26 de janeiro de 2017

Capítulo 4

Nihon-Ja

O vento ficara mais forte desde que eles haviam deixado o chalé de verão do imperador no dia anterior. Agora estava sibilando pelo vale enquanto eles cavalgavam cuidadosamente pela trilha estreita que virava para um lado, e vinha uma forte rajada enquanto afunilava-se entre os morros comprimidos que formavam o vale.
As árvores em volta deles pareciam ter adotado uma curvatura permanente, de tão constante que era a força do vento. Horace puxou a sua gola de pele de carneiro um pouco mais alto para as orelhas e aninhou-se agradecido na sua quente profundidade.
Ele olhou rapidamente para cima. O céu era um azul claro brilhante, mas sólidas nuvens cinzentas já se espalhavam com agilidade por ele, mandando tiras de sombra esvoaçando silenciosamente pela paisagem adiante. Ao sul, ele pôde ver uma linha escura de nuvens maciças. Estimou que ela estaria sobre eles no início da tarde e provavelmente traria chuva com ela. Considerou sugerir que eles pudessem levantar acampamento durante o dia antes que a chuva acrescentasse a sua força ao vento. Não havia necessidade de apressar a viagem – o porto de Iwanai estava a uma boa distância a cavalo – e ele não apreciava a ideia de montar barracas no meio de uma forte tempestade. Era melhor levantá-las enquanto o grupo ainda estava seco e acomodarem-se dentro delas durante o clima deteriorante.
A trilha que eles seguiam aplanava e se alargava por cem metros aproximadamente, então Horace impeliu o cavalo ao lado do cavalo do imperador, que estava cavalgando imediatamente na frente dele.
Shigeru, aconchegado profundamente nos seus próprios robes de pele, sentiu a presença ao seu lado e olhou. Ele fez uma careta às nuvens que corriam acima e encolheu os ombros um pouco.
Horace abaixou a gola para falar, sentindo a popntada fria do vento no seu rosto enquanto fazia isso.
Acha que vai nevar? Gritou, levantando a voz contra as constantes batidas do vento.
Shigeru olhou para o céu novamente e sacudiu a cabeça.
Está um pouco cedo no ano. Talvez em uma semana ou duas tenhamos algumas leves quedas. Então, em um mês, a verdadeira neve vai começar. Mas estaremos longe demais daqui nessa hora. Quando sairmos das montanhas, o clima não estará tão severo.
Ele olhou de novo para as agourentas nuvens à frente.
Mas ali há muita chuva continuou alegremente.
Horace abriu um sorriso. Quase nada parecia perturbar Shigeru. Vários governantes teriam gastado a manhã inteira reclamando em voz alta sobre o frio e o desconforto, como se as reclamações deles na verdade servissem para aliviar a situação e como se os seus criados pudessem fazer algo em relação a isso.
Não o imperador. Ele aceitava a situação, sabendo que não poderia fazer nada para alterar o clima. Era o melhor a ser feito para suportá-lo sem fazer da vida mais difícil para aqueles ao seu redor.
Talvez devêssemos levantar acampamento logo sugeriu Horace.
Shigeru estava prestes a responder quando um grito vindo de um de seus batedores chamou a atenção.
Subtraindo alguns servos domésticos – e é claro Horace e George – Shigeru estava viajando com um grupo relativamente pequeno de guarda-costas. Apenas uma dúzia de guerreiros Senshi, sob o comando de Shukin, primo do imperador, havia acompanhado-o até o chalé de verão.
Novamente, Horace pensou, era uma medida padrão do próprio homem. Shigeru tinha poucas razões para recear um ataque. Ele era popular com o povo comum. As pessoas sabiam que ele trabalhava para melhorar a vida delas e o amavam por isso. Antigos imperadores não se importavam com tal consideração e sempre fora necessário para eles se cercarem com grandes grupos de homens armados quando viajavam pelo interior.
Um dos Senshi havia sido postado mais adiante do grupo como um batedor. Outros três estavam agrupados uns dez metros na frente de Horace e do imperador. O resto estava atrás. Naquela trilha estreita, não havia espaço para escoltas pelos flancos, apesar de eles se arrumarem para combate quando o grupo alcançasse o fundo do vale.
O cavaleiro que gritara agora levantou a mão, fazendo o grupo principal parar. Horace ouviu um tinido de cascos e um grito de alerta vindo de trás dele. Olhando para onde o grito viera ele margeou o cavalo a um lado para permitir que Shukin e quatro guardas passarem por ele. O imperador fez o mesmo.
Qual é o problema? Shigeru perguntou a Shukin, enquanto o líder da escolta passava trotando.
Em respeito a Horace, e para evitar a necessidade de tradução, ele falou na língua comum ao invés da língua de Nihon-Ja.
Não sei, primo respondeu Shukin. Kaeko-san viu alguma coisa. Reportarei assim que falar com ele. Por favor, espere aqui.
Ele olhou sobre o ombro para assegurar-se de que os quatro homens da retaguarda tinham se aproximado para uma fileira mais próxima, depois acelerou.
Sem pensar conscientemente, a mão esquerda de Horace deslizou até a sua bainha, virando-a levemente para frente para que, se ocorresse à necessidade dele puxar a espada, ele pudesse fazer aquilo rapidamente. O seu escudo circular ainda estava amarrado nas costas. Ele não precisava mudar aquilo por enquanto. Poderia passá-lo por cima do ombro e colocá-lo em posição em um segundo ou dois se preciso.
O cavalo de Shigeru alterou o peso entre as patas nervosamente quando os guardas passaram cavalgando. O imperador afagou o pescoço dele e falou de modo calmo, e o cavalo ajeitou-se. Então o imperador arrumou-se mais confortável na sela, olhou para Horace e deu de ombros.
Imagino que ouviremos o que está acontecendo em um instante ou dois disse.
Os modos dele indicavam que ele tinha certeza que havia sido um alarme falso, que os seus guardas estavam sendo muito cautelosos. Ele fitou Shukin quando o primo refreou ao lado do guerreiro Senshi que era o batedor. Houve uma breve discussão, depois Shigeru e Horace viram Kaeko apontando para alguma coisa longe no vale, onde a trilha ziguezagueava novamente para acomodar o declive abrupto da lateral do morro.
Shukin trotou de volta para reportar.
Um cavaleiro está vindo. É um dos seus servos domésticos, primo. E ele parece estar com pressa.
Shigeru franziu a testa. Demoraria muito para um dos seus oficiais responder algo naquele tipo de clima.
George margeou o cavalo até Horace. George era um escriba e representante treinado e fizera um estudo abrangente dos modos da língua de Nihon-Ja. Aquela não era a sua primeira viagem pelo país. Por causa do seu conhecimento de questões locais, ele fora mandado naquela viagem com Horace para observar e informar o jovem guerreiro em questões de protocolo e para atualizar um dicionário da língua nihon-jin que ele escrevera há dois anos.
George podia ser um pouco irritado e cheio de si mesmo às vezes, mas tinha um coração essencialmente bom, e fornecia excelentes conselhos a Horace na viagem. Horace ficava feliz por estar com ele.
Por que estamos parando? — perguntou.
Horace apontou um dedo para a trilha.
Tem um cavaleiro. Provavelmente um mensageiro. É melhor esperarmos ele chegar até nós.
Um mensageiro? Quem? O senhor Shigeru está esperando alguma mensagem? Sabemos sobre o que é? As perguntas de George vieram dando cambalhotas antes que Horace tivesse a chance de começar a responder.
Horace sacudiu a cabeça e sorriu para o seu velho colega de infância.
Eu não sei. Eu não sei. E... eu não sei disse.
Ele viu o ombro de George relaxar quando percebeu que as perguntas haviam sido irracionais.
Imagino que vamos descobrir quando ele nos alcançar.
É claro. Bobagem de minha parte falou George.
Ele soava genuinamente aflito após deixar a sua máscara de calma profissional cair do jeito que caiu.
Não deixe isto atrapalhar você falou Horace.
Depois, ele não pôde deixar de imitar um dos gritos muitas vezes repetidos de George.
Afinal, se você não perguntar, nunca vai aprender.
George teve a graça de permitir-se um fino sorriso. Ele nunca gostava de ser o assunto de piadas. Achava que aquilo destruía a sua dignidade.
Sim, sim. Concordo, sir Horace.
A sua leve ênfase ao título de Horace era evidência de que ele achava a observação de Horace desnecessária. Horace deu de ombros para si próprio. Viva com isso, George, ele pensou.
A agitação de cascos galopantes estava mais próxima agora. O cavaleiro alcançara a curva brusca na trilha e estava rumando pelos últimos cem metros aproximadamente na direção deles. Um clamor de Shukin fez os quatro guerreiros à frente do grupo dar espaço para deixar o recém-chegado passar.
Ele reuniu-se com o imperador e Shukin e deu o melhor de si para se inclinar na sela. Aquilo era estranho, pensou Horace. Ele estivera com Shigeru tempo suficiente para saber que a etiqueta certa de um cavaleiro era desmontar e então se ajoelhar. A mensagem, seja lá qual fosse, devia ser urgente.
George também notara a falta de comportamento normal.
Algo está errado disse discretamente.
O mensageiro agora falava rapidamente com Shigeru. Ele mantinha sua voz baixa para os que estavam em volta do imperador não pudessem ouvir. Horace viu o imperador e o primo se retesarem nas selas e se sentarem um pouco mais eretos. O que quer que a mensagem dizia, eles haviam sido pegos de surpresa. E não parecia ser uma das surpresas mais agradáveis.
Shigeru interrompeu o relato do mensageiro com uma rápida palavra e virou-se na sela para fazer sinal que eles viessem a frente.
Rapidamente, Horace e George trotaram os cavalos para se juntarem ao pequeno grupo.
Conte-nos outra vez Shigeru disse. Mas fale na língua comum para que Ora’ss-san possa entender.
Horace assentiu o seu agradecimento a Shigeru. Depois o mensageiro falou outra vez. Apesar de sua pressa em chegar ali, ele falou calma e claramente.
— Senhor Shigeru, Ora’ss-san e George-san, houve uma revolta em Ito. Uma revolta contra o imperador.

Um comentário:

  1. Um erro "Horace abaixou a gola para falar, sentindo a 'popntada' (não seria 'pontada'?) fria do vento no seu rosto enquanto fazia isso."

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Boa leitura :)