30 de janeiro de 2017

Capítulo 28

Aelin Galathynius não se preocupou em conter sua presunção quando Rolfe apontou para a grande mesa à direita de seu escritório – muito maior do que a merda escritório onde ele uma vez encontrou ela e Sam.
Ela conseguiu dar um passo em direção ao seu assento designado antes de Rowan parecer ao seu lado, uma mão em seu cotovelo.
Seu rosto – oh, deuses, ela sentiu falta daquele rosto duro e inflexível – estava apertado quando ele se inclinou para sussurrar com suavidade feérica em seu ouvido:
— O esquadrão está trabalhando conosco com a condição de os levarmos a Lorcan, uma vez que Maeve os enviou para matá-lo. Eu me recusei a compartilhar o seu paradeiro. A maior parte da frota de Adarlan está no Golfo de Oro graças a um acordo sujo com Melisande para utilizar os seus portos, e os próprios exércitos de Maeve navegam para Eyllwe – se para atacar ou trazer auxílio, não sabemos.
Bem, era bom saber o inferno absoluto que os aguardava e que as informações sobre o exército de Maeve estavam corretas. Mas, em seguida, Rowan acrescentou:
— E eu senti sua falta como o inferno.
Ela sorriu, apesar de tudo o que ele contou, afastando-se para olhar para ele. Intocada, ileso. Era mais do que ela poderia ter esperado. Mesmo com as notícias que ele lhe entregara.
Aelin decidiu que particularmente não dava a mínima para quem os assistia e levantou-se na ponta dos pés para tocar a boca contra a dele. Tomara toda a sua inteligência e habilidades evitar deixar vestígios de seu cheiro hoje para ele detectar – e o deleite e o choque em seu rosto valeram totalmente a pena.
A mão de Rowan apertou seu braço quando ela se afastou.
— Esse sentimento, príncipe — ela murmurou — é mútuo.
Os outros fizeram o possível para não fitá-los, exceto Rolfe, que ainda fervia.
— Oh, não fique tão estressado, capitão — disse ela, afastando-se de Rowan e deslizando para a cadeira na frente de Rolfe. — Você me odeia, eu te odeio, ambos odiamos que impérios impostores e dominantes nos digam o que fazer – é uma união perfeita.
— Você quase destruiu tudo pelo que trabalhei — Rolfe cuspiu. — Sua língua de prata e arrogância não me farão passar por isso.
Apenas para o inferno dele, ela sorriu e mostrou a língua. Não a real, mas uma língua bifurcada de fogo prateado que se contorceu como a língua de uma cobra no ar.
Fenrys engasgou com uma risada sombria. Ela o ignorou. Lidaria com sua presença depois. Ela só rezava para ser capaz de avisar Aedion antes que ele esbarrasse com seu pai – que agora estava sentado duas cadeiras ao lado, olhando para ela como se ela tivesse dez cabeças.
Deuses, até mesmo a expressão era como a de Aedion. Como ela não notara nesta primavera em Wendlyn? Aedion era um garoto da última vez que o vira, mas quando homem... com a imortalidade de Gavriel, eles pareciam ter a mesma idade. Diferentes de muitas maneiras, mas aquele olhar... era um reflexo. Rolfe não estava sorrindo.
— Uma rainha que brinca com fogo não é uma aliada sólida.
— E um pirata cujos homens o abandonaram no primeiro teste de lealdade faz dele um comandante de merda, e ainda estou aqui, nesta mesa.
— Cuidado, garota. Você precisa mais de mim do que eu preciso de você.
— Eu? — Uma dança – era tudo o que era. Muito antes de pôr o pé nessa ilha horrível, tinha sido uma dança, e ela estava agora prestes a fazer seu segundo movimento. Ela colocou a carta de recomendação selada de Murtaugh sobre a mesa entre eles. — Da maneira como vejo, eu tenho o ouro e tenho a capacidade de elevá-lo de um criminoso comum para um homem de negócios respeitável e estabelecido. Charco Lavrado pode contestar quem domina estas ilhas, mas... o que seria ter o meu apoio atrás de você? E se eu o tornasse não um lorde pirata, mas um rei pirata?
— E quem daria credibilidade à palavra de uma princesa de dezenove anos?
Ela fez um movimento com o queixo para o tubo selado com cera.
— Murtaugh Allsbrook daria. Ele escreveu uma bela e longa carta elogiosa sobre isso.
Rolfe apanhou o pergaminho, estudou-o, e atirou-o em um arco limpo – direto em sua lixeira. O baque ecoou pelo escritório.
— E eu daria — disse Dorian, inclinando-se para frente antes que Aelin pudesse rosnar pela carta ignorada. — Nós vencemos esta guerra e você terá os dois maiores reinos deste continente proclamando-o rei indiscutível de todos os piratas. Baía da Caveira e as Ilhas Mortas não se tornarão um esconderijo para o seu povo, mas uma moradia adequada. Um novo reino.
Rolfe deixou escapar uma risada baixa.
— Conversa de jovens idealistas e sonhadores.
— O mundo — Aelin apontou — será salvo e refeito pelos sonhadores, Rolfe.
— O mundo será salvo pelos guerreiros, pelos homens e mulheres que vão derramar o seu sangue por isso. Não por promessas vazias e sonhos dourados.
Aelin espalmou as mãos sobre a mesa.
— Possivelmente. Mas se vencermos esta guerra, será um novo mundo, um mundo livre. Esta é a minha promessa para você, para quem marchar sob a minha bandeira. Um mundo melhor. E você terá que decidir onde será seu lugar nele.
— Essa é a promessa de uma garota que ainda não sabe como o mundo realmente funciona — respondeu Rolfe. — Mestres são necessários para manter a ordem, para manter as coisas funcionando e rentando. Não vai acabar bem para aqueles que procuram derrubar isso.
— Você quer ouro, Rolfe? — Aelin ronronou. — Quer um título? Quer glória, ou mulheres, ou terra? Ou é apenas a sede de sangue que o impulsiona? — ela lançou um olhar aguçado para as mãos enluvadas. — Qual foi o custo pelo mapa? Qual seria o objetivo final se esse sacrifício tivesse que ser feito?
— Não há nada que você possa oferecer ou dizer, Aelin Galathynius, que eu não possa alcançar sozinho — um sorriso malicioso. — A menos que você pretenda me oferecer sua mão e tornar-me rei de seu território... o que pode ser uma proposta interessante.
Desgraçado. Caramba, desgraçado maldito. Ele a viu com Rowan. Ele estava bebendo da quietude com a qual ambos se sentaram agora, a morte nos olhos de Rowan.
— Parece que você apostou no cavalo errado — Rolfe cantarolou. Ele lançou os olhos para Dorian. — Que notícia você recebeu?
Mas o cavalo errado o cortou suavemente.
— Não havia nenhuma. Mas fique feliz em saber que seus espiões na Rosa do Oceano certamente estão fazendo seu trabalho. E que Sua Majestade é um grande ator consumado.
Aelin segurou seu riso. O rosto de Rolfe escureceu.
— Saiam do meu escritório.
— Por um rancor mesquinho, você se recusa a considerar uma aliança conosco? — Dorian perguntou friamente.
Aelin bufou.
— Eu não chamaria destruir sua cidade de merda de um rancor mesquinho.
— Vocês tem dois dias para caírem fora desta ilha — Rolfe falou entredentes. — Depois disso, minha promessa de dois anos e meio atrás ainda se mantém — um sorriso de escárnio em seus companheiros. — E leve o seu... zoológico com você.
Fumaça encheu sua boca. Ela tinha esperado discussões, mas isso... Era hora de se reagruparem e ver o que Rowan e Dorian fizeram e planejaram para os próximos passos. Que Rolfe pensasse que ela deixaria a dança inacabada por agora.



Aelin saiu para o corredor estreito, uma parede de músculos em suas costas e outra ao seu lado, e enfrentou outro dilema: Aedion. Ele vigiava o lado de fora da pousada para monitorar qualquer força hostil. Se ela os levasse diretamente para ele, o deixaria cara a cara com o seu há muito perdido e completamente alheio pai.
Aelin deu três passos no corredor quando Gavriel falou atrás dela.
— Onde ele está?
Lentamente, ela olhou para trás. O rosto bronzeado do guerreiro era apertado, os olhos cheios de tristeza e de aço.
Ela sorriu.
— Se você está se referindo ao doce e querido Lorcan...
— Você sabe de quem estou falando.
Rowan deu um passo entre eles, mas seu rosto duro não mostrava nada. Fenrys deslizou para o corredor, fechando a porta do escritório de Rolfe, observando-os com diversão sombria. Oh, Rowan contara muito sobre ele. Um rosto e corpo que as mulheres e muitos homens matariam para possuir. O que Maeve o fez fazer, o que ele entregara por seu gêmeo.
Aelin sugou um dente e disse a Gavriel:
— Não é melhor perguntar “Quem é ele?”
Gavriel não sorriu. Não se mexeu. Ganhe tempo, ganhe tempo para Aedion...
— Você não pode decidir quando, onde e como vai encontrá-lo — disse Aelin.
— Ele é o meu maldito filho. Penso que posso.
Aelin deu de ombros.
— Você nem sequer se decidiu se está autorizado a chamá-lo assim.
Aqueles olhos castanhos brilharam, as mãos tatuadas fecharam-se em punhos.
— Gavriel, ela não tem intenção de mantê-lo longe dele — Rowan falou.
— Diga-me onde está o meu filho. Agora.
Ah ali estava. A face do leão. O guerreiro que derrubou exércitos, cuja reputação fazia soldados invernais estremecerem. Cujos guerreiros caídos foram tatuados sobre sua pele.
Mas Aelin apenas examinou suas unhas, então franziu o cenho para o corredor agora vazio atrás dela.
— Que diabos, se eu soubesse onde ele foi.
Eles piscaram, em seguida, começaram a observar onde Lysandra havia estado. De onde ela agora tinha desaparecido, voando, ou rastejando ou escorregando para fora da janela aberta. Para alcançar Aedion.
Aelin apenas disse a Gavriel, sua voz plana e fria:
— Nunca mais me dê ordens.



Aedion e Lysandra já os esperavam na Rosa do Oceano quando eles entraram no bonito pátio, Aelin mal juntou energia para comentar com Rowan o quanto ficou chocada que ele não tivesse optado pela miséria guerreira. Dorian, alguns passos atrás, riu baixinho, que era bom, ela supôs. Bom que ele estivesse rindo. Ele não ria da última vez que o viu.
E fazia semanas que ela própria não ria, não sentia o peso ficar leve por tempo suficiente para fazê-lo.
Ela deu a Rowan um olhar que lhe disse para encontrá-la no andar de cima e parou do outro lado do pátio. Dorian, percebendo sua intenção, parou também. O ar da noite estava pesado o cheiro de frutas doces e flores da estação, a fonte no centro borbulhando suavemente. Ela perguntou-se se o proprietário da pousada vinha do Deserto Vermelho, se vira o uso da água, pedra e vegetação na Fortaleza dos Assassinos Silenciosos.
— Sinto muito. Sobre Forte da Fenda — Aelin murmurou para Dorian.
O rosto bronzeado do verão do rei se contraiu.
— Obrigado pela ajuda.
Aelin deu de ombros.
— Rowan está sempre procurando uma desculpa para se exibir. Resgates dramáticos lhe dão propósito e realização em sua vida monótona e imortal.
Houve uma tosse acentuada das portas abertas na varanda acima deles, nítida o suficiente para informá-la de que Rowan escutara e não se esqueceria daquela pequena piada quando estivessem sozinhos.
Ela manteve o sorriso. Tinha sido uma surpresa e um deleite, ela supôs, que uma calma fácil e respeitosa fluísse entre Rowan e Dorian em sua caminhada até aqui.
Ela fez sinal para que o rei continuasse com ela e disse baixinho, bem ciente de quantos espiões Rolfe empregava dentro do edifício:
— Parece que você e eu estamos atualmente sem coroa, graças a uns poucos papeis de merda.
Dorian não lhe devolveu o sorriso. As escadas gemeram abaixo deles enquanto se dirigiam para o segundo andar. Eles estavam quase no quarto que Dorian tinha indicado quando ele falou:
— Talvez seja uma coisa boa.
Ela abriu e fechou a boca e optou, por uma vez, ficar quieta, balançando a cabeça um pouco quando entrou no quarto.
O encontro foi calado, completo. Rowan e Dorian contaram em detalhes precisos o que tinha acontecido a eles, Aedion pedindo pela quantidade das bruxas, suas armaduras, como elas voavam, as formações que usaram. Qualquer coisa para dar à Devastação, para amplificar suas defesas do norte, independentemente de quem as ordenasse. O general do Norte que tomaria todas as peças e construiria a resistência. Mas a enorme facilidade com que a legião Dentes de Ferro tomara a cidade...
— Manon Bico Negro — Aedion meditou — seria uma aliada valiosa, se pudermos fazê-la se virasse.
Aelin olhou para o ombro de Rowan, onde uma pequena cicatriz agora marcava a pele dourada sob suas roupas.
— Talvez conseguir que Manon se voltasse contra seus parentes acenda uma batalha interna entre as bruxas — disse ela. — Talvez nos salvem da tarefa de matá-las e apenas destruam umas às outras.
Dorian endireitou-se na cadeira, mas apenas frio cálculo girava em seus olhos quando ele respondeu:
— Mas o que é que elas querem? Além das nossas cabeças, quero dizer. Por que se aliar com Erawan?
E todos eles, em seguida, olharam para o fino colar de cicatrizes que marcavam a base da garganta de Aelin, onde o cheiro a marcava permanentemente como uma Assassina de Bruxas. Baba Pernas Amarelas visitara o castelo neste inverno por causa dessa aliança, mas e se houvesse outros motivos?
— Podemos contemplar os porquês e comos mais tarde — Aelin declarou. — Se encontrarmos qualquer uma das bruxas, as levaremos vivas. Quero algumas perguntas respondidas.
Em seguida, ela explicou o que eles tinham testemunhado em Ilium. A ordem que Brannon lhe dera. Encontre o cadeado. Bem, ele e sua pequena missão podiam entrar na fila. Que era interminável, ela supôs enquanto eles jantavam caranguejo salpicado e arroz temperado naquela noite. Esses deveres, essas ameaças.
Erawan vinha planejando há décadas. Talvez séculos, enquanto dormia, ele planejara tudo isso. E ela não tinha nada mais do que comandos codificados dados pela realeza morta há muito tempo para encontrar uma maneira de pará-lo, nada além de malditos meses para reunir uma força contra ele.
Ela duvidava que fosse coincidência que Maeve estivesse navegando para Eyllwe no mesmo momento que Brannon ordenara que ela fosse para os Pântano de Pedra na sua península do sudoeste. Ou que a frota amaldiçoada pelos deuses de Morath estivesse pronta no Golfo de Oro – direto do outro lado.
Não havia tempo suficiente, não havia tempo suficiente para fazer tudo o que ela precisava, para corrigir as coisas.
Então... passos pequenos.
Ela tinha que lidar com Rolfe. A pequena questão de garantir a aliança de seu povo. E o mapa que ela ainda precisava convencê-lo a usar para ajudá-la a rastrear o tal cadeado.
Mas primeiro... era melhor para garantir que o maldito mapa realmente funcionasse.

3 comentários:

  1. "O guerreiro que derrubou exércitos, cuja reputação fazia soldados invernais estremecerem" MEU NOME NÃO É STEVE MAS TOTALMENTE PEGUEI A REFERÊNCIA!!!!

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)