30 de janeiro de 2017

Capítulo 29

Vários animais vagando pelas ruas a esta hora atrairiam o tipo errado de atenção.
Mas Aedion ainda desejava que a metamorfa estivesse usando pelos ou penas em comparação com... isto.
Não que ela ferisse os olhos como uma jovem ruiva de olhos verdes. Ela poderia se passar por uma das encantadoras donzelas das montanhas ao norte de Terrasen com aquela cor. Era o que Lysandra supostamente era, enquanto esperava dentro de um beco. Quem ele supostamente era, também. Lysandra se inclinou contra a parede de tijolos, um pé apoiado contra o muro para revelar uma parte da coxa cor de creme. E Aedion, com a mão apoiada na parede ao lado de sua cabeça, não era mais do que um cliente por uma hora.
Nenhum ruído no beco além de ratos rastejando atrás de frutas podres e descartadas. A Baía da Caveira era precisamente a bosta que ele esperava que fosse, até mesmo o seu lorde pirata. Que agora segurava involuntariamente o único mapa para o cadeado que Aelin fora ordenada a encontrar.
Quando Aedion se queixou de que, claro, era um mapa que eles não podiam roubar, Rowan foi quem sugeriu este... plano. Armadilha. Fosse o que fosse.
Ele olhou para a delicada corrente de ouro pendurada em torno da garganta pálida de Lysandra, traçando o seu comprimento na frente do corpete, onde o Amuleto de Orynth estava agora escondido embaixo.
— Admirando a vista?
Aedion ergueu os olhos das ondas generosas de seus seios.
— Desculpe.
Mas a metamorfa, de alguma forma, enxergou os pensamentos agitando-se em sua cabeça.
— Você acha que isso não vai funcionar?
— Acho que há uma abundância de coisas valiosas nesta ilha – por que Rolfe se preocuparia em ir atrás disso?
Tempestades, inimigos e tesouros – eram o que o mapa mostrava. E desde que ele e Lysandra não eram os dois primeiros... apenas um, ao que parece, seria capaz de aparecer no mapa coberto em mãos de Rolfe.
— Rowan afirmou que Rolfe acharia o amuleto interessante o suficiente para ir atrás dele.
— Rowan e Aelin têm uma tendência a dizer coisas cujo significado é completamente diferente — Aedion respirou fundo. — Já estamos aqui há uma hora.
Ela arqueou uma sobrancelha castanha.
— Você tem algum outro lugar para ir?
— Você está cansado.
— Estamos todos cansados — respondeu ela bruscamente.
Ele fechou a boca, não querendo ter a cabeça arrancada ainda. Cada mudança tirava algo de Lysandra. Quanto maior a mudança, maior o animal, maior o custo. Aedion testemunhara sua metamorfose de borboleta para abelha gigante e depois um beija-flor e um morcego dentro do espaço de poucos minutos. Mas ir de humano para leopardo fantasma, então para urso ou alce ou cavalo, como ela uma vez demonstrou, levava mais tempo entre as transformações, a magia necessária para elaborar a força de tornar-se desse tamanho, de encher o corpo com todo o poder inerente.
Passos casuais soaram, acentuados por um assobio de duas notas. A respiração de Lysandra roçou a mandíbula dele àquele som. Aedion, porém, endureceu um pouco quando os passos se aproximaram e ele se viu olhando para o filho de seu grande inimigo. Rei, agora.
Ainda um rosto que ele odiava, de quem zombara, pensou em cortar em pedaços pequenos por muitos, muitos anos. Um rosto que vira bêbado e sem pensamentos em festas meras temporadas atrás; um rosto que vira enterrado contra os pescoços de mulheres cujos nomes ele nunca se preocupou em aprender, um rosto que o havia insultado numa masmorra.
Aquele rosto estava agora encapuzado, e por tudo no mundo, parecia que ele estava aqui para obter informações sobre os serviços de Lysandra uma vez que Aedion terminasse com ela. O general cerrou os dentes.
— O que foi?
Dorian olhou Lysandra, como se examinasse das mercadorias, e Aedion lutou contra o impulso de cobri-la.
— Rowan enviou-me para ver se vocês tiveram algum desenvolvimento.
O príncipe e Aelin estavam na pousada, bebendo na sala de jantar – onde todos os olhos de Rolfe poderiam vê-los e relatá-los.
Dorian piscou para a trocadora de formas.
— E deuses do céu, você realmente pode assumir qualquer forma humana.
Lysandra deu de ombros, uma prostituta de rua irreverente discutindo o seu preço.
— Não é tão interessante quanto você pensa. Eu gostaria de ver se eu poderia transformar-me em uma planta. Ou em um pouco de vento.
— Você pode... fazer isso?
— Claro que ela pode — respondeu Aedion, soltando-se da parede e cruzando os braços.
— Não — disse Lysandra, lançando um olhar cortante na direção de Aedion. — E não há nada a relatar. Nem mesmo um sopro de Rolfe ou de seus homens.
Dorian concordou, deslizando as mãos nos bolsos. Silêncio. O tornozelo de Aedion gemeu de dor quando Lysandra o chutou sutilmente.
Ele franziu o cenho enquanto dizia ao rei:
— Então, você e Whitethorn não se mataram.
Dorian franziu as sobrancelhas.
— Ele salvou minha vida, quase conseguindo se queimar todo ao fazê-lo. Por que eu deveria sentir algo além de gratidão? — Lysandra deu Aedion um sorriso presunçoso. Mas o rei lhe perguntou: — Você vai ver o seu pai?
Aedion se encolheu. Ele estivera feliz por sua aventura esta noite para evitar a decisão. Aelin não tocara no assunto, e ele ficara contente em vir aqui, mesmo que isso o colocasse em risco de encontrar o macho.
— Claro que vou vê-lo — Aedion falou firmemente.
A lua branca que era o rosto de Lysandra estava calmo, firme, enquanto ela o observava, o rosto de uma mulher treinada para escutar os homens, para nunca mostrar surpresa...
Ele não se ressentia do que ela tinha sido, o que ela retratava agora, apenas dos monstros que tinham visto a beleza que a criança se tornaria quando crescesse e a levaram para um bordel. Aelin lhe contara o que Arobynn fizera ao homem que ela amava. Era um milagre que a metamorfa pudesse sorrir. Aedion empurrou o queixo para Dorian.
— Vá dizer a Aelin e Rowan não precisamos deles vigiando. Nós podemos fazer isso sozinhos.
Dorian endureceu, mas recuou pelo beco, nada mais do que um desagradável aspirante a cliente.
Lysandra passou a mão pelo peito de Aedion e sussurrou:
— Aquele homem sofreu o suficiente, Aedion. Um pouco de bondade não iria matá-lo.
— Ele apunhalou Aelin. Se você o conhecesse como eu, não estaria tão disposta a adorá-lo.
— Ninguém espera que você o adore. Mas uma palavra amável, algum respeito.
Ele revirou os olhos.
— Fale baixo.
Ela o fez, mas continuou.
— Ele foi escravizado, torturado por meses. Não apenas pelo pai, mas por aquela coisa dentro dele. Ele foi violado, e mesmo que você não possa perdoá-lo por apunhalar Aelin contra a própria vontade dele, então, tente ter alguma compaixão por isso.
O coração de Aedion perdeu o compasso pela raiva e dor estampados no rosto dela. E aquelas palavras que ela usou...
Ele engoliu em seco, verificando a rua atrás deles. Nenhum sinal de alguém caçando o tesouro que eles levavam.
— Eu via Dorian como um imprudente, arrogante...
— Eu via sua rainha da mesma maneira. Éramos crianças. Tínhamos permissão de cometer erros, descobrir quem queríamos ser. Se você vai permitir a Aelin o dom da aceitação...
— Eu não me importo se ele era tão arrogante e vaidoso quanto Aelin, não me importo se ele foi escravizado por um demônio que levou a sua mente. Eu olho para ele e vejo minha família massacrada, vejo aquelas trilhas para o rio e ouço Quinn me dizendo que Aelin foi afogada e morta. — sua respiração era irregular, e sua garganta ardia, mas ele ignorou.
— Aelin o perdoou. Aelin nunca guardou isso contra ele — Lysandra falou.
Aedion rosnou para ela. Lysandra rosnou de volta e devolveu seu olhar não com o rosto treinado ou feito para quartos, mas o verdadeiro abaixo, o que era selvagem, inquebrável e indomável. Não importa o corpo que ela vestisse, ela era as Galhadas do Cervo que ganhavam forma, o coração de Carvalhal.
— Eu vou tentar — Aedion disse com voz rouca.
— Tente mais. Tente melhor.
Aedion apoiou a palma da mão contra a parede novamente e se inclinou para olhar para o rosto dela. Ela não se cedeu um centímetro.
— Há uma ordem e uma hierarquia na nossa corte, senhora, e da última vez que verifiquei, você estava na terceira. Você não me dá ordens.
— Este não é um campo de batalha — Lysandra sibilou. — Todas as fileiras são formalidades. E da última vez que eu verifiquei... — ela cutucou seu peito, bem no meio, e ele poderia ter jurado que a ponta de uma garra perfurou a pele sob a roupa — você não foi patético o suficiente para impor uma hierarquia atrás da qual se esconder quando estivesse errado.
Seu sangue disparou e vibrou. Aedion descobriu-se encarando as curvas sensuais da boca dela, agora apertadas com raiva.
O temperamento quente em seus olhos desapareceu, enquanto ela retraiu seu dedo como se tivesse sido queimado, e ele congelou com o pânico que encheu os traços dela em vez disso. Merda. Merda...
Lysandra recuou um passo, casual demais para ser outra coisa senão um movimento calculado. Mas Aedion tentou para o bem dela, tentou parar de pensar em sua boca.
— Você realmente quer conhecer seu pai? — ela perguntou calmamente. Muito calmamente.
Ele assentiu, engolindo em seco. Cedo demais – ela não iria querer o toque de um homem por um longo tempo. Talvez para sempre. E ele estaria condenado se a pressionasse antes que ela quisesse. E deuses acima, se Lysandra olhasse para qualquer homem com um interesse assim... ele ficaria feliz por ela. Significaria que ela escolheria por si mesma, mesmo que não fosse ele o escolhido.
— Eu... — Aedion engoliu, obrigando-se a lembrar o que ela perguntou. O pai dele. Certo. — Ele quer me ver? — Foi tudo em que ele pôde pensar em perguntar.
Ela inclinou a cabeça para o lado, o movimento felino que o fez se perguntar se ela estava passando tempo demais na pele daquele leopardo fantasma.
— Ele quase arrancou a cabeça de Aelin quando ela se recusou a dizer-lhe onde você estava e quem você era — gelo encheu suas veias. Se seu pai tivesse sido rude com ela... — Mas eu tive a sensação — Lysandra acrescentou rapidamente quando ele ficou tenso — de que ele é o tipo de homem que respeitaria seus desejos se você optasse por não encontrá-lo. No entanto, nesta pequena cidade, com a companhia que estamos mantendo... isso poderia revelar-se impossível.
— Você também teve a sensação de que poderia convencê-lo a nos ajudar? Conhecer-me?
— Não acho que Aelin jamais pediria isso de você — Lysandra falou, colocando a mão sobre o braço ainda apoiado ao lado da cabeça dela.
— O que eu falo para ele? — Aedion murmurou. — Já ouvi tantas histórias sobre ele, o Leão de Doranelle. Ele é um maldito cavaleiro branco. E não acho que ele vai aprovar um filho cuja maioria das pessoas chama de Puta de Adarlan. — Ela estalou a língua, mas Aedion imobilizou-a com um olhar. — O que você faria?
— Eu não posso responder a essa pergunta. Meu próprio pai... — ela balançou a cabeça. Ele sabia sobre o pai da metamorfa, que abandonara sua mãe e nem mesmo sabia que ela estava grávida. E então a mãe atirou Lysandra na rua, quando descobriu sua herança. — Aedion, o que você quer fazer? Não por nós, não por Terrasen, mas por você.
Ele abaixou a cabeça um pouco, olhando de soslaio para a rua tranquila novamente.
— Toda a minha vida tem sido... não sobre o que eu quero. Eu não sei como escolher essas coisas.
Não, desde o momento em que ele chegou em Terrasen aos cinco anos, ele tinha sido treinado em seu caminho traçado. E quando Terrasen queimara sob as tochas de Adarlan, outra mão agarrara a coleira de seu destino. Mesmo agora, com a guerra contra eles...  ele nunca realmente quis algo para si? Tudo o que ele quis foi o juramento de sangue. E Aelin o dera para Rowan. Ele não se ressentia por isso, não mais, contudo... Ele não tinha percebido que pedira por tão pouco.
— Eu sei. Eu sei como se sente — Lysandra falou calmamente.
Ele levantou a cabeça, encontrando aqueles olhos verdes novamente na escuridão. Ele às vezes desejava que Arobynn Hamel ainda estivesse vivo, apenas para que ele pudesse matar o rei do assassinos por si mesmo.
— Amanhã de manhã — ele murmurou. — Você vem comigo? Para vê-lo.
Ela ficou em silêncio por um momento antes de responder.
— Você realmente quer que eu vá com você?
Ele queria. Ele não podia explicar por que, mas ele a queria lá. Ela penetrava suas defesas tão facilmente, mas... Lysandra o estabilizava. Talvez porque ela fosse algo novo. Algo que ele não tinha encontrado, não tinha preenchido com esperança e dor e desejos. Não muitos deles, pelo menos.
— Se você não se importar... sim. Eu quero você lá.
Ela não respondeu. Ele abriu a boca, mas passos soaram.
Leves. Muito casuais.
Eles se afastaram mais para o fundo das sombras do beco, o muro sem saída se aproximando por trás deles. Se tudo desse errado... Se desse errado, ele tinha ao seu lado uma metamorfa capaz de rasgar multidões de homens. Aedion sorriu para Lysandra quando se inclinou sobre ela, mais uma vez, o nariz dentro da distância de pastoreio de seu pescoço.
Os passos se aproximaram, e Lysandra soltou um suspiro, seu corpo tornando-se flexível. Das sombras de seu capuz, ele acompanhou o beco à frente, escuridão e raios de luar, preparando-se. Eles escolheram o beco sem saída beco por uma razão.
A garota percebeu seu erro um passo tarde demais.
— Oh.
Aedion olhou para cima, seus próprios traços escondidos dentro da capa, enquanto Lysandra ronronou para a jovem que combinava perfeitamente com a descrição de Rowan da garçonete de Rolfe:
— Estará terminado em dois minutos, se quiser esperar sua vez.
Cor manchou as bochechas da garota, mas ela deu-lhes um olhar delicado, estudando-os da cabeça aos pés.
— Caminho errado — disse ela.
— Tem certeza? — Lysandra cantarolou. — Está um pouco tarde para um passeio.
A garçonete de Rolfe encarou-a e voltou pela mesma rua.
Eles esperaram. Um minuto. Cinco. Dez. Ninguém mais veio.
Aedion finalmente se afastou, Lysandra agora assistindo a entrada beco.
A metamorfa enrolou um cacho castanho avermelhado em torno de seu dedo.
— Ela parece uma ladra de improvável.
— Alguns diriam coisas semelhantes sobre você e Aelin — Lysandra acenou em acordo. Aedion pensou. — Talvez ela fosse apenas uma batedora, os olhos de Rolfe.
— Por que se importar? Por que não vir e levar a coisa?
Aedion olhou novamente para o amuleto que desaparecia sob o corpete de Lysandra.
— Talvez ela tenha pensado que esperava outra coisa.
Lysandra, sabiamente, não pescou o Amuleto de Orynth para fora de seu vestido. Mas as palavras perduravam entre eles enquanto cuidadosamente faziam seu caminho de volta à Rosa do Oceano.

7 comentários:

  1. _Talvez ela tenha pensado que esperava outra coisa. ?
    serio eu não intendi essa fala, alguém me explica.Porfavor

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    1. A menina foi investigar a mando de Rolfe. Ele deve ter visto algo muito escuro, ruim, em seu mapa mágico. Então a garçonete esperava encontrar um anel de Wyrd, quem sabe um daqueles soldados. Algo muito, muito ruim, e não uma prostituta com um cliente

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  2. Eu gosto do Aedion mais a autora fez ele muito arrogante, ele e Aelin, ta eu sei que todo mundo acha legal.. aquela pessoa que trata mal todo mundo, da fora nos outros, bate nos outros.. fala o que pensa.. tipo nesse capítulo eu poderia odiar Aedion pelo jeito que tratou Dorian, pelo jeito que sempre trata.. eu acho que o Dorian merece amigos melhores, ele sempre é gentil e bom.. e as pessoas dificilmente se importam com ele.. só Chaol msm e eu espero que Manon tbm..

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    1. E eu aqui, me apaixonando pela Puta De Ardilan!!!

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  3. Morrendo de raiva da Aelin,a única que o Aedion sempre quis foi fazer aquele maldito juramento aí ela vai lá e entrega para o Rowan, tá bom que ela não sabia que Aedion era qualquer coisa além da "puta de Adarlan" mas mesmo assim...E não vejo a hora do Dorian e do Aedion começarem a se entender,vai ser uma dupla da po**@

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  4. Cadê os pensamentos de Lyssandra?! sentido falta disso no livro 🤔

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Boa leitura :)