26 de janeiro de 2017

Capítulo 46

Alyss terminou de amarrar o último ramo no lugar e inspecionou a plataforma irregular que construíra na bifurcação da árvore.
— Isso deve bastar  ela disse.
A plataforma de ramos resoluta tinha aproximadamente quatro metros quadrados de área, dando espaço amplo para Alyss e Evanlyn se sentarem e esperar o misterioso predador que se espreitava na Floresta de Uto.
Elas estavam bem fundo na floresta, num espaço onde quatro dos hasanu haviam sido pegos pelo predador – conhecido pelo povo hasanu como Kyofu ou O Terror.
Evanlyn, no chão quatro metros abaixo, olhava ao seu redor nervosa. O sol estava se pondo e logo ficaria escuro; e o Terror era conhecido por caçar à noite. Uma coisa era se sentar no castelo de Nimatsu e criticar os medos supersticiosos dos hasanu, outra era estar na neve com as sombras se alargando e a floresta sombria cercando-as.
Enquanto ainda era dia, Evanlyn executara a tarefa de coletar ramos de árvore para a plataforma sem aflição. Mas a última coleta, que a levou mais longe do espaço que escolheram, havia sido feita nas sombras se alargando do fim de tarde e ela encontrou-se olhando temerosamente sobre o ombro enquanto trabalhava os nervos dando um salto ao mais leve dos barulhos da floresta.
— Jogue uma corda  ela disse. — Estou subindo.
— Só um momento.
Alyss se levantou levemente e andou até o centro da plataforma. Pisando com extremo cuidado, testou a firmeza da plataforma, certificando que os laços nos ramos estavam suficientemente firmes para carregar o seu peso. Quando se satisfez, caminhou até a borda e chutou o rolo de corda amarrada da plataforma, mandando-a pelos ramos até a princesa aguardando.
Evanlyn subiu na corda com uma mão de cada vez, movendo-se com pressa levemente indigna. Quando se estabeleceu bem alto na bifurcação da árvore, ela puxou a corda de volta e a enrolou outra vez, antes de encontrar num lugar para ficar confortável – apesar de “confortável”, nessa plataforma irregular, era um termo relativo.
Alyss sorriu para ela.
— Preocupada que Terror suba logo atrás de você?
Evanlyn a fitou friamente e não respondeu. Era exatamente isso que ela estava preocupada. A escuridão rapidamente assolou a floresta e as duas garotas se sentaram, com frio e desconfortáveis na plataforma.
O único som que ouviam era os bufos e reclamações do jovem porco que amarraram numa árvore próxima. O porco era a isca, designado a tirar Terror de seu esconderijo. Uma vez que isso acontecesse, Alyss esperava matar o Terror com as duas lanças leves que estavam ao lado dela. Ela pegara emprestada dos hasanu. Levou um tempo para ela encontrar armas leves o bastante para que carregasse, mas no fim Alyss ficou com armas de prática, designadas para crianças.
Ela tinha uma mão competente com a lança e, naturalmente, Evanlyn tinha seu estilingue e um suprimento de balas de chumbo pesadas em forma de ovo.
— Um pouco complicado para o porco  Evanlyn disse discretamente.
— Você pode trocar de lugar com ele a hora que quiser  Alyss lhe disse.
— O que você acha que é... quero dizer, o Terror?
— Algum predador grande, como Nimatsu sugeriu. Um urso, talvez. Existem ursos nessa área. E ele disse que há evidências de tigres da neve há vários anos atrás. Talvez seja um deles.
— Eles nunca foram vistos ou ouvidos. Isso não parece um urso que eu já tenho visto — notou Evanlyn.
Alyss olhou de lado para ela.
— Já viu muitos ursos?
Evanlyn teve que abrir um sorriso.
— De qualquer maneira, uma coisa que tenho certeza  continuou Alyss — é que não é um demônio de outro mundo. Agora fique quieta.
Ela gesticulou para Evanlyn descansar um pouco enquanto montava guarda. Evanlyn se deitou nos ramos irregulares e nodosos e se torceu para encontrar a posição mais confortável. Ela fechou os olhos, mas demorou um pouco para conseguir cair no sono.
Seus nervos estavam à flor da pele enquanto ouvia os sussurros da brisa suave atravessando as árvores, a leve palpitação das asas de um pássaro noturno e aproximadamente uma dúzia de sons inidentificáveis de outros animais noturnos ou insetos que se espreitavam entre as árvores.
Pareceu que dormiu por apenas alguns segundos quando a mão de Alyss no seu braço acordou-a.
— Há algo se mexendo?  sussurrou.
Alyss sacudiu a cabeça e respondeu no mesmo tom baixo.
— Não. O porco estava acordado há uns vinte minutos atrás, mas voltou a dormir.
As duas olharam para os ramos, vendo a clareira onde o porco estava amarrado. O pequeno animal estava deitado dormindo ao lado da árvore.
— Parece bem pacífico agora  Evanlyn disse. — Talvez ele esteja tendo um sonho de porco.
Ela arrastou os pés até a borda da plataforma, pegando a corda enrolada. Alyss pegou-a pelo braço. Mesmo que ainda sussurrasse, Evanlyn pôde ouvir a urgência em seu tom.
— O que você pensa que está fazendo?
Evanlyn corou, mesmo que Alyss não pudesse notar por causa da luz fraca.
— Necessidade de urinar  ela disse. — Eu bebi muito da minha garrafa de água quando comemos. Os picles me deixaram com sede.
Ela sorriu tímida.
Firmemente, Alyss pegou a corda enrolada do aperto dela e afastou-a da borda da plataforma.
— Pois aguente  ela disse. — Nenhuma de nós vai descer por essa corda antes da luz do dia.
— Alyss, seja racional. Se o Terror estivesse nessa área, aquele porco estaria guinchando e fungando em terror. Tenho certeza que é perfeitamente seguro. Não temos ouvido nada por horas.
— Nem os dezessete hasanu que essa criatura matou. Três deles foram pegos no meio de um acampamento onde outros estavam dormindo, lembra? Evanlyn, o único lugar seguro é essa plataforma. E eu nem estou tão segura a respeito disso.
Evanlyn hesitou. Nimatsu lhes contou algumas histórias horripilantes sobre o Terror, era verdade. Como Alyss ressaltara, algumas das vítimas foram pegas enquanto estavam cercadas por dúzias de colegas dormindo, nenhum do qual ao menos ouviu algum barulho.
— Bem... tudo bem  ela disse, fingindo uma relutância que não mais sentia.
A ideia de que o Terror podia estar em algum lugar perto delas, rastejando na direção da árvore onde elas estavam, eriçou os pelos de trás de seu pescoço. Mas ela não iria admitir isso para Alyss.
— Durma. Eu continuo observando.
Alyss fitou-a, cautelosa.
— Não vá fugir quando eu adormecer  ela alertou.
Evanlyn sacudiu a cabeça.
— Não vou.
Alyss se deitou, puxando a capa nos ombros. Ela pareceu cair no sono muito mais rápido do que Evanlyn. Dentro de alguns minutos, sua respiração estava profunda e regular, pontuada por ocasionais bufos leves de reclamação enquanto se mexia para diminuir o desconforto de um nó mal amarrado nos ramos abaixo dela.
Evanlyn sentou, entediada e apertada, enquanto a lua arqueava para cima e para baixo sobre elas, no fim descendo e deixando a floresta escura e silenciosa mais uma vez. Os barulhos dos pássaros e animais morreram. Agora só restara o vento.
Uma vez, logo antes do amanhecer, parecia soprar uma rajada mais forte do que antes e Evanlyn se sentou um pouco mais reta, perscrutando em volta nervosamente. Mas então percebeu que só havia sido uma rajada de ar vaga e ela se afundou de volta na vigília de olhos turvos.
Ela bocejou vigorosamente. Suas pálpebras ficaram pesadas e ela se ajeitou ereta rapidamente, percebendo que sua cabeça caíra para um lado e, há alguns segundos, teria estado dormindo. Evanlyn sacudiu a cabeça para limpá-la, respirando fundo, e depois examinou o chão pouco iluminado inferior a ela.
A forma obscura do porco ainda era visível na neve. Não havia mais nada para ser visto também.
Ela bocejou de novo. Havia uma fina camada de neve nos ramos em torno dela. Evanlyn pegou um pouco e esfregou o líquido congelado no rosto e olhos. Por alguns segundos, estava refrescada e alerta. Aí suas pálpebras e cabeça caíram novamente. Ela forçou-as a abrir, bocejou de novo e desejou que não tivesse bebido toda aquela água na noite anterior.
Nunca na vida ficou tão grata em ver o amanhecer. A primeira luz cinzenta transbordou nas árvores e ela percebeu que podia distinguir detalhes agora, ao invés de apenas ver contornos vagos. Depois começou a distinguir um brilho vermelho ao leste, escassamente visível pelos troncos e ramos superiores.
Então, sem notar o exato momento que aconteceu, uma luz cinza-metálica banhou a floresta e a clareira acima onde elas estavam sentadas. Engraçado, pensou como a luz do dia fazia as coisas parecerem menos ameaçadoras.
Alyss se mexeu, depois rolou para o lado e se sentou, esfregando os olhos.
— Algo aconteceu?  ela perguntou, apesar de saber que, se tivesse acontecido, Evanlyn a teria acordado.
— Nada. Parece que a gente escolheu a extensão mais entediante disponível da floresta. Não vi nada ontem a não ser uns insetos e pássaros e até eles ficaram entediados depois de um tempo e foram dormir. Acho que vamos ter que...
Evanlyn parou. A mão de Alyss apertava seu antebraço firmemente, com tanta firmeza que estava doendo.
— Olhe  a mensageira disse. — Olhe para o porco.
Evanlyn seguiu seu olhar e sentiu o sangue congelar. A neve em volta do pequeno animal estava manchada de vermelho. Alyss pegou a corda de subida e andou até a borda da plataforma, preparando para jogá-la à superfície da floresta abaixo deles. Mas aí ela parou então apressadamente se afastou da borda.
— Olhe aqui embaixo  ela disse numa voz mal audível. — Não se levante! — alertou. — Você pode cair!
Sobre as mãos e joelhos, Evanlyn se moveu até a borda da plataforma e olhou para baixo através dos ramos mais baixos até o chão embaixo. A neve em torno da base da árvore delas estava modelada com pegadas múltiplas, onde um animal grande circulara o tronco repetidas vezes. Num outro lado estava formado um entalhe na neve, onde aquele mesmo animal se deitara, esperando-as, observando-as.
— Você não ouviu nada?  Alyss perguntou e Evanlyn, os olhos arregalados em terror, sacudiu a cabeça.
— Nadinha  ela respondeu, depois lembrou. — Uma vez, logo antes do amanhecer, achei que o vento pareceu soprar um pouco mais alto. Mas isso foi tudo.
Ela indicou o cadáver do porco.
— Nem ouvi isso acontecer! E juro que eu fiquei acordada a noite toda.
Ela tremeu de medo quando se recordou de como queria descer da plataforma durante a noite.
— Meu deus!  disse baixinho. — Eu queria descer! Poderia ter acontecido nessa hora!
Alyss assentiu. Seu estômago também estava apertado com medo. Não tinha jeito de saber quanto tempo a criatura imensa – fosse o que fosse – estivera deitada, observando-as da base da árvore.
Mais tarde, reunindo a coragem, elas desceram da plataforma e estudaram as pegadas na neve.
— Parece mais como um tipo de gato gigante  Evanlyn disse.
Ela não conseguia parar de olhar sobre o ombro enquanto estudava as marcas de patas. Alyss se movera para olhar para a depressão onde a criatura havia deitado na neve.
— Deve ter uns quatro metros de comprimento  ela refletiu. — Eu queria que Will estivesse aqui. Ele veria algum sentido nessas pegadas.
— Eu queria que ele estivesse aqui também  Evanlyn disse.
Mas ela estava pensando mais sobre a garantia que o arco longo e poderoso e as flechas de haste cinza de Will podiam dar.
Alyss fitou-a rapidamente, então, entendendo o significado das palavras de Evanlyn, o franzir suspeito no seu rosto se clareou. Ela se levantou e andou para onde o porco estava deitado, duro e frio agora. Evanlyn a seguiu nervosamente, a mão no cabo da espada que usava. Alyss cutucou o porco com a ponta de uma das lanças.
Aparentemente foi morto por um animal transpassando as garras gigantes pela garganta dele.
— O Terror o matou. Mas não tentou comê-lo  ela murmurou. — Nem levou a carcaça com ele.
Evanlyn olhou-a de relance temerosa.
— O que isso significa?  ela perguntou, apesar de achar que sabia a resposta.
— O Terror não queria que o porco desse o alarme. Além disso, não estava interessado no porco. Estava se aproximando de nós.

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