26 de janeiro de 2017

Capítulo 43

Liderar os cem homens do hyaku pela estreita passagem abaixo foi um exercício interessante de logística e trabalho em equipe. Horace tinha decidido que era demasiado arriscado os soldados atravessarem o caminho íngreme e rochoso sobrecarregados por dardos, escudos e armaduras. Assim, quando a avaliação da parada com Shigeru foi concluída, ele marchou com os homens para o início da passagem secreta e eles organizaram seus escudos e lanças em pilhas de cinco.
Os Kikori que não foram selecionados para participar da luta agora atuariam como carregadores, ajudados pelo sempre presente Mikeru e um grupo de seus jovens amigos.
Eles amarraram cinco lanças juntas, atribuindo a um homem carregar uma dessas cargas em suas costas. Os escudos foram igualmente empilhados e amarrados, e dois homens pegaram cada pacote de cinco escudos, levando-os como se fossem macas.
O restante dos homens se espalhou ao longo da coluna para ajudar os carregadores de armas nos lugares mais difíceis, ou para substituí-los quando se cansarem.
Mikeru e seus amigos correram à frente a passos firmes e decididos como cabras da montanha, colocando tochas para iluminar os lugares mais difíceis da trilha.
Finalmente, os lutadores carregando apenas suas facas e armaduras faziam seu caminho no estreito desfiladeiro em uma longa fila. Meia hora antes do amanhecer, Goju Kuma e Goju Taka, alcançaram o final da passagem secreta. Eles estavam armados e totalmente equipados e tinham feito a viagem sem problemas.
Por outro lado, entre os carregadores, havia uma dúzia de tornozelos torcidos e outras lesões menores.
Horace se aproximou do local onde Will, Halt e Shigeru observavam os homens emergindo e tranquilamente entrando em formação.
— Estamos prontos para prosseguir  anunciou.
Will gesticulava para o enorme penhasco, várias centenas de metros de distância, que obscurecia qualquer visão do acampamento Senshi.
— Vamos primeiro dar uma olhada no inimigo  disse ele. — Fique de olho no imperador — acrescentou a Horace.
Ele não queria que Shigeru vagueasse muito longe e ficasse se expondo antes que eles tivessem uma boa ideia das condições do acampamento do inimigo. Então ele e Halt saíram silenciosamente, mantendo-se perto da encosta do penhasco. Eles chegaram ao final do penhasco e fizeram uma curva, saindo de vista.
Horace olhou para o imperador. Shigeru parecia calmo, mas tinha a mão direita fortemente pressionada no cabo de sua katana.
Horace deu um sorriso encorajador.
— O que fazemos agora?  Shigeru perguntou.
— Vamos esperar — Horace respondeu.
Will e Halt deslizaram ao redor do afloramento rochoso, em seguida, escalaram um pouco até um planalto para ter uma visão melhor da situação. Eles tinham enviado Mikeru para vigiar, ele ficaria a noite toda de olho no acampamento e a qualquer movimento dos Senshi, reforços ou qualquer outra alteração, enviaria rapidamente uma mensagem.
Nenhuma mensagem chegou, mas neste caso Will preferia confiar em seus próprios olhos. Essa foi à maneira que Halt o havia ensinado. O campo se estendia na frente dele, enquanto observava de um mirante bem alto.
As tendas foram armadas aleatoriamente, em uma grande massa amorfa. As poucas sentinelas podiam ser vistas caminhando desanimadas em torno do perímetro exterior.
No momento em que os dois arqueiros os observavam as sentinelas não pareciam levantar os olhos do solo congelado à frente dos seus pés. Estavam preocupadas em ficar abaixados dentro de suas capas para conservar o máximo de calor, tanto quanto possível.
O céu lentamente foi clareando e Will e Halt puderam ver mais detalhes. No centro do acampamento ficava uma barraca maior e mais ornamentada. Dois homens montavam guarda do lado de fora e estandartes estavam fincados na entrada, balançando ao vento.
— Você pode ver o estandarte no centro?  Halt perguntou.
Havia um brasão na bandeira central. Os outros mostravam caracteres escritos em nihon-jin. Will protegeu os olhos para tentar ver mais detalhes.
— Um boi, eu acho  disse ele. — Um boi verde.
— Isso não significa coisa nenhuma para nós — respondeu Halt. — Embora Shigeru deva saber o que é.
Will olhou para ele.
— Isso é importante?
— É sempre importante saber o que você está enfrentando  Halt respondeu calmamente.
Ele analisou o terreno entre eles e o acampamento Senshi. A maior parte era solo comum, mas havia um ponto coberto de pedras caídas. Além das pedras, a leste, a terra de uma parte do penhasco havia desmoronado. À frente deles, ao sul, a planície inclinava para baixo até as tendas.
— Essa é a nossa posição  disse ele, indicando a Will. — Esse terreno acidentado dará ao nosso flanco esquerdo alguma proteção, e os Senshi estarão atacando de baixo para cima.
— A colina não é muito íngreme  Will observou.
— Nós vamos aproveitar qualquer vantagem que estiver ao nosso alcance  Halt disse a ele. — Agora, vamos voltar e começar a festa.
Eles voltaram para seus companheiros e organizaram um rápido conselho de guerra. Will descreveu o chão acidentado do lado esquerdo.
— Vamos começar por lá. Então vamos avançar em linha. Coloque os homens em duas fileiras, teremos uma ampla frente. Selethen colocará seus homens à direita do goju de Horace, cerca de dez metros para trás. Dessa forma, quando o inimigo tentar vir por trás do seu flanco direito, você pode avançar e bater-lhes por trás. Horace, quando eles fizerem isso, lembre-se do plano que traçamos ontem à noite.
— Eu sei. Fecho o cerco com a minha segunda linha  disse Horace. — Você sabe, eu já fiz isso antes.
— Desculpe  disse Will. — Mais tarde ensinarei o padre a rezar.
Os dois velhos amigos sorriram um para o outro.
Shigeru e Selethen pareciam um pouco confusos.
— Por que o padre quer aprender a rezar?  Shigeru perguntou.
O guerreiro arridi encolheu os ombros.
— Eu não tenho a mínima ideia.
Olhou para Halt, mas o arqueiro acenou afastando o assunto.
— É uma longa história  disse ele. — Eu te conto mais tarde.
— Ah, Shigeru  Will disse lembrando um detalhe. — O comandante inimigo tem um boi verde no seu estandarte. Significa algo para você?
O imperador assentiu.
— É o General Todoki. Ele é um dos mais ardentes defensores de Arisaka. Foram seus homens que atacaram a fortificação. Ele estará ansioso para vingar essa derrota.
— Bom  disse Halt. — Isso significa que provavelmente irão agir sem pensar. Combater um inimigo que está com raiva é muito bom.
— Vamos começar!  Will exclamou, e os cinco apertaram as mãos, em seguida, saíram para as suas posições.
Em uma palavra de comando, os homens dos dois goju que estavam descansando no chão pularam rapidamente sobre seus pés. Formaram três filas, e com movimentos ritmados pegaram suas armas e equipamentos, cadenciados pelo barulho da batida de seus pés. Eles rodearam a colina e avistaram o inimigo.
Quando os dois gojus atingiram as suas posições, Halt, Will e Shigeru desviaram para uma pequena colina, de onde poderiam observar a batalha. Eles estavam um pouco atrás das fileiras Kikori. Moka, o guarda costas sênior de Shigeru, queria acompanhá-lo, mas ele se recusou.
— Eu quero que os Kikori saibam que tenho total confiança neles.
Moka permaneceu com dez Senshi na entrada da passagem secreta de Mikeru. Se o pior viesse a acontecer, seria sua tarefa bloquear a passagem dos homens de Arisaka, enquanto os Kikori poderiam escapar pela passagem secreta.
Os gojus estavam posicionados, formando-se em duas fileiras longas com 25 homens cada. Cada homem da segunda fileira carregava duas lanças. A primeira fileira estava armada só com espadas e facas. Todos eles naturalmente carregavam maciços escudos no braço esquerdo.
Surpreendentemente, não houve reação do acampamento inimigo. Nenhuma das preguiçosas sentinelas parecia ter notado que cem homens armados, de repente apareceram há apenas cento e cinquenta metros de distância. Halt balançou a cabeça em desgosto.
— Eu achei que isso podia acontecer  disse ele.
Ele pegou uma flecha com ponto de fogo que tinha preparado na noite anterior – panos embebidos em óleo estavam enrolados na ponta da flecha.
— Acenda, Will.
O Arqueiro mais jovem pegou sua faca e uma pedra e rapidamente as friccionou, pondo fogo no pano embebido em óleo.
Halt esperou até ter certeza que a chama estava bem firme. Então olhou para o campo inimigo, levantou seu arco quase quarenta e cinco graus, puxou a corda e a soltou. A flecha em chamas deixou um rastro fino de fumaça preta por trás dela enquanto subia para o céu nublado da manhã.
Eles a perderam de vista quando começou a descer de seu voo. De repente, Will viu um brilho – uma língua de fogo subindo da tenda ornada de Todoki. Todo o telhado do pavilhão estava untado com óleo para torná-lo impermeável, e após alguns segundos, pegou fogo. Podiam-se ouvir mensagens vindas do acampamento, vários homens correram para fora da tenda, um caiu no meio do caminho.
— Receio que você tenha deixado Todoki-san muito irritado, Halto-san  disse Shigeru.
Halt sorriu amargamente.
— Essa era a ideia.
Ele olhou para Will e assentiu. O jovem arqueiro encheu seus pulmões e gritou na direção de Horace.
— Horace! Vá!
Horace desembainhou a espada e levantou-a no ar. Selethen fez o mesmo. Houve um barulho ruidoso, enquanto escudos pesados eram levantados do chão rochoso. Então, com uma palavra de Horace, todos os cinquenta Kikoris berraram juntos.
— Issho ni!
Os homens de Selethen ecoaram em um único grito.
— Issho ni!
Então todos os cem homens começaram a entoar seu grito de guerra, ao mesmo tempo cadenciando com a marcha, enquanto avançavam pela planície em direção ao acampamento dos Senshi.
Horace e Selethen pararam após vinte passos, mas o grito de guerra continuou ecoando na planície. Os homens de Todoki, despertados pelo fogo repentino na tenda do comandante, estavam agora totalmente preparados.
O alarme inicial ao repentino som do grito de guerra Kikori e o som de suas botas marchando furiosamente, os fez perceber que estavam sendo atacados pelos humildes Kikori – camponeses que desprezavam e que não tinham o direito de levantar armas contra seus superiores. Armando-se, os Senshi de Todoki começaram a fluir pelo campo em uma massa não-coordenada, apressando-se para atacar esses tolos presunçosos.
Eles formaram uma linha esfarrapada enquanto corriam na direção dos Kikoris que os esperavam. Em seguida, Horace deu uma ordem e um apito estridente soou entre os dois gojus que esperavam. Com um estrondo, os escudos de cada linha de frente foram apresentados e voltados para o inimigo.
Os guerreiros Senshi se viram confrontados por um muro aparentemente sólido de madeira e ferro. Dois rápidos apitos soaram e a parede de escudos começou a caminhar na direção dos Senshi.
Aquele era um insulto que não podia ser suportado! O líder Senshi atirou-se contra a parede de escudos, procurando um inimigo para lutar. Mas os Kikori estavam escondidos por trás dos enormes escudos.
Furioso, o primeiro Senshi atacou com sua katana, fazendo amplos movimentos para tentar acertar os Kikori por cima. Porém, as bordas superiores dos escudos eram reforçadas com ferro. A espada encravava no ferro, mas, com o apoio da dura madeira por baixo, o escudo resistia, parando o movimento assassino. Alguns Senshis lutavam para libertar suas espadas do escudo. Mas agora surgiu um novo perigo.
Os Kikori não paravam de avançar, e os homens na segunda fila ajudavam com o peso de seus corpos, empurrando os Senshis para frente.
Os escudos se chocaram contra os Senshi, fazendo-os cambalear. Em alguns casos, eles não conseguiram mais segurar o punho da katana, deixando-as fincadas nos escudos.
Agora, aqueles que estavam brigando bem de perto, puderam ver relances do inimigo através das aberturas por entre os escudos. Vários tentaram estocar pelas brechas, mas quando a lâmina passava, os Kikori batiam um escudo contra o outro, prendendo a espada e torcendo-a da mão de seu dono.
Instintivamente, alguns Senshis abaixavam para recuperar a sua arma caída, só para depois perceber o seu erro. Curtas lâminas afiadas de ferro começaram a aparecer por entre as aberturas, espetando braços, pernas, órgãos, visando as aberturas nas armaduras dos Senshi. Um guerreiro Senshi levantou sua espada para dar um poderoso golpe no guerreiro Kikori à sua esquerda, exposto por uma momentânea lacuna na parede de escudos. Mas, quando fez isso, sentiu uma súbita e enorme onda de dor debaixo do braço quando uma lâmina o acertou, desferida por um Kikori na sua direita – não visto até agora. Sua katana caiu de sua mão e ele desabou de joelhos, enquanto soava em seus ouvidos o grito de guerra Senshi.
— Issho ni!
Foi a última coisa que muitos dos Senshi ouviram naquele dia. Horace e Selethen, com espadas prontas, moveram-se entre as duas fileiras, procurando alguma fraqueza que precisasse de intervenção. Mas eles não encontraram nada. Os Kikori se exercitaram e treinaram por semanas, e com o seu imperador de olho neles, tornaram-se uma máquina de matar. Uma máquina que esfaqueava, cortava e esmagava, empurrando os Senshis em movimentos perfeitamente coordenados de destruição.
Alguns Senshis conseguiram fazer algumas vítimas. Eles estocavam fortemente os escudos e em alguns casos os trespassando fazendo sua vítima. Mas poucos deles viveram para comemorar o fato. O ato de estender os braços acima do escudo deixou-os criticamente expostos, tornando-se alvos dos Kikori. A maior parte encontrou-se preso e foi forçado a voltar, sem espaço suficiente para empunhar suas longas espadas com eficácia e mostrar as desconcertantes sequências de golpes que tinham aprendido e praticado desde a infância.
E enquanto isso, eram esbofeteados pelos escudos, as lâminas de ferro cintilavam de dentro para fora como serpentes. As espadas não paravam de  furar, cortar, ferir e matar. Os homens de Todoki, nunca tinham experimentado uma batalha como essa antes. Um Senshi estava acostumado a encontrar um inimigo no campo de batalha, envolvendo-se em um único combate, ganhando ou perdendo. Mas não havia indivíduos para enfrentá-los – apenas uma parede impessoal de escudos que os pressionava como uma fortaleza móvel. Confusos e desiludidos, sem saber como combater a força inexorável diante deles, vendo seus companheiros caídos, mortos ou feridos – os últimos logo sendo despachados pela segunda linha de Kikoris – eles fizeram o que qualquer homem sensato faria. Eles se viraram e correram.

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