30 de janeiro de 2017

Capítulo 41

Elide tinha se apertado em um compartimento escondido no maior dos vagões e rezou para que ninguém a descobrisse. Ou começasse a queimar coisas. Sua respiração frenética era o único som. O ar ficou apertado e quente, as pernas tremiam e tinham câimbras por ficar enrolada em uma bola, mas ainda assim ela esperou, ainda assim ela se manteve escondida.
Lorcan tinha acabado... ele tinha acabado de correr para a briga. Ela fugiu da tenda a tempo de ver quatro ilken – ilken alados – descerem sobre o acampamento. Ela não permanecera tempo suficiente para ver o que aconteceu depois.
O tempo passou – minutos ou talvez horas, ela não poderia dizer.
Era culpa dela. Ela levou aquelas coisas para lá, para aquelas pessoas, para a caravana...
Os gritos se tornaram mais altos, em seguida, desapareceram. Então, nada.
Lorcan poderia estar morto. Todo mundo poderia estar morto.
Seus ouvidos tensos, ela tentou acalmar sua respiração para ouvir os sons da vida, de ação além de seu pequeno esconderijo quente. Sem dúvida geralmente reservado para o contrabando ilícito – não de todo destinado a seres humanos.
Ela não podia ficar escondida por muito tempo. Se os ilken tivessem abatido todos eles, eles procurariam por qualquer sobrevivente. Provavelmente podiam sentir o cheiro dela.
Ela teria que correr deles. Tinha que sair, ver o que podia, e correr para os campos escuros e rezar para que outros estivessem lá fora. Seus pés e panturrilhas tinham ficado dormentes minutos antes e agora formigavam incessantemente. Ela poderia muito bem até não ser capaz de andar, e sua estúpida perna inútil...
Ela escutou de novo, rezando para Anneith desviar a atenção dos ilken para outros lugares.
Só o silêncio a cumprimentou. Sem mais gritos.
Agora. Ela deveria ir agora, enquanto tinha a cobertura da escuridão.
Elide não daria ao medo outra chance para sussurrar veneno em seu sangue. Ela tinha sobrevivido a Morath, sobreviveu a semanas sozinha. Ela tinha que fazer isso, tinha que fazê-lo, não se importaria com nada, de ser a droga da ajudante de cozinha da rainha, se isso significasse que ela poderia viver...
Elide se desencurvou, os ombros doloridos enquanto ela silenciosamente liberava o alçapão acima, o pequeno tapete que cobria a área deslizando para trás. Ela examinou o interior do vagão – os bancos vazios de ambos os lados – em seguida, estudou a noite acenando além. Luz vinha do campo atrás dela, mas à frente... um mar de escuridão. O campo estava a talvez dez metros de distância.
Elide estremeceu quando a madeira gemeu enquanto ela erguia o alçapão alto o suficiente para ela deslizar, de barriga para baixo, sobre o assoalho. Mas seu manto enganchou-se em alguma coisa, fazendo-a parar. Elide cerrou os dentes, puxando cegamente. Mas fora capturada dentro do espaço apertado. Anneith a salvasse...
— Diga-me — demorou-se uma voz masculina profunda atrás dela, de perto do banco do condutor. — O que você teria feito se eu fosse um soldado ilken?
Alívio preencheu seus ossos trêmulos, e Elide segurou seu soluço. Ela girou para encontrar Lorcan coberto de sangue negro, sentado no banco atrás do lugar do condutor, as pernas esticadas. O machado e a espada descartados ao lado, revestidos com o mesmo sangue preto, e Lorcan, de braços cruzados, mastigava uma haste longa do trigo enquanto olhava para a parede de lona do vagão.
— A primeira coisa que eu teria feito em seu lugar — Lorcan refletiu, ainda sem olhar para ela — teria sido para abandonar esse manto. Você cairia de cara no chão se corresse, e o vermelho seria tão bom quanto o anúncio do jantar.
Ela puxou o manto novamente, e o tecido rasgou. Carrancuda, ela bateu de leve onde ele se prendera e encontrou os painéis de madeiras um pouco frouxos.
— A segunda coisa que eu teria feito — Lorcan continuou, sem se preocupar em limpar o sangue respingado em seu rosto — seria me dizer a verdade, droga. Você sabia que aquelas bestas Ilken, gostam de falar como incentivo, certo? E eles me disseram algumas coisas muito, muito interessantes. — Aqueles olhos escuros, finalmente deslizaram para ela, totalmente perversos. — Mas você não me contou a verdade, não é, Elide?



Seus olhos estavam arregalados, a cor do rosto sugada abaixo dos cosméticos. Ela tinha perdido o turbante em algum momento, e seu cabelo escuro deslizava livre em alguns de seus grampos, enquanto ela subia a partir do compartimento escondido. Lorcan observava cada movimento, avaliando, pesando e debatendo o que, exatamente, fazer com ela.
Mentirosa. Mentirosa astuta.
Elide Lochan, legítima Senhora de Perranth, se arrastou para fora, batendo o alçapão fechado e olhando para ele de onde se ajoelhava no chão. Ele olhou de volta.
— Por que eu deveria ter confiado em você — ela falou com frieza impressionante — quando você estava me perseguindo há dias na floresta? Por que eu deveria ter lhe contado qualquer coisa sobre mim quando você poderia ter me vendido pela melhor oferta?
Seu corpo doía, sua cabeça latejava pela matança da qual ele mal conseguira sobreviver. Os ilken tinham caído – mas não voluntariamente. E o que ele mantivera vivo, Nik e Ombriel havia implorado para ele matar logo – a besta lhe dissera muito pouco, na verdade.
Mas Lorcan tinha decidido que sua esposa não precisava saber disso. Decidiu que era hora de ver o que ela poderia revelar se ele deixasse algumas próprias mentiras enganá-la.
Elide olhou para suas armas, para o sangue fedorento cobrindo-o como petróleo.
— Você matou todos eles?
Ele abaixou a haste do trigo de sua boca.
— Você acha que eu estaria aqui sentado se não tivesse?
Elide Lochan não era uma mera humana tentando voltar à sua terra natal para servir sua rainha. Ela era uma senhora de sangue real que queria voltar para aquela cadela cuspidora de fogo no norte e oferecer qualquer ajuda que pudesse. Ela e Aelin eram bem adequadas uma para outra, ele decidiu. A mentirosa de rosto doce e a insuportável princesa arrogante.
Elide caiu sobre o banco, massageando seus pés e panturrilhas.
— Estou arriscando meu pescoço por você — ele falou muito calmamente — e mesmo assim decidiu não me contar que seu tio não é apenas um mero comandante em Morath, mas a mão direita de Erawan... e você é o seu bem mais valioso.
— Eu lhe disse o suficiente da verdade. Quem eu sou não faz diferença. E eu não sou posse de ninguém.
O temperamento dela puxou a coleira que ele tivera todo o cuidado de manter sob controle antes de seguir o cheiro dela até este vagão. Lá fora, os outros faziam apressadamente as malas, preparando-se para fugir para a noite antes que os moradores decidissem culpá-los pelo desastre.
— Para ela faz diferença quem você é. Com sua rainha agindo, seu tio sabe que ela pagaria um preço alto para ter você de volta. Você não é um mero recurso de reprodução, é uma ferramenta de negociação. Você pode muito bem ser o que vai colocar aquela cadela de joelhos.
Raiva brilhou em seu rosto de ossos finos.
— Você guarda uma abundância de segredos, também, Lorcan. — Ela cuspiu o nome como uma maldição. — E eu ainda não fui capaz de decidir se acho ofensivo ou divertido você achar que sou burra demais para perceber. Que tenha pensado que eu era uma garota confusa e com medo, grata pela presença de tal guerreiro forte, chocada até mesmo para perguntar por que você estava lá ou o que queria ou o qual sua participação em tudo isso. Eu lhe dei exatamente o que você queria ver: uma mulher jovem perdida e precisando de ajuda, talvez um pouco hábil em mentiras e enganos, mas que no final não valeria mais do que a consideração de alguns segundos. E você, com toda a sua arrogância imortal, não pensou duas vezes. Por que fazer isso quando os seres humanos são tão inúteis? Por que deveria até mesmo se preocupar, quando planejava me abandonar no momento em que tivesse o que precisava?
Lorcan piscou, apoiando os pés no chão. Ela não recuou um centímetro.
Ele não conseguia se lembrar da última vez que alguém falara com ele dessa forma.
— Você deveria ter cuidado com o que diz para mim.
Elide lhe deu um pequeno sorriso detestável.
— Ou o quê? Vai me vender para Morath? Usar-me como o seu passe?
— Eu não tinha pensado em fazer isso, mas agradeço pela ideia.
Sua garganta tremeu, o único sinal de seu medo. E ela falou de forma clara e sem um pingo de hesitação.
— Se você tentar me levar para Morath, darei fim à minha própria vida antes de me carregar sobre a ponte da Fortaleza.
Foi a ameaça, a promessa que assinalava a própria raiva, a raiva absoluta que... que ela havia de fato jogado com suas expectativas, sua arrogância e preconceitos. Ele disse cuidadosamente:
— O que você carrega que os faz caçá-la de forma tão implacável? Não é o seu sangue real, nem a sua magia e o seu uso para a reprodução. O objeto que você leva... o que é?
Talvez fosse uma noite para a verdade, talvez a morte tivesse pairado perto o suficiente para torná-la um pouco imprudente, porém Elide apenas respondeu:
— É um presente... para Celaena Sardothien. De uma mulher mantida presa em Morath, que havia esperado muito tempo para retribuir por uma oferta caridosa no passado. Mais do que isso, eu não sei.
Um presente para a assassina... e não para a rainha. Talvez nada digno de nota, mas...
— Deixe-me vê-lo.
— Não.
Eles se encararam mutuamente novamente. E Lorcan sabia que, se quisesse, ele poderia esperar até que ela estivesse dormindo, pegá-lo por si mesmo, e desaparecer. Ver o que a tornava tão protetora.
Mas ele sabia... uma pequena parte, estúpida, dele sabia que, se ele roubasse dessa mulher que já tivera tanto arrancado dela... ele não sabia se haveria volta depois disso. Ele fizera tantas coisas viciosas e desprezíveis ao longo dos séculos e não pensara duas vezes. Divertira-se com isso, apreciara a crueldade.
Mas isso... havia uma linha. De alguma forma... de alguma forma havia um maldito limite ali.
Ela pareceu captar sua decisão – com o dom que tinha. Seus ombros caíram, e ela olhou fixamente para a parede de lona enquanto os sons do grupo deles agora se aproximavam, os pedidos para apressar e embalar, deixar o que poderia ser poupado.
— Marion era o nome da minha mãe — Elide revelou calmamente. — Ela morreu defendendo Aelin Galathynius de seu assassino. Minha mãe ganhou tempo para Aelin correr, para ficar longe para que ela pudesse voltar um dia e salvar a todos nós. Meu tio, Vernon, assistiu e sorriu quando o meu pai, o Senhor de Perranth, foi executado na frente do nosso castelo. Então, ele tomou o título, as terras e o lar de meu pai. E nos dez anos seguintes, meu tio me trancou na torre mais alta do Castelo Perranth, com apenas minha babá como companhia. Quando quebrei o pé e o tornozelo, ele não confiava em curandeiros o suficiente para deixá-los tratar. Colocou grades nas janelas da torre para me impedir de me matar, e algemou meus tornozelos para me impedir de correr. Saí pela primeira vez em uma década quando ele me empurrou em um vagão de prisão e me arrastou para Morath. Lá, ele me fez trabalhar como uma serva. Para a humilhação e o terror de que se deleitava. Eu planejava e sonhava em fugir todos os dias. E quando chegou a hora... aproveitei a oportunidade. Eu não sabia sobre os ilken, havia apenas rumores de coisas sendo criadas nas montanhas além da Fortaleza. Eu não tenho terras, nem dinheiro, nem exército para oferecer a Aelin Galathynius. Mas eu vou encontrá-la, e vou ajudá-la de qualquer maneira que eu puder. Se apenas para impedir que uma garota, apenas uma, suporte o que eu passei.
Ele deixou a verdade em suas palavras afundar. Deixar que elas se ajustassem ao que pensava dela. Aos seus... planos.
Lorcan disse roucamente:
— Eu tenho mais de 500 anos de idade. Sou feérico jurado de sangue da rainha Maeve, e seu segundo em comando. Fiz coisas grandes e terríveis em seu nome, e farei mais antes da morte vir me reclamar. Nasci como um bastardo nas ruas de Doranelle, corria mais que as outras crianças descartadas até que percebi que meus talentos eram diferentes. Maeve notou também. Eu posso matar mais rápido, posso sentir quando a morte está próxima. Acho que a minha magia é a morte, que me foi dada pelo próprio Hellas. Estou nestas terras em nome de minha rainha, embora tenha vindo sem a permissão dela. Ela poderia muito bem me caçar e matar-me por isso. Se as sentinelas dela chegarem procurando por mim, é do seu melhor interesse fingir que não sabe quem e o que eu sou. — Havia mais, mas... Elide tinha segredos restantes também. Eles haviam oferecido um ao outro o suficiente por agora.
Sem medo tingindo o cheiro dela – nem mesmo um traço dele. Tudo o Elide disse foi:
— Você tem família?
— Não.
— Você tem amigos?
— Não. — Seu esquadrão de guerreiros não contava. O maldito Whitethorn não pareceu se importar quando os abandonou para servir Aelin Galathynius, Fenrys não fazia segredo que odiava o vínculo, Vaughan mal ficava por perto, ele não poderia suportar a contenção inquebrável de Gavriel e Connall estava ocupado demais com Maeve como um animal no cio a maior parte do tempo.
Elide inclinou a cabeça, seu cabelo deslizando sobre o rosto. Ele quase levantou a mão para afastá-los e ler seus olhos escuros. Mas suas mãos estavam cobertas de sangue sujo. E ele tinha a sensação de que Elide Lochan não queria ser tocada, a menos que pedisse para ser.
— Então — ela murmurou — você e eu somos iguais a este respeito, pelo menos.
Sem família, sem amigos. Ele não parecia tão patético até que ela disse aquilo, até que de repente viu-se através dos olhos dela.
Mas Elide deu de ombros, levantando-se quando a voz de Molly gritou por perto.
— Você deveria se limpar... parece como um guerreiro novamente.
Ele não tinha certeza se ela quis dizer aquilo como um elogio.
— Nik e Ombriel, infelizmente, perceberam que você e eu talvez não sejamos o que parecemos.
Alarme brilhou em seus olhos.
— Devemos partir...
— Não. Eles vão guardar nosso segredo. — Se só porque eles tinham visto Lorcan vencer sobre aqueles ilken, e sabiam exatamente o que ele poderia fazer com eles, se eles até mesmo respirassem na direção errada. — Nós podemos ficar por algum tempo ainda... até ficarmos livres disso.
Elide assentiu, seu coxear profundo enquanto se dirigia para a parte de trás da carroça. Ela se sentou na borda antes de sair, seu tornozelo destruído fraco e dolorido demais para pular. No entanto, ela se moveu com calma dignidade, soltando o ar entre os dentes quando seu pé fez contato com o solo.
Lorcan observou-a coxear para a noite sem olhar para trás.
E ele se perguntou o que diabos estava fazendo.

8 comentários:

  1. Naooo... ElideXLorcan não!!!! ManonXElide pleaaaase...

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    1. Não creio alguém que pensa como eu! Esse shipp e mais apagado do que a humildade da Aelin.

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  2. Casais estranhos estão se formando...


    Cuidado Maeve, tá perdendo todos os seus homens kkkkkk

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    1. Néee! Kkkkk os juramentados pelo sangue estão debandando!

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  3. Quer saber o que você ta fazendo? Eu te conto: VC TA SE APAIXONANDO!!! (por incrível que pareca)

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  4. Dr d casal *-* VC TA SE APAIXONANDO PELA LINDA MOÇA D CABELOS NEGROS, É O AMOOOOOOORRRR, SE COMAM LOGO PLEASE -qqqq
    #Elican

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  5. Ele não tinha direito de exigir nada dela, nem mesmo dizer que Celaena e Aelin são as mesmas ele disse

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  6. Eu nem gosto da Elide.. mas pelo Lorcan, espero que ela fique bem

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Boa leitura :)