26 de janeiro de 2017

Capítulo 3

Os cascos de Abelard trovejavam suavemente sobre a relva. Eles estavam se aproximando do ponto problemático. Agora que estava perto, Halt pôde ver que o ataque Wargal estava sendo liderado por uma das unidades especiais de Morgarath. Todos eles eram bem maiores que o normal e tinham sido selecionados pelo tamanho, força e selvageria. E não estavam preocupados com suas próprias perdas, batiam em quem entrasse no seu caminho. Maças, machados e pesadas espadas de duas mãos subiam e desciam e varriam tudo a sua frente em arcos horizontais. Os homens do exército de Araluen caiam diante deles e a unidade Wargal avançava em uma sólida formação.
Halt estava ainda a quarenta metros de distância e já sabia que chegaria tarde demais. A linha de Araluen tinha se curvado para trás antes da investida. A qualquer segundo agora, ela iria desfazer-se a menos que ele agisse.
Ele freou Abelard até parar por completo.
— Firme — disse ele e o pequeno cavalo ficou imóvel como uma rocha, desconsiderando a terrível cacofonia da batalha e o insuportável e metálico cheiro de sangue fresco.
Halt armou o seu arco e ficou de pé nos estribos. Então começou a atirar. Ele lançou três flechas no ar antes que a primeira acertasse o Wargal que liderava a unidade de ataque. Halt tinha escolhido o seu mais poderoso arco para a batalha, um com quarenta quilogramas de peso quando completamente esticado. Uma arma que poderia acertar um tiro a queima-roupa a quarenta metros de distância.
Era difícil, a primeira das flechas de ponta negra acertou o meio da couraça da besta, feita de couro endurecido e placas de bronze, e caiu onde estava. Então, em uma rápida sucessão, as próximas duas flechas acertaram em cheio mais dois Wargals que morreram. E mais e mais flechas foram atiradas, cada uma delas com um silvo e um baque mortal, assim Halt esvaziou sua aljava com uma explosão devastadora de precisão.
Ele mirou os Wargals na frente da formação, de modo que quando eles caíam, impediam o progresso dos que vinham atrás deles. Não era o tipo de sorte no tiro que um arqueiro qualquer tentaria. Se ele errasse, poderia acertar uma flecha nas costas de um dos soldados araluenses que estava de frente para os Wargals.
Mas Halt não era um arqueiro qualquer. Ele não falhou.
Quando as flechas acabaram, ele fez Abelard seguir em frente mais uma vez. E quando chegou na retaguarda da linha, ele saltou da sela e correu para se juntar as tropas que lutavam. No meio do caminho ele parou, jogou sua capa para o lado e pegou um escudo arredondado que havia sido descartado na grama – as suas facas duplas não teriam muita utilidade contra as pesadas armas dos Wargals. Ele hesitou um segundo, olhando para uma espada longa disposta ao lado da mão estendida de um cavaleiro morto. Mas não era uma arma familiar para ele, de modo que descartou a ideia de usá-la. Ele poderia usar sua faca de caça, era pesada e a lâmina afiada seria perfeita em uma luta a curta distância. Ele pegou sua faca e correu para a frente, forçando sua passagem entre os soldados.
—Vamos! — ele gritou. — Sigam-me! Empurrem eles de volta!
Os soldados se separaram até que ele estivesse na linha de frente e cara a cara com o enorme líder do pelotão Wargal, que rosnava para ele. O brutamontes era apenas um pouco mais alto que Halt, mas muito mais maciço nos ombros e peito e pesava provavelmente duas vezes mais do que ele. Halt viu a boca vermelha aberta e os dentes arreganhados para o novo inimigo. Uma maça com pontas de ferro se moveu horizontalmente na direção de Halt e ele abaixou-se, imediatamente voltando à posição vertical e dirigindo-se para frente com a faca de caça, enterrando-a profundamente nas costelas da besta.
Ele viu uma espada vindo da esquerda, bloqueou-a com o escudo e então empurrou o enorme Wargal com a ponta da faca, fazendo o monstro morrer estatelado no chão.
— Vamos! — ele gritou novamente, passando a lâmina e cortando a garganta de outro Wargal e saltando para frente.
Ele se esquivou de outra espada e esfaqueou duas vezes um Wargal que estava em sua frente, batendo-o de lado com o escudo fazendo-o se dobrar em agonia.
Os Wargals eram imensamente poderosos. Mas eles eram desajeitados e Halt tinha a velocidade e os reflexos de uma cobra. Halt esquivava-se e ziguezagueava cortando e esfaqueando, talhando um caminho para frente. E agora ele sentiu alguém se movendo junto dele, ouviu outra voz ecoando seu grito.
— Vamos! Para frente! Empurrem eles para trás.
A hesitação no ataque dos Wargals causada pela saraivada de flechas de Halt e a sua aparição repentina lançando-se para frente e enfrentando o inimigo deu novo ânimo aos soldados de Araluen. Eles começaram a seguir Halt e seu companheiro não identificado, movendo-se para frente mais uma vez.
Momentaneamente, Halt lançou um olhar para trás. Ele viu um sargento atarracado um passo atrás dele à direita, armado com uma lança. Quando Halt olhou, o sargento impulsionou a lança para frente, espetando um Wargal que guinchou em agonia. O homem sorriu para ele.
— Continue, arqueiro! Você está ficando no meu caminho!
Atrás dele, outros o estavam seguindo, fazendo agora sua própria formação e dirigindo-se cada vez mais profundamente na direção da linha dos Wargals.
Halt ficou na frente mais uma vez. Um Wargal veio na direção dele, com o machado para trás esboçando um golpe mortal. O sargento atirou a lança para frente por cima do ombro de Halt, atingindo o Wargal na garganta e parando-o, morto.
— Obrigado! — Halt disse, sem olhar.
Mais dois Wargals estavam vindo na direção dele. Ele evitou o golpe de espada do primeiro, então se sentiu pisar no braço de um inimigo morto, o que o fez cair de lado no chão.
O segundo Wargal estava balançando uma clava para ele e o tropeço provavelmente havia salvado sua vida. O golpe da clava apenas resvalou em vez de estilhaçar o seu crânio como faria um golpe direto. Aturdido e caído no chão, ele perdeu o controle da sua faca da caça. Ele tentou se levantar, mas foi impedido por seu escudo no braço esquerdo. Assim, ele percebeu que o Wargal com a clava estava em cima do escudo, impedindo que se levantasse. Ele olhou para cima, ainda atordoado pelo golpe de raspão e viu a clava subir novamente.
Então, é isso, ele pensou. Ele se perguntou por que sentiu uma tão impassível aceitação da sua própria morte. Talvez o golpe em sua cabeça o tivesse desanimado. Ele observou, esperando calmamente, fatalmente, a queda da clava.
Em seguida, uma centelha de luz brilhou sobre ele, o brilho da ponta de uma lança que se enterrou no peito do Wargal. A força por trás do golpe da lança empurrou a criatura para trás, que deu um guincho rouco de dor e caiu, passando da linha de visão de Halt. O sargento saltou agilmente sobre a forma caída de Halt, arrancou sua lança do corpo do Wargal morto e parou com os pés afastados, protegendo Halt de novos ataques.
Ele empunhou novamente a lança e outro Wargal afastou-se rapidamente. Então um machado de batalha baixou sobre o cabo da lança e a pesada ponta de ferro saiu girando, deixando o sargento com nada mais do que dois metros e meio de um cabo de madeira.
A cabeça de Halt estava embaralhada e sua visão turva. O golpe na cabeça realmente tinha causado algum dano. Seus membros estavam fracos e ele não conseguia encontrar força para se levantar. A cena diante dele parecia se desdobrar em um ritmo lento, como em um sonho.
O sargento olhou para a lança sem ponta, encolheu os ombros e depois girou o pesado cabo em um círculo, esmagando-o contra o elmo de outro Wargal. Segurando o cabo agora com ambas as mãos, como um bastão, ele deu uma estocada nas axilas de um segundo inimigo, enfiando-o profundamente entre as costelas do Wargal.
— Cuidado! — Halt tentou gritar para avisá-lo, mas sua voz não era mais do que um coaxar.
Ele viu um terceiro Wargal, abaixado e escondido atrás de seus companheiros, com uma espada de gumes irregulares pronta para dar uma estocada. Um dos Wargals feridos agarrou o cabo da lança, puxando o sargento e tirando seu equilíbrio, e o outro atirou a lâmina da espada para frente como uma serpente que dá o bote.
Sangue fluiu do lado do sargento onde a espada o acertou. Mas ele ainda assim não vacilou. Ele arrancou o cabo da lança das garras do inimigo e, com um movimento rápido das mãos, o atirou com força para frente, ferindo o Wargal diretamente entre os olhos com a extremidade sem corte do cabo.
O Wargal gritou e caiu, cobrindo a testa ferida com suas mãos, soltando assim a espada. Instantaneamente, o sargento a agarrou, jogando o cabo da lança de lado. Agora ele golpeava à esquerda e à direita com uma velocidade impressionante, abrindo grandes cortes e feridas em mais dois Wargals. Um caiu onde estava, enquanto o outro cambaleou para longe, tropeçando em seus companheiros, chocando-se contra dois deles antes de cair. O sargento se defendeu de um golpe de uma lança curta de ferro vinda da direita. Outro esfaqueou-o vindo da esquerda e o acertou na coxa. Mais sangue fluiu. Mas ele ainda continuou lutando. Ele matou o Wargal de lança com uma facilidade quase desdenhosa. Então esfaqueou e cortou, cingindo a espada para a direita e para a esquerda, cobrando um terrível preço para qualquer inimigo que ficasse ao seu alcance. Um golpe de faca o cortou na lateral. Ele o ignorou e despachou o dono da faca com um corte desdenhoso.
Então Halt viu algo que ele pensou que nunca veria.
Enquanto a figura ensanguentada avançou, a espada subindo e descendo, retalhando e cortando, estocando e apunhalando, uma onda de medo varreu os Wargals.
A tropa de choque escolhida a dedo por Morgarath, que até agora temiam apenas cavaleiros armados e montados, caia para trás tamanho era o terror diante da figura ensanguentada com uma espada, enviada pela morte.
E assim eles recuavam e os homens do exército de Araluen encontraram um novo coração e varriam em frente na sequência do sargento. Ele estava gravemente ferido, mas continuava lutando, até que seus companheiros o ultrapassaram, batendo nos desmoralizados Wargals e gritando triunfantemente.
Por um momento, o sargento ficou em um espaço vazio do campo de batalha. Então, um segundo pelotão de guerreiros de Araluen passou por ele, reforçando o primeiro grupo e a linha Wargal se quebrou e retirou-se em total confusão. O grito rouco e sem palavras do sargento ergueu-se no ar, seus joelhos cederam e ele caiu no chão.
O barulho da batalha se afastou deles, recuando como uma onda e Halt finalmente conseguiu libertar seu braço do escudo, ainda preso ao chão pelo corpo do Wargal morto.
Ele tentou ficar de pé, mas o esforço era muito grande. Em vez disso, arrastou-se dolorosamente até o sargento caído, passando por cima dos corpos estatelados dos Wargals que aquele homem havia matado.
Apesar dos ferimentos, o sargento ainda respirava. Ele virou sua cabeça penosamente para o arqueiro que se aproximava. Deu um sorriso fraco.
— Nós mostramos para eles, não foi arqueiro?
Halt mal podia ouvir a voz dele, e a sua própria era um coaxar ao responder.
— Nós mostramos sim. Qual o seu nome, sargento?
— Daniel.
Halt segurou o antebraço dele.
— Espere, Daniel. Os curandeiros vão chegar aqui em breve.
Ele tentou colocar o máximo de encorajamento nas palavras. Mas o sargento meneou a cabeça.
— É tarde demais para mim.
Subitamente, os olhos do homem se encheram com urgência. Ele tentou se levantar, mas caiu para trás.
— Fique calmo — Halt recomendou a ele, mas Daniel levantou a cabeça, cansado e se inclinou para ele.
— Minha esposa... — ele conseguiu dar um suspiro. — Minha esposa e o bebê. Me prometa...
Ele tossiu e sangue escorreu pelo seu queixo.
— Eu vou procurá-los — Halt disse a ele. — Mas não se preocupe. Você vai ficar bem, os verá em breve.
Daniel acenou e deixou sua cabeça cair para trás. Ele tomou um longo fôlego, que o fez estremecer. Então pareceu relaxar e sua respiração se tornou mais fácil, como se a promessa de Halt tivesse tirado um enorme fardo de sua mente.
Halt ouviu vozes e passos se aproximando. Então mãos gentis o estavam rolando e ele se viu olhando para os rostos preocupados de um par de atendentes médicos que estavam estendendo uma maca ao lado dele. Ele gesticulou fracamente em direção a Daniel.
— Está tudo bem comigo — ele disse. — Cuidem do sargento primeiro.
O atendente mais próximo deu uma olhada rapidamente em Daniel e balançou a cabeça.
— Não há nada que nós possamos fazer por ele — respondeu o atendente. — Ele está morto.

12 comentários:

  1. Acho que essa história já foi mencionada em um dos livros. O bravo sargento que salvou a vida de Halt. Pai do Will.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É VERDADE, EU JÁ LI TBM, NÃO COM TANTOS DETALHES, MAS JÁ LI.

      Excluir
    2. Foi no primeiro livro que é mencionado

      Excluir
    3. verdade eu lembro disso
      eu acho que foi no terceiro livro

      Excluir
  2. Um pequeno erro.
    "Halt ficou na fronte(frente) mais uma vez. Um Wargal veio na direção dele, com o machado para trás esboçando um golpe mortal. O sargento atirou a lança para frente por cima do ombro de Halt, atingindo o Wargal na garganta e parando-o, morto."

    ResponderExcluir
  3. Karina, um errinho aqui neste capítulo:
    "WLES (ELES) estavam se aproximando do ponto problemático."

    ResponderExcluir
  4. Não entendi, isso não foi comentado já, sobre o pai do Will?
    Ass: Bina.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, em um dos primeiros livros. Mas não tão detalhado assim, halt contou rapidamente com poucos detalhes para will.

      Excluir
  5. Eis um exemplo de como fazer uma pessoa chorar.
    Ass: Lua

    ResponderExcluir
  6. Descobrimos de onde o Will herdou tanta coragem.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)