26 de janeiro de 2017

Capítulo 27

Eles estavam perto do final de sua jornada. Horace marchou cansado a trilha áspera que serpenteava pelo chão de um vale estreito. De ambos os lados, penhascos íngremes impossíveis de ser escalados subiam acima deles. Quanto mais eles iam, mais estreito o vale tornava-se, até que estava a pouco mais de vinte metros de largura.
Alguns flocos de neve flutuavam, mas eles ainda estavam vendo as primeiras tempestades realmente pesadas do inverno.
Reito finalmente anunciou uma parada para descanso e a longa coluna de Senshi e Kikori caiu com gratidão no solo, retirando os pacotes de seus ombros, abaixando as macas no chão.
Era fim de tarde e eles tinham viajado desde antes do amanhecer. Tnham viajado muito e constantemente todos os dias da semana anterior, com Reito esperando manter a distância que tinha ganhado sobre a força de Arisaka.
Horace encontrou uma grande pedra e encostou-se nela. Suas costelas ainda doíam devido ao impacto com a face do penhasco. O curandeiro de Shigeru tinha cuidado dele, mas havia pouco que se pudesse fazer. O tempo seria o real curador. Mas agora a musculatura protegendo as costelas rachadas estavam enrijecidas e doloridas e as ações de sentar e levantar novamente esticavam-nas, causando dor aguda.
— Falta muito?  Ele perguntou a Toru.
O Kikori que esteve guiando considerou antes de responder. Horace podia dizer pela sua expressão que ele não sabia, e estava feliz que o Kikori não fez nenhuma tentativa de fingir o contrário.
— Este é o vale. Eu tenho certeza disso. Quanto mais nós temos que ir... Eu não tenho certeza.
Horace chamou a atenção de Reito.
— Por que nós não vamos em frente e fazemos reconhecimento?  sugeriu e o Senshi, depois de olhar uma vez para Shigeru, reclinou-se contra a base de uma grande rocha e assentiu.
Desde a morte de Shukin, Reito tinha tomado sua responsabilidade pela segurança do imperador muito a sério. Era algo que pesava sobre ele. Shukin, um amigo de longa data e parente do imperador, teve mais facilidade em lidar com a responsabilidade. Ele tinha se acostumado com a tarefa durante um período de anos. Mas era tudo novo para Reito e ele tendia a ser muito solícito. Agora, porém, considerando a situação, decidiu que Shigeru estaria seguro o suficiente em sua ausência.
— Boa ideia  disse Reito.
Ele colocou suas espadas para cima e virou o rosto para o vale diante deles. Toru, sem ser perguntado, levantou-se também e os três partiram, andando com cuidado sobre as rochas e pedras despencadas que cobriam o vale.
Eles dobraram uma curva à esquerda. O estreito vale serpenteava o seu caminho entre as altíssimas montanhas, raramente continuando em uma direção por mais de quarenta metros.
À frente deles, eles podiam ver o muro branco de pedras que marcava outra virada, desta vez para a direita. Eles arrastaram-se adiante, suas botas triturando as rochas e areia por baixo deles.
Ninguém falou. Não havia nada a dizer. A fortaleza de Ran-Koshi estava em algum lugar à frente deles. Falar sobre isso não a traria um centímetro mais próximo. Eles contornaram a curva e, de repente, lá estava ela.
— É isso?  disse Horace, uma descrença evidente em sua voz.
Reito não disse nada. Ele balançou a cabeça lentamente conforme ele estudava a “fortaleza”.
À frente deles, o vale se endireitava e subia uma ladeira íngreme. A cem metros de distância, uma paliçada de madeira caindo aos pedaços, com no máximo quatro metros de altura, tinha sido contruída em toda a parte mais estreita do vale, onde as paredes íngremes de rocha fechavam para deixar uma lacuna de apenas trinta metros de diâmetro. Além da paliçada, a terra continuava a crescer e o vale ampliava mais uma vez.
Eles podiam ver várias cabanas em ruínas, suas cinzas e madeiras frágeis com a idade, os seus telhados de palha muito apodrecidos.
O rosto de Reito escureceu de raiva. Ele se virou para Toru.
— Esta é Ran-Koshi?  perguntou amargamente. — Esta é a poderosa fortaleza que vai nos proteger do exército de Arisaka?
Há semanas que eles haviam buscado esse objetivo, pensando nele como o seu santuário final, como um lugar onde pudessem descansar e recuperar sua força, onde poderiam treinar os Kikori a lutar, protegidos pela fortaleza de muros de pedra.
Agora, lá estavam eles, com não mais do que uma linha abandonada de toras e tábuas para se abrigar. No lado esquerdo, o lado ocidental, a paliçada estava praticamente desmoronada, como Horace notou. Um esforço determinado de uma força de ataque iria derrubá-la e abriria um espaço de cinco metros nas defesas, escassas como elas estavam. Toru estava imóvel.
— Esta é Ran-Koshi  disse ele.
Ele não tinha estado presente na discussão semanas atrás, quando Shigeru e Shukin haviam descrito a enorme e lendária fortaleza. Simplesmente haviam perguntado se ele poderia liderar o caminho para Ran-Koshi e ele tinha feito isso. Ele sabia que Ran-Koshi era esta paliçada simples através de um vale – muitos dos Kikori sabiam – e ele tinha assumido que Shigeru e seus seguidores soubessem também. Não havia nenhuma razão para ele pensar o contrário. Ele enfrentou o nobre Senshi irritado com calma.
Reito fez um gesto frustrado furioso com as duas mãos. De repente sentiu desamparado. Pior, ele sentia que tinha traído a confiança que Shukin e Shigeru haviam colocado nele. Eles haviam lutado pelas montanhas durante semanas, carregando seus feridos, combatendo o seu caminho até as traiçoeiras trilhas enlameadas, onde um passo em falso pode levar ao desastre. Shukin e seus homens tinham dado suas vidas para comprar-lhes tempo. E fizeram isso, sofreram, para... Isso.
Por um momento, ele estava a ponto de lançar sua espada longa e executar o guia Kikori. Mas ele dominou o impulso. Ele olhou para Horace com o rosto contorcido.
— O que eu posso dizer ao imperador?
Mas Horace, após a sua surpresa inicial, estava acenando lentamente conforme ele estudava o terreno à sua volta.
— Diga a ele que nós encontramos Ran-Koshi — respondeu simplesmente.
Reito estava começando a dar uma resposta amarga, mas Horace acalmou-o com uma mão levantada, em seguida, apontou para as montanhas que juntavam em todos os lados.
— Estas são as poderosas paredes de pedra da fortaleza  disse ele. — É o próprio vale. Esta é a fortaleza. Nenhum exército poderia escalar essas paredes, ou quebrá-las. A paliçada é apenas a porta de entrada.
— Mas está abandonada! Está caindo sobre si mesma!  Reito estourou em desespero.
Horace colocou a calma mão em seu ombro. Ele sabia que a reação era causada pelo senso de dever e obrigação que Reito sentia para com o imperador.
— Está velha, mas a estrutura é boa o suficiente para além do extremo oeste. E ela pode ser reconstruída. Nós precisamos simplesmente substituir algumas das maiores madeiras na parede principal. E, afinal, temos duas centenas de trabalhadores qualificados com a gente.
Ele olhou para Toru.
— Eu diria que o seu povo poderia colocar isso direito em três ou quatro dias, não poderia?
— Sim, Kurokuma — respondeu.
Ele estava feliz que o guerreiro gaijin tinha visto o quadro maior.
— E nós podemos reconstruir as cabanas, de modo que teremos quartos quentes e secos durante o inverno.
Lentamente, a sensação de angústia estava saindo de Reito enquanto ele olhava para os seus arredores com novos olhos. Kurokuma estava certo, pensou. Nenhum exército poderia escalar ou violar estas paredes maciças. E a paliçada tinha apenas trinta metros de largura – poderia ser facilmente defendida com duas ou três centenas de defensores que eles tinham à sua disposição.
Outro pensamento atingiu Reito.
— Uma vez que a neve chegar, esta passagem estará com metros de profundidade na neve. Um inimigo não poderia sequer se aproximar da paliçada com qualquer número  disse ele.
Ele se virou para Toru e curvou-se profundamente.
— Minhas desculpas, Toru-san. Falei sem pensar.
Toru voltou à frente e transferiu seus pés indecisos. Ele não estava acostumado a ter guerreiros Senshi pedindo desculpas a ele, ou se curvando para ele. Ele resmungou uma resposta.
— Não há nenhum motivo para se desculpar, senhor Reito  disse ele.
Mas Reito corrigiu.
— Reito-san  ele disse com firmeza, e os olhos do Kikori se arregalaram, em surpresa.
O Senshi estava evitando o título honorífico de “senhor” para um mais igualitário de “Reito-san”.
Horace observou a interação entre os dois homens. Agora ele estava familiarizado com a etiqueta e de percebeu o abismo gigante que Reito tinha acabado de passar. Aquilo serviria bem para os próximos meses, ele pensou. Seria melhor ter o Kikori como parceiros dispostos, ao invés de indivíduos inferiores. Ele bateu nos ombros de ambos os homens, puxando-os juntos.
— Vamos dizer a Shigeru que descobrimos sua fortaleza  anunciou ele.
Eles fizeram o seu caminho de volta para o vale onde a coluna esperava por eles. Horace estava consciente de uma nova energia em sua etapa. Depois de semanas de escalada e caminhada, eles tinham atingido o seu objetivo. Agora, podiam descansar e se recuperar. Shigeru os viu chegando, viu a linguagem corporal positiva entre os três e levantou em expectativa.
— Vocês a encontraram? — perguntou.
Horace se virou para Reito. O Senshi sentiu a responsabilidade da liderança e Horace pensou que apenas era justo para ele entregar a boa notícia.
— Sim, senhor. Está a apenas poucas centenas de metros de distância.  Ele apontou o vale por trás dele. — Mas senhor Shigeru, devo dizer-lhe. Ela não é...
Ele hesitou, não sabendo como proceder.
Horace, ao vê-lo vacilar, concluiu sem problemas para ele.
— Não é exatamente o que esperávamos  disse ele. — É uma fortaleza natural ao invés de uma feita pelo homem. Mas ela vai atender às nossas necessidades tão bem quanto.
Pela primeira vez em muitos dias, Shigeru sorriu. Horace viu seus ombros elevarem, como se um peso enorme tivesse sido tirado deles.
— A entrada precisa de conserto  continuou Horace. — Mas os Kikori irão lidar com isso facilmente. E nós podemos construir cabanas e um abrigo adequado para os feridos.
Ele estava muito consciente do fato de que os homens feridos haviam viajado sem queixa, tendo sido constantemente expostos ao frio intenso, granizo e neve enquanto estavam viajando. Vários já haviam sucumbido aos seus ferimentos. Agora, com a perspectiva de quartos quentes e secos, os outros teriam uma chance maior de sobrevivência.
A notícia de que Ran-Koshi estava ao alcance tinha rapidamente viajado para baixo na coluna. Sem ordens dadas, os Kikori e Senshi tinham levantado e estavam se formando em sua ordem de marcha mais uma vez.
— Obrigado, Reito — Shigeru falou — por nos trazer em segurança através das montanhas até este ponto. Agora, talvez devêssemos examinar meu palácio de inverno?
Eles subiram até a ruína oeste da paliçada, escolhendo o seu caminho com cuidado sobre a madeira lascada. Quando saíram do outro lado, Horace parou em surpresa.
O vale se alargava, a terra continuava a aumentar gradualmente. Mas havia um considerável espaço aberto atrás do muro de madeira. E a área estava pontilhada com cabanas e chalés.
— Alguém esteve aqui recentemente  disse Horace.
Então, conforme eles se moviam mais acima do vale e ele pôde ver a condição dos edifícios de forma mais clara, ele revisou sua estimativa.
— Talvez não recentemente  corrigiu.
— Mas, certamente, muito mais recentemente do que mil anos atrás.
A madeira dos edifícios, como a paliçada em si, estava cinza e seca com a idade. Os telhados eram feitos de telhas rachadas e na maioria dos casos, as vigas de sustentação desabaram, deixando somente seções de telhados ainda em vigor.
Os recém-chegados olharam em volta e se perguntaram confusos sobre quem os habitantes mais recentes poderiam ter sido. Então, um dos Kikori surgiu a partir de uma cabana que tinha ido inspecionar e gritou entusiasmado.
— Kurokuma! Aqui!
Horace se moveu rapidamente para se juntar a ele. A cabine era maior do que a maioria das outras. Não havia janela. As paredes eram brancas e sólidas, com apenas uma porta no final.
— Parece mais um armazém do que uma cabana  disse ele baixinho.
E quando ele pisou cautelosamente para dentro, olhando para cima para se certificar de que o telhado não estava prestes a desabar sobre ele, viu que estava certo.
O interior estava cheio de velhas caixas de madeira em decomposição e restos apodrecidos de tecido que poderiam ter sido os restos de sacos de comida. Eles estavam espalhados em todas as direções.
Obviamente, os animais tinham trabalhado aqui ao longo dos anos, vasculhando o conteúdo do prédio em busca de algo comestível. Mas o que chamou seu interesse era um armário correndo pelo centro da sala.
— Armas, Kurokuma!  disse o Kikori que o tinha chamado. — Olha!
O armário tinha velhas armas. Dardos, lanças e espadas simples – não as armas cuidadosamente criadas pelos Senshi, mas mais pesadas, armas de lâmina reta. As ligações de couro e hastes de madeira estavam podres com a idade e parecia que iriam se desintegrar em um toque. E as partes de metal estavam velhas e com ferrugem.
Inutilizáveis, Horace viu de relance. Elas não haviam sido de boa qualidade quando novas. Ele supôs que eram de ferro, e não de aço temperado. Seriam mais perigosas para o usuário do que para o inimigo.
— Podemos usá-las?  O Kikori perguntou, mas Horace balançou a cabeça.
Ele tocou a lâmina de uma das espadas e ferrugem saiu em flocos vermelhos.
— Muito velha. Muito enferrujada  disse ele.
Ele se virou para Reito, que tinha seguido até a cabine.
— Qualquer ideia de quem poderia ter construído tudo isso?  ele perguntou, varrendo a mão no interior do antigo armazém.
Reito adiantou-se e examinou uma das espadas, notando a má qualidade.
— Em um palpite, eu diria que bandidos ou saqueadores  disse ele. — Isso teria sido um esconderijo ideal para eles enquanto roubavam as aldeias Kikori e os viajantes através dos vales.
— Bem, eles estão há muito tempo fora daqui  disse Horace, limpando manchas de ferrugem das suas unhas. — Acho que nós vamos construir as nossas próprias cabanas — acrescentou. — Eu prefiro dormir à noite sem se preocupar que o teto vá cair sobre mim.
Eles montaram acampamento na área mais ampla por trás da paliçada. No momento, iriam se abrigar em tendas, mas Horace direcionou ao Kikori sênior onde as cabines e o hospital deveria ficar localizado. Com um número tão grande de trabalhadores qualificados à sua disposição, ele também deu instruções para renovar e reforçar a paliçada, para começar, com prioridade a ser dada para o lado esquerdo quase desmoronado.
Estava feliz por tirar essa carga dos ombros de Reito, deixando-o livre para cuidar do bem-estar de Shigeru. Reito era um Senshi, mas era da corte, não um general, e Horace eram mais bem qualificado para zelar pela defesa da Ran-Koshi. Ele caminhou sobre o vale, com energia renovada, seguido por um grupo de uma dezena de idosos Kikori – os líderes das aldeias que haviam se juntado a sua festa. Ele ficou satisfeito com a maneira que eles rapidamente aceitaram o seu direito de dar ordens. Ainda mais gratificante foi o fato de que eles estavam dispostos a cooperar uns com os outros. Quaisquer rivalidades entre as vilas que poderia ter existido antes foram ceifadas pela situação atual.
Um deles apontou que havia pouca madeira pesada no próprio vale. Grupos de trabalho teriam que viajar para trás no caminho que eles tinham vindo para cortar madeira fora do vale e arrastá-lo até a fortaleza.
Horace assentiu reconhecendo o fato.
— Então amanhã vamos descansar  disse ele. — Depois disso, o trabalho começa.
O Kikori assentiu em acordo. O descanso de um dia inteiro tornaria o trabalho mais rápido, todos sabiam.
— Dividam seus grupos para o trabalho  ele disse a eles.
Todos os Kikori sêniores curvaram-se e Horace os retornou com uma curvada rápida de sua própria cabeça. Interessante como isso rapidamente se tornou uma ação natural, ele pensou.
Então, quando eles se afastaram para seus respectivos grupos, o cavaleiro olhou em torno procurando por Eiko e Mikeru. Os dois nunca estavam muito longe, e durante as últimas semanas ele tinha se acostumado a destacá-los para tarefas específicas.
— Eiko, você pode organizar espiões para voltar no caminho que nós viemos e vigiar a aproximação de Arisaka?
— Irei eu mesmo, Kurokuma  o forte lenhador disse, mas Horace balançou a cabeça.
— Não. Eu preciso de você aqui. Envie homens que você pode confiar.
— Eu irei com eles, Kurokuma?  Era Mikeru, o jovem que havia os guiado a partir da primeira aldeia Kikori e, como resultado, havia escapado do ataque brutal de uma das patrulhas da Arisaka.
Era vivo, inteligente e enérgico, sempre pronto para algo que quebrasse a monotonia da marcha longa e difícil. Ele era a pessoa ideal para a tarefa que Horace tinha em mente.
— Não. Tenho outra coisa que preciso que você faça. Obtenha três ou quatro de seus amigos e explore este vale. Encontre um caminho secreto para fora para a planície abaixo.
Mikeru e Eiko ambos franziram a testa, intrigados com suas palavras.
— Caminho secreto, Kurokuma? Existe um caminho secreto?  Mikeru olhou ao redor das paredes juntas de rocha. Elas pareciam impenetráveis.
Horace sorriu amargamente.
— Esta era uma fortaleza. Mas também é uma armadilha. Um beco sem saída. Nenhum comandante militar iria colocar seus homens em uma fortaleza como esta a menos que houvesse uma saída secreta. Confie em mim. Ela vai aparecer. Vai ser estreita e difícil, mas estará lá. Você apenas tem que encontrá-la.

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