26 de janeiro de 2017

Capítulo 25

Em contraste com as barulhentas tabernas e restaurantes que eles já tinham passado até agora, o interior do Ryokan era um oásis de calma e tranquilidade.
Halt, Will e Alyss se encontraram em uma grande sala de entrada com paredes e piso acabados em madeira polida. O cheiro doce de cera de abelha pairava no ar, uma prova do constante polimento. Era sobreposto por uma mistura de incenso e fumaça de madeira perfumada, o último vindo de uma fogueira posta contra uma parede lateral, onde uma lareira enviava um brilho quente pela sala. Esta iluminação suave era aumentada por várias lanternas penduradas, cada uma composta por uma vela acesa dentro de um globo de papel. Em frente à lareira, e situada em simetria a ela, uma pequena lagoa mandava reflexões de luz através das paredes.
A decoração do quarto era pequena, mas elegante. Uma grande mesa diante deles, com duas caixas belamente pintadas, um em cada extremidade, e um jornal pesado no centro. Instrumentos de escrita estavam dispostos ordenadamente ao lado do jornal. Atrás dela havia uma pintura de parede emoldurada – e não uma imagem, mas um ideograma nihon-jin grande.
À esquerda, uma escadaria de madeira subia para o nível seguinte, e uma galeria de madeira trilhada corria ao redor dos quatro lados do espaço aberto acima deles.
Halt, olhando ao redor, assumiu que o acesso aos quartos viria desta galeria. Havia um único degrau em frente deles, então a área principal do quarto era um pouco maior do que a entrada. Will começou a ir em direção a área mais elevada para se aproximar da mesa, mas Alyss tinha notado vários pares de sandálias alinhadas ao longo da parte inferior do assoalho. Ela lembrou um item a partir de notas de fundo de George sobre os costumes dos nihon-jins e o parou com a mão em seu braço.
— Só um momento, Will  disse ela. — Suas botas.
— O que tem elas?  Ele perguntou, mas Halt havia notado as sandálias descartadas, e uma prateleira de chinelos moles no lado.
— Tire-as  disse ele.
— É um costume nihon-jin  Alyss explicou. — Eles não usam botas dentro de casa.
Halt já estava tirando as botas e as colocando na prateleira. Ele olhou agradecido para o chão de madeira polida, a cor de mel escuro no fogo e a luz da lanterna.
— Com pisos como esse, eu não estou surpreso  disse ele.
Will e Alyss seguiram o exemplo. Pisaram para cima da plataforma elevada e selecionaram os chinelos.
Todos eles pareciam ser do mesmo tamanho, mas tinham um estilo simples invólucro, com uma sola de esteira e uma banda de feltro que se estendia sobre o dorso do pé para segurá-los no lugar.
— Ainda bem que Horace não está aqui  disse Will.
Os pés grandes do jovem guerreiro teriam ficado para fora dos compactos chinelos. Os outros sorriram ao pensamento. Então, como se estivessem esperando que eles colocassem os chinelos, um homem saiu de uma entrada por trás da cortina da longa mesa.
Ele parou e se curvou. Os três se aproximaram da mesa e se inclinaram em troca. Parecia um monte de reverência neste país, Will pensou.
— Como posso servi-los?  Disse o homem.
Sua voz era suave e levemente sibilante.
Alyss olhou para Halt. O homem tinha falado na língua comum e ela assumiu que Halt conduziria a conversa com ele. Ele acenou brevemente para ela.
— Nós gostaríamos de quartos  disse ele. — Por duas noites, possivelmente três.
— Claro que sim. Isso não será um problema. Vocês são do navio estrangeiro que entrou no porto hoje?
Halt assentiu e o homem abriu o grande livro sobre a mesa. Ele pegou o que Will tinha assumido ser uma pena, mas ele agora viu que era um pincel fino. Ele mergulhou-o em um tinteiro feito de jacarandá polido e fez duas entradas nítidas no livro – que era, obviamente, o registro de quartos disponíveis.
— Vocês querem jantar? — Perguntou. — Há uma sala de jantar no andar de baixo, ou podemos servir a sua refeição em um dos quartos.
— Eu acho que nos quartos  disse Halt.
Ele indicou Will.
— O meu assistente e eu vamos ter um quarto e a senhorita vai ter o outro. Pode servir a refeição no nosso quarto.
O homem inclinou-se ligeiramente.
— Como quiser. Há mais alguma coisa ou eu devo te mostrar seus quartos agora?
Halt trocou um rápido olhar com Alyss. Ele se perguntou se o homem já suspeitava a razão por trás da sua visita. Afinal, este era o lugar onde George passou várias noites antes que ele deixou Iwanai. Ele tomou uma decisão e se inclinou para frente, abaixando a voz um pouco.
— Fomos informados de que poderíamos encontrar um amigo aqui  começou ele. — Um homem que atende pelo nome de Atsu. Ele veio...
Ele foi interrompido pelo som da porta batendo para trás em suas dobradiças por trás deles. Todos se viraram quando dois Senshi entraram na estalagem, suas botas soando alto no assoalho de madeira.
Com desprezo, eles ignoraram os chinelos e adentraram, de calçados duros, para a plataforma elevada interior. Um deles, obviamente, o líder, estava um passo à frente dos outros. Os olhos do taberneiro piscaram brevemente com aborrecimento, mas ele se recuperou rapidamente e fez uma reverência para os recém-chegados, com as mãos dobradas dentro de suas mangas.
— Curvem  Halt murmurou para seus companheiros.
Ele sentiu um impulso momentâneo de apreensão, se perguntando se o hospedeiro poderia informar ao Senshi que eles estavam perguntando sobre Atsu. Mas era óbvio que o homem não era amigo dos soldados do Arisaka.
O Senshi fez um barulho irrisório em sua garganta quando eles fizeram uma profunda reverência a ele. Ele desprezou devolver o elogio, então se virou e disparou um fluxo rápido de palavras em nihon-jin ao hospedeiro.
Will ouviu a palavra “gaijin” usada várias vezes. Ele olhou para Alyss e viu que ela estava franzindo ligeiramente a testa enquanto tentava acompanhar o ritmo da conversa.
O estalajadeiro respondeu cortesmente, retirando a mão da manga de seu manto para indicar seus convidados com um gesto gracioso.
O Senshi se virou para eles. Notando Halt como o líder, ele aproximou-se dele – perto demais para as boas maneiras – e parou, pés e mãos na cintura, estudando-o. Will notou o símbolo no peito do seu manto – uma coruja vermelha. Eles haviam aprendido que era a marca do clã Arisaka, embora Will sentisse que isso também poderia ser identificado pelas suas maneiras autoritárias e arrogante.
Halt, que poderia parecer enganosamente obsequioso se a ocasião exigisse, baixou os olhos do direto e desafiador olhar do Senshi. O homem gemeu mais uma vez, vendo a simples ação como um ato de fraqueza.
— Gaijin!  Ele disse abruptamente, apontando o dedo indicador em cada um deles em rápida sucessão. — Do navio gaijin?
Halt inclinou a cabeça.
— Isso está correto, senhor — respondeu.
Ele tinha certeza que o Senshi não era senhor de nada, mas não faria mal lhe chamar assim.
— Descubra o rosto na frente de um Senshi!  O homem ordenou.
Ele estendeu a mão e deu um tapa em cima da capa de Halt para trás de seu rosto com as costas da mão. Will respirou fundo, certo de que Halt iria reagir explosivamente para o insulto. Mas o arqueiro barbudo apenas abaixou a cabeça novamente. A mão não tinha feito nenhum contato com seu rosto, apenas pegando a borda da capa e jogado para trás. O Senshi assentiu para si mesmo em satisfação, em seguida, virou-se para Alyss e Will.
— Você e você! O mesmo!
Eles empurraram suas capas para trás. Alyss curvou e quando fez isso Will seguiu o exemplo, feliz que sua cabeça abaixada iria mascarar a raiva que ele sabia que estava mostrando em seus olhos. Quando ele recobrou a serenidade, se ajeitou novamente.
— Por que vocês estão aqui?  O Senshi tinha voltou sua atenção para Halt.
— Estamos aqui para o comércio de pedras preciosas  Halt respondeu.
Foi a resposta que Gundar tinha dado no início do dia ao funcionário do porto. Negociar pedras preciosas explicava a falta de espaço de carga grande a bordo do navio, e era boa o suficiente para explicar suas linhas rápidas. Um navio com uma carga de joias precisava ser rápido afinal.
Mas o Senshi reagiu com indignação a sua resposta, intensificando ainda mais a mensagem em seu rosto.
— Não! Não! Não! Por que vocês estão aqui Ele bateu o pé, arrastando uma marca no macio polimento, e apontou para o chão. — Por que nesse Ryokan?
O estalajadeiro interveio com uma explicação em nihon-jin. Sua voz era baixa e respeitadora, e ele manteve o olhar abaixado, evitando contato visual com o Senshi irritado. O guerreiro ouviu a explicação, depois virou o seu olhar para os três araluenses e fez um comentário a seu companheiro inseparável. Os dois riram e, em seguida, com um gesto de desprezo, o Senshi indicou que ele não tinha mais interesse nos estrangeiros. Os dois homens se viraram e saíram do ryokan, batendo a porta que se fechava atrás deles.
— O que foi aquilo?  Will perguntou.
Ele tinha endereçado a questão a Alyss, mas foi o estalajadeiro que respondeu.
— Eu disse que vocês tinham vindo pelos banhos. O ryokan é construído sobre uma fonte termal. Os Senshi verificam os movimentos de todos os estrangeiros na cidade – eles gostam de se mostrar o quão importante eles são. Alguém deve ter visto vocês chegarem aqui e relatou. Há informantes em toda parte estes dias — ele acrescentou tristemente.
— Isso poderia tornar a viagem para o norte um pouco difícil  disse Halt pensativo, e o estalajadeiro concordou.
— Não vai ser fácil.
— De fato, depois de tanto tempo no mar, um banho quente parece uma boa ideia  Halt refletiu.
Durante a viagem, com água fresca tão rara, eles tinham sido forçados a usar água do mar para se banhar.
— E por que aquele rosto feliz na saída?  Will perguntou. — Parecia ter os colocado em um bom humor.
— Ele disse que, a julgar pela forma como nós cheiramos, precisamos de um banho — Alyss respondeu.
Will levantou uma sobrancelha ao insulto, mas Halt soltou uma risada curta.
— Se não fosse tão verdadeiro, eu poderia estar insultado  disse ele.
Ele virou-se para o estalajadeiro.
— Talvez pudéssemos tomar os banhos primeiro e então comer? — ele sugeriu.
O estalajadeiro assentiu.
— Eu vou lhes mostrar o caminho. E enquanto você está relaxando, vou mandar um mensageiro para ver se Atsu ainda está em Iwanai. Ele vem e vai.
Antes de deixar os outros para ir para a área de banho das mulheres, Alyss deu-lhes instruções cuidadosas.
Os banhos quentes não eram para lavagem. Eram para aproveitar e relaxar.
Assim, eles se lavaram e enxaguaram em um anexo, recolhendo a água quente da banheira e derramando sobre si, e depois mergulharam na água quase escaldante do banho. No início, era uma agonia, mas Will gradualmente tornou-se acostumado ao calor e sentiu que aliviava as dores de várias semanas de pé apoiado em um deque incerto e dormindo em tábuas duras. Relutante, ele finalmente saiu, enxugou-se e cobriu-se com um manto suave que o ryokan providenciava.
Alyss estava esperando por eles quando ele e Halt voltaram para seu quarto.
No centro da sala, uma mesa baixa, apenas 30 centímetros do chão, tinha sido colocada na posição. Estava carregada com tigelas e pratos pequenos, com alimentos aquecidos à vela.
Will olhou em volta esperando por uma cadeira, mas, de acordo com a decoração minimalista do ryokan, não havia nenhuma disponível. Alyss sentou, descansando em seus calcanhares, com as pernas dobradas debaixo da mesa.
Halt gemia baixinho.
— Eu estava com medo disso  disse ele. — Suponho que nós teremos que dormir no chão também.
Ele havia notado anteriormente que não havia camas no quarto. Quando perguntou, o estalajadeiro tinha mostrado para eles colchões grossos guardados atrás de uma das telas deslizantes que mascarava um armário.
Will sorriu para ele enquanto se servia de um espeto de frango grelhado, coberto de um salgado e delicioso molho pardo.
— Você esteve dormindo no chão por anos quando nós acampávamos  disse ele. — Quando se tornou tão exigente?
— Quando nós acampávamos  Halt respondeu — estávamos em campo aberto. Eu aceito que eu tenha que dormir no chão quando estou em uma floresta ou um prado. Mas este é um quarto e este é um piso. Quando estou dentro de casa, prefiro dormir em uma cama.
Ele removeu a tampa de uma tigela de madeira polida e olhou para o interior, um caldo fumegante. Olhando em volta, ele não podia ver nenhum sinal de uma colher, então ele bebeu diretamente da tigela.
— Isso é realmente muito bom  disse ele.
Alyss estava servindo-se de outro prato – um caldo de macarrão fortemente atado com carne de porco desfiada.
Ela parecia confusa com as duas varas de madeira que pareciam ser o único talher, em seguida, segurou o copo à boca e despejou um pouco do macarrão e da carne de porco com os paus, chupando de uma forma muito vulgar.
— Você sabe, eu prefiro esperar que Atsu não apareça com muita pressa. Eu poderia ter alguns dias mais com isso  disse ela.
Halt mudou de posição pela terceira vez em trinta segundos, aliviando a tensão em suas coxas, sentando-se lateralmente em uma nádega.
— Diga isso aos meus pobres e velhos joelhos doloridos  disse ele.

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Boa leitura :)