26 de janeiro de 2017

Capítulo 24

Molhado, sujo e exausto, o grupo do imperador finalmente alcançou a estreita ponte. Enquanto olhava para ela, Horace fez uma breve pausa. Era uma estrutura frágil. Havia uma trilha estreita de tábuas, larga o bastante para passar apenas uma pessoa por vez.
Quatro pesados cabos de corda a suportava: dois em cada lado das tábuas e outros dois, colocados um metro mais alto e mais separados, que agiam como corrimões. Cordas curtas e mais leves estavam amarradas num padrão em ziguezague nos cabos inferiores até os mais altos, forçando uma pequena barreira lateral para prevenir que viajantes caíssem. Com os cabos de corrimão postos mais largos e separados que a trilha, a ponte formava um triângulo cortado e invertido.
Quando ele olhava para a grande queda abaixo e notava que a ponte estava oscilando e vibrando levemente no vento, acabava decidindo que não era uma estrutura que atravessaria com confiança.
Horace não gostava de alturas. Mas ele se concentrou, respirou fundo e pisou nas tábuas estreitas, apertando firmes as cordas laterais. No minuto em que o pé dele tocou-a, a ponte parecia vir à vida, oscilando e imergindo enquanto descrevia um círculo gigante no ar. Mais abaixo dele, ele ouviu o rio correndo e desaguando sobre as rochas. Rapidamente, ele pisou novamente em terra firme, percebendo que seria um atraso para os outros. Os Kikori, acostumados a esse tipo de terreno, iriam se mover com mais rapidez pela ponte do que ele podia. Eles seriam atrasados se ele fosse primeiro.
— Eu vou passar por último  falou, e gesticulou para o Senshi mais próximo liderar o caminho.
O guerreiro pisou na ponte. Ele parou enquanto absorvia o ritmo dos movimentos dela, depois se apressou a atravessá-la, confiante. Reito e vários outros Senshi o seguiram, alcançando o outro lado rapidamente. Então Shigeru cruzou, seguido pelos primeiros dois maqueiros Kikori. Eles pisaram com cuidado na ponte, se movendo com mais lentidão, com os dois homens tendo que adaptar-se aos movimentos repentinos e imergentes da ponte.
Eiko era quem observava o progresso deles, gritou uma sugestão para o par seguinte. Eles pararam e abaixaram sua maca. Um deles jogou o homem ferido sobre o ombro e partiu para a ponte. Horace podia ver que ele se movia com mais rapidez deste jeito. O segundo homem seguiu seu companheiro com a maca enrolada equilibrada no ombro.
Aquilo assentou o padrão para mover os feridos pelo caminho estreito. Quando chegaram seguramente no outro lado, os Kikori restantes seguiram. Já que estavam desimpedidos, não tiveram que esperar uma pessoa para cruzar. Logo, uma linha firmemente movimentada foi formada enquanto pisavam levemente na ponte.
Uma vez que os Kikori atravessaram, os guerreiros Senshi começaram a segui-los. Esses não passaram pela tarefa com tanta agilidade quanto os Kikori, mas, movendo-se com cuidado, eles descobriram que três ou quatro de cada vez poderiam passar pela ponte.
Assim o grupo esperando para atravessar, rapidamente diminuiu.
Horace esperava ansioso. Ele agora observara trezentas pessoas cruzarem a ponte, de forma que quaisquer dúvidas quanto à sua resistência foram dispersas. Ele gastava os minutos restantes numa febre de impaciência, observando o caminho de onde vieram, esperando ver o primeiro sinal dos homens de Arisaka.
— Kurokuma! Está na hora!
O último dos Senshi de Shigeru puxou a manga de Horace, indicando a ponte atrás deles.
Horace assentiu.
— Vá — disse. — Estarei logo atrás de você.
Ele esperou até o homem chegar ao meio da ponte e então pisou mais uma vez nas tábuas. Ele segurou, ajustando-se ao movimento imergente e oscilante, depois começou a atravessar arrastando os pés, movendo-os com cuidado, colocando-os o mais próximo ao centro das tábuas quanto podia. Mesmo assim, o movimento era atordoante e ele lutou para não olhar para baixo.
Uma memória súbita entrou em sua mente, a de Will na ponte imensa de Morgarath em Céltica, correndo com os pés leves pelas estreitas traves onde a trilha ainda estava a ser posta.
— Queria que você estivesse aqui, Will  disse discretamente, depois continuou arrastando os pés à frente.
Ele já havia passado dois terços do caminho quando ouviu o grito de alerta do outro lado da ponte. Parando, ele torceu a parte superior do corpo para olhar sobre o ombro.
Ele pôde ver homens correndo ao longo da trilha na beira do desfiladeiro. Em outros cinco minutos, eles alcançariam a ponte. Ele não esperava que eles chegassem tão cedo, e um pensamento lhe acertou: Arisaka devia ter mandado outro grupo avançado à frente a toda velocidade, descarregados por nada a não ser as armas.
— Não pare, Ora’ss-san!  Era Reito, gritando para ele do outro lado do desfiladeiro. — Continue se movendo!
Alarmado para se mover, Horace mergulhou para frente, sem cautela, agora que seu movimento poderia fazer a ponte balançar e oscilar. Apertou o corrimão feito de corda ferozmente, quase correndo para sair da ponte. Podia ver meia dúzia de Kikori parados onde as cordas e cabos que suportavam a ponte estavam ancorados, os machados prontos para cortá-los. Atrás dele, ouviram-se mais gritos enquanto os homens de Arisaka se aproximavam mais.
— Preparem uma corda!  gritou Horace. — Uma corda longa!
Ele mergulhou para o chão sólido e virou para ver o primeiro dos homens de Arisaka pisando cuidadosamente na ponte. Eles hesitaram com a rápida movimentação. Ao contrário dos Kikori, eles não nasceram e cresceram nesse território montanhoso. Mas começaram a avançar devagar. Os machados dos Kikori estrondearam quando acertaram os cabos suportando a ponte.
Mas a corda grossa estava entrelaçada junta e coberta pesadamente por piche, o alcatrão endurecera a uma consistência quase de rocha ao longo dos anos. Haveria problemas se os homens de Arisaka conseguissem atravessar antes dos homens com os machados conseguirem romper todos os quatro cabos.
Horace viu um dos Kikori que estava parado com uma corda comprida e chamou-o.
— Amarre na minha cintura! Rápido!
O homem percebeu o que ele queria e deu um passo à frente, apertando um laço na corda em volta da cintura de Horace, dando um nó seguro atrás dele.
— Agora solte a corda enquanto eu ando!  Horace disse.
Ele encolheu os ombros e passou o escudo para frente, correu o braço pelas tiras de suporte e puxou a espada. Respirou fundo e pisou na ponte outra vez. O Kikori que amarrara a corda soltava-a lentamente, mantendo uma pequena extensão entre eles para que qualquer movimento de Horace não o prejudicasse. Ele pediu ajuda e três companheiros correram para auxiliá-lo.
Dessa vez, Horace fazia cada movimento com um propósito em mente. Qualquer nervosismo que ele poderia sentir era dominado pela necessidade de conter o Senshi que avançaria para chegar até ele. Horace sabia que o perigo real em tal plataforma inconstante viria caso ele deixasse a tensão vir à tona. Tinha que relaxar e acostumar ao movimento da ponte. Ele era um atleta soberbamente coordenado e acabara de descobrir um jeito de relaxar a tensão nos músculos.
— Imagine que você está montado num cavalo  ele falou para si mesmo e, de imediato, descobriu que podia entrar em concordância com o balanço, se lançando com a movimentação da ponte.
Avançou cinco metros e esperou. O primeiro Senshi parou alguns metros próximo dele, olhando incerto para a figura alta que estava na ponte, balançando levemente nos calcanhares. O Senshi não tinha esse senso de facilidade. Ele estava tenso e nervoso, fora de sua zona de conforto. Mas continuou, tentando dar um golpe desajeitado em Horace.
Horace recebeu o golpe com o escudo inclinado, desviando-o mais do que bloqueando. Como consequência, seu atacante não sentiu resistência no golpe e tombou, sem equilíbrio. Enquanto tentava se recuperar, Horace deu um rápido impulso e acertou-o na coxa esquerda, atravessando o buraco da armadura.
Com um grito rouco de dor, o guerreiro deixou cair a espada quando a perna esquerda falhou, mandando-o numa guinada para a rede grossa de cordas laterais. Aterrorizado assim que percebeu que estava prestes a passar com um mergulho e cair para a morte, lutou para segurar-se em algo. O homem atrás dele fora impedido pelo corpo torto e estranhamente espalhado. Enquanto tentava passar, Horace avançou de repente em direção a ele, arrastando os pés rapidamente. O Senshi tentou um corte esquisito nele, mas, mais uma vez, o escudo repeliu o golpe. A lâmina bateu na borda do escudo e ficou presa ali por um segundo. Durante o tempo em que o Senshi a puxava, o golpe lateral de retorno realizado por Horace acertou-o na lateral.
As espadas fabricadas em nihon-Ja eram mais afiadas e rígidas do que a lâmina de Horace. Mas a espada dele era mais longa e pesada, e acabou amassando a laqueada armadura de couro que o Senshi usava, acertando as costelas atrás dela. O homem ofegou em dor, caiu no corrimão e perdeu o equilíbrio, tombando e caindo no sólido desfiladeiro abaixo deles.
O homem seguinte hesitou quando ele e Horace sentiram um violento tremor correr pela ponte e o corrimão esquerdo ceder. Eles ficaram se encarando, cada um esperando que o outro tentasse um movimento. Mas Horace sabia que o tempo estava do seu lado agora.
Na beira do precipício, Shigeru falou rapidamente para os homens segurando a corda de Horace.
— Amarrem a corda naquela tora de árvore!  ele ordenou. — Quando Kurokuma cair, diminua a velocidade da queda antes que a corda acabe!
Eles se agarraram ao pensamento instantaneamente e correram a corda em torno da tora – que era grossa como uma cintura. Os homens com machados estavam trabalhando cada vez mais rápido e a ponte estremecia com cada golpe. Shigeru viu o soldado inimigo mais próximo do outro lado do abismo virar e começar a correr de volta, gritando um alerta. Seus companheiros seguiram-no, mas estavam muito atrasados. A ponte subitamente começou a descer, jogando Horace e os quatro Senshi restantes no desfiladeiro.
— Deixem a corda escapar um pouco!  ordenou Shigeru.
Ele sabia que se a corda simplesmente ficasse esticada, Horace acertaria a dura parede do despenhadeiro com força brutal. Entretanto, conforme a corda ficava firme, os Kikori a deixavam correr, usando o laço posto na tora para diminuir a velocidade e permitir que Horace caísse livremente no penhasco debaixo da projeção onde a ponte fora feita.
Horace sentiu a ponte cair, sentiu ele mesmo caindo no espaço vazio e o estômago subindo à garganta. Ele esperou o barulho súbito da corda ficando esticada, então percebeu o que estava acontecendo. A corda estava esticada, contudo estava cedendo.
Não houve nenhuma parada repentina, portanto deixou seguir com a dificuldade e tentou virar-se para encarar a parede do despenhadeiro, de modo que pudesse diminuir o impacto com os braços e pernas.
A forma do abismo e a corda amarrada o salvaram. Se o abismo fosse íngreme, ele teria acertado-o como um pêndulo, na ponta do arco, movendo-se com bastante rapidez para prevenir que ele fosse ferido. Mas no momento em que começava a balançar para baixo, ele ainda estava se movendo na vertical, e sua força estava sendo gradualmente reduzida. Acertou a parede de pedra a vinte metros, com força suficiente para quebrar uma ou duas costelas e perder o fôlego. Ele praguejou com o impacto e soltou a espada de sua mão, fazendo-a cair no desfiladeiro abaixo. Então ele sentiu a corda se estreitando nas suas axilas enquanto os Kikori começavam a puxá-lo de volta para cima.
Conforme se aproximava da beira do precipício, ele pôde ver o rosto ansioso de Shigeru entre aqueles que o fitavam. Quando alcançou o topo ele usou as pernas para segurar-se e depois foi puxado para a beira, se estendendo no chão lamacento.
“Devo estar parecendo um peixe fora d’água” ele pensou.
Shigeru pegou o braço dele, depois instantaneamente o libertou quando as costelas quebradas de Horace gritaram de dor e ele berrou.
— Você está bem, Ora’ss-san?  perguntou Shigeru.
Horace sentiu as costelas feridas debaixo da camiseta e fez uma careta.
— Não. Quebrei minhas costelas. E perdi minha espada, droga  ele disse.

2 comentários:

  1. Perder a espada deve ter doído mais que quebrar as costelas. Não é nenhuma Contracorrente, mas...

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Boa leitura :)