30 de janeiro de 2017

Capítulo 43

Lorcan se perguntava o que diabos estava fazendo três dias depois. Eles haviam deixado aquela planície da cidade muito atrás deles, mas o terror da noite caiu sobre a caravana como um cobertor pesado a cada quilômetros que os vagões correram pelas estradas.
Os outros não tinham conhecimento de como, exatamente, eles sobreviveram aos ilken – não tinham percebido que as criaturas eram quase impossíveis de matar, e nenhum mero mortal poderia ter matado um, muito menos quatro. Nik e Ombriel deram a ele e Elide um amplo espaço – e só encontravam seus cautelosos e examinadores olhares na fogueira durante o jantar noturno, revelando que eles ainda pensavam quem e o que eles eram.
Elide se manteve bem longe dele, também. Eles não tiveram a oportunidade de montar as tendas habituais, por terem fugido tão rapidamente, mas esta noite, com segurança dentro dos muros de uma pequena cidade, eles teriam que dividir um quarto na pousada barata que Molly tão relutantemente pagara.
Foi difícil não prestar atenção em Elide enquanto ela examinava a cidade, então a pousada – um exame de olhos ansiosos, uma ponta de surpresa e confusão que, por vezes, atravessava seu rosto.
Ele usou um fiapo de sua magia para manter sua perna estabilizada. Ela nunca comentou sobre isso. E às vezes aquela sua magia escura encostava no que quer que ela carregava – o presente de uma mulher que morria para uma assassina cabeça quente – e recuava.
Lorcan não pressionara para ver o que era desde aquela noite, embora tivesse passado uma grande quantidade de tempo contemplando o que poderia ter saído de Morath. Colares e anéis provavelmente eram o começo disso.
Whitethorn e a rainha cadela não tinham ideia sobre os ilken – talvez sobre a maioria dos horrores que Elide compartilhara com ele. Ele se perguntou o que uma parede de fogo faria com as criaturas – se perguntou se os ilken foram de alguma forma treinados contra o arsenal de Aelin Galathynius. Se Erawan fosse inteligente, ele tinha algo em mente.
Enquanto os outros se arrastavam para a pousada em ruínas em busca de comida e descanso, Elide informou a Molly que sairia em uma caminhada ao longo do rio, e se dirigiu para as ruas de paralelepípedos. E apesar de seu estômago estar resmungando, Lorcan foi atrás dela, já o marido que desejava proteger sua bela esposa em uma cidade que tinha visto dias melhores – ou décadas. Sem dúvida causado pela construção de estradas de Adarlan por todo o continente e o fato de que esta cidade fora deixada longe de qualquer via principal através da terra.
Ele sentira o cheiro da tempestade se formando pesadamente no horizonte em direção à cidade forjada de pedra, a luz mudando de ouro para prata. Dentro de minutos, a umidade espessa foi arrastada por um frescor bem-vindo. Lorcan deu a Elide três quarteirões antes de começar a caminhar ao lado dela e dizer:
— Vai chover.
Ela moveu um olhar monótono para ele.
— Eu sei o que trovões significam.
A cidade murada fora construída de ambos os lados de um pequeno rio meio esquecido – dois portões grandes de água em cada extremidade exigindo pedágios para entrar na cidade e vistoria das mercadorias que passariam. O cheiro de água velha, peixe e madeira podre o alcançou antes da visão das águas barrentas e calmas, e foi precisamente na beira do cais do rio que Elide parou.
— O que você está procurando? — rle perguntou, por fim, um olho sobre os céus escurecendo.
Os estivadores, marinheiros e comerciantes monitoravam as nuvens, também, enquanto corriam. Alguns demoraram-se para amarrar os longos barcos planos e prendê-los nos mastros lisos que usavam para navegar no rio. Ele tinha visto um reino, talvez trezentos anos atrás, que dependia de barcaças para levar seus produtos de uma extremidade à outra. O nome lhe escapava, perdido nas catacumbas de sua memória. Lorcan se perguntou se ainda existiam, escondidos entre duas cadeias de montanhas do outro lado do mundo.
Os olhos brilhantes de Elide monitoraram um grupo de homens bem vestidos que se dirigia para o que parecia ser uma taberna.
— Tempestade significa procurar abrigo — ela murmurou. — Abrigo significa estar preso dentro de algum lugar sem nada para fazer, apenas conversar. Conversar significa ter notícias de comerciantes e marinheiros sobre o resto do mundo — aqueles olhos se moveram para ele, humor seco dançando lá. — Isso é o que trovões significam.
Lorcan piscou quando ela seguiu atrás dos homens que entraram na taberna do cais. As primeiras gotas gordas da tempestade caíram sobre os paralelepípedos salpicados de musgo do cais.
Lorcan seguiu Elide para dentro da taverna, uma parte dele admitindo que, por todos os seus quinhentos anos de sobrevivência, matando e servindo, ele nunca absolutamente encontrara alguém que... não se impressionava com ele. Até mesmo, droga, Aelin sentira algo da ameaça que ele representava. Talvez viver com monstros tivesse arrancado um medo saudável deles. Ele se perguntou como Elide não se tornara um no processo.
Lorcan pegou os detalhes da taberna por instinto e treinamento, não encontrando nada digno de um segundo pensamento. O fedor do lugar – corpos sujos, mijo, mofo, lã molhada – ameaçou sufocá-lo. Mas, no espaço de poucos momentos, Elide tomara uma mesa perto de um agrupamento daquelas pessoas das docas e pediu duas canecas de cerveja e tudo o que estava no almoço especial.
Lorcan deslizou na cadeira velha de madeira ao lado dela, imaginando se a maldita coisa quebraria debaixo dele quando gemeu. Um trovão explodiu no alto, e todos os olhos se voltaram para as janelas com vista para o cais. Chuva caía pra valer, fazendo as barcaças balançarem.
O almoço foi deixado diante deles, as tigelas fazendo barulho e o gordurento cozido marrom espirrando por sobre as bordas lascadas. Elide não lançou um olhar para aquilo, ou tocou as cervejas que foram colocadas com igual desinteresse por uma gorjeta, enquanto examinavam a sala.
— Beba — Elide lhe ordenou.
Lorcan debateu responder que ela não lhe dava ordens, mas... ele gostava de ver aquela pequena criatura de ossos finos em ação. Gostava de vê-la observar uma sala cheia de estranhos e selecionar sua presa. Porque era uma caça – pela melhor e mais segura fonte de informação. Uma pessoa que não reportaria à guarnição da cidade, ainda sob o controle de Adarlan, que uma jovem de cabelos escuros fazia perguntas sobre as forças inimigas.
Então Lorcan bebeu e assistiu enquanto ela observava os outros. Tantos pensamentos calculistas sob aquele rosto pálido, tantas mentiras prontas para se derramarem daqueles lábios rosados. Parte dele se perguntou se sua própria rainha poderia achá-la útil – se Maeve também perceberia o fato de que talvez a própria Anneith tivesse ensinado a menina a ver, ouvir e mentir.
Parte dele temia o pensamento de Elide nas mãos de Maeve. O que ela se tornaria. O que Maeve lhe pediria para fazer como uma espiã ou cortesã. Talvez fosse bom que Elide fosse mortal, um tempo de vida muito curto para Maeve se preocupar aprimorando-a em muito possivelmente sua sentinela mais cruel.
Ele estava tão ocupado pensando sobre isso que quase não percebeu quando Elide recostou-se casualmente na cadeira e se virou para a mesa de comerciantes e capitães atrás deles.
— O que querem dizer com Forte da Fenda se foi?
Lorcan estalou com atenção. Eles tinham ouvido a notícia semanas atrás.
O capitão mais próximo deles – uma mulher de trinta e poucos anos – avaliou Elide, em seguida, Lorcan, em seguida, disse:
— Bem, não se foi, mas... as bruxas agora a controlam, em nome do duque Perrington. Dorian Havilliard foi deposto.
Elide, a pequena mentirosa astuta, pareceu abertamente chocada.
— Nós estivemos na floresta por semanas. Dorian Havilliard está morto? — ela sussurrou as palavras, como se em horror... e como se para evitar ser ouvida.
Outra pessoa na mesa – um homem barbudo mais velho – respondeu:
— Nunca encontraram o seu corpo, mas se o duque fez uma declaração de que ele não é mais rei, eu diria que ele está vivo. Não adianta fazer proclamações contra um morto.
Um trovão ribombou, quase abafando seu sussurro quando ela falou:
— Será que ele... ele iria para o norte? Até ela?
Eles sabiam exatamente de quem Elide falava. E Lorcan sabia exatamente por que ela viera ali.
Ela iria sair. No dia seguinte, quando a caravana fosse embora. Ela provavelmente contrataria um destes barcos para levá-la para o norte, e ele... ele ia para o sul. Para Morath.
Os companheiros trocaram olhares, pesando a aparência da jovem – e, em seguida, Lorcan. Ele tentou sorrir, parecer brando e não ameaçador. Nenhum deles devolveu o olhar, embora ele deva ter feito algo certo, porque o homem barbudo disse:
— Ela não está no norte.
Foi a vez de Elide ficar imóvel.
O barbudo continuou.
— Há rumores de que ela estava em Ilium, derrotando soldados. Então dizem que ela estava na Baía do Crânio na semana passada, erguendo o inferno. Agora ela está navegando para outros lugares, alguns dizem para Wendlyn, outros para Eyllwe, alguns dizem que ela está fugindo para o outro lado do mundo. Mas ela não está no norte. Não por um tempo, parece. Não é sábio deixar a sua casa sem defesa, se me perguntar. Mas ela é apenas uma mulher; não pode saber muito sobre a guerra.
Lorcan duvidava, e duvidou que a cadela fizesse algum movimento sem Whitethorn ou o filho de Gavriel opinando. Mas Elide soltou um suspiro trêmulo.
— Por que deixar Terrasen, afinal?
— Quem sabe? — a mulher voltou para sua comida e grupo. — Parece que a rainha tem um hábito de aparecer onde menos se espera, desencadeando o caos, e desaparecendo novamente. Há um bom dinheiro em apostas conjuntas sobre onde ela aparecerá em seguida. Eu digo Banjali, em Eyllwe, Vross aqui diz Varese, em Wendlyn.
— Por quê Eyllwe? — Elide empurrou.
— Quem sabe? Ela seria uma tola de fato para anunciar seus planos. — A mulher lançou a Elide um olhar penetrante, como se dissesse para manter silêncio sobre o assunto.
Elide voltou para sua comida e cerveja, a chuva e os trovões afogando a conversa na sala.
Lorcan observou-a beber toda a caneca em silêncio. E quando parecia menos suspeito, ela se levantou e saiu.
Elide foi para duas outras tabernas na cidade – seguindo o mesmo padrão exato. A notícia mudava um pouco a cada relato, mas o consenso geral era de que Aelin estava em movimento, talvez sul ou leste, e ninguém sabia o que esperar.
Elide saiu da terceira taberna, Lorcan em seus calcanhares. Eles não tinham se falado desde que ela fora para a primeira taberna. Ele estivera perdido demais contemplando como seria viajar por conta própria novamente. Deixá-la... e nunca vê-la novamente.
E agora, olhando para a chuva e os trovões, Elide refletiu:
— Eu deveria ir para o norte.
Lorcan encontrou-se não desejando confirmar ou objetar. Como um tolo inútil, ele encontrou-se... hesitando em empurrá-la em direção ao seu caminho original.
Ela baixou o rosto, água e luz iluminaram suas altas maçãs do rosto.
— Aonde posso ir agora? Como posso encontrá-la?
Ele ousou dizer:
— O que você recolheu a partir dos rumores? — Ele estava analisando cada pedacinho de informação, mas queria ver aquela mente inteligente trabalhando.
E alguma pequena parte dele queria ver o que ela decidiria sobre seus caminhos separados, também.
— Banjali, em Eyllwe. Eu acho que ela vai para Banjali — Elide falou suavemente.
Ele tentou não parecer muito aliviado. Ele tinha chegado à mesma conclusão, mesmo que apenas porque era o que Whitethorn teria feito – e ele próprio treinara o príncipe por algumas décadas.
Ela esfregou seu rosto.
— Quão... quão longe fica?
— Longe.
Ela baixou as mãos, suas feições ásperas e branca como osso.
— Como eu chego lá? Como... — ela esfregou seu peito.
— Eu posso conseguir um mapa — ele encontrou-se dizendo. Só para ver se ela lhe pediria para ficar.
Ela engoliu e balançou a cabeça, seu cabelo preto balançando.
— Seria inútil.
— Os mapas são sempre úteis.
— Não quando não se sabe ler.
Lorcan piscou, perguntando-se se ouvira direito. Mas cor manchara as bochechas pálidas, e aquilo era realmente vergonha e desespero nublando seus olhos escuros.
— Mas você... — Não tinha havido nenhuma oportunidade durante aquelas semanas, ele percebeu, onde isso poderia ter se revelado.
— Eu aprendi as letras, mas quando... quando tudo aconteceu — ela contou — e fui colocada na torre... Minha babá era analfabeta. Então, eu nunca mais aprendi. E esqueci o que eu sabia.
Ele se perguntou se teria notado se ela não tivesse contado.
— Você parece ter sobrevivido até este ponto impressionantemente bem sem isso.
Ele falou sem considerar, mas parecia ser a coisa certa a dizer. Os cantos da boca dela se contraíram para cima.
— Suponho que sim — ela meditou.
A magia de Lorcan percebeu a guarnição antes que ele ouvisse ou sentisse o seu cheiro. Ela deslizou ao longo de suas espadas – rudimentares, armas semioxidadas – e, em seguida, percebeu seu medo crescente, excitação, talvez até mesmo um toque de sede de sangue.
Não era bom. Não quando as coisas estavam indo bem para eles.
Lorcan fechou a distância até Elide.
— Parece que nossos amigos na caravana quiseram fazer dinheiro fácil.
Desespero impotente tomou seu rosto afiado, o estado de alerta revelado pelos olhos arregalados.
— Guardas estão vindo?
Lorcan assentiu, os passos agora próximos o suficiente para ele poder contar quantos se aproximavam da guarnição no coração da cidade, sem dúvida, com a intenção de prendê-los entre suas espadas e o rio. Se ele fosse do tipo que apostava, apostaria que as duas pontes que atravessavam o rio – dez quarteirões de cada lado deles – já estavam cheias de guardas.
— Você tem uma escolha — disse ele. — Posso encerrar este assunto aqui, e voltaremos para a pousada para saber se Nik e Ombriel queriam se livrar de nós... — sua boca se apertou, e ele sabia a escolha dela antes de oferecer — ou nós podemos pegar uma daquelas barcaças e dar o fora agora.
— A segunda — ela sussurrou.
— Bom — foi sua única resposta quando agarrou a mão dela e puxou-a para a frente. Mesmo com seu poder apoiando a perna dela, ela era lenta demais...
— Apenas faça — ela retrucou.
Então Lorcan a puxou por sobre um ombro, liberando seu machado com a outra mão, e correu para a água.



Elide balançava e batia no ombro largo de Lorcan, esticando a cabeça o suficiente para ver a rua atrás deles. Nenhum sinal de guardas, mas... aquela voz que muitas vezes sussurrava em seu ouvido agora a puxava e lhe pedia para ir. Para sair.
— Os portões na entrada da cidade — ela engasgou quando músculos e ossos bateram em seu intestino. — Eles vão estar lá, também.
— Deixe-os comigo.
Elide tentou não imaginar o que isso significava, mas, em seguida, eles estavam nas docas, Lorcan correndo para uma barcaça, descendo aos pulos os degraus do cais e seguindo para a longa doca de madeira. O barco era menor do que os outros, a sua cabine de um cômodo no centro pintado de verde brilhante. Vazio – além de algumas caixas de carga na proa.
Lorcan guardou o machado que manuseava e Elide agarrou seu ombro, os dedos cavando no músculo. Ele a passou pela alta borda da barcaça e depositou-a sobre as pranchas de madeira. Ela tropeçou um passo antes que suas pernas se ajustassem ao balanço do rio, mas...
Lorcan já girava na direção do homem magro como junco que corria na direção deles com uma faca.
— Esse é o meu barco — ele baliu. Percebeu com quem, exatamente, estaria lutando enquanto olhava a escada de madeira para o cais e via o tamanho de Lorcan, o machado a espada agora nas grandes mãos do guerreiro, e a expressão da morte certamente em seu rosto.
— É o nosso barco agora — Lorcan disse simplesmente.
O homem olhou entre eles.
— Vocês... vocês não conseguirão passar das pontes ou das muralhas da cidade...
Segundos. Eles tinham apenas alguns momentos antes que os guardas chegassem...
— Entre. Agora. — Lorcan ordenou ao homem.
O homem começou a recuar.
Elide apoiou sua mão sobre a sujeira, levantando-se na lateral do barco e dizendo calmamente:
— Ele vai te matar antes de passar da escada. Leve-nos para fora da cidade, e juro que você será deixado em liberdade uma vez que estivermos fora.
— Vocês cortarão minha garganta, assim como fariam agora — disse o homem, engolindo ar.
Realmente, o machado de Lorcan estava naquela posição que ela aprendera que significava que ele estava prestes a atirá-lo.
— Eu gostaria de lhe pedir para reconsiderar — disse Elide.
O pulso de Lorcan se contraiu levemente. Ele faria isso – mataria esse homem inocente, só por impedi-los de sair livremente...
A faca do homem desceu, em seguida, desapareceu na bainha ao seu lado.
— Há uma curva do rio após a cidade. Me deixem lá.
Isso era tudo o Elide precisava ouvir quando o homem correu na direção deles, soltando as cordas e saltando para o barco com a facilidade de alguém que tinha feito isso mil vezes. Ele e Lorcan agarraram as varas para empurrar a barcaça para dentro do rio, e logo que estavam seguindo a corrente, Lorcan sussurrou:
— Se você nos trair, estará morto antes que os guardas estejam a bordo.
O homem concordou, agora levando-os para a saída leste da cidade, quando Lorcan levou-a para dentro da cabine.
O interior da cabine era alinhado com janelas, todas limpas o suficiente para sugerir que o homem levava algum orgulho em seu barco. Lorcan empurrou-a um pouco para baixo de uma mesa no centro, o pano bordado que o cobria protegendo-a de qualquer olhar, mas não dos sons: os passos de Lorcan andando em silêncio, embora ela pudesse senti-lo ocupando um esconderijo para monitorar tudo de dentro da cabine; o tamborilar da chuva no telhado plano; a pancada das varas que, ocasionalmente, batiam na lateral da barcaça.
Seu corpo logo começou a doer de manter-se parada e em silêncio.
Esta seria a sua vida no futuro? Ser caçada e perseguida pelo mundo todo?
E encontrar Aelin... Como ela algum dia faria isso? Ela poderia voltar para Terrasen, mas não sabia quem governava Orynth. Se Aelin não tinha tomado de volta seu trono... Talvez fosse uma mensagem de que perigo estava lá. Que nem tudo estava bem em Terrasen.
Mas para ir para Eyllwe por causa de um pouco de especulação... De todos os rumores que Elide escutara nas últimas duas horas, os argumentos da capitã tinham sido os mais sábios.
O mundo parecia ainda carregar alguma tensão silenciosa, uma onda de medo.
Mas, então, a voz do homem falava de novo, e metal gemeu – um portão. Os portões da cidade.
Ela ficou debaixo da mesa, contando suas respirações, pensando em tudo o que tinha ouvido. Duvidava que a trupe sentisse falta deles.
E ela apostaria todo o dinheiro em sua bota que Nik e Ombriel foram os que tinham colocado os guardas atrás deles, decidindo que ela e Lorcan eram uma ameaça grande – especialmente com os ilken a caçando. Ela se perguntou se Molly sabia o tempo, desde aquele primeiro encontro, que eram mentirosos e permitira que Nik e Ombriel os vendessem quando a recompensa era boa demais para deixar passar, o custo da lealdade grande demais.
Elide suspirou pelo nariz. Fez-se som de água, e o barco navegou para frente.
Pelo menos ela tinha o pequeno pedaço de pedra com ela, embora tivesse perdido suas roupas, mesmo gastas como estavam. Estes couros estavam ficando abafados no calor opressivo, e se ela fosse para Eyllwe, seriam sufocantes...
Os passos de Lorcan se aproximaram.
— Saia.
Estremecendo enquanto seu tornozelo gritava de dor, ela se arrastou debaixo da mesa e olhou ao redor.
— Nenhum problema?
Ele balançou sua cabeça. Estava salpicado com chuva ou água do rio. Ela olhou ao redor para onde o homem estivera na direção do barco. Não havia ninguém ali – ou na parte traseira da embarcação.
— Ele nadou para a curva da praia — explicou Lorcan.
Elide soltou um suspiro.
— Ele poderia muito bem correr para a cidade e contar a todos. Não vai demorar muito para ele se recuperar.
— Nós lidaremos com isso — disse Lorcan, virando-se. Rápido demais. Ele evitou os seus olhos muito rápido...
Ela observou melhor a água, as manchas agora nas mangas de sua camisa. Como... como se ele tivesse lavado as mãos rapidamente, de forma descuidada.
Ela olhou para o machado de guerra em sua cintura quando ele saiu da cabine.
— Você o matou, não foi? — Era daí que vinha o barulho de água. Um corpo sendo despejado sobre a borda.
Lorcan parou. Olhou por cima de um ombro largo. Não havia nada de humano em seus olhos escuros.
— Se quiser sobreviver, tem que estar disposta a fazer o que é necessário.
— Ele poderia ter uma família dependendo dele. — Ela não vira nenhum anel de casamento, mas isso não queria dizer nada.
— Nik e Ombriel não nos deram essa consideração quando nos delataram à guarnição. — Ele caminhou para o convés, e ela foi depois dele. Árvores exuberantes margeavam o rio, um escudo ao redor deles.
E ali – havia uma mancha sobre as pranchas, brilhante e escura. Seu estômago revirou.
— Você planejou para mentir sobre isso — ela ferveu. — Mas como explicaria isso?
Um dar de ombros. Lorcan assumiu o mastro e moveu-se com graça fluída para o lado da barca, onde empurrou-os longe de um banco de areia se aproximando.
Ele tinha matado o homem...
— Eu jurei que ele seria libertado.
— Você jurou, não eu.
Seus dedos se fecharam em punhos. E aquela coisa – aquela pedra – envolta em um pedaço de pano dentro de sua jaqueta começou a se mexer.
Lorcan parou, o mastro agarrado firmemente em suas mãos.
— O que é isso? — disse ele muito baixo.
Ela se manteve firme. Só no inferno ela recuaria diante dele, só no inferno lhe permitiria ser intimidada, ignorada, matar pessoas para que pudessem escapar...
— O. Quê. É. Isso?
Ela se recusou a falar, até mesmo tocar o caroço em seu bolso. Ele vibrou e resmungou, uma besta abrindo um olho, mas ela não se atreveu a estender a mão, tanto quanto reconhecer a estranha presença de outro mundo.
Os olhos de Lorcan se arregalaram ligeiramente, então ele estava se distanciando do mastro e percorrendo todo o convés até a cabine. Ela permaneceu na borda, sem saber se o seguia ou talvez saltasse para a água e nadava até a praia, mas...
Houve um baque de metal contra metal, como se algo estivesse sendo aberto à força, e em seguida...
O rugido de Lorcan balançou o barco, o rio, as árvores. Pássaros do rio de pernas longas afastaram-se em fuga.
Então Lorcan abriu a porta, tão violentamente que quase a arrancou das dobradiças, e lançou o que parecia ser os cacos de um amuleto quebrado no rio. Ou ele tentou. Lorcan jogou com força suficiente que atravessou o rio todo e acertou uma árvore, arrancando um pedaço da madeira.
Ele girou, e a ira de Elide oscilou um pouco à fúria empolando e torcendo as feições dele. Ele rondou para ela, agarrando o mastro como se para impedir de estrangulá-la, e perguntou:
— O que é que você carrega?
E a exigência, a violência, a certeza e arrogância a fizeram ver tudo vermelho, também. Então Elide disse com veneno tranquilo:
— Por que você não apenas corta minha garganta e descobre por si mesmo?
As narinas de Lorcan queimaram.
— Se você tem problemas comigo matando alguém que cheirava a podridão e que nos trairia no momento em que tivesse a chance, então você vai amar a sua rainha.
Fazia um tempo agora que ele dava a entender que a conhecia, que a conhecia bem o suficiente para lhe dizer coisas horríveis dela, mas...
— O que você quer dizer?
Lorcan, pelos deuses, parecia finalmente ter colocado o temperamento sob controle quando respondeu.
— Celaena Sardothien é uma assassina de dezenove anos de idade. Que se diz a melhor do mundo — um bufo. — Ela matou e se deleitou e comprou seu caminho através da vida e nunca, nenhuma vez, pediu desculpas por isso. Ela glorificou-se. E, em seguida, na primavera deste ano, uma das minhas sentinelas, príncipe Rowan Whitethorn, foi encarregado de lidar com ela enquanto ela se acabava na costa de Wendlyn. Acontece que ele se apaixonou por ela em vez disso, e ela por ele. Acontece que o que eles estavam fazendo nas Montanhas Cambrianas conseguiu que ela parasse de se chamar Celaena e começasse a usar seu verdadeiro nome novamente. — Um sorriso brutal. — Aelin Galathynius.
Elide mal podia sentir seu corpo.
— O quê? — foi a única coisa que conseguiu falar.
— Sua rainha cuspidora de fogo? Ela é uma maldita assassina. Treinada para ser uma assassina desde o momento em que sua mãe morreu defendendo-a. Treinada para ser melhor do que o homem que massacrou sua mãe e sua família real.
Elide sacudiu a cabeça, as mãos afrouxando.
— O quê? — perguntou ela novamente.
Lorcan riu sem alegria.
— Enquanto você estava trancada na torre durante dez anos, ela estava entregando-se às riquezas de Forte da Fenda, sendo mimada por seu mestre... o Rei dos Assassinos, a quem ela assassinou a sangue frio na primavera deste ano. Então, você descobrirá que a sua salvadora há muito perdida é pouco melhor do que eu. Verá que ela teria matado o homem do mesmo jeito que eu, e teria pouca tolerância a choramingo como eu.
Aelin... uma assassina. Aelin – a mesma pessoa a quem ela fora encarregada de entregar a pedra...
— Você sabia. Esse tempo todo que estivemos juntos... você sabia que eu estava buscando a mesma pessoa.
— Eu lhe disse que encontrando uma, teria a outra.
— Você sabia, e não me contou. Por quê?
— Você ainda não me contou seus segredos. Não vejo por que eu deveria contar todos os meus, também.
Ela fechou os olhos, tentando ignorar a mancha escura na madeira – tentando aliviar a dor de suas palavras e selar o buraco que tinha sido aberto sob seus pés. O que era aquela pedra? Por que ela rugia e...
— Sua pequena rainha — Lorcan zombou — é uma assassina e uma ladra e uma mentirosa. Então, se vai me chamar dessas coisas, então esteja preparada para arremessá-las para ela, também.
Sua pele era muito apertada, seus ossos demasiados frágeis para suportar a raiva que tomou o controle. Ela buscou as palavras certas para machucá-lo, feri-lo, como se fossem punhados de pedras que ela podia arremessar na cabeça de Lorcan.
Elide sussurrou:
— Eu estava errada. Eu disse que você e eu éramos iguais... que não tínhamos família nem amigos. Mas eu não tenho nenhum porque a distância e as circunstâncias me separaram deles. Você não tem ninguém porque ninguém tolera estar perto de você — ela tentou – e conseguiu, se a ira que ondulava nos olhos dele fosse qualquer indicação – olhar para baixo por sobre o nariz, mesmo com ele elevando-se sobre ela. — E sabe qual é a maior mentira que você diz a todos, Lorcan? Que prefere que seja assim. Mas sabe o que ouço quando você reclama sobre minha rainha cadela? Tudo o que ouço são as palavras de alguém que é profundamente ciumento, solitário, e patético. Tudo o que ouço são as palavras de alguém que viu Aelin e o príncipe Rowan se apaixonarem e se ressentiu por sua felicidade. Porque você é tão infeliz — ela não conseguia impedir as palavras uma vez que começou a soltá-las. — Então chame Aelin de assassina e ladra e mentirosa. Chame-a de rainha cadela e cuspidora de fogo. Mas, perdoe-me se eu mesma queira julgar essas coisas quando eu conhecê-la. O que eu vou fazer. — Ela apontou para o rio cinza lamacento que fluía ao redor deles. — Eu estou indo para Eyllwe. Leve-me para terra e eu lavarei minhas mãos de você tão facilmente quanto você lavou o sangue daquele homem das suas.
Lorcan olhou-a, dentes para fora o suficiente para mostrar os caninos ligeiramente alongados. Mas ela não se importava com sua herança feérica, ou sua idade, ou a sua capacidade de matar.
Depois de um momento, ele voltou a girar o leme de encontro ao fundo do rio – não para levá-los à praia, mas para guiá-los ao longo do rio.
— Você não ouviu o que eu falei? Leve-me até a costa.
— Não.
Sua raiva superou qualquer tipo de senso comum, qualquer aviso de Anneith quando ela a invadiu.
— Não?
Ele deixou o leme se arrastar na água e virou o rosto para ela. Nenhuma emoção – nem mesmo raiva brilhava ali.
— O rio se desvia para o sul em três quilômetros. A partir do mapa na cabine, pode levá-la direto para o sul, em seguida, encontrar a rota mais rápida para Banjali — ela enxugou a chuva da testa quando Lorcan trouxe seu rosto perto o suficiente para eles compartilharem uma respiração. — Acontece que, agora tenho negócios com Aelin Galathynius também. Parabéns, senhorita. Você acabou de conseguir um guia para Eyllwe.
Uma luz, matando o frio que estava em seus olhos, e ela se perguntou o que diabos rugia sobre ele.
Mas aqueles olhos desviaram para a boca dela, apertada firmemente em sua raiva. E uma parte dela que não tinha nada a ver com o medo seguiu ainda com atenção, no mesmo momento em que outras partes ficaram um pouco quentes.
Os olhos de Lorcan finalmente encontraram os dela, e sua voz era um grunhido da meia-noite quando ele disse:
— Tanto quanto importa a alguém, você ainda é minha esposa.
Elide não se opôs – mesmo quando voltou para a cabine, aquela magia insuportável ajudando-o com seu mancar, e bateu a porta com tanta força que o vidro balançou.



As nuvens de tempestade se afastaram para revelar uma noite salpicada de estrelas e uma lua brilhante o suficiente para Lorcan navegar no rio calmo e estreito.
Ele navegou hora após hora, contemplando exatamente como assassinaria Aelin Galathynius, sem Elide ou Whitethorn no caminho, e em seguida, como fatiaria o cadáver dela e o usaria para alimentar os corvos.
Ela havia mentido para ele. Ela Whitethorn o haviam enganado naquele dia em que o príncipe entregara a chave de Wyrd.
Não havia nada dentro do amuleto além de um daqueles anéis – um anel de pedra de Wyrd totalmente inútil, envolto em um pedaço de pergaminho. E nele lia-se numa caligrafia feminina:

Fico na esperança de que você descubra termos mais criativos do que “cadela” para me chamar quando encontrar isto.
Com todo o meu amor,
A.A.G.

Ele a mataria. Lentamente. Criativamente. Ele se vira forçado a fazer um juramento de sangue para provar que o anel de Mala realmente oferecia imunidade aos Valg quando usado – não tinha pensado em exigir que a sua chave de Wyrd era real, também.
E Elide – o que Elide carregava foi o que o fez perceber que... Ele pensaria sobre isso mais tarde. Contemplaria o que fazer com a Senhora de Perranth mais tarde.
Seu único consolo era que ele havia roubado o anel de Mala de volta, mas a pequena cadela ainda tinha a chave. E se Elide precisava ir até Aelin de qualquer maneira... Oh, ele encontraria Aelin para Elide.
E ele faria a rainha de Terrasen rastejar antes mesmo do final.

11 comentários:

  1. Ja é o terceiro quase pedido de casamento que eu achei nesse livro

    ResponderExcluir
  2. Outra DR, se comam logo -_-' isso vai dá muita merda mano e o Lorcan está redondamente enganado se acha q vai conseguir matar a Aelin U.u

    ResponderExcluir
  3. Kkkkk amo esse casal demais, fico só esperando a hora de ler as partes que eles conotam ,melhor casal

    ResponderExcluir
  4. "Eu estava errada. Eu disse que você e eu éramos iguais... que não tínhamos família nem amigos. Mas eu não tenho nenhum porque a distância e as circunstâncias me separaram deles. Você não tem ninguém porque ninguém tolera estar perto de você..."
    Quantas verdades em um parágrafo,0.0
    Isso aí Elide,vai raspando esse coração peludo u.u

    ResponderExcluir
  5. "Ele navegou hora após hora, contemplando exatamente como assassinaria Aelin Galathynius, sem Elide ou Whitethorn no caminho, " KKKKK aí ele vai bolar um plano só pra chegar e encontrar Gavriel e Fenrys (inclusive estou adorando esse Fenrys kkk ele Idolatra a Aelin)

    ResponderExcluir
  6. E quando eu achei q eles finalmente iriam se pegar...Ta complicado. SE POSSUEM LOGO PLISS

    ResponderExcluir
  7. Em pençar q quando ele chegar lá vai morrer.
    Espero q ele não saiba quem Elide é para a rainha.
    Ass: Milly
    *-*

    ResponderExcluir
  8. Só eu que torço para Lorcan da uma surra em Aelin? Só quero alguém para acaba com essa arrogância toda dela..
    Acho que Aelin não vai ficar com Rowan.. os dois são muito parecidos, ela precisa de alguém oposto, para ajudar.. Aelin queima tudo o que vê pela frente e Rowan só a ajuda.. e em tempos de guerra isso é até bom, mais na época de paz, acho que não daria muito certo..
    Dorian é a bondade, Manon a crueldade.. eles se completam..
    Rowan e Aelin já se são o msm lado de duas moedas..

    ResponderExcluir
  9. Devoradora de livros30 de julho de 2017 00:50

    "Fico na esperança de que você descubra termos mais criativos do que “cadela” para me chamar quando encontrar isto.""Com todo o meu amor","A.A.G".

    Putz, so a Aelin msm kkkkkkkk

    ResponderExcluir
  10. As merdas estão voltando para atormentar nossas vidas

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)