30 de janeiro de 2017

Capítulo 25

Manon Bico Negro acordou ao suspiro das folhas, o chamado distante das aves cautelosos e o cheiro de terra e madeira antigas.
Ela gemeu quando abriu os olhos, apertando-os contra a luz do sol que atravessava a grossa cobertura de copas.
Ela conhecia essas árvores. Carvalhal.
Ela ainda estava presa na sela, Abraxos esparramado debaixo dela, pescoço curvado para que pudesse monitorar suas respirações. Seus olhos escuros se arregalaram de pânico enquanto ela gemia, tentando se sentar. Ela tinha caído de costas, e sem dúvida ficava ali por algum tempo, a julgar pelo sangue azul que cobria a lateral de Abraxos.
Manon levantou a cabeça para examinar seu estômago e reprimiu um grito enquanto os músculos eram esticados.
Um calor úmido escorreu de seu abdômen. As feridas mal foram estancadas, então, se estavam rasgando tão facilmente.
Sua cabeça latejava como mil forjas. E sua boca estava tão seca que mal podia mexer a língua.
Primeira ordem do dia, sair desta sela. Em seguida, tentar avaliar a si mesma. Em seguida, água. Uma correnteza corria nas proximidades, perto o suficiente para que ela se perguntasse se Abraxos tinha escolhido aquele local por isso.
Ele bufou, movendo-se de preocupação, e ela silvou quando seu estômago rasgou mais.
— Pare — ela falou asperamente. — Estou bem.
Ela não estava bem, nem mesmo perto disso. Mas ela não estava morta. E isso era um começo. O resto – sua avó, as Treze, a herança Crochan... ela lidaria com isso quando não tivesse a um passo da Escuridão. Manon ficou ali por longos minutos, respirando contra a dor. Limpando a ferida; estancando a hemorragia.
Ela não tinha nada além de seus couros, mas sua camisa... ela não tinha força para ferver a roupa antes. Só poderia rezar para que a imortalidade correndo por seu sangue expulsasse qualquer infecção. O sangue Crochan dentro dela...
Manon sentou-se de súbito, sem se dar tempo para hesitar, impedindo o grito de sair ao morder o lábio tão forte que ele sangrou, o gosto acobreado enchendo sua boca.
Mas ela desperta. O sangue escorria sob seus couros de voar, mas ela se concentrou em soltar os cintos, uma fivela de cada vez.
Ela não estava morta.
A Mãe ainda tinha alguma utilidade para ela.
Livre do cinto, Manon olhou para o chão ao lado de Abraxos coberto de musgo.
A escuridão a salvasse, isso ia doer.
Apenas mover o corpo para passar a perna para o outro lado a fez cerrar os dentes contra os soluços. Se as unhas de sua avó estivessem envenenadas, ela estaria morta. Mas elas foram deixadas irregulares em vez de afiadas e cheio de ferrugem. Uma grande cabeça cutucou em seu joelho e ela encontrou Abraxos ali, pescoço esticado, a cabeça logo abaixo dos seus pés, uma oferta em seus olhos.
Não confiando em sua consciência para manter-se segura por muito mais tempo, Manon deslizou sobre a cabeça larga dele, respirando através das ondas de dor ardentes. A respiração da serpente alada aqueceu sua pele gelada enquanto ele gentilmente baixou-a para a clareira gramada. Ela se deitou de costas, deixando Abraxos focinhá-la, um gemido fraco saindo dele.
— Tudo bem... — ela respirou. — Eu estou...



Manon acordou no crepúsculo. Abraxos estava enrolado em volta dela, uma asa erguida para formar uma cobertura improvisada. Pelo menos ela estava quente. Mas sua sede... Manon gemeu, e a asa instantaneamente se dobrou, revelando uma cabeça de couro e olhos preocupados
— Sua... mãe-galinha — ela engasgou, deslizando os braços para o chão e se empurrando levantar-se.
Oh deuses, oh deuses, oh deuses.
Mas ela estava em uma posição sentada. Água. Aquele rio... Abraxos era grande demais para alcançá-lo através das árvores, mas ela precisava de água. Em breve. Quantos dias passaram? Quanto sangue ela perdera?
— Ajuda — ela respirou.
Mandíbulas poderosas se fecharam em volta da gola de sua túnica, içando-a com tanta gentileza que o peito de Manon se apertou. Ela oscilou, apoiando a mão na lateral de couro dele, mas conseguiu ficar de pé.
Água, depois ela poderia dormir mais.
— Espere aqui — ela falou, tropeçando até a árvore mais próxima, uma mão na barriga, Ceifadora do Vento um peso em suas costas. Ela debatera deixar a espada para trás, mas qualquer movimento extra, mesmo desafivelar o cinto em seu peito, era impensável. Árvore em árvore, ela cambaleou, unhas cravando-se em cada tronco para manter-se de pé, sua respiração irregular enchendo a floresta silenciosa. Ela estava viva, ela estava viva...
O rio era pouco mais que um fio d’água correndo através de algumas pedras cobertas de musgo. Mas era limpa e rápida e a coisa mais bonita que ela já tinha visto. Manon examinou a água. Se ela se ajoelhasse, conseguiria ficar de pé novamente? Ela dormiria ali, se fosse necessário. Depois que bebesse.
Cuidadosamente, músculos tremendo, ela se ajoelhou na margem. Ela engoliu um grito quando se inclinou sobre o fluxo, enquanto mais sangue deslizava para fora. Ela bebeu os primeiros goles sem parar, então diminuiu a velocidade, o estômago doendo por dentro e por fora agora.
Um galho estalou e Manon ficou de pé, instinto substituindo dor tão rápido que a agonia veio uma respiração mais tarde. Ela esquadrinhou as árvores, as rochas, os galhos e o pequeno rio.
Uma voz feminina fria soou do outro lado do rio.
— Parece que você caiu longe de seu ninho, Bico Negro.
Manon não sabia dizer a quem pertencia, que bruxa a reconheceu...
Por trás das sombras de uma árvore, uma jovem mulher deslumbrante surgiu.
Seu corpo era dúctil e ainda flexível – cabelo ruivo desenrolando-se cobrindo parcialmente a sua nudez. Não havia uma peça de roupa cobrindo aquela pele cor de creme. Não havia uma cicatriz ou uma marca em sua carne pura como a neve. O cabelo sedoso da mulher movia-se com ela enquanto se aproximava.
Mas a mulher não era bruxa. E seus olhos azuis...
Corra. Corra.
Olhos azuis glaciais que brilhavam mesmo à sombra da floresta. E uma boca vermelha produzida perfeitamente para o quarto se partiu em um sorriso muito branco quando ela observou Manon, o sangue, o ferimento. Abraxos vibrou em alerta, balançando o chão, as árvores, as folhas.
— Quem é você? — perguntou Manon, a voz fria.
A jovem inclinou a cabeça – um pássaro assistindo um verme se contorcendo.
— O Rei das Trevas me chama de sua cão de caça.
Manon fez valer cada respiração quando reuniu sua força.
— Nunca ouvi falar de você — Manon falou asperamente.
Algo muito escuro para ser sangue deslizou sob a pele cor de creme do abdômen da mulher, em seguida, desapareceu. Ela roçou uma mão pequena e bonita sobre a barriga esticada onde a mancha estivera.
— Você não teria ouvido falar de mim. Até sua traição, fui mantida naquelas outras montanhas. Mas quando ele aperfeiçoou o poder dentro de meu próprio sangue... — aqueles olhos azuis perfuraram Manon e era loucura que brilhava lá. — Ele poderia fazer muito com você, Bico Negro. Muito. Ele me enviou para levar sua cavaleira coroada para o seu lado mais uma vez...
Manon recuou um passo, apenas um.
— Não há para onde fugir. Não com esse ferimento em seu estômago — ela jogou o cabelo castanho avermelhado sobre um ombro. — Ah, que diversão teremos agora que eu a encontrei, Bico Negro. Todos nós.
Manon se preparou, desembainhando Ceifadora do Vento enquanto a forma da mulher brilhava como um sol negro, em seguida, ondulou, as bordas se expandindo.
A mulher tinha sido uma ilusão. Um glamour. A criatura que estava diante dela tinha nascido da escuridão, tão branca que ela duvidava que já houvesse sentido o beijo do sol até agora. E a mente que inventara aquilo... A imaginação de alguém nascido em outro mundo, onde pesadelos rondavam a terra fria e escura. O corpo e rosto eram vagamente humanos. Cão de caça. Sim, era apropriado. As narinas eram enormes, olhos tão grandes e sem pálpebras que ela se perguntou se o próprio Erawan as arrancara, e aquela boca... os dentes eram tocos pretos, a língua grossa e vermelha para provar o ar. E se espalhando-se pelo corpo branco estava o método de transporte de Manon: asas.
— Você vê — o caçador de raça ronronou. — Percebe o que ele pode lhe dar? Agora posso saborear o vento, sentir o cheiro de sua própria essência. Assim como posso sentir seu cheiro do outro lado da terra.
Manon manteve um braço embalando a barriga enquanto o outro tremia, erguendo Ceifadora do Vento. A cão de caça riu baixa e suavemente.
— Penso que gostarei disso — ela falou e atacou.
Viva, ela estava viva e permaneceria assim.
Manon saltou para trás, deslizando entre duas árvores, tão perto que a criatura atingiu uma parede de madeira em seu caminho. Aqueles olhos de novilho se estreitaram em fúria e suas mãos brancas – as garras sujas com terra – começaram a escavar a madeira enquanto ela tentava atravessar a barreira...
Só para ficar presa.
Talvez a Mãe estivesse olhando por ela.
A cão de caça entalara entre as duas árvores, metade dentro, metade fora, graças àquelas asas, a madeira guinchando.
Manon correu. A dor rasgou-a a cada passo e ela chorou por entre os dentes enquanto corria entre as árvores. Um piscar de olhos e ela deixou troncos e folhas para trás. Manon impulsionou-se, uma mão apertada contra a ferida, segurando Ceifadora do Vento com força suficiente enquanto oscilava.
Ali estava Abraxos, olhos selvagens, asas já batendo, preparando-se para voar.
— Vá — ela murmurou, jogando-se para ele enquanto as árvores rangiam atrás dela.
Abraxos lançou-se para ela ao mesmo tempo em que Manon saltou para ele, não para montar sobre a sela, mas para suas garras, para as garras poderosas que a envolveram sob os seios, sobre a barriga – que doeu mais quando ele a ergueu, subindo e subindo através dos troncos e das folhas. O ar estalou sob suas botas e Manon, olhos correndo de um lado ao outro, viu as garras da cão de caça destruindo tudo descontroladamente. Era tarde demais.
Um grito de raiva explodiu de seus lábios, a cão de caça dando alguns passos para a beira da clareira, preparando-se saltar e ganhar os ventos, enquanto as asas de Abraxos batiam como o inferno. Elas alcançaram o dossel, suas asas quebrando galhos, chovendo sobre a cão de caça. O vento atingia Manon tão logo Abraxos voava com ela, mais e mais alto, dirigindo-se para o leste, em direção às planícies, leste e sul...
A fera não seria detida por muito mais tempo. Abraxos percebeu isso também. Tinha um plano para isso. Um lampejo branco surgiu através do dossel abaixo deles. Abraxos se equilibrou, fazendo um mergulho letal rápido, seu rugido de raiva fazendo a cabeça de Manon zumbir. A cão de caça não teve tempo de se defender quando a poderosa cauda de Abraxos a atingiu, as farpas de aço envenenadas acertando em cheio. Sangue preto e podre espirrou, e asas membranosas cor de marfim caíram separadas do corpo.
Em seguida, serpente alada e bruxa voaram para cima, enquanto cão de caça caía atravessando as copas das árvores – morta ou ferida, Manon não se importava.
— Eu a encontrarei — a cão de caça gritou do chão da floresta.
Demorou quilômetros antes de as palavras gritadas desvanecerem.
Manon e Abraxos pausaram apenas por tempo suficiente para ela rastejar para as costas do animal e se prender. Sem sinais de outras serpentes aladas nos céus, nenhum indício da cão de caça perseguindo-os. Talvez aquele veneno a impedisse por um tempo – senão permanentemente.
— Para o litoral — disse Manon por sobre o vento à medida que o céu se tornava vermelho em uma escuridão final. — Para algum lugar seguro.
Sangue escorria rapidamente por entre os dedos, mais forte do que antes, somente um momento antes de a escuridão a reclamar novamente.

18 comentários:

  1. Cao de caça me lembrou das cronicas de gelo e fogo.

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    1. Me lembrou também, a Sarah usa muitos termos de Asoiaf, como Mão do Rei, notei até uma semelhança nas três faces dos clãs das bruxas, Mãe, Velha e Donzela. Easter eggs everywhere

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    2. Que por sua vez usou a mitologia céltica, é um toma lá-dá cá enorme.
      -Nikke

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    3. No caso a mãe a sabia e a donzela são as três faces da Deusa, de uma religião real de bruxos chamada Wicca

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    4. Eu ainda não LHI as crônicas de gelo e fogo é bom ?

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    5. É sim! Apesar de os dois primeiros livros serem bem cansativos...

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    6. Muitos elementos parecidos em uma série e outra na verdade, apesar do enredo ser completamente diferente. Tipo a aparência da Manon e da Daenerys, as serpentes aladas são bem parecidas com os dragões, os poderes da Aelin sobre o fogo, sendo essa a única arma contra a escuridão. Como todos os personagens são as peças de um jogo inacabado. A Aelin ser a princesa que foi prometida, até o Rowan meio que lembra o Khal Drogo, pelo tamanho e ferocidade. São tantas as semelhanças, que não tem nem como enumerar todas. Na vdd conheci a série através de pesquisas de livros parecidos com a Cronicas de gelo e fogo, só pra aliviar a espera pelos ventos de inverno, o resultado foi que agora to angustiada pela espera de mais um sexto livro, mas esse pelo menos tem previsão.
      Muito obrigada pelo blog Karina, é incrível. :)

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    7. No caso da Deusa de três faces também é uma referência a Hecate , a deusa da magia da mitologia grega. Onde ela tbm e sempre representada com três faces.
      E da para perceber que a autora usa muito de referências mitológicas. A grega principalmente, vários nomes e inclusive o segundo livro da outra série dela (corte de espinhos e rosas) e baseado no conto de Perséfone e Hades.
      Ou seja, ela mostra que conhece o assunto.
      E muito amor msm!


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  2. Verdade gente, também pensei em GOT, yem varias semelhanças, principalmente a parte geográfica que eu sempre me perdia em GOT e aqui também. Eu fico tipo: tá onde que é isso? É perto de onde o fulano tá? 😣

    Karina, um mapa please! rsrsrs 😜

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  3. Litoral... seguro...
    Seria Baía da Caveira?

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  4. Ai Manon! Litoral seguro= Baía da Caveira = DORIAN!!!!!

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  5. e aelin baia da caveira

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  6. Onde sera que esta As Treze ? Achei que As Sombras iriam atras dela logo que acabacem com as 4 Pernas Amarelas .

    -Larissa

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    1. Tbm achei kk as 13 estão vacilando em não achar ela logo.. Mas acho que isso é para ela se encontra com Dorian na Baía da Caveira..

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  7. Estou meio que shipando Dorian e Manon 😍❤️

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  8. Tenso. É possivel q esse "litoral" seja a baía da caveira ? Pq to achando q é 😀😀 cadê as Treze hein ?

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Boa leitura :)