30 de janeiro de 2017

Capítulo 30

Após duas semanas de avanços através das planícies abertas e enlameadas, Elide estava cansada de usar o nome de sua mãe. Cansada de estar constantemente em alerta para ouvi-lo se chamado por Molly para fazer a limpeza depois de cada refeição (um erro, em dúvida, ter contado à mulher que ela tivera experiência em lavar pratos em grandes cozinhas), cansada de ouvir Ombriel – a bonita de cabelos escuros que não era em si parte da trupe, mas a sobrinha de Molly e sua contadora – usá-lo quando perguntava sobre como ela machucara a perna, de onde sua família vinha, e como ela aprendeu a observar os outros tão profundamente que podia ganhar uma moeda como vidente.
Pelo menos Lorcan mal o utilizava, já que mal se falavam, enquanto a caravana se arrastava pelos campos carregados de lama. O chão estava tão saturado com as chuvas diárias das tardes de verão que os vagões muitas vezes ficavam atolados. Eles mal tinham coberto qualquer distância que contasse, e quando Ombriel pegava Elide olhando para o norte, ela perguntava – outra pergunta recorrente – o que havia no norte que chamava a sua atenção com tanta frequência. Elide sempre mentia, sempre evitava. A questão sobre Elide dormir com seu marido, felizmente, foi mais facilmente evitada.
Com a terra encharcada, dormir era quase impossível. Assim, as mulheres se colocavam aonde quer que pudessem nos dois vagões, deixando os homens para recolher palha todas as noites e ver quem receberia qualquer espaço remanescente e quem dormiria no chão, sobre uma cama improvisada de juncos. Lorcan, de alguma forma, sempre era quem conseguia a palha mais curta, fosse por seus próprios dispositivos, prestidigitação de Nike, que dirigia a segurança e a distribuição de palha durante as noites, ou simplesmente por pura má sorte. Mas pelo menos isso manteve Lorcan longe, muito longe dela, e manteve as suas interações ao mínimo.
As poucas conversas que tinham – quando ele a acompanhava para tirar água de um córrego ou juntar qualquer lenha que pudesse ser encontrada na planície – também não a incomodavam muito. Ele a pressionava por mais detalhes de Morath, mais informações sobre as vestimentas dos guardas, os exércitos acampados em volta, os criados e as bruxas.
Ela começou pelo topo da fortaleza – com os ninhos, serpentes aladas e bruxas. Então desceu, andar por andar. Levou essas duas semanas para trabalhar seu caminho até os andares inferiores, e os seus companheiros não tinham ideia de que quando o jovem casal, escapava para buscar mais lenha, palavras doces sussurradas eram a última coisa em suas mentes.
Quando a caravana parou naquela noite, Elide apontou para um bosque de árvores no coração do campo para ver o que poderia ser usado na grande fogueira que montariam. Lorcan arrastou-se a seu lado, tão silencioso quanto a grama sibilante ao redor deles. O ruído dos cavalos e os sons de seus companheiros preparando o jantar desvaneceu-se atrás, e Elide franziu o cenho quando sua bota afundou em uma poça de lama. Ela puxou a perna, o tornozelo doendo por apoiar o seu peso, e cerrou os dentes até...
A magia de Lorcan empurrou sua perna por baixo, uma mão invisível liberando sua bota, e ela caiu contra ele. Seu braço e sua lateral eram tão duros e inflexíveis quanto a magia que ele tinha usado, e ela se afastou, grama alta farfalhando debaixo dela.
— Obrigada — ela murmurou.
Lorcan seguiu em frente e falou, sem olhar para trás:
— Ontem à noite nós paramos nas três masmorras e suas entradas. Conte-me sobre o que há dentro delas.
Sua boca ficou seca, enquanto ela se lembrava da cela onde esteve, a escuridão e falta de ar...
— Eu não sei o que tem dentro — ela mentiu, seguindo-o. — Pessoas sofrendo, sem dúvida.
Lorcan se abaixou, a cabeça escura desaparecendo sob o mato. Quando saiu, dois galhos ocupavam suas mãos enormes. Ele os quebrou com pouco esforço.
— Você descreveu tudo sem nenhum problema. No entanto, o seu cheiro mudou agora. Por quê?
Ela passou por ele, inclinando-se de novo e de novo para coletar quaisquer ramos que pudesse encontrar.
— Eles fizeram coisas horríveis lá embaixo — ela falou por sobre um ombro. — Às vezes dava para ouvir as pessoas gritando.
Ela rezou para Terrasen ser melhor. Tinha que ser.
— Quem eles queriam torturar? Soldados inimigos?
Aliados potenciais, sem dúvida, para o que ele planejava fazer.
— Quem quer que eles queiram torturar — as mãos dos guardas, suas zombarias... — Suponho que você vá embora assim que eu terminar de descrever o último poço de Morath? — ela coletou madeira após madeira, seu tornozelo objetando a cada mudança no seu equilíbrio.
— Algum problema se eu for? Esse foi o nosso trato. Eu fiquei mais tempo do que pretendia.
Ela se virou, encontrando-o com uma braçada de galhos maiores. Ele sem cerimônia atirou-os na pequena pilha em seus braços e soltou a machadinha de sua cintura antes de girar para o galho curvo e caído atrás dele.
— Então eu apenas fingirei ser a esposa abandonada?
— Você já está fingindo ser vidente, então que diferença faz ter outro papel para interpretar? — Lorcan trouxe seu machado para baixo em cima da madeira com um sólido tchec! A lâmina afundou profundamente, a madeira gemeu. — Descreva as masmorras.
Era justo, e esse tinha sido o acordo, depois de tudo: a proteção e a ajuda dele para tirá-la do perigoso caminho, em troca do que ela sabia. E ele fora complacente em todas as mentiras que ela inventara por sua companhia – calado, mas seguiu em frente com elas.
— As masmorras se foram — Elide conseguiu dizer. — Ou a maioria delas devem ter ido. Junto com as catacumbas.
Tchec, tchec, tchec. Lorcan cortou o galho, a madeira produzindo lascas com um grito. Ele começou a cortar outra parte.
— Levadas pela explosão? — ele levantou seu machado, os músculos poderosos de suas costas movendo-se sob a camisa escura, mas fez uma pausa. — Você disse que estava perto do pátio quando a explosão aconteceu, como sabe que as masmorras se foram?
Bem. Ela tinha mentido sobre aquilo. Mas...
— A explosão veio das catacumbas e derrubou algumas das torres. Seria de se supor que masmorras estaria em seu caminho, também.
— Eu não faço planos com base em suposições — ele retomou o trabalho de cortar os ramos, e Elide revirou os olhos atrás dele. — Diga-me a disposição da masmorra ao norte.
Elide voltou-se para o sol poente colorindo os campos com laranja e dourado além deles.
— Imagine você mesmo.
O baque de metal contra madeira foi interrompido. Até o vento sobre a grama morreu. Mas ela superara a morte, o desespero e o terror, e já havia dito o suficiente, dobrado sobre cada pedra horrível, olhado em torno de cada canto escuro de Morath para ele. Sua grosseria, sua arrogância... Ele poderia ir para o inferno.
Ela mal dera um passo por entre o mato balançando quando Lorcan se pôs à sua frente, não mais do que uma sombra letal por si mesmo. Até mesmo o sol parecia evitar as grandes partes planas de seu rosto bronzeado, embora o vento ousasse bagunçar os fios pretos de seda de seu cabelo.
— Temos um trato, garota.
Elide encontrou aquele olhar sem profundidade.
— Você não especificou quando eu tinha que lhe dizer. Então eu posso demorar tanto tempo quanto eu quiser para recordar os detalhes, se você deseja tirar cada um deles de mim.
Seus dentes reluziram.
— Não brinque comigo.
— Ou o quê? — Ela o contornou como se ele não fosse mais do que uma rocha em um córrego. Claro, caminhar com raiva era um pouco difícil quando sua perna mancava, mas ela manteve o queixo erguido. — Me mate, me machuque e você ainda não terá respostas.
Mais rápido do que ela pôde ver, os braços dele a apertaram na altura dos cotovelos.
— Marion. — Ele rosnou.
Aquele nome. Ela olhou para o seu rosto áspero, selvagem, um rosto nascido em uma época diferente, um mundo diferente.
— Tire suas mãos de mim.
Lorcan, para sua surpresa, o fez imediatamente. Mas seu rosto não mudou, nem um piscar de olhos, quando ele disse:
— Você vai me dizer o que eu quero saber...
A coisa em seu bolso começou a vibrar e bater, um fantasma de um coração em seus ossos.
Lorcan deu um passo para trás, suas narinas dilatando delicadamente. Como se ele pudesse sentir a pedra despertando.
— O que você é? — ele perguntou calmamente.
— Eu não sou nada — ela respondeu, a voz oca. Talvez quando encontrasse Aelin e Aedion, ela descobrisse algum propósito, alguma maneira de ser de útil para o mundo. Por enquanto, ela era uma mensageira, uma mensageira para entregar esta pedra a Celaena Sardothien. Seja lá como Elide encontraria uma pessoa neste vasto mundo infinito. Ela tinha que chegar ao norte e rapidamente.
— Por que você vai para Aelin Galathynius?
A questão era tensa demais para ser casual. Não, cada centímetro do corpo de Lorcan parecia contido. Raiva controlada e instintos predatório.
— Você conhece a rainha — ela respirou.
Ele piscou. Não com surpresa, mas para comprar tempo. Ele a conhecia – e estava considerando o que lhe dizer, como dizer...
— Celaena Sardothien está a serviço da rainha. Seus dois caminhos são um. Encontre uma, e você encontrará a outra — ele fez uma pausa, esperando.
Seria esta a sua vida, então? Pessoas miseráveis, sempre buscando nos outros, cada bondade vindo a um custo? Será que sua própria rainha, pelo menos, olharia para ela com carinho nos olhos? Será Aelin ainda se lembraria dela?
— Marion — ele disse de novo, a palavra atada com um rosnado.
O nome de sua mãe. Sua mãe e seu pai. As últimas pessoas que tinham olhado para ela com afeição verdadeira. Mesmo Finnula, durante todos os anos trancadas naquela torre, sempre olhava para com alguma mistura de piedade e medo. Ela não conseguia se lembrar da última vez que foi abraçada. Ou consolada. Ou recebido um sorrido com todo o amor genuíno por quem ela era.
As palavras eram de repente difíceis, a energia para desenterrar uma mentira ou retrucar algo era demais para se preocupar. Então Elide ignorou a ordem de Lorcan e se dirigiu de volta para o agrupamento dos vagões coloridos.
Manon tinha ido buscá-la, recordou-se a cada passo. Manon, Asterin e Sorrel. Mas mesmo elas a deixaram sozinha na floresta.
Pena, lembrou a si mesma – autopiedade não lhe fariam bem nenhum. Não com tantos quilômetros entre ela e qualquer que fosse o mínimo de um futuro que ela tinha chance de encontrar. Porém mesmo quando ela chegasse, entregasse o seu fardo, e encontrasse Aelin... o que ela poderia oferecer? Ela não sabia nem ler, deuses acima. O simples pensamento de explicar tudo a Aelin, a alguém...
Ela pensaria sobre isso mais tarde. Ela lavaria a roupa da rainha se tivesse que fazê-lo. Pelo menos não tinha necessidade de ser alfabetizada para isso.
Elide não ouviu Lorcan desta vez quando ele se aproximou, braços carregados com toras maciças.
— Você vai me dizer o que sabe — ele falou por entre os dentes. Ela quase suspirou, mas ele acrescentou: — quando você estiver... melhor.
Ela supôs que, para ele, tristeza e desespero fossem algum tipo de doença.
— Certo.
— Certo. — Ele disse de volta.
Seus companheiros sorriam quando ela e Lorcan retornaram. Eles tinham encontrado terra seca do outro lado dos vagões sólida o suficiente para montar tendas.
Elide espiou a que tinha sido erguida para ela e Lorcan e desejou que chovesse.



Lorcan tinha treinado guerreiros o suficiente para saber quando não pressionar. Ele tinha torturado inimigos o suficiente para saber quando eles estavam a um passo de quebrar de maneira que se tornariam inúteis.
Então Marion, quando o cheiro dela tinha mudado, quando ele sentiu aquele estranho poder de outro mundo escondido quando ela se enterrou em tristeza... ou pior, falta de esperança...
Ele queria dizer a ela para não se preocupar em ter esperança de qualquer maneira. Mas ela mal se tornara mulher. Talvez a esperança, por mais tola que fosse, a tivesse tirado de Morath. Pelo menos sua inteligência, mentiras e tudo mais o fizeram.
Ele tinha lidado com número suficiente de pessoas, matado e derrubado e lutado ao lado de um número suficiente de pessoas para saber que Marion não era cruel, ou conivente, ou totalmente egoísta. Ele desejava que ela fosse, porque seria mais fácil – tornaria sua tarefa muito mais fácil.
Mas se ela não contasse a ele sobre Morath, se ele a quebrasse ao pressionar demais... Ele precisava de todas as vantagens quando entrasse naquela fortaleza. E quando saísse novamente.
Ela fizera isso uma vez. Talvez Marion fosse a única pessoa viva que tinha conseguido escapar. Ele estava prestes a explicar isso a ela quando viu o que ela fitava – a tenda.
A tenda deles.
Ombriel veio para a frente, tendo seu habitual olhar cauteloso ao cruzar com ele, e maliciosamente informou Elide que eles finalmente teriam uma noite sozinhos.
O braços cheios de toras, Lorcan apenas pôde ver aquele rosto pálido de tristeza e desespero transformar-se em jovem e travesso, para corar em antecipação, tão facilmente como se Marion tivesse erguido uma máscara. Ela até lançou-lhe um olhar de flerte antes de sorrir para Ombriel e correr para despejar sua braçada de gravetos e galhos no poço que tinham cavado para a fogueira da noite.
Ele teve o bom senso de, pelo menos, sorrir para a mulher que supostamente era sua esposa, mas quando ele a seguiu para largar o seu próprio fardo para a fogueira, ela já tinha se afastado para a tenda montada a uma boa distância das outras.
Era pequena, ele percebeu não com pouco horror. Provavelmente era do atirador de espadas que estivera ali pela última vez. A figura esguia de Marion deslizou através das abas de lona branca sem quase uma ondulação das portas. Lorcan apenas franziu um pouco a testa antes de abaixar para entrar.
E se manteve meio abaixado. Sua cabeça atravessaria a tela se ele estivesse em sua altura máxima. Esteiras encimando juncos reunidos cobriam o interior abafado, e Marion estava do outro lado da tenda, estendendo um colchão de viagem no chão improvisado. A tenda provavelmente tinha espaço suficiente para uma cama adequada e mesa, se fosse necessário, mas a menos que eles acampassem ali mais de uma noite, ele duvidava que conseguiria qualquer uma dessas coisas.
— Eu vou dormir no chão — ele ofereceu suavemente. — Você fica com o colchão.
— E se alguém entrar?
— Então vamos dizer que estamos brigados.
— Todas as noites? — Marion girou, seus olhos ricos encontrando os dele. O rosto frio e cansado estava de volta. Lorcan considerou suas palavras.
— Se alguém entrar em nossa barraca sem permissão esta noite, ninguém aqui cometerá o mesmo erro novamente. — Ele havia punido os homens em seus campos de guerra por menos.
Mas os olhos dela permaneceram cansados, completamente impassíveis e sem se impressionar.
— Certo — ela falou novamente.
Muito perto – muito perto da beira de se perder completamente.
— Eu poderia encontrar alguns baldes, água quente, e você poderia tomar banho aqui, se quiser. Eu fico de guarda.
Confortos do ser humano – para fazê-la confiar nele, ser grata a ele, querer ajudá-lo. Para diminuir essa fragilidade perigosa.
De fato, Marion olhou para si mesma. A camisa branca que vestia estava agora salpicada de sujeira, as calças de couro marrons estavam imundas, as botas...
— Eu vou oferecer a Ombriel uma moeda para lavar tudo para você hoje à noite.
— Eu não tenho outras roupas para vestir.
— Você pode dormir sem elas.
Desconfiança desapareceu em um reluzir de consternação.
— Com você aqui? — ele evitou a vontade de revirar os olhos.
— E quanto a suas próprias roupas? — ela deixou escapar.
— O que tem elas?
— Você... elas estão imundas, também.
— Eu posso esperar mais uma noite — ela provavelmente pediria para dormir no vagão se ele estivesse nu ali...
— Por que eu deveria ser a única nua? O ardil não funcionaria melhor se você e eu tivéssemos aproveitado a oportunidade de uma vez?
— Você é muito jovem — disse ele com cuidado. — E eu sou muito velho.
— Quão velho?
Ela nunca fizera perguntas.
— Velho.
Ela deu de ombros.
— Um corpo é um corpo. Você cheira tão mal quanto eu. Vá dormir lá fora se não for se lavar.
Um teste – não conduzido por qualquer desejo ou lógica, mas... para ver se ele iria ouvi-la. Quem estava no controle. Deixe-a ter um banho, fazer o que ela pediu... deixe-a ter um senso de controle sobre a situação.
Ele deu um sorriso fino.
— Certo — ele repetiu.
Quando Lorcan atravessou da tenda de novo, carregado água, ele descobriu Marion sentada no saco de dormir, sem botas, aquele tornozelo arruinado e os pés estendidos diante dela. Suas mãos pequenas estavam apoiadas na carne mutilada, descolorida, como se ela estivesse esfregando a dor para fora dele.
— Quão ruim isso lhe dói todos os dias? — Ele às vezes usava sua mágica para segurar o tornozelo. Quando ele se lembrava. O que não era frequente.
O foco de Marion, no entanto, foi direto para o caldeirão fumegante que ele tinha colocara no chão, em seguida, para balde que ele tinha transportado sobre um ombro para ela usar também.
— Eu o tenho desde criança — ela falou, distante, como se hipnotizada pela água limpa. Ela levantou-se sobre os pés tortos, encolhendo-se com a perna destruída. — Aprendi a viver com isso.
— Isso não é uma resposta.
— Por que você se importa? — as palavras eram pouco mais do que um suspiro enquanto ela desembaraçava seu longo e grosso cabelo, os olhos ainda fixos no banho.
Ele estava curioso, queria saber como, quando e porquê. Marion era bela, certamente estragá-la assim tinha sido feito com alguma má intenção. Ou para evitar algo pior.
Ela, finalmente, deu lhe um olhar.
— Você disse que ficaria de guarda. Pensei que você quisesse dizer lá fora.
Ele bufou. Realmente bufou.
— Divirta-se — disse ele, empurrando para fora da tenda, mais uma vez.
Lorcan estava na grama, monitorando o acampamento ocupado, o grande céu curvado escurecendo. Odiava as planícies. Muito espaço aberto, visibilidade demais.
Atrás dele, seus ouvidos captaram o suspiro e silvo de couro deslizando para baixo da pele, o farfalhar de tecido grosseiro sendo removida. Em seguida, mais sons fracos, suaves, de tecido mais delicado deslizando pela pele. Então silêncio seguido por um barulho muito, muito tranquilo. Como se ela não quisesse que nem mesmo os deuses ouvissem o que ela estava fazendo. Feno sendo triturado. Em seguida, o baque do colchão levantando e caindo.
A pequena bruxa estava escondendo algo. O feno estalou novamente quando ela voltou para o caldeirão. Escondendo algo sob o colchão, algo que ela estava carregando consigo e não queria que ele soubesse. Água espirrou e Marion deixou escapar um gemido de surpreendente profundidade e sinceridade. Ele se fechou o som. Mas assim que o fez, os pensamentos de Lorcan desviaram para Rowan e sua rainha cadela.
Marion e a rainha tinham mais ou menos a mesma idade – uma escura, outra dourada. Será que a rainha se incomodaria com Marion, uma vez que ela chegasse? Provavelmente, se sua curiosidade fosse aguçada sobre o motivo de ela desejar ver Celaena Sardothien, mas... e depois?
Não era problema dele. Ele tinha deixado a sua consciência sobre os paralelepípedos das ruas secundárias de Doranelle cinco séculos atrás. Vira homens mortos implorando por suas vidas, destruído cidades inteiras e nunca olhou para os escombros fumegantes.
Assim como Rowan. Deuses malditos, Whitethorn tinha sido o seu general, assassino e carrasco mais eficaz durante séculos. Eles haviam devastado os reinos e, depois, bebiam e se enchiam de estupor nos dias seguintes pelas longas celebrações nas ruínas.
Neste inverno, ele tivera um maldito comandante logo à sua disposição, brutal e cruel e disposto a fazer qualquer coisa que Lorcan ordenasse. Da última vez que vira Rowan, o príncipe rugia, desesperado para jogar-se na escuridão letal para salvar a vida de uma princesa sem trono. Lorcan soube naquele momento. Lorcan soube quando viu Rowan do lado de fora de Defesa Nebulosa, o príncipe lutando e gritando por Aelin Galathynius, que tudo estava prestes a mudar. Sabia que o comandante que valorizara estava mudado de forma irrevogável. Não mais se encheriam de vinho e de mulheres; Rowan não olharia mais para um horizonte sem algum lampejo de desejo em seus olhos.
O amor tinha quebrado uma ferramenta assassina perfeita. Lorcan se perguntou quantos séculos levaria para parar de ficar tão zangado com isso.
E a rainha – princesa, o que quer que Aelin se chamasse... ela era uma tola. Ela poderia ter trocado o anel de Athril pelos exércitos de Maeve, por uma aliança para limpar Morath da terra. Mesmo sem saber o que o anel era, ela poderia tê-lo usado para sua vantagem. Mas ela tinha escolhido Rowan. Um príncipe sem coroa, nenhum exército, sem aliados.
Eles mereciam perecer juntos.
A cabeça molhada de Marion saiu da tenda, e Lorcan se virou para ver o pesado cobertor de lã em volta dela como um vestido.
— Você pode levar as roupas agora? — ela jogou uma pilha para fora. Ela tinha empacotado as em sua camisa branca, e os couros... elas não estariam secos antes da manhã, e provavelmente encolheriam além do uso, se lavados de forma inadequada.
Lorcan se inclinou, pegando a trouxa de roupa e tentando não espiar para dentro da tenda para ver o que ela escondera sob o saco de dormir.
— E quanto a guarda?
Seu cabelo estava grudado na cabeça, destacando os traços nítidos de suas maçãs do rosto, o nariz fino. Mas seus olhos estavam brilhantes de novo, seus lábios cheios, mais uma vez como um botão de rosa, enquanto ela respondia:
— Por favor, leve-as para lavar. Logo.
Lorcan não se preocupou em confirmar enquanto levava as roupas dela para longe da tenda, deixando-a permanecer em nudez parcial no interior. Ombriel estava cozinhando o que quer que houvesse numa panela sobre o fogo. Guisado de coelho, provavelmente. De novo. Lorcan examinou as roupas em suas mãos.
Trinta minutos depois, ele voltou para a tenda, um prato de comida na mão. Marion estava empoleirada no saco de dormir, o pé esticado diante dela, o cobertor preso sob os ombros.
Sua pele era tão pálida. Ele nunca tinha visto uma pele tão imaculadamente branca. Como se nunca tivesse sido deixada de fora.
Suas sobrancelhas escuras franziram-se para o prato, então para a trouxa debaixo do braço dele.
— Ombriel estava ocupada, então eu lavei suas roupas.
Ela corou.
— Um corpo é um corpo — ele repetiu simplesmente a ela. — Assim como são as roupas de baixo.
Ela franziu a testa, mas sua atenção estava novamente fixa no prato. Ele colocou-o diante dela.
— Trouxe o seu jantar, já que supus que você não iria querer se sentar entre todos de cobertor — ele jogou a pilha de roupas no colchão dela. — E trouxe roupas para você de Molly. Ela está cobrando, é claro. Mas pelo menos você não vai dormir nua.
Ela devorava o ensopado sem nem agradecer-lhe. Lorcan estava prestes a sair quando ela falou.
— Meu tio... Ele é um comandante em Morath.
Lorcan congelou. Olhou direto para o saco de dormir. Mas Marion continuou entre mordidas.
— Ele... me trancou na masmorra uma vez.
O vento lá fora morreu; a fogueira muito além da tenda deles piscou, as pessoas amontoadas em torno dela se aproximaram enquanto os insetos noturnos ficaram em silêncio e as pequenos criaturas peludas das planícies se esconderam em suas tocas.
Marion tampouco notou o aumento do seu poder escuro, a própria magia beijada pela morte, ou não se importou.
— O nome dele é Vernon — ela falou — ele é inteligente e cruel e provavelmente vai tentar mantê-lo vivo se você for apanhado. Ele controla as pessoas a ganhar poder para si mesmo. Ele não tem misericórdia, nem alma. Não existe um código moral que o guie.
Ela voltou para sua comida, terminada pela noite.
— Gostaria que eu o matasse por você? — Lorcan perguntou calmamente.
Seus olhos límpidos e escuros se ergueram para o rosto dele. E por um momento, ele põde ver a mulher que ela se tornaria – já estava se tornando. Alguém que, independentemente de onde nascera, qualquer rainha seria premiada ao tê-la a seu lado.
— Haveria um custo? — Lorcan escondeu seu sorriso. Inteligente, bruxinha astuta.
— Não — ele respondeu, e quis dizer isso. — Por que ele a trancou na masmorra?
A garganta branca de Marion se moveu uma vez. Duas vezes. Ela parecia segurar o olhar por pura força de vontade, através de uma recusa de recuar a partir dali, a partir de seus próprios medos.
— Porque ele queria ver se sua linhagem podia ser cruzada com os valg. Foi por isso que fui trazida para Morath. Para ser criada como uma égua premiada.
Cada pensamento esvaziou da cabeça de Lorcan. Ele tinha visto, aplicado e suportado muitas, muitas coisas indizíveis, mas isso...
— Ele teve sucesso? — ele conseguiu perguntar.
— Não comigo. Havia outras antes de mim que... a ajuda veio tarde demais para elas.
— Aquela explosão não foi acidental, foi? — um pequeno aceno de cabeça. — Você fez isso?
Ele olhou para o saco de dormir, para o que quer que ela escondeu ali embaixo. Mais uma vez ela balançou a cabeça.
— Eu não vou dizer quem, ou como. Não sem arriscar as vidas das pessoas que me salvaram.
— Os ilken são...
— Não. Os ilken não são as criaturas que foram criadas nas catacumbas. Esses... esses vieram das montanhas ao redor de Morath. Através de métodos muito mais escuros.
Maeve tinha que saber. Ela tinha que saber o que estavam fazendo em Morath. Os horrores sendo criados lá, o exército de demônios e bestas para rivalizar com qualquer lenda. Ela nunca se aliaria com tamanho mal – nunca seria tola o suficiente para se aliar com os valg. Não quando ela guerreou com eles milênios atrás. Mas se ela não lutasse... quanto tempo levaria para que esses animais estivessem uivando sobre Doranelle? Antes que fosse seu próprio continente fosse sitiado? Doranelle poderia aguentar. Mas ele provavelmente seria morto, uma vez que ele encontrasse alguma maneira de destruir as chaves e Maeve o punisse. E com ele morto e Whitethorn provavelmente virando carniça, também... quanto tempo Doranelle duraria? Décadas? Anos?
Uma pergunta prendeu-se na mente de Lorcan, puxando-o para o presente, para a pequena tenda abafada.
— Seu pé foi arruinado faz anos, entretanto. Ele trancou-a na masmorra por tanto tempo?
— Não — ela respondeu, nem sequer vacilando por sua descrição áspera. — Eu fiquei na masmorra por uma semana. O tornozelo, a prisão... Ele fez isso comigo há muito tempo.
— Que prisão?
Ela piscou. E ele sabia que ela tinha a intenção de evitar contar-lhe esse detalhe em particular. Mas agora que ele olhava... ele podia distinguir, entre a massa de cicatrizes, uma faixa branca. E lá, em torno do seu tornozelo lindo e perfeito, estava uma irmã gêmea.
Um vento misturado com a poeira e a frieza de um túmulo rodou pela campina.
— Quando matar meu tio, pergunte a ele você mesmo — Marion limitou-se a dizer.

16 comentários:

  1. Shippo muito kkkkkkkkk
    Espero não ser retardada por isso

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    1. #LiberdadeDeShip Pela liberdade de shippar quem eu quiser!!!
      hahahahahha shippo muito tbm.....

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    2. Se quer liberdade de ships use TIM ouvi falar que ele é sem fronteiras.
      Ba dum tss... Foi mal!

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  2. Só mais um capitulo, eu prometo...

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    1. Sempre a mesma história... Boa sorte com isso 🌚

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  3. Lorcan está me lembrando Rowan quando começou a ganhar afeto por Aelin, quando ele viu as marcar em suas costas. Definitivamente isto é um mega shippo lorcan + elide = elican. 😍😍😍
    Anna!!!

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  4. ja to shippando espero n ser tombada

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  5. loide lorde eliorcam qual o shipper

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  6. Só mas um capítulo 😍
    Ass: Milly

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  7. Se Rowan, Fenryr e Graviel matar o Lorcan, eu mesmo vou matar eles e nem quero saber se eles são feéricos imortais u.u vai roda todo mundo u.u

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  8. Eu to pulando esses capitulos longos de Elide com Lorcan.. Ta chatinho 😛

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Boa leitura :)