26 de janeiro de 2017

Capítulo 35

— É um pouco cedo para te mostrar isso  Will disse, enquanto levava a curiosidade do grupo na direção do canto isolado do vale. — Até agora, nós só temos equipamento para dez homens. Os outros têm que pegá-los para treinar e praticar.
— Praticar o quê?  Evanlyn perguntou, mas Halt fez um sinal para ela esperar.
Eles pararam em um ponto onde um bosque escondia um pequeno barranco. Will e Selethen os conduziram para frente e eles foram para uma clareira, quarenta metros por vinte.
Horace apontou para uma linha de ramos – feixes de ramos amarrados juntos, cada um com cerca do tamanho de um homem – de pé na extremidade do campo.
— O que são eles?
Will sorriu para ele.
— Eles são os inimigos.  Ele olhou para Selethen. — Você quer assumir o comando?
O guerreiro arridi encolheu os ombros em deferência.
— Foi a sua ideia. Eu só sou um ajudante.
Will assentiu, organizou seus pensamentos por um segundo, então continuou.
— Eu tive essa ideia quando chegamos aqui e vimos os Kikori no trabalho. Sua disciplina de grupo era excelente.
Shigeru assentiu.
— Tem que ser. Cortar a madeira é um negócio perigoso.
— Exatamente  Will disse. — Então, Horace afirmou que os Senshi, com seus anos de treinamento, tem vantagem em combate individual. Um a um, eles eram geralmente superiores sobre nós, guerreiros araluenses.
Ele lançou uma pergunta com o olhar para Horace, que também assentiu.
Halt se recostou, inclinado confortavelmente contra uma pedra, sorrindo para seu antigo aluno. Ele pensou no que Will falou, mas não tinha certeza do que Will planejava conseguir.
— Agora tudo isso tocou um sino na minha memória. Eu havia ouvido esse tipo de coisa antes. Isso me deixou louco por alguns dias, então lembrei onde tinha sido.
Ele parou e o sorriso de Halt se alargou enquanto os outros inconscientemente se inclinaram para frente, esperando que ele continuasse. Seu jovem aluno não conseguiria resistir a uma oportunidade para um pequeno drama.
— Eu lembrei do general Sapristi dizendo muito das mesmas coisas.
— General quem?  Horace perguntou, totalmente confuso.
— Ele era um general na Toscana que arranjou uma demonstração de seus métodos de luta para nós  Will explicou. — As legiões toscanas têm desenvolvido um sistema de luta como um grupo. É bem simples, então não era preciso para eles aprender ou praticarem esgrima. Eles só tinham que socar, esfaquear e empurrar. O segredo é eles trabalharem juntos.
Ele parou. Sua garganta estava um pouco seca com tudo o que falara e ele gesticulou para Selethen assumir a história.
— Como o general nos disse, individualmente, seus legionários não poderiam ser páreos para guerreiros experientes. Sua força reside em seu trabalho de equipe e seu equipamento.
Selethen parou, então se virou e gritou uma ordem.
— Kikori! Se mostrem!
Ele e Will haviam enviado um mensageiro à frente para deixar os estagiários saberem o que estava por vir. Agora, a seu comando, uma fila de dez Kikori trotou para trás de uma pilha de pedregulhos no meio do caminho do vale. Mas eles estavam equipados como nenhum Kikori jamais tinha se equipado antes.
Shigeru olhou para eles, fascinado.
Cada homem carregava um longo escudo retangular. Era ligeiramente curvado e feito de madeira, reforçado no topo e nos lados com tiras de ferro. No centro, uma saliência prateada de ferro se projetava. Os homens também usavam armaduras de couro duro e elmos de couro. Estes também foram cortados com tiras de ferro, para proteção extra.
Enquanto eles corriam, se movendo constantemente, seguravam longos dardos inclinados em seus ombros.
Horace deu um passo à frente para olhar mais de perto.
— Eles são bastante primitivos — falou.
Os dardos eram do estoque de madeiras, com um metro e meio de comprimento, cada um com uma haste de aço ressaltada, saliente em uns cinquenta centímetros do estoque de madeira. A haste de aço terminava em um ponto farpado.
— Eles não precisam ter nada mais que aquilo  Will anunciou. — Selethen, vá conduzir a demonstração, por favor?
Ele se virou para os outros.
— Vamos nos mover um pouco para baixo, para lá. Vocês serão capazes de ver melhor.
Ele pegou o caminho de uma pequena rocha que aflorava no meio do espaço. Selethen manteve os dez Kikori em uma linha, esperando em expectativa. Quando seus companheiros estavam fixados, Will gritou para Selethen.
— Inimigo avistado!
— Formação de batalha!  Selethen gritou o comando.
Instantaneamente, metade dos homens na linha deu dois passos para trás. Então as duas linhas se fecharam, de modo que onde havia dez homens em uma linha, agora estavam duas fileiras de cinco. O movimento foi feito em segundos.
— Em frente!  Selethen comandou.
As duas fileiras saíram juntas, caminhando constantemente para frente, com os Kikori da ponta direita da segunda fileira marcando o tempo.
— Impressionante  disse Horace suavemente.
Will olhou rapidamente para ele.
— Como eu disse, seu senso de disciplina é excelente. Eles pegaram esses dois rapidamente.
Então ele desviou o olhar e gritou para Selethen de novo.
— Arqueiros inimigos!
— Alto!  Gritou Selethen.
Os Kikori que avançaram pararam bruscamente.
Halt lembrou da frase de Will na exposição de Toscana: Uma nuvem de poeira de uma linha de estátuas. “O general Sapristi poderia ter ficado impressionado”, pensou.
— Kamé!  Selethen ordenou.
O imperador recostou-se e olhou para Will, um pouco confuso.
— Tartaruga?
Mas Will gesticulou na direção dos dez estagiários. A fileira frontal havia levantado seus escudos para a altura da cabeça, enquanto a segunda fileira segurou os seus mais alto, paralelo ao chão, as bordas foram sobrepostas nos topos em frente às fileiras de escudos. Os dez homens estavam agora protegidos na frente e por cima por uma carapaça incessante.
— Ah... Sim. Tartaruga. Eu vejo  Shigeru disse pensativo.
— Kamé para baixo!  Selethen ordenou e os escudos voltaram para sua posição original. — Fileira da frente, yari!
Agora a fronteira frontal deu um passo longo para frente. Os homens se viraram para o lado, revertendo suas garras nos dardos brutos e, como um, inclinaram seu peso para seus pés direitos, as longas armas indo por cima de seus ombros direitos, apontando para cima em um ângulo de trinta graus.
— Lançar!
Eles lançaram como um só, cada homem colocando a força e poder de todo o seu corpo por trás do lançamento. As armas partiram para o alto, então arquearam para baixo enquanto o peso das pontas de aço pegava efeito. Três dos feixes de ramos foram golpeados e derrubados para o chão, enquanto os outros dois dardos ricochetearam e resvalaram sem causar danos neles. Agora, Selethen estava ordenando a segunda fileira para frente. Eles se moveram através da primeira fileira e repetiram a sequência de movimentos. Outros cinco dardos subiram em toda a distância curta. Outro feixe foi golpeado.
— Imagine isso, mas com cinquenta dardos cada vez ao invés de um  Will disse.
Horace assentiu pensativo. Uma parede de cinquenta daquelas armas de aparência rudimentar poderia ser devastadora para uma força inimiga. Sua mente militar havia visto o valor das suaves pontas de aço – entendendo como um guerreiro, mesmo levemente ferido, poderia ser impedido pelo peso arrastado do dardo.
— Mas agora eles estão desarmados  Shigeru falou.
Ele tinha olhado com cuidado, mas não conseguia ver nenhum sinal da longa katana que era a arma principal dos Senshi.
Assim que ele disse as palavras, ouviu a raspagem de lâminas sendo puxadas. Ele via agora que cada um dos Kikori estava armado com uma pequena arma.
— Issho ni!  Selethen chamou.
As duas fileiras começaram a avançar, escudos travados juntos.
— Issho ni!  O grito foi ecoado pelas dez gargantas repetidamente enquanto eles se moviam firmemente para frente.
Will olhou para o imperador.
— Estamos usando o nihon-jin para os comandos mais importantes  explicou. — Há mais chance de desentendimento desse jeito.
— Apropriado  Shigeru respondeu.
Evanlyn inclinou a cabeça para um lado curiosa.
— O que “issho ni” significa?
— Juntos  Alyss disse a ela.
— É seu grito de guerra  Will falou. — Isso os lembra de como eles lutam – como um grupo.
Ele colocou as mãos em volta da boca e gritou para Selethen.
— Traga eles até nós!
O arridi acenou confirmando e gritou uma ordem. A marca do lado esquerdo de cada fileira começou a marchar no lugar enquanto seus companheiros se viraram para a esquerda em um movimento coordenado constante.
Horace assobiou suavemente.
— Eles devem ter nascido para fazer isso.
Agora as duas fileiras estavam de frente para os espectadores e Selethen gritou outra sequência de ordens. O movimento rotatório parou e a formação, ainda intacta, começou a avançar novamente.
Shigeru e os outros conseguiam ver o valor dos escudos largos. Os próprios homens estavam praticamente invisíveis, só os topos de seus elmos aparecendo sobre a parede de escudos.
Não havia nada para um espadachim acertar, o imperador percebeu. Mas pelas aberturas estreitas entre os escudos, ele conseguia ver as pequenas armas que os Kikori carregavam, oscilando como várias línguas de cobras.
— Eles conseguem ver?  perguntou.
Will sorriu.
— Não muito bem. Seu comandante controla a direção para avançar. Mas eles apunhalam qualquer coisa que veem através das fendas nos escudos. Braços, pernas, corpos. É só apunhalar e seguir em frente, apunhalar e seguir em frente. Nós não ensinamos a eles qualquer tipo de varredura de curso que os Senshi usam. Eles não precisam aprender qualquer técnica complicada. Só apunhalar e retirar a arma imediatamente. Se um guerreiro Senshi atacar um deles, eles dão de cara com um escudo enorme. E se ele desviar o ataque, o homem próximo ao seu inimigo provavelmente vai apunhalá-lo assim como fez.
 De onde vem essas espadas?  Halt perguntou.
— Algumas delas são as espadas curtas carregadas pelos Senshi mortos na Vila da Margem ou no primeiro ataque. O resto são lanças de curto alcance, com os eixos reforçados com tiras de ferro.
— Mas uma boa katana vai quebrar o ferro facilmente — Shigeru protestou.
Will concedeu o ponto.
— Certo. É por isso que cada homem vai carregar duas espadas reservas. Mas eles não estão usando suas espadas curtas para aparar ou bloquear a katana dos Senshi. É o que os escudos fazem. E se a katana atravessar o ferro e a madeira do escudo, seu dono pode se encontrar em apuros.
— Eu não entendi  o imperador franziu o cenho.
Mas Horace havia visto a verdade no que Will disse. De fato, ele tinha usado a mesma ideia como uma tática em tempos passados.
— Se a katana atravessar o escudo, vai se emperrar por alguns segundos enquanto seu dono se liberta. E nessa hora, ele vai ter dois ou três Kikori apunhalando-o. Ele fica entre perder sua espada ou sua vida.
— Sim.
O imperador colocou seus dedos no queixo pensativo. Ele tinha que admitir que aquela demonstração estava um pouco desanimada. Ele cresceu na tradição Senshi e, igualitário como ele devia ser, era inquietante ver que dois forasteiros haviam planejado tão rápido um jeito de contra-atacar as técnicas Senshi.
Will levantou sua mão agora e Selethen gritou para a tropa parar. Outro comando e, como um, eles aterraram seus escudos e se curvaram para seu imperador.
Shigeru se levantou de onde ele estivera sentado na pedra e se curvou bastante de volta. Seu enjoo de alguns minutos atrás se fora. Aquele era o seu povo, tanto quanto os Senshi foram, ele percebeu. Eles estavam dispostos a lutar por ele, e a aprender novas formas de fazê-lo. Eles mereciam seu respeito e lealdade.
Will deslizou da pedra e caminhou entre a tropa Kikori, congratulando-os pelo ombro e oferecendo palavras de parabéns a eles. Então ele e Selethen os dispensaram e voltaram aos outros.
— Nós levamos três meses  ele disse para Halt. — Planejamos preparar e equipar duzentos homens nessas técnicas.
Halt assentiu.
— Com duas centenas de homens treinados, vocês podem dar a Arisaka de fato uma surpresa muito desagradável. Muito bem, Will. E você também, Selethen.
O arridi se curvou e fez seu gesto de cumprimento tradicional.
— Como eu disse, foi ideia de Will  ele respondeu. — Mas como você, eu acho que isso vai ser bem eficaz.
Horace colocou um braço sobre o ombro de Will e sacudiu sua cabeça. Seu amigo franzino nunca parava de surpreendê-lo.
— Você parece ter um hábito de criar exércitos do nada  ele disse. — Pena que não há cem escravos araluenses para poder treiná-los como arqueiros.
Ele estava se referindo à poderosa força de arqueiros que Will havia formado para lutar contra exército temujai.
— Uma coisa  ele adicionou com uma carranca ligeira. — Vocês vão precisar de um monte de ferro para elmos e escudos e espadas. Onde vocês vão encontrar isso?
— Nós temos tudo pronto  Will sorriu. — Os ferreiros Kikori estão bem ocupados no esconderijo de armas antigas que você descobriu. Nós não precisamos de espadas de aço e eles podem fazer o trabalho muito bem.
— Eu me pergunto — disse Horace — se eu nunca vou fazer uma pergunta que você não possa responder.
Will considerou a ideia por um segundo ou dois, então sacudiu sua cabeça.
— Eu não deveria pensar assim.

5 comentários:

  1. Um errinho aqui, Karina.
    "Eu tive DESSA (ESSA) ideia quando chegamos aqui."

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  2. Will será o nome do meu filho hahahahha

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  3. Gente, tantos personagens chamados Will. Nenhum me decepciona.

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  4. Pensei a mesma coisa. Só agora já li 4 livros com esse nome!
    Ass: Bina.

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Boa leitura :)