26 de janeiro de 2017

Capítulo 42

Evanlyn estava literalmente de cabelo em pé. Ela controlava um impulso de pular sobre seus pés e se virar, confrontando a criatura desconhecida por trás dela – embora a lógica dissesse-lhe que devia ser um dos Hasanu. Sua música tinha acabado quando uma mão entrou no seu campo de visão. Com uma voz trêmula e incerta, ela começou a cantar bem baixinho.
— Rodou e rodou e se foi, suavemente pisando no círculo do sol...
Ela tinha certeza de que podia ouvir o som de fechar da mandíbula atrás dela. Ela pegou outro pedaço de fruta e colocou em sua boca. Então teve uma ideia. Escolheu um segundo pedaço e o colocou em cima da lenha.
— Para você  ela disse, e continuou a cantarolar a melodia da música.
Após alguns segundos, a mão apareceu novamente e pegou a fruta. Ela terminou sua parte e estalou os lábios em apreciação.
— Mmmm. Bom.
— Mmmmmmmm.
O som ecoou por trás dela, junto com o estalar dos lábios. Ela respirou profundamente e colocou outro pedaço de fruta ao seu lado.
— Para você.
Mais uma vez, a mão apareceu. Desta vez, não tão rapidamente como foi nas ocasiões anteriores. Ele pegou a fruta e a retirou mais lentamente. Então ouviu a voz novamente – áspera e um pouco indistinta. Apenas uma palavra.
— 'rigato.
Arigato, ela entendeu, era uma palavra em nihon-jin para agradecer. Ela buscou desesperadamente uma resposta correta em sua memória, mas lhe fugiu as palavras corretas. Resolveu falar então:
— Não há de quê.
Colocou um damasco à sua esquerda. Ela esperou até que não pudesse ouvir mais o som da mastigação atrás dela, em seguida, colocou o último pedaço de fruta para o lado. Desta vez, houve uma longa pausa. Em seguida, a voz disse:
— Ié, ié!
Isso significava “Não, não!” Era uma forma Nihon-Jin de recusar educadamente. A mão apareceu, pegou a fruta e colocou mais ao lado dela. Ela sorriu para si mesma. A possibilidade de aquele encontro resultar em ela não ter os membros arrancados pedaço por pedaço, pareceu estar ficando mais promissor, ela pensou. Casualmente, ela tirou a faca de caça.
Imediatamente, houve um movimento alarmado atrás dela. Ela não prestou atenção, só repetiu com a mesma frase.
— Ié, ié!
Não era a frase mais exata, mas ela pensou que daria certo e falou em um tom leve e reconfortante. O movimento parou. Ela sentiu que o Hasanu tinha recuado alguns metros.
Agora, ela usou a faca de caça para dividir o damasco restante em duas partes. Ela guardou a grande faca, pegou metade do damasco e colocou a outra ao seu lado. ouviu Hasanu se mover novamente E desta vez não se preocupou em fazer mais barulho. A mão entrou em vista mais uma vez, pegou a fruta e saiu do campo de visão.
— Eu acho que é hora de nos conhecermos  disse ela suavemente.
Tendo a certeza de não fazer nenhum movimento súbito, ela se levantou de seu assento na lenha. Fez uma pausa, colocou um sorriso no rosto e decidiu que o que ela tinha visto, ficou para trás.
Então, ela virou-se lentamente. A figura agachada no chão atrás da lenha era maciça. Longos cabelos felpudos e vermelhos pendurados até os ombros, acompanhado por uma barba igualmente longa e desgrenhada. O corpo era enorme, parecia estar coberto de longos pelos castanho-avermelhados. No entanto, ela não poderia demonstrar qualquer reação em seu rosto.
O rosto dela mantinha um sorriso fixo. Sentia-se vagamente como sendo carne morta.
Ela abaixou-se em uma graciosa reverência, com os braços estendidos para os lados, a cabeça inclinada. O Hasanu permaneceu em pé. Ela olhou para cima, ainda sorrindo, e prendeu a respiração. Ele tinha pelo menos dois metros e meio de altura, e agora ela viu que o pelo longo e vermelho que parecia cobrir seu corpo não era nada mais que um longo manto feito de pele ou lã felpuda. Ela não poderia dizer exatamente o que era.
Curvou-se desajeitadamente para ela e ela abaixou seu olhar, então lentamente ficaram em pé juntos.
Agora ela podia ver mais se suas características. O rosto era largo, com bochechas proeminentes e um nariz largo. Os olhos eram estreitos, mas bem afastados, tinha grossas e longas sobrancelhas desgrenhadas. Havia definitivamente uma luz de inteligência e curiosidade em seus olhos. Aí ele sorriu. Seus dentes eram grandes e uniformes. Eram um pouco amarelados e manchados, mas eram normais, como dentes humanos, sem incisivos em forma de presa.
Evanlyn tocou a mão em seu peito.
— Evanlyn  disse ela, pronunciando as sílabas com cuidado. — Eva-ry-m.
Ele franziu o cenho. A estrutura do nome era desconhecida para ele, mas ele tentou novamente.
— Van-Eh-in.
— Bom!
Ela sorriu encorajadoramente e ele sorriu de volta. Apontou para o outro lado, no caiaque distante, onde Alyss esperava nervosamente.
— Alyss  disse ela. — Minha amiga. A-ryss.
Ele franziu a testa com o esforço, em seguida, repetiu:
— A-ryss.
— Bem perto  disse ela, e depois continuou falando com cuidado. — Alyss, Evanlyn, amigos.
Ela acompanhou as palavras com gestos. Apontando para si e para Alyss, em seguida, imitando um gesto de abraço para indicar amigos. O gigante franziu a testa novamente por alguns segundos, tentando interpretar o significado. Então viu que ele compreendeu quando ele repetiu o gesto de abraçar.
— Am-gos. Hai!
Hai significa “sim”, ela sabia. Agora, ela apontou para ele, então para si mesma.
— Você... Evanlyn... amigos, hai?
Ela repetiu o gesto de abraçar, então sentiu uma súbita sensação de alarme, de que ele realmente a abraçasse de verdade. Não sabia se suas costelas suportariam aquele abraço de um gigante da floresta, de dois metros e meio de altura. Felizmente, ele percebeu que ela estava falando simbolicamente. Ele apontou para si mesmo.
— Kona  disse ele.
Ela assumiu uma expressão exageradamente questionadora e apontou para ele.
— Você... Kona?
Ele acenou, sorrindo novamente.
— Hai! Kona.
Ele apontou para ela novamente, então para si mesmo.
— Eh-van-in. Kona.
— Amigos  disse ela com firmeza, apontando dela para ele.
Não era uma pergunta, era uma afirmação, e ele assentiu com ansiedade.
— Hai! Am-gos.
— Eu agradeço a Deus por isso  ela murmurou para si mesma.
Ele inclinou a cabeça para um lado, perguntando o que ela disse, mas ela fez um gesto de “deixa pra lá” com a mão.
— Não importa  disse ela, fazendo uma anotação mental para evitar comentários impertinentes no futuro.
Kona podia parecer com um macaco enorme, peludo, mas ela percebeu que ele não era bobo. Ela apontou para o pequeno acampamento, em seguida, acenou para ele.
— Vem  disse ela.
Ela pegou na sua enorme mão. No início ficou inseguro, mas deu sua mão a ela, então abriu um largo sorriso mais uma vez, com o contraste do tamanho das mãos dele e dela. Ela levou-o para baixo na praia, à beira da água, onde ela acenou para Alyss, cerca de cem metros à deriva no mar. A garota alta acenou de volta.
— Você está bem?  A voz de Alyss atravessou fracamente as águas perturbadas.
Evanlyn não conseguiu resistir a um sorriso.
— Não. Rasgou-me membro a membro! É claro que eu estou bem! Venha para terra!
Quando Alyss começou a remar, Evanlyn voltou-se para Kona.
— Alyss está chegando. Alyss, Kona, amigos.
— A-ryss, Kona, Am-gos  repetiu ele.
Mas seu tom de voz indicou que ele julgaria por si mesmo. Alyss afinal, não tinha compartilhado nenhum damasco cristalizado com ele.
Quando ela chegou, suas dúvidas foram rapidamente dissipadas pelo charme e a graça natural de Alyss, bem como a maneira fácil de lidar com estranhos. Em resposta ao seu convite, ele estudou o caiaque com interesse. Os Hasanu tinham seus barcos, mas eram pesados e desajeitados em comparação com o estreito e gracioso caiaque. Ele demonstrou especial interesse na construção dos remos. Seu povo utilizava apenas ramos espessos para impulsionar seus barcos. A ideia de uma lâmina em forma achatada nunca lhes ocorreu. Kona guardou o projeto em sua cabeça para futura referência.
Sua inspeção do barco terminou, ele voltou seus olhos para os outros equipamentos. A tenda despertou seu interesse. Como o caiaque, era mais avançado no design do que os simples abrigos que os Hasanu construíam para si quando estavam viajando. Ele estudou as outras coisas e sua curiosidade foi despertada quando viu os dois sabres deitadas em suas bainhas.
— Katana?  Disse ele, depois apontou para as espadas das duas meninas.
O significado era inconfundível. São seus? Alyss assentiu.
— Nosso.
Ele mostrou alguma surpresa. Aparentemente, não era comum mulher Hasanu portarem armas. Eles acenderam o fogo e Evanlyn ferveu a água para o chá. Ela e Alyss dividiram um copo, deixando o segundo para Kona usar. O recipiente pequeno se escondia entre suas mãos enormes, cobertas de pelo.
Em uma inspeção mais minuciosa, descobriram que os Hasanu, tomando Kona como base, tinham um monte de pelos no corpo – embora longe de serem tão grandes e volumosos como a lenda contava. Eles esperaram até Kona terminar seu chá e ofereceram um coelho defumado a ele. Ele ficou impressionado com a comida, estalando os lábios várias vezes. Em seguida, elas abordaram o tema da sua visita a esta província.
Por sugestão de Alyss, Evanlyn assumiu a conversa. Afinal, ela tinha sido a primeira a ganhar a confiança de Kona.
— Kona? — chamou.
Quando ele olhou para ela com expectativa, ela gesticulou entre os três.
— Alyss, Evanlyn, Kona... amigos. Hai?
— Hai!  Ele concordou de imediato.
Ela assentiu com a cabeça várias vezes e continuou.
— Alyss, Evanlyn, Nimatsu-san...
Ela parou naquele ponto, vendo o interesse dele pelo nome citado, e um olhar de compreensão apareceu no rosto dele. Então, ela repetiu:
— Alyss, Evanlyn, Nimatsu-san... amigos. Amigos.
— Não pressione  Alyss disse suavemente. — Afinal, ele não conhece Nimatsu.
— Veremos  Evanlyn disse com uma voz decidida ao seu lado. — Agora cale a boca. Alyss, Evanlyn, Nimatsu-san. Todos amigos.
Kona ficou um pouco surpreso. Ele apontou para as duas.
— Am-gos... Nimatsu-san?
— Hai!  Evanlyn disse ele.
— Hai!  Alyss ecoou.
Kona ficou satisfeito, parecendo impressionado.
— Você... nos leva... a Nimatsu-san?  Evanlyn reforçou o significado com gestos.
Kona pareceu entender.
— E-van-in, Ah-yass, Nimatsu ikimas-san?
— Ikimas é “ir”  Alyss traduziu para Evanlyn em um tom baixo.
Evanlyn sentiu uma pequena onda de triunfo.
— Hai!  Disse ela. — Evanlyn, Alyss, Kona... ikimas Nimatsu-san.
— O verbo deve vir por último  Alyss murmurou.
Evanlyn fez um gesto de desprezo.
— Quem se importa? Ele entendeu.
Kona considerou o pedido por algum tempo, inclinando-se para frente pensativo. Em seguida, ele pareceu chegar a uma decisão.
— Hai!  falou enfaticamente. — Nimatsu-san ikimas.
Ele se levantou bruscamente e andou ao longo da praia a passos largos para a linha das árvores. Ele parou subitamente, olhando para as duas meninas que tinham sido apanhadas de surpresa pelo seu súbito gesto. Ele estendeu a mão para elas, os dedos para baixo, e fez um movimento enxotando-as.
— Ikimashou!  Disse.
Evanlyn, já se levantando, parou indecisa.
— O que ele está fazendo? Ele está acenando para nós. Ele não concordou em nos levar?
Mas Alyss tinha visto aquele gesto várias vezes antes, no acampamento Kikori.
— É como os nihon-jins acenam para você também  disse ela. — Ikimashou significa “vamos lá”.
— Então o que estamos esperando?  Evanlyn perguntou, correndo para agarrar a sua mochila e a espada. — Vamos ikimashou agora mesmo.
Alyss estava fazendo a mesma coisa.
— Você não precisa dizer “vamos ikimashou. A palavra “vamos” já está inclusa no verbo.
— Grande coisa — Evanlyn respondeu.
Ela estava se sentindo muito satisfeita consigo. Afinal Alyss era a tradutora. Mas Evanlyn tinha conseguido se comunicar com o enorme Hasanu.
— Você vem ou não?
Jogou a mochila por cima do ombro, enquanto marchava rapidamente ao longo da praia em direção a Kona.

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