26 de janeiro de 2017

Capítulo 40

Evanlyn olhava para os lados do barco enquanto seguiam em direção à costa. A água estava limpa e pura e parecia ter menos de 30 centímetros de profundidade. Mas aprendera nos últimos cinco dias quão traiçoeira a água era. No terceiro dia, achando que a água era rasa, saíra do barco e ficou flutuando com água até a cintura. Somente com um enorme esforço ela não caiu e submergiu completamente.
Suas roupas haviam secado em frente ao fogo que haviam feito. Desde o encontro com os lobos, havia se tornado um procedimento padrão manter o fogo aceso a noite inteira e manter alguém acordado sempre em vigília. Significava que cada uma teria menos tempo de sono, mas quando dormissem, seria mais tranquilamente, sabendo que a outra estaria acordada vigiando e mantendo o fogo durante a noite.
Se fosse por causa do fogo ou não, não tiveram outros incômodos desde a segunda noite. Claro, Evanlyn pensou, talvez não houvesse lobos nas demais ilhas.
Agora, testava a profundidade com o remo, satisfeita ao ver que a água não passava dos joelhos. Jogou as pernas sobre a lateral do barco e levantou-se rapidamente, guiando a proa do caiaque em direção à praia. Aprenderam a atracar o barco sem ninguém nele. Na terceira noite, deixando o barco encostar-se à areia e pedras do fundo, abriram um buraco na pele.
Alyss assistiu enquanto Evanlyn costurava um pedaço de proteção sobre a parte danificada para evitar que entrasse água, cobrindo a costura com cera para vedar.
— Muito elegante  ela disse, aprovando.
Evanlyn sorriu e balançou a agulha.
— Corte e costura é uma das habilidades consideradas dignas de uma princesa — ela respondeu com um leve toque de sarcasmo na voz. — Nunca achei que fosse ser útil.
Os olhos de Alyss a fitavam enquanto ela testava a profundidade da água e saía do barco. Alyss estava desenvolvendo uma relutante admiração pela habilidade da princesa de aprender e se adaptar. Alyss havia sido dura com ela enquanto a princesa aprendia as técnicas de se navegar com um barco pequeno. Um pouco disso era pela antipatia que sentia em relação à Evanlyn, mas principalmente por uma opção prática.
Alyss sabia, por conversas com Will e lady Pauline, e por suas próprias observações, que Evanlyn, corajosa e esperta como era, tinha um lado petulante. Inevitável, talvez, em alguém criada como princesa, em um ambiente onde existem pessoas sempre dispostas a realizar todo e qualquer desejo seu. Mas nessa viagem, não existiriam serviçais ou passageiros.
Alyss sentira que se ela tivesse mostrado simpatia pelos músculos doloridos de Evanlyn, ou deixado passar as ridículas tentativas de remar que ela fez, Evanlyn poderia se sentir inclinada a se aproveitar da bondade de Alyss. Ao invés disso, o sarcástico “Obrigado por isso” que Alyss repetia sempre que Evanlyn cometia um erro, a impelia a fazer melhor, tentar mais, mostrar pra sua alta e autossuficiente colega de viagem que, princesa ou não, ela podia fazer o trabalho que haviam dado a ela da melhor forma possível.
Com esses pensamentos em mente, Alyss quase perdeu o tempo para sair do barco. Sabendo que isso resultaria em um comentário sarcástico de Evanlyn, pois sabia que tudo que ela queria era uma desculpa para responder, ela jogou as pernas sobre a lateral e ajudou a princesa a levantar o barco e levá-lo até a praia, para fora da água.
Largaram o barco e se alongaram para soltar os músculos enrijecidos. Alyss deu alguns passos, olhando ao redor da pequena praia, e as árvores crescendo mais além.
— Então é isso  disse.
Finalmente haviam chegado ao outro lado do enorme lago. Essa era a província onde lorde Nimatsu governava os misteriosos Hasanu.
Havia neve no chão, mas não nas quantidades que haviam visto em Ran-Koshi. A altitude era menor, e a área era protegida das tempestades que vinham do mar e jogavam neve e chuvas nas montanhas atrás deles.
Aqui, em uma área protegida pelas mesmas montanhas, o vento era mais gentil, mais temperado. E suspirava suavemente pelos galhos das árvores que havia ao redor.
— Não parece ter ninguém por perto  Evanlyn comentou.
— Não significa que não tem ninguém aqui, é claro.
— É claro.
Um nó de apreensão se formou no estômago de Evanlyn enquanto ela ficava parada nesse quieto e aparentemente deserto local.
Haviam interrogado Shigeru e seus conselheiros sobre os Hasanu, mas, na verdade, não aprenderam muita coisa. Alguns atestavam que os Hasanu eram sobreviventes de uma raça de meio macacos que sobreviveram nesse território remoto. Outras teorias, mais assustadoras, diziam que os Hasanu eram espíritos das árvores e florestas e o recluso lorde Nimatsu era um feiticeiro que os dominava.
Outros “fatos” que haviam ouvido se contradiziam.
Alguns diziam que os Hasanu eram tímidos e nervosos ao falar com estranhos, outros que eram ferozes e implacáveis matadores. Lendas antigas davam crédito à última opção. Diversas estórias falavam sobre sua ferocidade em batalha. Diziam que eles nunca foram derrotados.
Esses contos, claro, eram de centenas de anos atrás, e ninguém podia afirmar ter visto um Hasanu, ou conhecer alguém que viu. Apesar de haver os que dizem conhecer alguém que conheceu um pessoa que afirmou conhecer alguém que viu um.
Ao final de uma longa e confusa reunião, Shigeru mandou seus assessores embora e sentou-se com as duas garotas para lhes dar uma opinião mais concreta sobre essas estranhas pessoas.
— Muito é dito sobre os Hasanu  ele disse-lhes. — E muito do que é dito é exagero. Isso é o que eu sei, sem rumores, conjecturas ou histeria.
— É dito que eles são uma raça alta e poderosa e relatórios do passado dizem que eles são cobertos com pelos longos e vermelhos por todo o corpo. Isso pode ser verdade. Vivem em um clima frio e seus corpos podem ter se adaptado dessa maneira ao longo dos anos. Mas o que eu sei e o que mais importa, e algo todas as lendas e contos concordam, é que eles são destemidos nas batalhas e tem um intenso senso de lealdade ao seu senhor.
“No momento, esse senhor é Nimatsu. Essas qualidades indicam lados positivos de suas personalidades, transformando em mentiras as insanas histórias sobre sua sede de sangue com estrangeiros. Leais e destemidos, para mim, não equivalem a selvagens e sedentos por sangue. Senhor Nimatsu, mais de uma vez, tem confirmado sua lealdade a mim. Isso, eu creio, será a chave para nossas negociações com os Hasanu. Eles são leais a Nimatsu, e, por extensão, são leais a mim – ou pelo menos ao conceito de um imperador. Quando chegarem à província de Nimatsu, seja paciente. Espere que eles façam contato. Eles farão, e farão sob ordens de Nimatsu. Quando ele souber que estão agindo em meu nome, estarão seguras.
Shigeru tirou seu anel de sinete e entregou a Evanlyn.
— Levem isso com vocês. Quando Nimatsu ver isso, saberá que eu as enviei. Isso garantirá sua segurança. Quando fizerem contato com ele, acredito na sua eloquência, Ev-an-in-san, para convencê-lo a nos ajudar. Mandarei uma carta com vocês, claro. Mas na minha experiência, é a palavra dita e a integridade do mensageiro que tem mais poder nesses assuntos.
Evanlyn pegou o anel e colocou em seu dedo indicador.
— Gostaria de poder aconselhá-las melhor nesse assunto  Shigeru disse, suspirando. — Mas o sucesso ou fracasso dessa missão dependerá exclusivamente das suas habilidades e recursos.
Sorriu para as duas e adicionou:
— E não consigo imaginar mensageiros mais merecedores ou capazes.
— Então  Alyss disse, olhando ao redor para as árvores. — Como nós achamos os Hasanu?
— Não se preocupe com isso. Lembre-se do que Shigeru disse. Os Hasanu nos acharão.
As garotas tiraram suas coisas do caiaque e montaram acampamento. Alyss montou a barraca enquanto Evanlyn juntava pedras para uma fogueira e depois lenha. Estava usando uma faca de caça – presente de Halt há alguns anos – para cortar um grande tronco caído em partes para carregar quando teve a sensação de estar sendo observada.
Em algum lugar nas sombras das árvores, alguém, ou alguma coisa, estava observando. Tinha certeza disso.
Parou um momento o que estava fazendo, depois continuou, resistindo à quase impossível vontade de virar e olhar para as árvores. Olhou para Alyss para ver se ela havia percebido alguma coisa. Aparentemente não. A garota estava apertando as cordas da barraca, testando a resistência delas para ver se estava bem armada.
Evanlyn juntou a madeira casualmente e andou até o círculo de pedras que havia feito para a fogueira.
— Estamos sendo observadas  falou baixinho.
Alyss parou por um momento, depois testou a corda uma última vez, limpou as mãos, satisfeita, e foi ajudar Evanlyn a separar a madeira para a fogueira.
— Você viu alguém?
— Não. Foi mais uma sensação do que qualquer outra coisa. Mas tenho certeza que tem alguém nas árvores.
Ela meio que esperava uma resposta dela. Mas Alyss nunca foi de negar o valor de um instinto.
— Então continuamos a fazer o que estamos fazendo  Alyss disse. — Vamos fazer um chá. E continuar agindo normalmente.
Mesmo assim, Evanlyn percebeu, ela olhou rapidamente na direção em que sua espada estava, no topo de sua mochila na entrada da barraca.
Alguns minutos depois, sentaram-se em frente à fogueira, uma de frente para a outra, tomando chá. Alyss de frente para o lago, deixando Evanlyn para olhar as árvores. Evanlyn havia sentido a presença do estranho, então, seria melhor que ela olhasse as árvores, pois teria uma maior chance de perceber quem quer que seja. Ou o que quer que seja.
Enquanto tomava o chá, seus olhos moviam-se de um lado para o outro por cima da xícara. Sua cabeça nunca se movia. A alguns metros de distância, era impossível perceber que estava procurando alguma coisa. Deu um suspiro satisfeito e largou a xícara no chão.
— Alguma coisa se moveu  disse.
Um movimento muito sutil chamou sua atenção. Fez tudo o que pôde para não encarar a direção de onde veio o movimento, e conseguiu com um esforço enorme.
— Consegue vê-lo agora?  Alyss perguntou, mantendo o tom casual de conversa.
— Não. Ele se deitou no chão. Espere. Lá vai ele de novo. Não consigo perceber os detalhes. São apenas movimentos embaixo das árvores. O que quer que seja, está se movendo para perto da linha das árvores.
Elas esperaram, nervosas. Mas não houve mais sinais de movimentação. Alyss deu de ombros.
— Ou não está se movendo, apenas nos observando. Bem, não podemos ficar sentadas a tarde inteira. Alguma ideia?
Evanlyn se levantou, cuidando para não fazer movimentos súbitos, e foi em direção à sua mochila. Revirando a mochila, encontrou o que procurava – um dos poucos pacotes de comida que os lobos não pegaram quando atacaram o acampamento dias atrás. Era um pequeno pedaço de papel engordurado, contendo algumas frutas cristalizadas – maçãs e damascos. Eram um doce muito apreciado pelos Kikori e Evanlyn aprendera a gostar também. Havia em torno de uma dúzia ainda. Esperava que fosse o suficiente.
Voltou para onde Alyss estava a observando curiosamente.
— Tenho uma ideia  ela disse. — Nosso amigo invisível pode ficar mais a vontade para se mostrar se não houvesse duas de nós.
Viu que Alyss ia se opor à ideia e levantou uma mão para impedir.
— Não, me escute. Estou sugerindo que você pegue o caiaque e vá uns 100 metros pra longe da costa e espere lá. Vou sentar ali, perto das árvores, e ver se os Hasanu fazem contato.
Evanlyn mostrou o pacote de doces.
— Vou usar isso para começar a conversa.
Alyss franziu a testa pensativa.
— Uma das coisas que as pessoas concordaram  ela disse — é que os Hasanu gostam de doces.
— E esses se encaixam na descrição. Veja bem, se você sair, apesar de estar perto, e eu sentar mais próxima de onde eles estão, é um sinal bem simples não? Queremos fazer contato. Existe uma boa chance de nosso amigo nas árvores querer sair.
— Existe também a chance de ele se sentir encorajado a te desmembrar parte por parte — Alyss retrucou, e Evanlyn concordou desconfortável.
— Essa é a parte do meu plano que eu não gosto muito. Mas acho que temos que correr o risco e apressar um pouco as coisas. De outra maneira, poderemos ficar sentadas aqui por dias. E convenhamos, se eles quiserem nos desmembrar parte por parte, a sua presença aqui não faria muito para impedi-los.
— Bem, obrigada pelo voto de confiança  Alyss respondeu. — Só uma coisa — adicionou. — Considere minha posição um instante. Seria um bocado estranho eu retornar para Araluen e falar ao seu pai que eu assisti um monstro de Nihon-Ja te despedaçar membro por membro. Não vai ser bom para minha carreira.
Percebendo um novo tom de camaradagem, Evanlyn deu um sorriso.
— Afinal de contas, sua carreira é extremamente importante para todos nós  ela disse. — Manterei isso em mente. Agora anda logo!
Alyss se levantou, pegou sua espada, um cantil de água e uns pedaços de coelho defumado que Evanlyn matara no dia anterior usando sua atiradeira e foi em direção ao barco.
Evanlyn a seguiu. Tiraram o remo de Evanlyn do barco – Alyss não o usaria – e colocou na água, levantando o caiaque e o levando junto. Assim que ele flutuou na água, Alyss entrou no caiaque e remou suavemente, fazendo o barco deslizar pela calma água. Olhou por sobre os ombros em direção a Evanlyn.
— Tome cuidado.
— Claro  Evanlyn respondeu, abanando a mão.
Andando pela beira da praia, achou um tronco de árvore caído perto da linha das árvores que serviria como ótimo local para sentar e esperar. Sentou-se, tirou o pacote de doces do bolso e colocou meia dúzia de doces no tronco ao seu lado.
Pegou um pedaço e pôs na boca, sentindo sua saliva aumentar enquanto a mistura de azedo com doce surtia efeito. Deu um suspiro exagerado de satisfação, fazendo barulho com a boca diversas vezes para indicar o quanto ela estava gostando do doce.
E esperou.
Pareceu uma eternidade, quando na verdade foram apenas dois ou três minutos, mas seus sentidos aguçados captaram um breve som – um movimento nas árvores às suas costas e à esquerda. Com os sentidos tão aguçados, se esforçou para ouvir mais.
Seria mais um movimento? Parecera mais perto que o primeiro. Ou seria o vento? Olhou para sua direita, examinando as árvores concentradamente. Não estavam se movendo. Não, não havia vento.
Lá estava o som de movimento de novo! Os pelos em sua nuca se arrepiaram e ela podia sentir arrepios se formando nos seus braços. Alguma coisa estava ali. Alguma coisa estava atrás dela, se movendo para mais perto.
Todos os nervos do corpo pediam para que ela se levantar e ver quem era. Todos seus nervos gritavam para que ela virasse e visse o que era. Essa espera, sabendo que alguma coisa está ali... não, achando que alguma pessoa está ali... era quase intolerável. Mas de alguma maneira, ela conseguiu. Engoliu o pedaço de fruta, forçando-a a passar pela sua garganta, subitamente seca.
— Mmmm  fez o som, apreciando. — Muito bom.
Ela colocou outra na boca, fez uma exclamação apreciando, e então, como quem não quer nada, pegou outra fruta e a colocou meio metro mais longe, depois gesticulou na direção da fruta.
— É para você  ela disse, depois repetiu um pouco mais baixinho. — Para você.
Definitivamente havia alguma coisa atrás dela. Não tinha duvidas disso. Algo grande estava a menos de dois metros de distância. Não sabia como, mas sabia que era grande.
Não escutara nada além do roçar de folhas e galhos. Mas havia uma grande presença ali, como se a força de vida do que quer que estivesse ali tivesse se insinuado nos seus sentidos. Percebeu que estava segurando a respiração. O coração estava batendo muito rápido no seu peito – tão alto que ela tinha certeza que o que quer que estivesse atrás dela podia ouvir.
Evanlyn começou a cantar – uma das músicas calmas que ouvira Will cantar enquanto tocava sua bandola.
— Oh Annalie dançando. Um raio de luz caiu nela enquanto eu assistia Annalie dançando e eu não vi Annalie em algum lugar antes?
A voz dela variava com a tensão. Acertava e errava as notas tentando cantar.
“Eu pareço aterrorizada”, pensou. Mas talvez isso... O que quer que seja... Talvez pense que sou somente uma cantora terrível. Respirou fundo para o próximo verso, mas ele não veio. Do canto do olho, percebeu um movimento.
Uma mão enorme, com grandes unhas, parecidas com garras e coberta por grossos pelos ruivos, passou por sobre seus ombros e pegou um doce no tronco.

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