26 de janeiro de 2017

Capítulo 3

Toscana

Um comando soou pelo campo de exercícios e Will observou o telhado de escudos desaparecer enquanto os legionários abaixavam-se de volta à posição normal.
Aí, em resposta a outro comando, a segunda e terceira filas deram um passo para trás. Cada homem carregava uma comprida lança em adição à curta espada que usava no lado direito. Agora, os homens na fila de trás inverteram o aperto, trocaram o lado e levantaram as lanças para a posição de lançamento, os braços direitos nas costas, as lanças equilibradas no ombro direito deles, mirando para cima num ângulo de aproximadamente quarenta graus.
— Azione!
Trinta e três braços direitos avançaram, trinta e três pernas direitas fizeram o mesmo e o voo de lanças ocorreu em forma de arco na direção dos alvos de madeira. Elas ainda estavam no meio do caminho quando a segunda fila repetiu a ação, mandando outros trinta e três projéteis planando.
Não havia um alvo individual – cada homem simplesmente lançava a sua arma para a massa de alvos na frente dele. Will percebeu que, numa verdadeira batalha, a distância ideal seria decidida pelo comandante, que estava gritando as ordens.
A primeira saraivada subiu em arco, depois se lançou para baixo enquanto as pesadas cabeças de ferro das lanças sobreviviam à força do lançamento.
Houve um retumbante estrondo de lasca quando as lanças caíram. Metade delas acertou o chão inocentemente. A outra metade esmagou-se nos leves alvos de madeira, derrubando-os ao chão. Alguns segundos depois, o segundo voo chegou, com resultados similares. Dentro do espaço de poucos segundos, quase um terço da centena de alvos havia sido quebrado e destruído.
— Interessante  disse Halt brandamente.
Will olhou de rápido relance para ele. O rosto de Halt estava impassível, mas Will conhecia-o muito bem. Halt estava impressionado.
— O primeiro golpe é geralmente decisivo  Sapristi disse a eles. — Guerreiros que nunca lutaram antes com a nossa legião são abalados por essa repentina devastação.
— Posso imaginar  disse Selethen.
Ele estava observando severamente e Will supôs que imaginava aquelas mortais lanças indo ao encontro da ágil cavalaria dele.
— Mas hoje, para o fim da demonstração, o nosso “inimigo” será dominado por fúria e continuará com o ataque  continuou o general.
Enquanto ele falava, a selvagem massa de guerreiros inimigos aproximou-se do ponto onde os alvos haviam sido atacados com brutalidade e estilhaçados. Agora eles brandiam as espadas e avançaram na direção do muro de escudos.
O sólido estrondo quando eles acertaram o muro foi carregado claramente para os observadores. A fila frontal oscilou um pouco com o impacto inicial. Então ela se firmou e segurou-se rapidamente. Olhando cuidadosamente, Will pôde ver que a segunda fileira havia cessado e estava na verdade empurrando os colegas para frente, ajudando-os contra o impacto inicial do avanço.
As espadas dos membros da tribo açoitaram-se balançando arcos nos grandes escudos quadrados. Mas, na maior parte, eles eram ineficientes – e estavam indo um na direção do outro. Em contraste, as curtas espadas de prática de madeira dos legionários começaram a se mover como línguas de serpentes pelas estreitas aberturas no muro de escudos, e os observadores podiam ouvir os berros de raiva e dor dos atacantes. A demonstração poderia estar usando armas de madeiras cegas, mas aqueles impactos de golpe seriam dolorosos e os legionários não estariam se contendo.
— Como eles conseguem ver?  perguntou Will.
Os homens na fila frontal estavam bem agachados atrás da barreira formada pelos escudos.
— Eles não conseguem ver muito bem  falou Sapristi para eles. — Eles veem uma perna ocasional, braço ou tronco pelos buracos e eles os apunhalam. Afinal, um homem golpeado na coxa ou no braço é devolvido tão ineficaz quanto um homem apunhalado no peito. As nossas tropas apenas se jogam para frente, golpeando e apunhalando qualquer coisa que veem no outro lado dos escudos.
— É por isso que seus homens não precisam ser espadachins experientes — disse Will.
O general abriu um sorriso largo para ele.
— Exato. Eles não têm que aprender técnicas avançadas para golpear, aparar golpes e revidar os golpes. Só apunhalam e golpeiam com a ponta da espada. É uma técnica simples de aprender e alguns centímetros da ponta só causam tanto dano quanto uma larga investida. Agora observe enquanto a segunda fila acrescenta o peso dela no avanço.
A fila frontal perfeitamente alinhada estava margeando lentamente para frente, abarrotando-se no inimigo e forçando-o a recuar. Agora, a segunda fila de repente investiu, mais uma vez acrescentando o peso e impulso deles àqueles dos homens na frente, e a pressão extra mandou o inimigo cambaleando para trás, esbofeteados e empurrados pelos grandes escudos, acertados e fustigados pelas curtas espadas que foram arremessadas. Aí, tendo conquistado um breve intervalo, a formação parou. Um longo som de apito soou e a segunda fila virou-se para que eles ficassem virados de costas com a fila frontal. Outro sinal do apito e a fila frontal virou para a esquerda, enquanto a segunda fila virou para a direita. Cada par de homens caminhou para um pequeno meio-círculo.
Dentro de alguns segundos, a fila frontal havia sido substituída, todos de vez, pelos homens novos da segunda fila. Os antigos homens da fila frontal passaram para trás pela terceira fila, que pegaram os seus lugares atrás da nova fileira frontal. Os atacantes agora encaravam oponentes completamente novos, enquanto a antiga fila frontal tinha uma chance de se recuperar e restabelecer as suas baixas.
— É brilhante  disse Will.
Sapristi assentiu para ele.
— É eficiência e coordenação  falou. — Os nossos homens não precisam ser espadachins experientes. Isso leva uma vida inteira de treino. Precisam ser eficazes e trabalhar como um time. Mesmo um guerreiro relativamente inábil pode ser eficaz nessas condições. E não leva muito tempo para aprender.
— E é por isso que você mantém um exército tão grande  falou Halt.
Sapristi trocou o olhar para o arqueiro mais velho.
— Exatamente — respondeu.
A maioria dos países mantinha um relativamente pequeno exército efetivo de guerreiros experientes enquanto o núcleo desses exércitos, chamando homens menos experientes aos grupos a fim de preencher os números em tempo para a guerra. Os toscanos, porém, precisando manter a ordem no extenso império deles, precisavam ter um grande exército permanente para ser solicitado sempre.
Selethen apalpou o queixo pensativamente. A mão esquerda dele devaneara inconscientemente até o punho de sua espada enquanto observava. Sapristi lançou os olhos para ele, satisfeito em ver que a demonstração tivera um efeito sóbrio no líder arridi. Não doía, pensou Sapristi, ao novo aliado da Toscana apreciar o poder das legiões toscanas.
— Vamos dar uma olhada nos resultados  disse Sapristi.
Ele se levantou e liderou o caminho de descida da plataforma de inspeção para o campo de exercícios, onde as duas forças, com a demonstração agora completa, se separaram. Os legionários ainda estavam nas fileiras medidas deles. A força de ataque vagueava num grupo frouxo.
— Nós tínhamos as espadas de práticas mergulhadas em tinta fresca, assim pudemos medir resultados  contou Sapristi.
Ele lidou o caminho até o grupo inimigo. Conforme se aproximavam, Halt e Will viram braços, pernas, troncos e pescoços respingados com manchas vermelhas. As marcas eram prova do número de vezes que as espadas de madeira dos legionários haviam encontrado a marca.
As espadas mais compridas dos atacantes foram revestidas com tinta branca. Olhando agora, os araluenses podiam apenas ver evidências ocasionais de que essas espadas haviam alcançado o objetivo. Havia padrões cruzados e manchas aleatórias de branco nos escudos e alguns dos elmos de latão dos legionários, mas a maioria dos homens na centúria estavam ilesos.
— Absolutamente eficaz — Selethen disse ao general. — Decerto, absolutamente eficaz.
A ágil mente dele já estava trabalhando, calculando modos para contra-atacar uma força de tal infantaria pesada como essa.
Era óbvio que Halt estava tendo pensamentos parecidos.
— Naturalmente, você escolheu perfeitas condições para a infantaria pesada aqui  falou ele, passando um braço pela extensão do campo de exercícios aberto e liso. — Num campo mais apertado, como uma terra florestal, vocês não seriam capazes de manobrar com tanta eficiência.
Sapristi assentiu em reconhecimento.
— Verdade  respondeu. — Porém, escolhemos os nossos campos de batalha e deixamos o inimigo vir até nós. Se eles não vierem, simplesmente invadimos as terras deles. Mais cedo ou mais tarde, eles terão que batalhar conosco.
Will vagara para longe do grupo e estudava uma das lanças. Era uma arma bruta, ele via. O cabo quadrado de madeira era brutalmente formada – simplesmente um pedaço de madeira firme bastante usual e minimamente adornado. A ponta era igualmente funcional. Uma haste grossa de ferro flexível, de aproximadamente meio metro de comprimento, martelada rasa num retalho e afiada numa ponta farpada. Um entalhe fora cortado em um lado da haste e a cabeça fora encaixada nele e amarrada no lugar com fios de latão.
Sapristi o viu olhando para ela e aproximou-se para juntar-se a ele.
— Elas não são bonitas  ele disse. — Mas funcionam. E são fáceis e rápidas de fazer. Na verdade, os soldados podem fazer as suas próprias em caso de emergência. Podemos criar milhões dessas em uma semana. E você viu como elas podem ser eficazes.
Ele indicou as fileiras de alvos esmagados e estilhaçados.
— É torta  disse Will criticamente, correndo a mão ao longo da cabeça de ferro distorcida.
— E pode ser endireitada facilmente e usada outra vez  o general disse. — Mas essa é na verdade uma vantagem. Imagine uma dessas acertando o escudo do inimigo. Ela penetra, e a farpa a prende no lugar. Então a cabeça se curva, de forma que o cabo esteja se arrastando no chão. Tente lutar efetivamente com quase dois metros de ferro e madeira se arrastando do seu escudo. Garanto-lhe, não é uma coisa fácil a ser feita.
Will sacudiu a cabeça, admirado.
— Isso tudo é muito prático, não é?
— É uma solução lógica ao problema de criar uma grande e eficiente força de batalha — contou Sapristi. — Se você fosse escolher qualquer um desses legionários para ir numa luta cara-a-cara contra um guerreiro profissional, eles iriam perder, provavelmente. Mas dê-me uma centena de homens inexperientes para eu ensinar por seis meses e os retornarei contra um número igual de guerreiros que estiveram treinando em combate individual a vida inteira.
— Então o sucesso é do grupo, e não individual?  perguntou Will.
— Exato  falou Sapristi. — E até hoje, ninguém apareceu com uma maneira de derrotar a nossa formação em batalha aberta.


— Como você faria isso?  Halt perguntou a Selethen naquela noite.
As negociações haviam sido finalizadas, combinadas, assinadas e testemunhadas. Houve um banquete oficial para celebrar o fato, com discursos e saudações em todos os lados. Agora Selethen e o grupo araluense estavam relaxando nos alojamentos dos araluenses. Seria a última noite deles juntos, como o wakir tinha que partir cedo na manhã seguinte.
Selethen trouxera alguns dos embrulhos de kafey de presente e ele, Will e Halt estavam saboreando as bebidas. Ninguém, pensou Will, fazia café tão bem quanto os arridis.
Alyss estava sentada perto da lareira, sorrindo para os três. Ela gostava de café, mas para os arqueiros, e aparentemente os arridis, beber café era algo próximo de uma experiência religiosa. Ela se contentou com uma taça de suco de frutas cítricas.
— Simples  disse Selethen. — Nunca os deixe escolherem as condições. Como Sapristi disse, eles nunca foram derrotados em batalha aberta. Então vocês precisam lutar com uma ação mais fluida contra eles. Capture-os quando estiverem em movimento e em fila. Acerte-os pelos flancos com rápidas investidas, antes que eles possam entrar na formação defensiva. Ou usem artilharia contra eles. Essa formação firme dirige-se a um alvo bastante compacto. Acerte-a com dardos pesados de um lançador ou rochas de catapultas e você começaria a perfurar buracos nela. Uma vez que a formação perde coesão, isso não é tão formidável.
Halt assentia.
— Eu estava pensando o mesmo  disse. — Nunca os confronte de frente. Se você puder lançar uma força de arqueiros por detrás deles sem eles perceberem, a formação de tartagura seria vulnerável. Mas, naturalmente  continuou Halt — eles contam com o senso de ultraje dos inimigos deles quando invadem um país. Pouquíssimos exércitos terão a paciência de iniciar uma batalha incessante, acossando e enfraquecendo-os ao longo de um período. Poucos líderes teriam a capacidade de convencer os seus seguidores de que esse jeito era o melhor. Um orgulho nacional forçaria a maioria a confrontá-los, a tentar forçá-los a recuar até a fronteira.
— E nós vimos o que acontece quando os confrontamos  disse Will. — Aquelas lanças eram eficazes.
Os homens mais velhos concordaram com a cabeça.
— Distância limitada, porém  disse Selethen. — Não mais do que trinta ou quarenta metros.
— Mas um pouco mortal àquela distância  falou Halt, concordando com Will.
— Para mim, parece  replicou Alyss alegremente — que o melhor curso a tomar seria a de uma negociação. Negociar com eles ao invés de lutar com eles. Use diplomacia, e não armas.
— Falou como uma verdadeira diplomata — Halt respondeu, dando a ela um dos seus raros sorrisos.
Ele tinha afeição a Alyss, e o vínculo dela com Will o deixava ainda mais disposto a gostar dela. Ela curvou a cabeça em falsa modéstia.
— Mas e se a diplomacia falhar?
Alyss insurgiu-se ao desafio sem hesitar.
— Então você pode sempre recorrer ao suborno  ela disse. — Um pouco de ouro nas mãos certas pode conseguir mais de uma floresta de espadas.
Os seus olhos cintilaram quando ela disse isso.
Selethen balançou a cabeça em admiração.
— Vocês, mulheres de Araluen, se dariam muito bem no meu país  falou ele. — O alcance das habilidades de negociação de lady Alyss é de primeira classe.
— Lembro-me que você não estava assim tão entusiasmado com as habilidades de negociação da princesa Evanlyn  falou Halt.
— Tenho de admitir que encontrei a minha igual ali  ele disse, triste.
Em seu primeiro encontro com os araluenses, ele tentara enganar Evanlyn na pechincha deles sobre um pagamento de resgate pelo oberjarl Erak. A princesa permanecera totalmente desenganada e tinha maravilhosamente levado a melhor em cima dele.
Alyss franziu a testa levemente à menção do nome de Evanlyn. Ela não era uma das maiores admiradores da princesa. Entretanto, recuperou-se rapidamente e sorriu de novo.
— Mulheres negociam bem  ela disse. — Preferimos deixar todos os suados detalhes desagradáveis de batalha para pessoas como a vossa...
Ela foi interrompida por uma discreta batida na porta. Já que essa era uma missão diplomática, ela era na verdade a líder do grupo de Araluen.
— Entre  chamou ela em resposta, depois acrescentou numa voz baixa para os outros: — Que será que aconteceu? Afinal, está um pouco tarde para visitas.
A porta abriu para admitir um dos seus servos. O homem olhou rapidamente a sala. Ele percebeu que estava interrompendo uma conversa entre a líder da missão, dois arqueiros e o representante de mais alto nível do grupo arridi.
— Minhas desculpas pela interrupção, lady Alyss...  começou incerto.
Ela tranquilizou-o com um aceno de mão.
— Tudo está perfeitamente bem, Edmund.
— Devo assumir que é importante?
O servo engoliu em seco, nervoso.
— Pode-se dizer que sim, milady. A princesa coroada Cassandra chegou e quer ver todos vocês.

6 comentários:

  1. kkkkkkkkkk; Esse confronto eu pago para vê!
    Ass: Bina.

    ResponderExcluir
  2. Será que Cassandra ainda gosta do Will ou agora gosta do Horace? Vai dar treta, ou elas vão se tolerar?

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)