26 de janeiro de 2017

Capítulo 2

Sul de Hackham Heath

— MAJESTADE! O FLANCO DIREITO ESTÁ EM PERIGO!
Duncan, o jovem Rei de Araluen, ouviu o arauto gritar acima do barulho da terrível batalha. O som de armas e escudos, os gemidos e soluços dos feridos e moribundos, os gritos de ordens dos comandantes para suas tropas se reagruparem e os gritos involuntários e inarticulados dos soldados enquanto eles cortavam, esfaqueavam e se lançavam, implacavelmente, sobre a formação inimiga. Uma quase ensurdecedora mistura de sons a seu redor.
Duncan deu mais uma estocada no Wargal que rosnava diante dele, sentiu a espada trespassar a carne e viu o rosnado mudar para uma expressão intrigada quando a criatura percebeu que já estava morta. Então ele deu um passo para trás, desvencilhando-se imediatamente da batalha – física e mentalmente.
Um jovem cavaleiro da Escola de Guerra de Araluen rapidamente tomou o seu lugar na linha, com a espada já se movendo em um arco assassino quando ele deu um passo a frente, cortando de um lado a outro a linha de frente dos Wargals, como uma foice em meio a grama alta.
Duncan descansou por um momento, apoiado em sua espada, respirando com dificuldade. Ele sacudiu a cabeça para clareá-la.
— Majestade! O flanco direito! — o arauto recomeçou, mas Duncan já acenava com a mão para pará-lo.
— Eu ouvi o que disse.
Já havia se passado três dias desde a batalha de Hackham Heath, onde o exército de Morgarath tinha sido acuado em um ataque surpresa, liderado pelo arqueiro Halt em sua retaguarda. Os inimigos estavam em plena retirada. Morgarath já deveria ter se rendido. Mas ele continuou resistindo, o que custava mais e mais baixas para ambos os lados. Mas o Lorde da rebelião nunca se preocupou em preservar vidas. Ele sabia que fora derrotado, mas ainda queria infringir a Duncan e seus homens o máximo de dano possível. Se eles tivessem de sair vitoriosos, que então pagassem muito caro por isso.
Com relação as suas próprias forças, ele pouco se importava com as perdas. Eram nada mais do que ferramentas para ele, e ele estava disposto a continuar jogando-os para cima do exército real, sacrificando centenas de tropas, mas causando centenas de mortes no processo.
Depois de três dias, ele recuou para sudoeste, onde o terreno passou a favorecê-lo, proporcionando uma série de selvagens e custosas batalhas. Ele havia selecionado muito bem o local para esta última batalha. Uma estreita planície entre duas colinas escarpadas, onde a chuva, recentemente, tinha afofado o terreno e impedido que Duncan utilizasse a sua cavalaria. De modo que sua infantaria fosse obrigada a se lançar em uma luta direta contra os Wargals, batendo e combatendo desesperadamente.
E, sempre à espreita, no fundo da mente de Duncan ele podia ver o exército Wargal tomando a frente mais uma vez, devido a um erro dele ou a um lance de sorte dos dados de Morgarath.
A sorte na batalha é uma amante inconstante e a guerra que Duncan tinha esperanças que terminasse em Hackham Heath ainda precisava ser ganha – ou perdida, devido a uma ordem descuidada ou uma manobra mal-considerada.
E este era um momento decisivo para Duncan. Tudo era relevante em uma situação como esta. E era vital que continuassem em frente. Fazendo-os recuar. Hesitar, mesmo que por alguns minutos, poderia reverter a vantagem a favor do inimigo.
Ele olhou para sua esquerda. O flanco deste lado, em sua maioria tropas de Norgate e Whitby, reforçado por tropas de alguns feudos menores, avançavam consistentemente.
No centro, os exércitos de Araluen e Redmont estavam tendo sucesso semelhante. O que já era esperado. Eles eram os dois maiores feudos do reino, a espinha dorsal do exército de Duncan. Seus cavaleiros e homens de armas eram os mais bem treinados e disciplinados.
Mas o flanco direito sempre tinha sido uma fraqueza em potencial. Era formado pelo conglomerado de feudos de Seacliff, Aspienne e Culway, e, como os três feudos tinham o mesmo tamanho, não estava claramente definido quem era o líder entre eles. Sabendo disso, Duncan havia nomeado o Mestre de Batalha Norman, de Aspienne, para ser o comandante. Norman era um líder experiente e era o mais capaz de unir forças tão díspares.
Como se estivesse lendo os pensamentos do Rei, o arauto falou novamente.
— O comandante Norman está morrendo, majestade. Uma explosão vinda do exército Wargal atravessou a linha de defesa e o acertou. Norman foi levado para a retaguarda, mas não sabemos quanto tempo de vida ainda tem. Os comandantes Patrick e Marat não sabem o que devem fazer a seguir, e Morgarath está se aproveitando disso.
Claro, Duncan pensou, Morgarath deve ter reconhecido as bandeiras dos feudos menores no flanco direito e imaginou uma possível confusão se o comandante fosse colocado fora de ação. E quando Norman estivesse fora de campo, o comandante rebelde sem dúvida enviaria uma de suas companhias de elite para atacar o flanco direito.
Um novo ímpeto, pensou Duncan. Só que desta vez estava trabalhando contra ele.
Duncan olhou atentamente para a luta no lado direito. Observou que a linha havia parado de se mover adiante e viu seus homens darem o primeiro passo hesitante para trás. Ele precisava de um comandante rápido que assumisse a liderança. Alguém que não hesitasse. Alguém com uma personalidade forte que motivasse as tropas e os fizessem avançar novamente.
Ele lançou um olhar ao redor. Arald de Redmont teria sido sua escolha. Mas Arald estava sendo atendido pelos curandeiros. Uma flecha de besta o tinha atingido na perna e ele estava fora de ação pelo resto da batalha. O jovem comandante de Arald, Rodney, tinha tomado o lugar dele e estava lutando furiosamente, instigando as forças de Araluen a avançarem. Ele também não poderia utilizá-lo.
— Eles precisam de um líder... — Duncan disse para si mesmo.
— Eu vou — uma voz calma falou atrás dele.
Duncan virou-se e encontrou os escuros e firmes olhos de Halt, o arqueiro. A barba e os cabelos escuros e mal aparados ocultavam a maior parte de seu rosto, mas seus olhos demonstravam firmeza e determinação. Este não era um homem de quem se questionava o comando ou que hesitava sobre o que tinha de fazer. Era um homem de ação.
Duncan assentiu.
— Vá em frente, Halt. Faça com que eles avancem novamente ou estaremos perdidos. Diga a Patrick e a Marat...
Ele não tinha escolha. Halt sorriu tristemente.
— Oh, eu vou dizer a eles, não se preocupe — Halt sorriu. Então girou sobre os calcanhares e montou no pequeno cavalo que estava parado à seu lado e partiu a galope em direção ao flanco direito.

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