26 de janeiro de 2017

Capítulo 47

— Da próxima vez  Halt falou — não iremos embora com tanta rapidez.
Eles haviam perdido apenas seis homens na batalha, com outra dúzia de feridos, quatro gravemente. Em contrapartida, capturaram mais de setenta espadas, peitorais de armadura e elmos dos Senshi caídos, e havia muito mais homens feridos de Arisaka.
Enquanto os guerreiros Senshi e Kikori de Shigeru voltavam pela estreita passagem, Halt pediu que Mikeru e uma dúzia de seus seguidores apagassem as pegadas que levavam até a boca da entrada secreta. Os adolescentes fizeram isso arrastando grandes partes de lona, originadas das tendas abandonadas do inimigo, pela neve sobre uma grande área na frente do pequeno barranco.
Mikeru era muito útil para se ter por perto, Halt refletiu. Era entusiasmado, energético e abusava do senso de iniciativa. Um pequeno grupo de Senshi guarda-costas de Shigeru permaneceu para observar o estreito barranco no caso de o inimigo topar com a entrada.
Agora, o grupo de comando estava revendo a batalha no chalé de Shigeru. Halt havia apenas transformado em palavras o pensamento que estava na maioria das cabeças deles.
— Arisaka não é nenhum tolo  concordou Shigeru. — Ele não irá se apressar cegamente do jeito que Todoki fez. Ele procurará maneiras de derrotar essas novas táticas tramadas por Chocho.
Ele assentiu para Will, que franziu levemente a testa com o termo, mas sabia que agora não era hora para uma aula de idiomas.
— O que temos que fazer é nos colocar no lugar de Arisaka  disse Halt. — Tentar imaginar como poderíamos contra-atacar as táticas usadas pelos dois gojus.
— Quatro  Will disse e, quando os olhos de Halt pousaram nele, ele explicou o pensamento. — Teremos pelo menos duzentos homens treinados na hora que o vale estiver aberto novamente.
Selethen assentiu em confirmação.
— Muito bom  disse Halt. — Mas ainda estamos em menor número e dessa vez não teremos a vantagem do elemento surpresa. Arisaka conhecerá o nosso modo de luta. Então se você fosse ele, o que você faria?
Selethen deu uma tossidela e os outros olharam para ele.
— Discutimos isso na Toscana  ele ressaltou. — Armas ou artilharia pesadas podem romper as fileiras formadas nos gojus. E quando eles perderem essa integridade, os Senshi podem lutar no seu estilo normal – um contra um.
— Arisaka não tem armas pesadas — Halt respondeu. — E não tem como consegui-las nas montanhas.
— Verdade  Selethen admitiu. — Então arqueiros seria a segunda melhor coisa.
Ele virou pra Shigeru.
— Quantos arqueiros você acha que ele poderia reunir?
O imperador considerou a pergunta por alguns segundos.
— Quem sabe trinta  ele disse.
Senshis não praticavam tiro com arco e flecha. Era uma habilidade reservada à nobreza.
— Trinta arqueiros podem causar um bom estrago  interpôs Will.
Horace se curvou para frente.
— Mas o kamé se opõe a isso efetivamente  ele disse, referindo à formação tartaruga que Will ensinara aos Kikori.
— Não se conseguirem flanquear-nos e então atacar pela traseira  Selethen disse. — A segunda fileira terá que virar e enfrentar o novo ataque... e isso destrói a formação kamé. Eles não podem ficar com os escudos sobre as cabeças se estão enfrentando um ataque pelo flanco.
Horace fez um gesto de desprezo.
— Então escolhemos um lugar onde eles não poderão nos flanquear. O vale sob a paliçada tem a extensão perfeita para isso. Ou talvez possamos simplesmente esperar atrás das paredes.
— Não podemos fazer isso  disse Halt. — Teremos que combater Arisaka. Ele terá reforços vindos do sul. Com homens suficientes, ele pode tomar a paliçada. Mas o problema é...
A voz morreu Halt não querendo transformar em palavras o pensamento que lhe veio à cabeça.
Shigeru olhou para ele.
— O problema, Halto-san?
Relutante, o arqueiro respondeu.
— Não podemos nos dar ao luxo de simplesmente esperar atrás da paliçada e batalhar numa luta defensiva indefinidamente. Se fizermos isso, Arisaka ganhará. No ideal, ele gostaria de nos apagar. Mas se isso levar tempo demais, ele simplesmente deixará alguns homens aqui para nos manter ocupados, depois marchará ao sul e reclamará o trono. Ele pode dizer que você está morto e ninguém descobrirá a verdade  disse ao imperador.
Shigeru assentiu pensativo.
— E quando ele reclamar o trono, será duas vezes mais difícil tirá-lo de lá.
— Exatamente. Então nós precisamos forçá-lo a lutar, fazê-lo achar que esse tempo valerá a pena. E se formos fazer isso, precisamos criar uma segunda ideia na cabeça dele e descobrir como ele atacará as nossas táticas.
— Resumindo  disse Will lentamente — ele terá que destruir a nossa muralha de escudos e rodear-nos ao mesmo tempo. Correto?
Os outros assentiram e ele continuou.
— Sabemos que ele tem capacidade de nos flanquear se lutarmos com ele em campo aberto. Se puder nos atacar, mas ainda nos manter a certa distância, ele nos forçará a avançar. Afinal, as nossas lâminas afiadas são apenas efetivas de perto. E se avançarmos de uma posição preparada para ficarmos mais perto, iremos nos expor a um movimento pelos flancos.
Horace seguia a linha de raciocínio pensativamente. O que o amigo dizia fazia sentido.
— Mas como ele pode atacar a gente e manter a gente a certa distância ao mesmo tempo?  perguntou.
— Eu estava pensando em algo como a Falange da Macedônia  Will disse.
Shigeru notou a súbita e simultânea tomada de fôlego de Halt, Horace e Selethen. Todos assentiram pensativos.
— O que é a Falange da Macedônia?  ele perguntou.
— Os macedônios eram guerreiros que desenvolveram uma formação altamente efetiva chamada de Falange  Halt explicou a ele. — Consistia em guerreiros com dardos longos e pesados com mais de quatro metros de comprimento. Eles poderiam atravessar a fileira frontal de um exército antes que o inimigo pudesse reagir.
— E você acha que Arisaka possa saber sobre essa falange?
— Não  Halt respondeu. — Mas a ideia de usar lanceiros ou piqueiros pode muito bem ocorrer a ele. Eu ficaria surpreso se não ocorresse: é uma ideia lógica. Eles poderiam atacar a nossa fileira frontal e estariam seguros das nossas lâminas curtas.
— Teríamos que nos aproximar deles  Horace disse. — Teríamos que avançar para lutar com eles ou nossa muralha de escudos seria dilacerada em pedaços.
— E assim que avançarmos, os colegas deles podem nos flanquear  disse Selethen.
— Poderíamos usar as nossas lanças como dardos  sugeriu Horace. — Poderíamos lançar a primeira saraivada, depois reter as lanças da segunda e terceira fileira como armas de esfaqueamento.
Halt esfregou o queixo pensativamente.
— Isso pode funcionar. As probabilidades são que Arisaka não terá homens com a capacidade de manejar algo mais longo que o dardo macedônio. Demora anos para desenvolver a força e habilidade necessárias. Em minha opinião, eles vão usar lanças normais, então estaríamos lutando lança contra lança. Mas, na melhor das hipóteses, será um beco sem saída. No fim, precisaremos de nos aproximar. É onde todas as vantagens caem com os nossos homens. Aí precisamos de um jeito para impedir qualquer movimento pelos flancos.
— Uns cinquenta arqueiros viriam a calhar  Will disse.
— Se pudéssemos treiná-los. E se tivéssemos cinquenta arcos  respondeu Horace.
Will assentiu, desanimado. Mas, ao olhar para o velho mentor, ele viu uma luz nos olhos de Halt.
— Eu tenho uma ideia  o arqueiro mais velho disse. — Will, vamos nos encontrar com o jovem Mikeru.


Will, Halt e Mikeru estavam no campo de treinamento onde os gojus Kikori costumavam treinar. As tropas estavam descansando no momento, de forma que eles tinham os campos para si próprios.
— Mikeru  disse Halt — você pode jogar uma lança?
O jovem Kikori assentiu entusiasmado.
— É claro, Halto-san. Todos os Kikori aprendem a manejar uma lança quando são bem novos.
— Excelente.
Halt passou ao jovem uma lança de arremesso padrão Kikori e apontou para uma viga a trinta metros de distância, onde ele prendera um dos peitorais de armadura capturados.
— Acerte aquele peitoral.
Mikeru testou o peso e equilíbrio da lança, depois avançou a passos largos até o alvo estar a trinta metros de distância. O braço direito e peso corporal foram para trás, a perna esquerda estendendo-se e então ele atirou a lança num arco raso. Ela acertou o peitoral, perfurando e derrubando-o da viga para que caísse com um tinido no chão.
Halt notou a coordenação do arremesso, com o braço direito e ombro, corpo e pernas, tudo combinando para pôr força máxima na lança.
— Muito bom  ele disse. — Will, será que você poderia recolocar o alvo, por favor?
Will avançou para recolocar o peitoral danificado na viga, puxando a lança dele enquanto fazia isso. Quando virou, Halt havia levado Mikeru de volta a um ponto de cinquenta metros do alvo. Will se juntou a eles rapidamente e Halt pegou a lança dele, oferecendo-a para Mikeru.
— Vamos ver se você consegue daqui  ele disse.
Mas Mikeru sacudiu a cabeça apologeticamente.
— É longe demais, e a lança é pesada demais para eu jogar tão longe.
— Achei que sim  Halt disse.
Ele abriu um pedaço enrolado de lona que estivera carregando e mostrou uma arma estranha, que passou para Mikeru.
Era um dardo gigante, com mais de um metro de comprimento e feito de bambu leve, mas com uma pesada ponta de ferro em uma extremidade. Na outra extremidade havia três penas de couro enlaçadas e coladas à haste como a pena de uma flecha. Logo à frente dessas penas, um pequeno buraco havia sido entalhado por todo o redor da haste.
— Tente com isso  ele disse.
Mas outra vez, Mikeru, depois de testar o peso do projétil, sacudiu a cabeça.
— Esse é leve demais, Halto-san. Não posso pôr força nele.
— Exatamente  concordou Halt.
Então ele sacou uma correia de couro, amarrou-a em uma extremidade e enlaçou na outra. Ele torceu a extremidade amarrada em volta do buraco na traseira da haste, então, prendendo firmemente no lugar, cruzou a correia em si mesma, perto ao nó, para prendê-lo no lugar. Depois, mantendo firme a correia, ele a estendeu pela haste até onde Will notou que havia uma seção presa com corda fina, formando uma empunhadura.
Halt pegou a mão direita de Mikeru e deslizou o lado enlaçado na correia nela, antes de colocar a mão do garoto na empunhadura presa com corda no dardo, certificando-se de que deixava a correia firme enquanto fazia isso.
O entendimento iluminou os olhos do jovem Kikori quando ele segurou o dardo com a correia de couro tensionada se estendendo por metade de seu comprimento, retida no lugar pela corda passando sobre o nó.
— Agora tente  Halt repetiu.
Mikeru sorriu para ele, olhou para o peitoral, se inclinou para trás, depois lançando o corpo e braço no arremesso. A corda de couro agiu como uma extensão ao braço dele, acrescentando um enorme impulso extra ao lançamento. Enquanto o míssil se afastava silvando num voo mortal em arco, a extremidade amarrada da correia simplesmente se libertou e caiu livre, balançando do pulso de Mikeru.
O dardo errou o peitoral, depois acertou o chão com a ponta num baque surdo, uns oito metros atrás dele. Mikeru sacudiu a cabeça em admiração.
— É bom  ele disse. — Muito bom.
Começou a andar para recuperar o dardo, mas Halt o parou, apontando para o rolo de lona. Havia mais três dardos ali.
Mikeru era um atleta natural, com excelente coordenação, mão e olho. E ele já era um experiente arremessador de lanças. Não levou muito tempo para se acostumar a essa nova técnica. O quarto arremesso acertou a armadura de couro, a pesada ponta de ferro dilacerando um buraco denteado.
Halt deu um tapinha nas costas dele em encorajamento.
— Mostre isso aos seus amigos  ele disse. — Faça mais desses dardos e pratique com eles até vocês todos conseguirem acertar. Temos outras sete ou oito semanas até a primavera e eu quero trinta de vocês treinados e prontos com essas armas quando enfrentarmos Arisaka novamente.
Mikeru assentiu entusiasmado. Ele se irritava com o fato de que até agora não foi de nenhum papel especial na batalha contra o usurpador. E ele sabia que os amigos sentiam a mesma coisa. Essa era a chance deles.
— Estaremos prontos, Halto-san  ele disse, ficando ereto e curvando-se formalmente.
Halt assentiu em reconhecimento. Então ele e Will se viraram, deixando Mikeru recuperar os dardos e continuar a aperfeiçoar a nova habilidade.
— Agora vamos ver o que acontece se eles tentarem nos flanquear  Halt disse.

Um comentário:

  1. Fiquei muito triste quando o blog saiu do ar. Mas fui olhar hoje no serviço e voltou a alegria, porque achei o blog de novo. Amo esse blog, tomara que dê tudo certo hoje e sempre pra você!!

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Boa leitura :)