dezessete homens grandes e lutadores haahahahha Quem é o sexo frágil mesmo?

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  2. com uma pequena diferença, elas esperavam pelo tigre. ja os Hanasu...

    –WildTurtle

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  3. Não vem que não tem! Força femininaaaaaaaaaa!
    Ass: Bina.

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  4. Nãaaaaaao assasinas mataram o Ren, no proximo capitulo vai se a Kelsey fazendo essas duas virarem cinzas...

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    1. Kkkkk. Ó azideia. O lindo do Ren nunca mataria ngn assim, nem o Kishan. Os Rajaram tem classe.

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Boa leitura :)