26 de janeiro de 2017

Capítulo 37

— Eles estão indo bem — Horace falou, referindo-se aos cinquenta Kikori que estavam sendo treinados em duas fileiras estendidas, avançando em uma corrida constante por todo o campo de treinamento.
Selethen gritou um comando e os homens da ponta esquerda de cada grupo pararam no lugar, ainda correndo no tempo, e viraram noventa graus à esquerda. As duas linhas se moveram com eles, os da extremidade externa do arco tendo de se mover mais rápido do que os mais próximos do ponto de giro. Por alguns segundos, as fileiras vacilaram e curvaram perdendo a sua precisão. Então a terceira linha exterior voltou para a posição e as fileiras foram devidamente formadas novamente.
Assim que eles estavam prontos, outro comando de Selethen fez cinquenta homens se destacarem à frente mais uma vez, agora se movendo em noventa graus voltando para a posição original. Isso tudo demorou menos de 30 segundos.
Will não tinha respondido. Ele tinha estado analisando a manobra com cuidado, procurando por qualquer sinal de desleixo ou falta de precisão. Não havia nada que ele conseguisse ver. Depois, ele olhou para o amigo e sorriu em resposta.
— Sim. Sua coordenação é de primeira.
 Eu vejo que você conseguiu mais armas para eles agora — comentou Horace.
Toda a linha de frente foi equipada com grandes escudos retangulares e bestas brutas. Cada homem carregava várias armas curtas afiadas ao seu lado.
— Eles todos tem espadas afiadas agora. A maioria deles fez a sua própria quebrando suas lanças. E os lenhadores e ferreiros estão entregando novos escudos e lanças o tempo todo. Em breve, teremos o suficiente para equipar uma completa hyaku.
 Hyaku?  Horace perguntou.
— É nihon-jai para “cem”. Essa é a formação padrão de luta na Toscana – cem homens em cada grupo. Eles chamam isso de um centurião – três fileiras de trinta e três homens cada, mais o comandante.
 E quantos desses hyakus você planeja ter?
— Acho que dois. Seria bom ter mais, mas nós simplesmente não temos os homens. E Halt diz que um pequeno esquadrão, devidamente treinado e disciplinado, pode ser muito eficaz.
— Faz sentido  disse Horace.
A tropa agora estava parada e todos os da frente passavam suas bestas de volta aos homens na posição de trás.
— Nós compartilhamos o que temos Will explicou. — Desde que todos estejam se movendo e girando como uma unidade, não importa que todos estejam armados.
Como as tropas esperavam, vinte dos seus colegas de treinamento correram para o campo e colocaram manequins vestidos de guerreiros em uma linha de frente a eles, cerca de cinquenta metros de distância. Uma vez que isso foi feito, eles apressaram-se pelo campo e Selethen deu a ordem para suas tropas avançarem mais uma vez.
— Kamé! — Selethen gritou.
Instantaneamente, a linha de frente levantou seus escudos acima da altura de suas cabeças enquanto a segunda posição os imitou, segurando os escudos horizontalmente para formar um telhado. Assim, protegidos, continuaram seu avanço constante, as botas pisando em uníssono no chão. Depois de alguns segundo, Selethen deu outra ordem e seus escudos, reais e imaginários, voltaram à posição normal de marcha. Os soldados inimigos fictícios estavam agora a meros quarenta metros de distância.
Em resposta a outra ordem de Selethen, a linha de frente continuar a marchar, enquanto a segunda fila pegou suas lanças novamente e arremessou as armas sobre os seus companheiros marchando, enviando-as em arcos a uma distância de 40 metros. Em seguida, marcharam duas vezes mais rápido para recuperar a sua posição atrás da linha de frente.
Metade dos bonecos tinha sido atingida por dardos. Alguns caíram para os lados, enquanto outros se inclinaram sobre o peso do dardo.
Selethen aumentou o ritmo e todos os cinquenta avançaram em um movimento constante, cintilando lâminas ameaçadoramente nas frestas entre os escudos. À medida que a linha de frente atingia o “inimigo”, a segunda linha imediatamente apertava por trás deles, empurrando e acrescentando seu peso ao impulso.
Finalmente, Selethen parou seus soldados com o som de um sino e os soldados relaxaram, fincando seus escudos no chão. A linha traseira moveu-se para recolher os dardos.
 Selethen está fazendo um bom trabalho  disse Horace, enquanto o alto arridi andava entre os homens, fazendo comentários – incentivando alguns, elogiando outros, aconselhando quando necessário. — Ele irá comandar ambos os hyakus?
— Não  respondeu Will. — Eles precisam trabalhar de forma independente. Isso é algo que eu queria falar com você. Você pode assumir o comando de um deles?
— Eu? — Horace disse um pouco surpreso. — Achei que você gostaria de comandar um. Afinal, a ideia é sua.
Mas Will estava balançando a cabeça.
— Precisamos de dois bons comandantes de campo. Você é melhor nisso do que eu. Halt e eu podemos ficar de fora e manter uma visão geral das coisas. Vamos ficar com os Senshi de Shigeru como reserva e enviá-los para onde for necessário.
Horace não pôde evitar um sorriso se formando.
— Ah, vocês arqueiros  disse ele. — Amam ser os responsáveis por trás de tudo, não é?
Will hesitou, a ponto de negar a brincadeira. Então ele estendeu as mãos em derrota.
— Bem, sim. Na verdade, nós adoramos. Mas também, estamos mais adequados para o combate de longa distância. Você é o especialista em combate corpo a corpo.
Horace tinha de admitir que o efeito potencialmente devastador do arco e flecha de Will e Halt seria um recurso valioso para se ter de reserva.
— Seria uma honra comandar uma das hyakus  ele disse. — Estou me sentindo bastante inútil ultimamente, sentado na minha cabana sem fazer nada.
Fez uma pausa como se o pensamento o ferisse.
— Eu vou ter que aprender todos os comandos.
 Isso não vai levar muito tempo. Mantivemos tudo muito simples – sem querer insultar é claro. É algo que Halt sempre diz: simplifique o máximo possível ao invés de criar manobras complicadas que podem dar errado no calor da batalha. Você vai pegar tudo em um dia. E com vocês dois trabalhando com os homens, vamos conseguir treiná-los na metade do tempo.
Horace assentiu. O pensamento de ter algo construtivo para fazer era de muita satisfação. Depois da tensão e do perigo da fuga através das montanhas, as últimas semanas de inatividade enquanto suas costelas feridas cicatrizavam o deixaram se sentindo velho e vazio. Agora ele sentia um novo senso de propósito. Ele bateu no punho de sua espada e fez uma careta quando encontrou a desconhecida forma da katana que agora usava.
 Eu vou ter que fazer alguma coisa sobre essa espada — disse ele. — Depois de anos de treinamento com uma espada de cavalaria de Araluan, esta katana de Nihon-Ja apenas não está certa.
A oportunidade de resolver o problema veio mais cedo do que ele esperava. Depois de passar várias horas com Will e Selethen, tomando notas dos exercícios e os comandos que precisaria aprender, Horace voltou para sua cabana naquela tarde. Uma comitiva de Shigeru trouxe-lhe comida e chá quente e quando ele se sentou para desfrutar a refeição, o homem fez uma reverência.
 Kurokuma, Vossa Excelência pediu que visite sua cabana depois de comer.
Horace começou a levantar, mas o homem acenou de volta para baixo.
— Não! Não! Vossa Excelência disse que você deveria aproveitar primeiro a refeição. Ele o receberá sempre que for conveniente para você.
Sorrindo, Horace reconheceu a mensagem e sentou-se novamente. Como a maioria dos governantes, ele sabia a expressão “sempre que for conveniente para você” significa agora, ou cinco minutos atrás, se fosse possível. Com Shigeru, ele tinha aprendido, a frase tinha o significado literal. O imperador não gostava que seu povo largasse tudo para atendê-lo em um capricho. Foi uma das razões pelas quais seus eminentes seguidores o adoravam tanto.
Mesmo assim, o imperador era um imperador e Horace não perdeu tempo para terminar sua refeição. Uma vez que ele tinha comido e se lavado, vestiu seu manto quente, amarrou a faixa entorno dele e empurrou a katana na bainha através da faixa. Suas botas estavam abrigadas no degrau fora da cabana e ele as calçou e tirou toda a neve que havia dentro.
“Quão diferente tudo isso é de Araluen”, ele pensou. E ainda, de muitas maneiras, era a mesma coisa.
Aquele pequeno acampamento nas montanhas o fizera refletir muitos dos valores que havia aprendido em seu reino de origem. Amizade e companheirismo, a lealdade ao pensativo e atencioso imperador. E, ele refletiu, infelizmente, o sempre presente problema de quem queria usurpar o imperador e tomar o poder para si próprio.
Suas botas fizeram barulho quando encontraram a neve rasa, assim ele fez o seu caminho até a cabana de Shigeru. A cabana era um pouco maior do que as outras que os Kikori tinham construído. Shigeru protestou, dizendo que não precisava de nada mais do que seus companheiros. Mas os Kikori se escandalizaram por tal sugestão. Ele era o seu imperador e esta era a sua oportunidade para mostrar o quanto o reverenciavam e o respeitavam. Consequentemente, o chalé de Shigeru tinha um pátio coberto e duas salas interiores – uma grande sala onde ele poderia encontrar-se com seus conselheiros e um pequeno quarto onde ele poderia se retirar com privacidade.
Um dos Senshi montava guarda na varanda. Ele sorriu e curvou-se em saudação quando viu Horace se aproximando através da cortina de neve caindo.
— Kurokuma! Boa tarde. Sua Excelência está esperando.
Parando apenas para responder a saudação do homem e tirar a neve incrustada de suas botas, Horace abaixou-se e entrou pela porta baixa.
Shigeru estava sentado de pernas cruzadas sobre uma esteira de palha no chão. Um pequeno, mas brilhante, braseiro de carvão proporcionava uma aconchegante “boas vindas”. O imperador tinha um fino pincel na mão e um quadro feito por um pedaço esticado de papel de arroz em seu joelho. Ele estava escrevendo os ideogramas nihon-jins no papel, outra e outra vez, esforçando-se cada vez mais para uma melhor interpretação dos traços e formas. Ele olhou-o e sorriu.
— Ah, Kurokuma, por favor, sente-se comigo.
Ele gesticulou para um banquinho.
Horace curvou-se, em seguida sentou. Ele sabia que normalmente era uma violação da etiqueta sentar numa posição mais elevada que o imperador. Mas Shigeru estava consciente de que os araluenses não passaram anos sentados com as pernas cruzadas como eles e, como consequência, seus joelhos tendiam a queimar em protesto após alguns minutos nessa posição. Foi outro exemplo de consideração do imperador para seus subordinados, Horace pensou.
— Gostaria de um chá, Kurokuma?
Horace, é claro, tinha acabado de tomar chá. Mas ele sabia que havia um ritmo e etiqueta na sociedade de Nihon-Ja. E ele não poderia recusar esse ritmo.
— Obrigado, Excelência  respondeu, curvando-se de sua posição.
Ele sentiu um pouco bobo, sentado em seu banquinho com os joelhos cruzados na frente dele – como um gigante em um parque infantil. Shigeru, pelo contrário, parecia digno e equilibrado, sentado com as pernas cruzadas.
Um servo saiu da sala interior e serviu o chá para ambos. Horace tomou um gole para demonstrar sua gratidão. Mesmo um curto passeio de sua cabana para a de Shigeru o tinha exposto ao tremendo frio do vale e ele sentiu a inundação do calor do chá através de seu corpo.
— Você queria me ver, Vossa Excelência?
Tinha uma vaga noção de que George teria desaprovado essa abertura. Provavelmente, ele devia ter comentado sobre a caligrafia do imperador, admirando-a enquanto Shigeru modestamente apontaria seus erros e falhas. Mas ele ficou intrigado para saber o motivo ao qual foi chamado. Desde a batalha na paliçada, certa falta de atividade veio a superá-los. Não havia necessidade urgente para que Shigeru se consultasse com seus conselheiros diariamente, e o imperador retirou-se para dentro de si um pouco.
Horace sabia que a morte de Shukin pesava fortemente sobre o imperador e era altamente provável que Shigeru, sensível e gentil como era, também sentia uma profunda responsabilidade pelo destino daqueles que se haviam se reunido em seu auxílio – os Kikori, seus próprios Senshis e o grupo de estrangeiros que havia chegado e oferecido seus serviços. E seria de se esperar que o imperador houvesse recuado com uma pontada de depressão.
Todos esses pensamentos passaram pela mente de Horace. Mas o imperador não mostrou nenhum sinal de dúvida ou incerteza. Sua expressão era calma e a sua atitude serena. Ele sorria agora para o jovem sentado diante dele, com as mãos nos joelhos.
— Você tem estado ocupado, Kurokuma? — perguntou.
Horace encolheu os ombros.
— Não realmente, Vossa Excelência. Tem havido pouco a fazer. Mas isso vai mudar. Pediram-me para assumir o comando de um dos hyaku.
— Ah, sim. As tropas que o seu amigo Wirru-san está treinando  lembrou Shigeru. — Diga-me, você acha que os Kikori tem alguma chance contra os Senshi de Arisaka?
Horace hesitou. Ele recordou os seus pensamentos do campo de treinamento – como os Kikoris pareciam uma força inexorável, avançando em todo o terreno limpo para trás da chuva mortal de lanças.
— Eu acho que eles têm sim, Vossa Excelência, enquanto acreditarem em si mesmos e manterem seus nervos. Mas toda a formação de Will e suas táticas não adiantarão de nada se os Kikori não acreditarem que podem vencer.
— Será que eles acreditam que podem?
Horace balançou a cabeça.
— Talvez agora não. Mas eles vão. Vamos fazê-los acreditar. Cabe a nós construir esse espírito neles.
— Achei que você poderia dizer isso. E me ocorre que, se você está lutando ao lado deles, liderando-os na verdade, vai precisar de uma espada.
Shigeru apontou para o cabo da katana que se projetava através da faixa do sobretudo.
— O que você acha de sua katana?
— É uma arma boa  Horace respondeu, cuidando para não ofender. — Mas parece desconhecida para mim. Não é como a que eu treinava.
— Hmmm. Eu pensei que isso poderia acontecer. Um guerreiro precisa da arma que conhece e confia. Nesse caso...
Shigeru se virou para a sala menor, onde seu servo tinha se retirado após servir chá.
— Tabai! Traga a espada!
O empregado entrou novamente, carregando um pacote envolto em um longo pano. Ele foi apresentá-lo ao imperador, mas Shigeru estalou a língua e apontou para Horace. Tabai ofereceu o pacote para o jovem cavaleiro, que pegou com curiosidade.
Ele olhou para Shigeru.
— Eu encontrei esta ontem, entre a bagagem de Shukin  o imperador esclareceu. — Eu não poderia empunhá-la para passar por batalhas tão cedo e, francamente, tinha esquecido disso.
Ele fez um gesto para que Horace desembrulhar o pacote. Horace tirou uma parte de pano para o lado, apoiado em um dos joelhos para inspecionar o pacote mais de perto. Dentro dele havia uma espada. Sua espada, numa finamente afinada bainha de couro. A travessa de aço liso, o pomo de bronze e couro ligado ao cabo eram todos familiares.
— Mas... esta é a minha espada! — Falou espantado.
A espada tinha mergulhado em um profundo penhasco, com uma forte correnteza no fundo. Ele não podia pensar como poderiam tê-la recuperado.
— Olhe mais de perto — Shigeru disse a ele.
Quando o fez, Horace observou que o couro do cabo era novíssimo, sem marcas do suor ou das centenas de encontros nos troncos de exercícios. Ele queria desembainhá-la, em seguida, lembrou que esta era uma grosseira violação do protocolo de presença do imperador. Mas Shigeru gesticulou para ele ir em frente.
A lâmina fez um zzzzz suave quando deslizou pela bainha e Horace a segurou no alto, um pouco confuso. O equilíbrio era perfeito, do jeito como se lembrava. Poderia ter sido a sua velha espada. Mas agora ele podia ver a lâmina, ligeiramente azulada, mostrando um padrão de repetição em círculos das batidas contra o aço que era como uma série de linhas onduladas. Ela refletiu a luz ofuscante e brilhou como sua velha espada nunca tinha feito.
— Era um presente de Shukin para você  explicou Shigeru, e Horace lembrou de Shukin dizendo-lhe para buscar um pacote quando ele o tinha deixado para defender o vau. — Ele “pegou emprestado” sua espada uma noite no verão e mandou seu próprio ferreiro fazer uma copia exatamente igual.
— Mas...
Horace começou a se perguntar por que Shukin tinha feito tal coisa. Shigeru, sentindo qual seria a próxima pergunta, ergueu a mão para evitar.
— Só há uma diferença. Esta lâmina é aço nihon-jin, muito mais forte do que sua antiga espada e capaz de ser muito melhor afiada. Agora, se você lutar contra o Senshi, estará equiparado.

3 comentários:

  1. Uns errenhos aí.... Esse Shukin foi esperto!

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  2. com uma espada de cavalaria de Araluan,(Araluen)
    Errinho

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  3. É muito chato isso de ficar achando "erros" e "corrigindo"... Sempre vai haver outros, até porque não há perfeição... Então, pelo amor de Deus, parem com isso!

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