26 de janeiro de 2017

Capítulo 45

General Todoki observou primeiro em descrença, depois em fúria, enquanto seus homens corriam em retirada. Inicialmente eram poucos, mas, conforme paravam e fugiam, a maioria dos colegas os seguiu, tentando se distanciar o máximo possível da muralha terrível e impessoal de escudos e lâminas se arremessando.
Todoki, cercado por meia dúzia de oficiais seniores, correu para interceptá-los. Ele puxou a espada enquanto corria, gritando ordens para os Senshi que fugiam.
— Covardes! Covardes! Virem-se e encarem o inimigo! Eles são camponeses! Virem-se e encarem!
Os homens mais próximos a ele pararam com a retirada apressada. Mas eles não fizeram menção de virar na direção dos dois gojus, que agora estavam em silêncio. Seus oficiais se moviam entre os guerreiros envergonhados, girando-os com empurrões para que encarassem os Kikori, gritando insultos e ameaças, golpeando-os com punhos ou com a parte plana de suas espadas.
Um homem firmemente virou-se de costas ao inimigo. Todoki ficou na frente dele, os rostos há poucos centímetros de distância, e gritou com ele, cuspindo na cara do outro homem.
— Covarde! Desertor! Eles são camponeses! Você é um Senshi! Vire-se e lute!
O homem levantou os olhos para encontrar os do general. Havia vergonha ali, Todoki viu, mas também confusão e medo.
— Senhor  ele disse — eles mataram Ito e Yoki bem ao meu lado.
— Então volte e vingue a morte de seus colegas!
Tomado pela raiva, Todoki estapeou forte o homem no rosto. Um pingo de sangue desceu correndo pelo canto da boca do guerreiro, mas ele não fez menção de se virar.
— Mate-os!  Berrou Todoki. — Mate cinco deles para cada colega seu morto! Volte e lute, seu covarde! Mostre-os que eles não podem se opor aos Senshi!
O que era tudo fácil em princípio. Mas esses homens acabaram de ver em primeira mão que os Kikori, a classe despojada de camponeses, podiam de fato se opor aos Senshi, e até matá-los. Trinta e cinco colegas deles estavam deitados mortos no chão do campo de batalha para provar isso.
— Senhor  disse o guerreiro — como posso matar o que não consigo ver?
Ciente de que os olhos dos outros Senshi estavam sobre eles, Todoki sentiu uma fúria esmagadora crescendo dentro dele. Aqueles homens haviam envergonhado-o por causa de seu comportamento covarde. Agora esse outro covarde insolente ousava bater boca com ele! Uma rebelião assim podia ser infecciosa, percebeu. Basta deixar um homem recusar uma ordem e os outros fariam o mesmo.
Sua espada lampejou um borrão de luz refletida, acertando o homem no espaço entre o elmo e o peitoral. Com um grito assustado e sufocado, o Senshi cambaleou e caiu.
Todoki pisou sobre o corpo do homem e encarou os outros Senshi, que recuaram diante dele. Ele gesticulou com a lâmina da espada agora avermelhada na direção das linhas silenciosas dos Kikori.
— Aquele é o inimigo! Vão ao ataque! Lutem com eles. Matem-nos!
O medo imediato da espada e a disciplina arraigada na qual eles cresceram provou ser mais forte do que o medo dos gojus Kikori. Impelidos e torturados pelos oficiais de Todoki, os homens viraram para encarar o inimigo. Eles viraram relutantes, mas viraram.
Will, observando de seu ponto de observação, viu o general reunindo as tropas. Ele ficou tentado a dar um tiro no general, mas Todoki estava cercado por dúzias de figuras amontoadas e acertá-lo seria uma questão de sorte. Melhor não gastar o elemento surpresa com um tiro vago, ele pensou. A hora chegaria.
Ele suspeitou que algo assim pudesse agora acontecer, e agora era a hora de colocar a segunda parte de seu plano em ação – pegar os Senshi de surpresa com outra tática inesperada.
Ele pôs os dedos na boca e emitiu dois curtos assobios perfurantes. Selethen e Horace ouviram o sinal. Horace deu a ordem para os gojus.
— Meia volta. O dobro do tempo à frente!
Os Kikori giraram nos calcanhares, depois começaram a caminhar de volta à posição inicial, os pés apunhalando o chão em sincronia perfeita.
— Alto!  Gritou Horace e as quatro linhas de homens pararam. — Meia volta!
Novamente, a precisão maquinada mostrou-se, cada homem se movendo em perfeito uníssono.
General Todoki observou o movimento e gritou em encorajamento aos guerreiros relutantes.
— Estão vendo? Eles estão recuando! Eles não lhes darão outra chance melhor! Ataquem!
Os homens não tinham tanta certeza. Eles viram a volta precisa e coordenada dos Kikori enquanto eles se retiravam. Não havia nenhum sinal de pânico ou derrota ali. Os mais astutos entre os guerreiros deles perceberam que o inimigo simplesmente se retirara para uma posição melhor de defesa, e eles fizeram isso com grande eficiência e velocidade.
Todoki podia ver a dúvida. Ele olhou loucamente em volta e, pela primeira vez, notou o grupo de três homens numa pequena elevação atrás das linhas Kikori. Ele fitou-os por um momento, não acreditando no que via. Havia três homens de pé observando. Dois deles eram formas vagas e indistintas, de algum jeito confundindo o olhar enquanto ele tentava distingui-los com mais clareza. Mas a terceira figura, vestida em armadura completa Senshi, era inconfundível. Era o imperador. Ele chamou os oficiais com um grito e eles foram ao encontro de Todoki. Ele apontou a espada para a figura distante.
— É Shigeru  ele disse. — Peguem seus arcos. Se matarmos ele, então ataquem e os Kikori vão se romper diante de nós.
Os quatro oficiais correram de volta às fileiras de barracas e retornaram alguns minutos depois carregando seus pesados arcos recurvos. Era da natureza de nobres Senshi treinarem como arqueiros. Agora, Todoki apontou para Shigeru uma vez mais e ordenou que atirassem.
— O que está acontecendo? — perguntou Halt enquanto observava o pequeno grupo se dividir e correr de volta ao acampamento.
Era difícil distinguir o que estavam carregando quando voltaram, mas, enquanto se preparavam para atirar, as ações eram inconfundíveis. Ele e Will desamarraram seus arcos.
Will viu o primeiro oficial Senshi atirar e instantaneamente soube onde ele mirou.
— Eles localizaram Shigeru!
Ele estava prestes a girar e jogar Shigeru ao chão, mas enquanto fazia isso, seu olhar captou o tremeluzir de movimento e ele girou de volta.
Quando lhe foi perguntado mais tarde sobre o que ele fez em seguida, Will não pôde explicar como conseguiu. Nem pôde repetir a proeza. Ele agiu totalmente por instinto, num remendo inacreditável de coordenação entre mãos e olhos.
Enquanto a flecha Senshi descia, rumando na direção de Shigeru, Will virou o arco para ela, pegou-a e tirou-a de seu curso. A ponta da flecha acertou o chão duro de rocha com um ruído e ela escorregou pelo chão, se afastando. Até Halt levou um segundo para se surpreender.
— Meu deus! Como você fez isso?
Então, percebendo que não havia tempo para conversa, ele atirou no arqueiro Senshi.
Todoki viu o primeiro tiro a caminho. Ele estava triunfante. Seus quatro tenentes eram atiradores excelentes. Shigeru não tinha chances de sobrevivência contra uma saraivada de flechas atiradas por eles.
Então ele ouviu um impacto surdo e o homem que atirara a primeira flecha cambaleou, depois caiu. Uma flecha de haste preta viera de lugar nenhum e acertara-o, atravessando o peitoral de couro.
Quando Todoki se inclinou na direção dele, dois de seus outros oficiais gritaram e caíram. O restante não se moveu mais, atravessados por uma flecha cinza. O outro agarrou fracamente uma haste preta no ombro, gemendo em dor. O quarto arqueiro encontrou o olhar de Todoki e o general viu medo ali. Três de seus homens foram abatidos em segundos, e eles não tinham ideia de onde as flechas vieram. Mesmo quando o homem abriu a boca para falar, outra flecha de haste cinza veio cortando o ar pelo céu. Ele cambaleou sob o impacto, agarrando fracamente a haste, depois caiu mortalmente ferido.
Todoki ficou momentaneamente aturdido. Ele olhou de volta para onde Shigeru estivera e percebeu que as duas formas vagas em cada lado dele, mascaradas por indistintas capas verde e cinza, deviam ter atirado. Olhou para o arco caído no chão ao seu lado e instintivamente soube que se o pegasse, estaria morto em segundos. Ele se agachou, gesticulando para um grupo próximo de Senshi.
— Venham até mim! Circundem-me!
Eles estavam relutantes. Viram os destinos dos quatro oficiais sêniores. Mas anos de disciplina os reclamou e os homens se agruparam em torno do general. Todoki tinha uma altura menor do que a altura média do povo nihon-jin, e os guerreiros formaram um círculo eficaz. Mas antes que ele pudesse sentir qualquer senso de alívio, ele ouviu um grito alto vindo das forças Kikori.
— Okubyomono!
A palavra, emanando de quase cem gargantas, carregou-se claramente através do chão até eles. Então ela foi emanada outra vez, repetidas vezes, como um canto ascendente, gritado em menosprezo pelos Kikori.
— Okubyomono! Okubyomono! Okubyomono!
“Covardes! Covardes! Covardes!”
Os Senshi se agitaram desconfortáveis conforme o canto contínuo se seguia. Todoki viu a oportunidade perfeita. Os homens podiam não responder às suas ameaças, mas o insulto desses seres inferiores devia impeli-los ao ataque. O inimigo cometeu um erro, ele pensou.
— Ataquem!  Berrou ele, a voz falhando. — Ataquem eles! Matem-nos!
Seus homens correram para frente, rumando ao grupo mais próximo dos inimigos.
Horace observou-os chegando, depois gritou uma ordem.
— Levantar escudos!
Os pesados escudos eram pesados demais para ficarem levantados constantemente. Quando pararam, os Kikori descansaram seu peso no chão ao seu lado. Agora, eles levantaram à frente, batendo os escudos juntos para formar uma muralha sólida. Alguns segundos depois, o goju de Selethen fez o mesmo.
— Fileiras traseiras! Recuar!  Horace gritou, e a fileira traseira de cada goju recuou um passo.
Cada homem ainda tinha duas lanças.
— Preparar lanças!  Gritou Horace.
Quando receberam a ordem, cada homem abaixou um dos pesados projéteis no chão ao lado dele e preparou o outro. Cinquenta pernas direitas deram um passo para trás, cinquenta braços direitos se estenderam para trás, cada um segurando uma lança no ponto de equilíbrio, as pontas mortais de ferro virados para cima.
Horace esperou até os Senshi se aproximarem a mais ou menos trinta metros de distância. Eles não viram sinais de movimento da segunda fileira. Estavam escondidos atrás das muralhas de escudos.
— Lançar!  Horace exclamou, e cinquenta lanças se elevaram e depois desceram suas pontas viradas para baixo, acertando a massa de Senshi avançando.
O efeito foi devastador. Homens caíram por toda a linha Senshi conforme os pesados projéteis acertavam-nos. Então, enquanto a linha se paralisava e hesitava aterrorizada pela chuva inesperada e mortal de madeira e ferro, uma segunda saraivada golpeou-os.
Homens cambalearam sob o impacto. Pelo menos trinta atacantes foram acertados e estavam mortos ou feridos. Mas então outro comando ressoou e novamente os Senshi ouviram aquele grito de guerra temido:
— Issho ni! Issho ni!
A muralha de escudos voou na direção deles e as lâminas rápidas e mortais começaram novamente. Alguns dos Senshi tentaram perfurar os escudos, sabendo que um golpe cortante seria inútil. Mas Horace previra aquela tática e tinha uma própria.
— Kamé!
A segunda fileira, que se fechara mais uma vez após lançar a segunda saraivada de lanças, levantou os escudos para a formação tartaruga, bloqueando os ataques descendentes, fechando a fileira frontal numa carapaça quase impenetrável. E agora as punhaladas, impulsos e mortes recomeçaram enquanto as curtas lâminas assassinas se projetavam da muralha de escudos.
Alguns dos Senshi, percebendo que ainda excediam em números dos homens do goju de Horace, começaram a fluir em volta do flanco direito, esperando pegá-los na traseira ou na lateral. Quando Horace viu aquilo acontecer, ele gritou outra ordem.
— Descer kamé! Portão!
E numa evolução suavemente treinada, a segunda fileira abaixou os escudos levantados e virou para encarar a direita, movendo-se suavemente para formar outra linha nos ângulos direitos à fileira frontal, encarando a nova direção de ataque.
Foi a manobra que Will e Horace discutiram, fechando o portão. E vista de cima, aquilo era precisamente como devia parecer.
Os Senshi que tentaram flanquear os homens de Horace agora se encontraram encarando outra muralha sólida de madeira e ferro. Eles acertaram a muralha sem eficácia e perceberam, tarde demais, que se deixaram abertos a outro perigo.
Agora era a vez de Selethen. Seu goju, em duas fileiras, voltou-se num movimento giratório pela esquerda, depois avançou num empurrão para cair na retaguarda dos Senshi que atacavam a segunda fileira virada de Horace.
Pegos entre martelo e bigorna, havia poucas esperanças para os Senshi. Confusos, desnorteados, encarando um novo inimigo e uma forma de batalha totalmente diferente à qual estavam acostumados, eles viraram e correram pela segunda vez naquele dia.
Passaram correndo pelo acampamento, rumando em pânico para o acampamento distante onde o exército principal de Arisaka ainda não estava ciente do que acabara de acontecer.
Agora havia lamentosamente poucos deles correndo. A vasta maioria permaneceu no campo de batalha, imóvel.
Com uma exceção. Uma figura grande permaneceu vestida de armadura adornada e capacete de couro – uma armadura que carregava o símbolo de um boi verde.
Enlouquecido com raiva e vergonha, Todoki emergiu de trás da massa de guerreiros que o cercaram. Sozinho agora, ele avançou nas fileiras silenciosas de Kikori. Ele pôde ver uma figura alta entre eles e lembrou-se das histórias do guerreiro gaijin que se tornara amigo de Shigeru. Ele se levantou agora e gritava insultos e ofensas à figura, que lentamente avançou, saindo das fileiras do goju.
O entendimento de Horace da língua de Nihon-Ja não era dos melhores para entender os insultos que a raiva torturada de Todoki estava evocando, mas o significado era óbvio.
— Isso não parece nada bom  ele disse discretamente para si mesmo enquanto um grito de xingamentos era lançado até ele.
— Horace!  Will chamou de seu ponto de observação, mas Horace virou e fez um gesto apaziguante na direção dele.
— Está tudo bem, Will. Já estou cansado desse cara.
Sua espada saiu da bainha com um silvo e ele virou de volta para encarar Todoki. Com um berro de raiva e ódio, o general inimigo carregou contra ele.
Todoki viu a longa espada reta gaijin. Ele sabia algo sobre aquelas armas estrangeiras. Eram feitas de aço inferior e ele sabia que sua própria katana, forjada por um dos melhores ferreiros em Nihon-Ja, fatiaria a arma estrangeira se ele pusesse a força certa.
Desdenhando a graça e equilíbrio que vinham num golpe normal de corte, ele optou por força bruta e pôs cada parte de sua força e peso no golpe. Com um berro imenso, ele acertou a lâmina do estrangeiro.
Houve um tinido agudo quando as lâminas se encontraram. Os olhos de Todoki se alargaram em terror quando ele percebeu que a espada do gaijin estava intacta. Ela resistira ao golpe. Desequilibrado por causa do esforço excessivo que colocara, ele cambaleou levemente e abaixou a guarda.
Horace deu o bote, batendo o pé direito para frente e depois dirigindo com o ombro e subitamente esticou o braço para dar impulso máximo ao empurrão. Ele mirou no buraco no topo do peitoral firmado de Todoki, onde apenas uma tela de couro mais fino protegia a garganta do guerreiro.
Ele acertou a marca, e a lâmina forjada em Nihon-Ja atravessou facilmente a fina barreira. Os olhos de Todoki, assustados, ainda incapazes de entender o que acontecera com ele naquele dia, fitaram Horace por um segundo por cima da lâmina de espada. Então eles escureceram e todo sinal de vida o deixou enquanto o general rebelde caía ao chão rochoso aos pés.
Horace libertou a espada e deu meia volta, encontrando-se encarado pelos homens dos dois gojus. Os guerreiros Kikori – no momento eles realmente eram guerreiros – levantaram as curtas espadas no ar para aclamá-lo. Uma voz começou a cantar e, em questão de segundos, uma centena de outras estavam ecoando-a.
— Kurokuma! Kurokuma! Kurokuma!
Horace acenou exaustivamente para agradecê-los. Selethen avançou para parabenizá-lo, dando um sorriso largo. Eles se abraçaram e, depois, cercados pelas tropas Kikori cantando e se alegrando, andaram juntos para onde Will, Halt e Shigeru esperavam.
— Eu ainda gostaria de saber como ele conseguiu esse nome  Will disse.
Shigeru virou-se a ele. Pela primeira vez, quando ele estava discutindo o apelido de Horace, seu rosto não tinha traços de diversão.
— Independente de como ele conseguiu  ele disse — é certamente um termo de grande respeito.

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