26 de janeiro de 2017

Capítulo 32

Na pequena cabine que dividia com Alyss, Evanlyn estava debruçada sobre um mapa desenhado em uma folha de linho, mastigando distraidamente dois pincéis finos que em Nihon-Ja eram usados como caneta. E estava tarde. A única lanterna sobre a mesa deixava sombras escuras nos cantos da sala, e era realmente insuficiente para permitir-lhe ler os finos detalhes do mapa. Ela havia pensado em usar outra lanterna, mas Alyss estava enrolada em seu colchão junto à parede e Evanlyn não queria perturbá-la.
As duas meninas passaram mais tempo em companhia uma da outra desde que chegaram a Ran-Koshi. Elas eram as duas únicas mulheres no grupo, e agora que estavam cercadas por um grupo ainda maior de guerreiros e carpinteiros elas tendiam a ser colocadas juntas.
Havia mulheres nas colônias Kikori, é claro, mas tratavam as duas estrangeiras com reverente respeito, e as diferenças de linguagem, juntamente com o sotaque regional dos Kikori, dificultou a aproximação.
Não podia ser dito que Alyss e Evanlyn tinham se tornadas boas amigas. Mas ambas estavam fazendo um esforço para conviver uma com a outra – deixando de lado o momento ocasional de atrito. Se elas fossem amigas íntimas, Evanlyn provavelmente acenderia outra lanterna. Mas, como elas tendiam a andar nas pontas dos pés rondando uma a outra, ela não queria dar à Alyss qualquer motivo de reclamação.
Esfregou os olhos e se inclinou para o mapa. Ela desejou ter uma mesa de altura normal e uma cadeira confortável. Estas mesas baixas e cadeiras de Nihon-Ja eram duras no joelho e nas costas. Ela ouviu um farfalhar de lençóis quando Alyss virou.
— O que você está fazendo?  A menina alta disse.
Sua voz estava grossa pelo sono.
— Desculpe  disse Evanlyn instantaneamente. — Eu não quis te acordar.
— Você não me acordou  Alyss respondeu — foi a luz.
Então, percebendo que Evanlyn poderia levar isso como um sinal de irritação, acrescentou rapidamente:
— Isso foi uma piada.
— Ah... Bem, desculpe, de qualquer maneira  Evanlyn disse. — Volte a dormir.
Mas Alyss estava sentando. Estremeceu com a noite fria da montanha e apressadamente jogou um casaco Kikori de pele de carneiro nos ombros. Então, sem se levantar, ela se moveu agachada por todo o espaço até se sentar ao lado de Evanlyn.
— Acenda outra lanterna  disse ela. — Nós vamos ficar cegas tentando ler isso no escuro.
Evanlyn hesitou, mas Alyss fez um gesto impaciente pra ela fazer o que ela sugeriu.
— Você poderia muito bem fazer isso  disse ela. — Eu nunca vou voltar a dormir, imaginando o que você esta fazendo.
Evanlyn assentiu com a cabeça e acendeu uma segunda lanterna, puxando-a para perto da primeira, assim ela duplicou a luz. Alyss se moveu um pouco mais pra perto e estudou o mapa com ela.
— De onde isso vem?  ela perguntou.
Ela podia ver que era um mapa de Ran-Koshi de um país do norte.
— Shigeru e eu a elaboramos, com ajuda de Toru e alguns dos outros Kikori. É claro, o general mentiu que o terreno daqui não tem segredos. O único fator desconhecido era o local exato de Ran-Koshi.
Ela bateu o dedo sobre a parte do mapa que mostrava o vale e as suas íngremes paredes circundantes.
Alyss balançou a cabeça pensativa, então apontou para uma ampla expansão sem características diretamente ao norte do vale.
— O que é isso?  Ela leu o nome nas letras sobre ele. — Mizu-Umi Bakudai?
— É um grande lago. E por aqui, do outro lado, é a província onde os Hasanu vivem.
— Eu ouvi as pessoas mencioná-los várias vezes. Quem são os Hasanu?
Havia um bule de chá sobre a mesa e Evanlyn o alcançou para se servir de uma xícara de chá verde.
— Quer um pouco? Ainda esta bem quente.
Alyss balançou a cabeça.
— Eu estou bem.
— Os Hasanu são uma tribo selvagem que vive nesta área remota no outro lado do lago. Algumas pessoas pensam que eles são monstros. Aparentemente, existem muitas lendas sobre as estranhas criaturas da montanha, trolls, demônios e essas coisas. Mas Shigeru acha que isso é superstição. Ele acredita que os Hasanu são humanos. Eles são gente simples. Dizem ser muito mais altos que a média nihon-jin e cobertos de longos pelos avermelhados.
— Como atrativo  Alyss comentou.
Evanlyn permitiu um breve sorriso.
— Sim. Mas eles são aparentemente muito fiéis a seu senhor, um nobre chamado Senshi Nimatsu, que é leal a Shigeru. E eles são guerreiros bastante formidáveis  acrescentou de forma significativa.
— Hmmm. Então se Shigeru pudesse recrutá-los, ele pode ter uma força razoável para envolver Arisaka  Alyss disse.
Como os araluenses, ela estava consciente das deficiências dos Kikori como guerreiros.
— Há muitos deles?
— Milhares. Essa é a beleza disso. Há uma abundância de clãs fiéis a Shigeru que seriam contrários as Arisaka, mas todos eles estão em pequeno número e não estão organizados. Arisaka é suportado por seu próprio clã, o Shimonseki, e outro, o clã Umaki.
— Numericamente, são os dois maiores clãs do país, então ele tem um forte e coordenado poder de base. Mas, se pudéssemos chamar os Hasanu para ajudar, nós teríamos Arisaka em desvantagem numérica. Ou eu posso encorajar os outros clãs a defender Shigeru. O único problema é...
Evanlyn fez uma pausa e Alyss terminou por ela.
— Os Hasanu estão do outo lado desse enorme lago.
— Isso está certo. E o caminho ao redor do lago passa por montanhas ainda mais selvagens do que as daqui. Shigeru diz que seriam necessários pelo menos dois meses para chegar lá e outros dois pra voltar.
— Por esse tempo, as coisas por aqui teriam acabado  disse Alyss e Evanlyn balançou a cabeça, sem palavras.
As duas estudaram o mapa em silêncio por alguns minutos. Então Alyss disse lentamente:
— Por que não tomar a ideia de Halt? Ir pelo lago, e não em torno dele.
Ela estava se referindo à tática de velejar para o norte ao longo da costa de Iwanai em vez de viajar duramente durante semanas sobre as montanhas. Mas agora Evanlyn apontou a falha evidente em seu plano.
— Nós poderíamos fazer isso se tivéssemos um navio — replicou ela, mas Alyss sacudiu a cabeça, sua excitação aumentando conforme a ideia crescia.
— Nós não precisamos de um navio. Precisamos de um caiaque.
— Um o quê?  Evanlyn perguntou.
O termo era desconhecido para ela.
Alyss tomou o pincel dela e começou a esboçar rapidamente à margem do mapa, definindo o esboço de um barco comprido e estreito.
— Um caiaque. É um barco pequeno e leve, com estrutura de madeira e uma cobertura de tecido oleada ou de lona. Os escandinavos o usam para pescar. Eu tenho atualmente um em Redmont. Uso nos rios e lagos de lá. É um ótimo exercício a adicionou.
Evanlyn estudou o áspero desenho criticamente.
— Você poderia construir um?  Ela perguntou.
— Não.
O espírito de Evanlyn afundou somente para subir novamente quando Alyss continuou.
— Mas aposto que os Kikori podem, se eu mostrar a eles a ideia geral — ela puxou o mapa a seu redor, para que pudesse vê-lo mais claramente e traçar um caminho através do lago com o dedo indicador. — Nós poderíamos fazer isso em estágios fáceis. Há muitas ilhas onde poderemos acampar à noite.
— Nós?  Evanlyn perguntou e Alyss olhou para ela para satisfazer seu olhar.
— Bem, é claro “nós”. Eles vão precisar de todos os homens disponíveis que tem aqui uma vez que o exercito de Arisaka chegar. Não há realmente muita coisa que podemos fazer aqui.
Ela viu que Evanlyn estava pra protestar e continuou rapidamente.
— Oh, eu tenho certeza que você poderia derrubar alguns deles com seu estilingue. Mas se fizéssemos isso, estaríamos fazendo algo muito mais valioso! Vamos lá — disse após uma breve pausa — no fundo da sua mente você sempre teve a intenção de fazer isso, não é?
— Suponho que sim  Evanlyn respondeu.
— Então vamos fazer isso juntas! Eu vou com você. Você pode precisar de um intérprete e posso lidar com um caiaque. Além disso, não vai precisar de uma escolta, se fizermos isso dessa maneira. Nós vamos estar perfeitamente seguras no lago e isso significa que não vamos deixar Halt e os outros de mãos atadas.
Evanlyn pensou por alguns segundos, depois sacudiu os ombros, chegando a uma decisão.
— Por que não?  Então ela pensou mais. — Eu me pergunto o que Halt vai dizer quando colocarmos isso pra ele.
Alyss encolheu de ombros.
— Bem, é uma ideia bem lógica, ele dificilmente pode dizer não, pode?


— Não!  respondeu Halt. — Não, não, não, e, no caso de você ter perdido a primeira vez, não!
— Por que não?  Evanlyn rebateu, erguendo a voz em um tom que indicava raiva. — É uma solução perfeitamente lógica.
Halt considerou como se ela tivesse perdido os sentidos.
— Você pode imaginar o que o seu pai vai dizer pra mim se ele ouvir que eu deixei você ir correndo para ir nessa expedição mal planejada?
Evanlyn encolheu os ombros.
— Bem, para começar, não é mal planejada.
De fato, ela e Alyss tinham sentado na maior parte da noite anterior, anotando detalhes e equipamentos que seriam necessários para a viagem.
— E em segundo lugar, se não fizermos isso, meu pai nunca vai ouvir falar disso de qualquer maneira, porque estaremos todos mortos.
— Não seja ridícula!  Halt bufou.
— Halt, você tem que encarar os fatos  Alyss colocou. — Evanlyn está certa, Se nós não conseguirmos ajuda, Arisaka vai invadir esse lugar no verão. Oh, nós vamos segurar por um tempo, é claro. Mas, mais cedo ou mais tarde, seus homens irão romper. Esta é a única chance.
— Eu esperava mais senso de você, Alyss  disse ele firmemente. — Eu sei que Evanlyn tende a sair em ideias malucas, mas estou surpreso com você. O que você acha que Pauline diria sobre isso?
O rosto de Alyss queimava enquanto ele falava. Então ela respondeu, medindo suas palavras com cuidado para a raiva não pegar o melhor delas.
— O que você diria para Pauline se essa ideia fosse sua?  ela respondeu.
Halt hesitou. Todos sabiam que ele nunca se atrevia a dizer que Pauline era imprudente ou maluca.
Vendo sua hesitação, Alyss continuou rapidamente.
— Diga-me, Halt, além da sua preocupação conosco, qual é a falha neste plano?
Ele abriu a boca para responder, depois parou novamente. Verdade seja dita, não havia nenhuma falha, que não o fato de que ele odiava ver as meninas se colocando em perigo.
Ele olhou para elas por alguns segundos e percebeu que esse fato não era uma razão suficientemente boa para rejeitar o plano. Ambas as meninas tinham estado em situações perigosas antes. Ambas estariam em situação perigosa novamente.
Nenhuma delas estava recolhendo violetas. E Evanlyn estava certa. Se ela e Alyss forem, não estariam tomando nenhum combatente longe do vale. Elas precisariam de ajuda para escalar o penhasco escarpado que levava até o lago. Mas uma vez que isso fosse feito, os Kikori que ajudaram poderiam voltar.
— Eu só... Eu... Eu não gosto disso — respondeu.
Evanlyn se aproximou e colocou a mão sobre a dele.
— Nós não pedimos que você gostasse  ela afirmou. — Eu não gosto da ideia de que nós vamos deixar você, Horace e Will para lutar com Arisaka junto com um bando de lenhadores meio treinados como exército. Estes são tempos difíceis e temos que tomar decisões duras.
Ele soltou um suspiro profundo. As garotas estavam certas e ele sabia disso.
— Tudo bem  disse ele.
As duas faces a frente dele foram subitamente envoltas em sorrisos de excitação e ele acrescentou pesadamente:
— Mas Deus me ajude quando Will e Horace souberem disso.
Seja qual fosse a resposta das garotas, foi cortada pelo som de gritos fora da cabana de Halt. Então a porta se abriu e um jovem Mikeru explodiu para dentro, muito animado para apresentar a normalmente impecável maneira dos nihon-jins.
— Halto-san! Venha rápido! Os homens de Arisaka estão aqui!

4 comentários:

  1. Karina, achei um erro de digitação neste capítulo:
    " Mas eles são aparentemente muito fiéis ao seu SWENHOR (SENHOR)."
    :D

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  2. — Bem, é uma ideia bem lógica, ele dificilmente pode dizer não, pode?


    — Não! — respondeu Halt. — Não, não, não, e, no caso de você ter perdido a primeira vez, não!

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Boa leitura :)