26 de janeiro de 2017

Capítulo 26

Apesar do resmungo anterior de Halt, as camas, essencialmente nada mais do que os colchões grossos espalhados no chão, eram bastante confortáveis.
Depois de eles terem apagado a pequena lanterna que iluminava o quarto, Will estava deitado de costas, ouvindo a respiração profunda e regular de Halt. Quando seus olhos se acostumaram à escuridão, ele podia discernir uma fenda de luz pálida que aparecia na beira da porta de correr que conduzia à galeria exterior, apesar de que estalajadeiro tinha escurecido as lanternas da galeria algumas horas antes.
O painel deslizante da janela estava aberto e uma brisa fria entrava na sala. Will puxou a colcha para cobrir mais em torno de suas orelhas. O estalajadeiro tinha oferecido a eles um pequeno braseiro de carvão para aquecer a sala, mas eles tinham recusado. Ambos os arqueiros preferiam ar fresco.
Não pela primeira vez, ele encontrou-se maravilhado quão incrível sua vida havia se tornado nos últimos anos. Ele sabia que algumas pessoas com quem ele havia crescido nunca tinham ficado mais de um ou dois quilômetros de distância do Castelo Redmont e outros nunca tinham ido além dos limites do feudo Redmont. Mesmo sua amiga dos protegidos Jenny, que agora era uma chef famosa, mal tinha ido mais longe do campo.
No entanto, ali estava ele, do outro lado do mundo, tendo viajado por um canal incrível no deserto, feito por desconhecidas mãos antigas, em um navio engenhoso projetado para navegar contra o vento. Antes disso, ele havia cruzado o palpitante e traiçoeiro Mar Stormwhite e visto as falésias estéreis de Skorghijl, em seguida, viajado para as montanhas cobertas de neve da Escandinávia, onde ele havia enfrentado os cavaleiros ferozes das estepes do Leste.
Mais recentemente, ele tinha atravessado o deserto abrasador de Arrida e fez grandes amigos entre os nômades da tribo Bedullin. Havia enfrentado a tribo selvagem scotti no norte. Então, com Halt e Horace, tinha viajado por todo o comprimento de Clonmel, um dos seis reinos de Hibernia.
Às vezes, quando pensava sobre o quanto tinha visto e feito em sua curta vida, a sua cabeça girava. E nesses momentos, ele pensava em sua ambição de infância de se tornar um cavaleiro. Quão limitada a sua vida teria sido, em contraste com esta incrível existência! Ele sabia que a maioria dos cavaleiros que havia treinado na Escola de Batalha de Redmont com Horace nunca tinha deixado as fronteiras de Araluen.
Ele questionava se Halt, que tinha visto todas essas coisas e muito mais, já sentiu a mesma sensação de maravilha e entusiasmo por sua vida. Sem pensar, ele falou.
— Halt? Você está acordado?
— Não.
O mau humor na resposta de uma palavra era inconfundível.
— Ah. Sinto muito.
— Cale a boca.
Ele ponderou se iria pedir desculpas mais uma vez, decidiu que isso iria contra a instrução para calar a boca, então ficou em silêncio. Ele olhou para a janela aberta.
A luz de uma meia lua estava começando a aparecer por ela. A mesma lua estaria brilhando agora em Horace, em algum lugar nas montanhas, ele imaginava. Então, ele deu um enorme bocejo e, pouco depois, apesar de seu sentimento de admiração, ele adormeceu.
Ele havia dormido apenas alguns minutos quando a voz de Halt o acordou.
— Will? Você está dormindo?
Seus olhos dispararam, instantaneamente em alerta. Então ele percebeu que não havia sentimento de alarme ou aviso nas palavras de Halt e seus músculos enrijecidos relaxaram.
— Eu estava  disse ele, um pouco indignado. — Não estou agora.
— Bom  Halt respondeu, um tanto presunçosamente. — Bem feito para você.
E o arqueiro barbudo rolou para o outro lado, reuniu os lençóis debaixo do queixo e cochilou.
Um som.
Leve, quase inaudível. Mas fora do padrão normal de sons da noite que o subconsciente de Will tinha estudado, arquivado e aprendido a ignorar. Seus olhos estavam abertos novamente, e ele ouviu atentamente. A lua já não brilhava através da janela aberta. Ele devia ter dormido por algumas horas, ele pensou.
A respiração de Halt se manteve com a mesma profundidade, mas Will sabia que o seu professor estaria acordado também. Arqueiros são treinados para manter o seu padrão de respiração, mesmo quando despertarem inesperadamente, de forma que um invasor potencial não tenha nenhum aviso de que sua presa estava acordada e pronta para ele.
Outro som. Uma luz, um barulho rangido da madeira em movimento, ainda que levemente, contra a madeira. Era o som de um cuidadoso pisar nos degraus, ele percebeu. Assim, o intruso, se fosse um intruso, e não um dos funcionários da ryokan, não estava em seu quarto.
Movendo-se lentamente e com infinito cuidado para não fazer barulho, ele levantou-se em um cotovelo e colocou a colcha para trás. Do outro lado do quarto, viu a sombra escura de Halt fazendo a mesma coisa. Halt levantou a mão de alerta, sinalizando-lhe para não fazer nenhum movimento mais. Deitado num chão como este, seria difícil levantar sem fazer barulho. A construção em geral do interior do ryokan era extremamente leve – com painéis móveis de madeira e papel oleado e mais painéis de tecido de junco que cobriam o chão de madeira.
Painéis móveis como estes quase certamente teriam espaço livre entre eles e iriam fazer barulho – assim como as escadas estavam fazendo. Eles ouviram mais dois guinchos leves da escada como se estivesse em confirmação. Will olhou para baixo para se certificar que sua faca de caça e a faca de arremesso estavam ao lado do colchão, a fácil alcance.
Agora que eles sabiam que não havia intrusos no quarto, não havia necessidade de continuar a pretensão de respiração profunda. Ambos respiraram baixo, quase inaudivelmente, seus ouvidos tensos para qualquer som vindo de fora.
Will estava grato que seu quarto estava mais perto da escadaria do que o de Alyss. Um invasor teria de passar por ele para chegar a Alyss. Um chinelo de pano contra a parede, em seguida, outro guincho leve, disse-lhes que quem quer que fosse tinha alcançado a galeria e estava se movendo lentamente ao longo dela. Eles seguiram os sons ligeiros que marcavam o seu progresso até que o feixe pálido de luz no painel da porta foi obscurecido e eles sabiam que ele estava fora de sua porta. Os sons do movimento cessaram e Will sentiu uma sensação de alívio. Quem quer que fosse, Alyss não era o alvo.
Ele fez um grande esforço nas orelhas, a cabeça ligeiramente inclinada para o lado em direção à porta. Houve um som suave arranhar – unhas na superfície do papel oleado, ele adivinhou. Dificilmente o ato de alguém cuja intenção era levá-los de surpresa.
Halt imitou o som, passando as unhas no tapete de junco. Houve silêncio por alguns segundos, sem movimento perceptível fora da porta. Então uma voz baixa, quase inaudível, pouco mais que um sussurro, veio a eles.
— Eu sou Atsu.
Eles trocaram um olhar rápido. Halt acenou para a parede ao lado da porta. Will levantou-se, fazendo o mínimo de barulho possível, e moveu-se, descalço, para ficar ao lado da abertura, a faca de caça na mão. Halt permaneceu sentado no colchão.
— Entre, Atsu  Halt disse suavemente.
A porta raspada abriu. A figura foi aparecendo na abertura. Ele olhou para a esquerda e direita, viu Will ao lado da porta e estendeu as mãos para mostrar que estava desarmado.
Will fez um gesto para o Atsu ir para frente, na sala, e ele obedeceu, deslizando a porta fechando atrás dele. Moveu-se para onde Halt estava sentado lateralmente sobre o colchão, as pernas cruzadas, e caiu de joelhos, de frente para ele.
Ele se curvou.
— Saudações, amigos  disse ele.
Will moveu-se a partir da porta agora e ficou de lado, para que pudesse observar o homem enquanto ele falava com Halt. Ele era franzino, menor do que Will ou Halt, mas rijo. Estava quase careca, com apenas alguns fios ao redor da cabeça. Ele parecia estar desarmado, mas poderia muito bem ter uma faca escondida sob a longa capa que era o traje padrão para a maioria dos nihon-jins.
— Você sempre se move tão tarde da noite?  Halt perguntou a ele.
Atsu assentiu.
— Desde que os homens do senhor Arisaka impuseram-se sobre nós, assim é mais seguro para mim, para evitá-los.
— Você ajudou outro gaijin recentemente  Halt disse.
Era uma afirmação, mas era também uma questão. Se esse não fosse o Atsu, as chances são de que ele não saberia o nome do gaijin que ele tinha trazido para baixo das montanhas. Atsu compreendeu o desafio.
— Você está falando de George-san  disse ele. — Amigo de Ora’ss-san.
Halt franziu a testa momentaneamente, não reconhecendo o nome.
— Quem?  disse ele, desconfiado.
Desta vez, Atsu enunciou o nome com cuidado.
— Ora’ss-san  disse ele. — O guerreiro gaijin.
Will de repente, decifrou o nome. Ele sabia que a palavra 'san' era um termo nihon-jin de respeito, adicionado como sufixo do nome de uma pessoa. Se ele ignorasse isso, ele ficaria com “Or'ss”, e isso era um pouco mais reconhecível.
— Horace  disse ele rapidamente e Atsu virou a cabeça para ele e sacudiu-a rapidamente em afirmação.
— Sim. Ora’ss-san  disse ele. — Ele salvou a vida do imperador.
— Ele fez isso agora?  Halt disse, pensativo. — Eu imagino que isso não tenha o tornado o estrangeiro favorito de Arisaka.
— Não, de fato. Arisaka ficou furioso quando soube. Ora’ss-san matou dois dos seus Senshi.
Atsu permitiu uma nota de satisfação na fluência de sua voz quando acrescentou o último comentário.
— Isso soa como Horace, tudo bem  Will disse.
— E o nosso amigo aqui não me parece muito com o coração partido com o pensamento dos homens Arisaka estarem nos deixando para um lugar melhor — disse Halt ironicamente.
— O que torna mais provável que ele seja, de fato, um amigo  Will concordou.
Halt parou por um instante, pensando. Will parece estar certo, ele pensou. Mas algumas perguntas a mais poderiam estar em ordem.
— O que mais você pode nos dizer sobre George?  Ele disse.
Atsu analisou a questão, examinando seus pensamentos para garantir que suas respostas avançassem sua credibilidade aos olhos destes dois gaijin.
— Ele não é um guerreiro. É um locutor.
Will sufocou uma pequena risada.
— Isso soa como George.
Atsu olhou para ele novamente.
— Mas ele salvou a vida de Ora’ss-san nas montanhas — acrescentou, e Will ergueu as sobrancelhas em surpresa.
— George salvou a vida de Horace?  Disse ele, incrédulo.
— Estávamos sendo emboscados nas montanhas. Um deles atirou uma flecha no Ora’ss-san. George-san viu e empurrou Ora’ss-san para um lado. A flecha atingiu George-san no braço.
Halt e Will trocaram outro olhar.
— Alyss disse que George mencionou uma ferida em sua mensagem  Will disse. — Embora isso sobre salvar Horace é novidade para mim.
— Falando de Alyss  Halt disse — talvez você deva buscá-la. Ela deveria ouvir o que Atsu tem a dizer.
Seu tom de voz disse que ele agora estava convencido de que este realmente era Atsu e que ele provavelmente poderia ser confiável. Will virou-se para a porta, mas, quando fez isso, houve um leve toque na moldura da porta e o painel deslizante abriu, revelando Alyss no manto nihon-jin que ela estava usando anteriormente.
— Vocês dois sempre berram no topo da sua voz no meio da noite?  disse ela.
Em seguida, avistando a terceira figura na sala, sua voz perdeu o seu tom de piada.
— Acredito que este seja Atsu?  Era uma suposição lógica, Will pensou.
Ninguém mais provável estaria em seu quarto a esta hora da noite.
— De fato é. Atsu, esta é a lady Alyss.
O pequeno nihon-jin girou em volta de joelhos e curvou-se de sua posição de joelhos para Alyss.
— Hr'ady Ariss-san  disse ele.
Alyss, embora fosse diplomata, levantou uma sobrancelha para a pronúncia incomum de seu nome. “Espere até que ela ouça o que ele faz com o de Horace”, Will pensou, vendo a expressão.
— Encantada em conhecê-lo  disse Alyss, seus traços sobre controle novamente.
Ela fechou a porta e atravessou a sala para sentar-se no final do colchão de Halt, as pernas encolhidas para um lado.
 Atsu, pode nos dizer o que aconteceu com Horace?  Ela perguntou a Halt.
— Eu estava prestes a pedir-lhe isso  o Arqueiro respondeu. Mas Atsu não precisava de mais questionamento.
— Ora’ss-san se ofereceu para servir o senhor Shigeru, o imperador de Nihon-Ja, contra o usurpador, Arisaka. Eles reuniram alguns dos homens do senhor Shigeru e estão a recuar para as montanhas, em direção à antiga fortaleza de Ran-Koshi.
— Portanto, o imperador tem um exército com ele?  Halt perguntou.
Atsu balançou a cabeça.
— Nenhum exército. Apenas os sobreviventes dos seus homens da guarnição em Ito. Quase cinquenta homens. Há também os Kikori, mas eles não são do exército.
— Os Kikori?  Alyss perguntou.
Ela não estava familiarizada com a palavra. Atsu se virou para ela.
— Lenhadores  respondeu. — Eles vivem nas montanhas e são leais ao imperador. Arisaka cometeu o erro de invadir e queimar as suas aldeias em sua busca pelo imperador. Como resultado, ele alienou os Kikori e muitos deles aderiram ao imperador.
— Mas eles não são soldados?  Will perguntou e Atsu balançou a cabeça.
— Infelizmente, não. Mas eles conhecem as montanhas como a palma das suas mãos. Se estão escondendo o imperador, Arisaka nunca vai encontrá-lo.
— Que fortaleza é essa que você mencionou?
— Ran-Koshi. É uma lendária fortaleza, com altos muros com muitos metros de espessura. Mesmo com uma pequena força, o imperador pode segurá-la contra o exército Arisaka por meses.
Os três araluenses trocaram olhares. Will e Alyss deixaram para Halt falar a pergunta que todos eles queriam resposta.
— Então, como vamos chegar a Ran Koshi? Você pode nos guiar?
Seus corações se afundaram quando Atsu sacudiu a cabeça tristemente.
— É dito que está em algum lugar nas montanhas do noroeste. Somente os Kikori saberiam sua localização, com certeza, e faz tanto tempo desde que ninguém viu que muitas pessoas dizem que é apenas uma lenda.
— É isso o que você acredita?  Alyss perguntou.
— Não. Eu tenho certeza que é real. Mas mesmo se eu soubesse exatamente onde está nas montanhas, levaria semanas, até meses para chegar lá. Você estará cruzando um terreno montanhoso, um cume elevado após o outro. É incrivelmente lento e, claro, seria pego pelo inverno antes de chegar na metade do caminho. E você vai estar se movendo através do território controlado por homens do Arisaka.
Halt esfregou o queixo, pensativo.
— Você tem um mapa?  perguntou. — Pode mostrar-nos a área aproximada?
Atsu assentiu com a cabeça rapidamente. Ele enfiou a mão no roupão e tirou um rolo de pergaminho. Abriu-o e eles podiam ver que era uma projeção da ilha norte de Nihon-Ja.
— Dizem que Ran-Koshi está nesta área  disse ele, com o dedo circundando uma pequena área no canto superior esquerdo da ilha. — É selvagem, difícil. Como você pode ver, é no coração das montanhas mais altas e atrás deste lago enorme. Para chegar lá, você teria que atravessar tudo isso...
Seu dedo traçou uma rota para cima pelo centro da ilha. As marcações no mapa indicavam que a rota iria levá-los através de uma região montanhosa – íngreme e
densamente florestada. Ele olhou para cima, se desculpando.
— Como eu disse, levaria semanas para fazer essa viagem. E eu simplesmente não tenho tempo para guiá-los. Há um movimento de crescente resistência a Arisaka e eu sou um dos organizadores. Eu simpatizo com o seu desejo de encontrar Ora’ss-san, mas tenho minhas próprias tarefas.
Halt olhou para o mapa pensativo por alguns segundos. Então ele apontou para um local um pouco a oeste da área que Atsu tinha indicado.
— Se nós estivéssemos aqui, você poderia nos colocar em contato com pessoas que possam nos ajudar a encontrar o imperador? Estes Kikori que você mencionou?
Atsu assentiu.
— Claro que sim. Mas como eu digo, levaria semanas para chegar a esse ponto, e podemos até não conseguir se a neve chegar. E eu não posso perder esse tempo. Sinto muito.
Halt assentiu, entendendo sua situação. Ele tinha vindo a considerar o problema de viajar através deste campo hostil controlado por forças Arisaka desde o encontro com os dois Senshi. Agora, ele pensou ter visto uma resposta.
— Você poderia nos ajudar por quatro ou cinco dias? — perguntou.

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