30 de janeiro de 2017

Capítulo 21

O lorde pirata da Baía da Caveira não se virou de onde estava esparramado na chaise, pilhas de papéis espalhados pelo tapete desgastado cor de cobalto que cobria boa parte do chão. A partir das pilhas arrumadas a poucos passos que Dorian conseguia distinguir de onde ele e Rowan estavam no escritório do homem, os papéis pareciam repleto de contabilidade de bens ou despesas – legais ou não.
Mas Rolfe continuou monitorando os navios se inclinando e sacodindo-se no porto, a sombra da corrente baixada Quebra-Navios dividindo o mundo tempestuoso além deles.
Rolfe provavelmente soube da chegada deles não por causa de algum mapa mágico, mas por sentar-se ali. De fato, luvas de couro escuro adornavam suas mãos – o material rachado e vincado pelo tempo de uso. Nem uma dica das tatuagens lendárias que estavam ocultadas ali.
Rowan não se moveu; mal piscou quando percebeu o capitão, o escritório. O próprio Dorian fora parte de manobras políticas suficientes para conhecer os usos do silêncio, o poder de quem falava primeiro. O poder de fazer alguém esperar.
O rufar da chuva nas janelas e o gotejamento abafado de suas próprias roupas encharcadas no tapete puído preencheram o silêncio.
Capitão Rolfe bateu um dedo enluvado no braço da chaise, observando o porto por um batimento cardíaco mais, como se para garantir que o Dragão Marinho ainda flutuava e , finalmente, virou-se para eles.
— Abaixem seus capuzes. Quero saber com quem estou falando.
Dorian endureceu com o comando, mas Rowan respondeu:
— Sua garçonete deixou implícito que você sabe muito bem quem nós somos.
Um meio sorriso irônico repuxou os lábios de Rolfe, o canto superior esquerdo marcado por uma pequena cicatriz. Esperançosamente, não vindo de Aelin.
— Minha garçonete fala demais.
— Então por que ficar com ela?
— É boa para os olhos – algo difícil de se encontrar por aqui — disse Rolfe, erguendo-se de pé. Ele tinha a altura de Dorian e vestia roupas pretas simples, mas bem feitas. Um sabre elegante estava pendurada em sua cintura, junto com uma adaga correspondente.
Rowan bufou, mas para a surpresa de Dorian, tirou o capuz.
Os olhos verde-mar de Rolfe flamejaram – sem dúvida para o cabelo prateado, as orelhas pontudas e os caninos ligeiramente alongados. Ou pela tatuagem.
— Um homem que gosta de tatuagem tanto quanto eu — comentou Rolfe com um aceno agradecido. — Penso que você e eu nos daremos muito bem, príncipe.
— Macho — Rowan corrigiu. — Feéricos machos não são homens humanos.
— Semântica — Rolfe devolveu, mudando sua atenção para Dorian. — Então você é o rei que deixou todo mundo em tal estado de confusão.
Dorian finalmente puxou o capuz para trás.
— E daí?
Com a mão enluvada, Rolfe apontou para uma mesa coberta de papel e duas cadeiras estofadas diante dela. Como o próprio homem, que era elegante, mas desgastado – por qualquer que fosse a idade, uso ou batalhas passado. E aquelas luvas... para cobrir os mapas atuados ali?
Rowan fez a Dorian um aceno para se sentar. As chamas das velas tremeluziram enquanto passavam e reivindicavam seus assentos.
Rolfe olhou em torno das pilhas de papéis no chão e tomou seu lugar à mesa. Sua cadeira esculpida de espaldar alto poderia muito bem ter sido um trono de um reino distante.
— Você parece extraordinariamente calmo para um rei que acaba de ser declarado um traidor de sua coroa e roubado de seu trono.
Dorian estava feliz por estar prestes a se sentar.
Rowan levantou uma sobrancelha.
— De acordo com quem?
— De acordo com os mensageiros que chegaram ontem — Rolfe respondeu, inclinando-se para trás na cadeira e cruzando os braços. — Duque Perrington – ou devo chamá-lo de Rei Perrington agora? – emitiu um decreto, assinado pela maior parte dos senhores e senhoras de Adarlan, nomeando você, Majestade, um inimigo de seu reino, e alegando que ele libertou Forte da Fenda de suas garras depois que você e a Rainha de Terrasen abateram tantos inocentes nesta primavera. Ele também afirma que qualquer aliado — um aceno em direção Rowan — é um inimigo. E que você será esmagado sob seus exércitos se não ceder.
O silêncio encheu sua cabeça. Rolfe continuou, talvez um pouco mais gentilmente:
— Seu irmão foi nomeado herdeiro de Perrington e príncipe coroado.
Oh, deuses. Hollin era uma criança, mas ainda assim... algo tinha apodrecido nele, deteriorado...
Ele os havia deixado para trás. Ao invés de lidar com sua mãe e irmão, disse a eles para ficar naquelas montanhas. Onde eles estavam agora tão bem quanto cordeiros rodeados por uma matilha de lobos.
Ele desejou que Chaol estivesse ali. Desejou tempo para apenas... parar tudo e ele pudesse resolver todas aquelas partes fraturadas de si mesmo, colocá-las em algum tipo de ordem, senão juntá-las inteiramente.
— Pelo olhar em seu rosto, suponho que sua chegada realmente tenha a ver com o fato de que Forte da Fenda está agora em ruínas, e o seu povo foge sempre que consegue — Rolfe observou.
Dorian empurrou de lado os pensamentos insidiosos e falou lentamente:
— Eu vim para descobrir de que lado da linha você está, capitão, em relação a este conflito.
Rolfe se inclinou para frente, descansando os braços sobre a mesa.
— Você deve estar desesperado, de fato, então — um olhar sobre Rowan. — E a sua rainha está igualmente desesperada pela minha ajuda?
— Minha rainha — Rowan respondeu — não é parte desta discussão.
Rolfe unicamente sorriu para Dorian.
— Você gostaria de saber de que lado da linha eu estou? Estou do lado que mantiver o inferno fora do meu território.
— Há rumores — Rowan respondeu suavemente — de que a parte mais oriental deste arquipélago não é território seu.
Rolfe sustentou o olhar de Rowan. Um batimento cardíaco se passou. Em seguida, outro. Um músculo se moveu na mandíbula de Rolfe.
Em seguida, ele tirou aquelas luvas para revelar as mãos tatuadas da ponta dos dedos ao pulso. Ele virou as palmas para cima, revelando um mapa do arquipélago, onde...
Dorian e Rowan se inclinaram para frente, onde águas azuis, de fato, fluíam, pequenos pontos entre navegando por elas. E na beira oriental do arquipélago, curvando-se para o mar...
Aquelas águas estavam cinza, as ilhas um tom castanho. Mas nada se movia – sem pontos indicando navios. Como se o mapa tivesse congelado.
— Eles têm mágica para protegê-los, mesmo disso — explicou Rolfe. — Não consigo saber quanto navios, homens ou bestas há. Batedores nunca retornam. Neste inverno, ouvíamos rugidos das ilhas, alguns quase humanos, alguns definitivamente não. Muitas vezes, nós espiamos... as coisas que estão saindo daquelas rochas. Homens, mas não. Nós as deixamos sem ser demarcadas por tempo demais – e pagamos o preço.
— Bestas — disse Dorian. — Que tipo de bestas?
Um sorriso triste, fazendo a cicatriz alongar.
— Do tipo que o faz pensar em fugir deste continente, Majestade.
A condescendência fez algo se soltar no temperamento de Dorian.
— Eu atravessado mais pesadelos do que imagina, capitão.
Rolfe bufou, mas seus olhos foram para aquela linha pálida através da garganta de Dorian.
Rowan recostou-se na cadeira graciosa lentidão – o Comandante de Guerra encarnado.
— Deve ser uma sólida trégua que você espera, então, se ainda está acampado aqui com o mínimo de navios em seu porto.
Rolfe simplesmente calçou suas luvas desgastadas.
— Minha frota tem que fazer um pouco de pirataria de vez em quando, sabe. Contas a pagar e tudo mais.
— Tenho certeza que sim. Especialmente quando se emprega quatro guardas para assistir seu corredor.
Dorian pegou linha de pensamento de Rowan e disse ao príncipe feérico:
— Eu não senti valg algum na cidade.
Não, todo o poder que ele havia sentido... tinha se transformado em nada agora.
— Isso porque — Rolfe falou, cortando-os — nós matamos a maioria deles — vento sacudiu as janelas, trazendo a chuva com ele. — E, quanto aos quatro homens no corredor, eles são tudo o que resta da minha tripulação. Graças à batalha que teve início na primavera deste ano para reclamar a ilha após o general de Perrington roubá-la de nós.
Dorian praguejou baixa e violentamente. O capitão assentiu.
— Mas sou novamente o lorde pirata da Baía da Caveira, e se as ilhas orientais forem tudo o que Morath planeja pegar, então Perrington e suas bestas podem tê-las. Tudo no Fim da Linha é pouco mais de cavernas e pedras, de qualquer maneira.
— Que tipo de bestas? — Dorian perguntou novamente.
Olhos verdes pálidos de Rolfe escureceram.
— Serpentes do mar. As bruxas governam os céus com suas serpentes aladas, mas estas águas são agora governadas por animais criados para a batalha naval, corrupções de uma raça antiga. Imagine uma criatura da metade do tamanho de um navio de primeira linha, mais rápido do que golfinhos e os danos que pode causariam com unhas, dentes e uma cauda envenenada grande como um mastro. Pior, se você matar um dos seus malditos filhotes, os adultos o caçam até os confins da terra — Rolfe deu de ombros. — Então você descobrirá, Majestade, que não tenho interesse em perturbar as ilhas orientais se elas não me perturbarem mais. Não tenho nenhum interesse em fazer qualquer coisa além de continuar a lucrar com meus esforços. — Ele fez um gesto vago com a mão para os papéis espalhados por toda parte.
Dorian segurou a língua. A oferta que ele planejava fazer... seus cofres pertenciam a Morath agora. Duvidava que os piratas se voluntariam baseado apenas no crédito.
Rowan lançou-lhe um olhar que dizia o mesmo. Deveriam pensar em outro caminho para ganhar Rolfe para a sua causa, então. Dorian inspecionou o escritório, o gosto inclinado à elegância e ainda tão pouco que não era gasto. A cidade semidestruída em torno deles. Os quatro sobreviventes da tripulação. A maneira como Rolfe tinha olhado para aquela faixa branca ao longo de sua garganta.
Rowan abriu a boca, mas Dorian falou antes:
— Eles não foram apenas mortos, a sua tripulação. Alguns foram levados, não?
De olhos verde-mar de Rolfe eram frios.
— Capturado, juntamente com outros, e levado para as Ilhas Mortas — Dorian forçou mais. — Usados para obter informações sobre como e onde atacá-lo. A única maneira de libertá-los quando eles foram enviados de volta para você, demônios usando seus corpos, foi decapitá-los. Queimá-los.
— Eram anéis ou coleiras que usavam, capitão? — Rowan perguntou grosseiramente.
A garganta de Rolfe tremeu uma vez. Depois de um longo momento, ele respondeu:
— Anéis. Eles disseram que tinham sido libertado. Mas não eram homens que... — ele balançou a cabeça. — Demônios — ele respirou, como se explicasse alguma coisa. — Isso foi o que colocaram dentro deles.
Então Rowan contou a ele. Dos valg, seus príncipes, e de Erawan, o último rei valg.
Mesmo Rolfe teve a inteligência de parecer enervado quando Rowan concluiu:
— Ele continua com o disfarce de Perrington. Mas é apenas Erawan agora – Rei Erawan, aparentemente.
Os olhos de Rolfe deslizaram novamente para o pescoço de Dorian, e foi um esforço não tocar a própria cicatriz.
— Como você sobreviveu? Nós até mesmo cortamos os anéis fora, mas meus homens... eles se foram.
Dorian balançou a cabeça.
— Eu não sei.
Não havia resposta que não fizesse os homens de Rolfe parecerem... diminuídos por não terem sobrevivido. Talvez ele tivesse sido tomado por um príncipe valg que tinha saboreado levar o seu próprio tempo.
Rolfe alcançou um papel em sua mesa, lendo-o novamente por um batimento cardíaco – como se fosse uma mera distração enquanto ele pensava.
— Limpar o que sobrou deles das Ilhas Mortas, não vai adiantar merda nenhuma contra o poder de Morath — ele falou finalmente.
— Não — concordou Rowan — mas se mantivermos o arquipélago, podemos usar estas ilhas para travar uma batalha nos mares, enquanto nós cuidamos da terra. Podemos usar estas ilhas para mandar frotas para outros reinos, outros continentes.
— Meu braço direito está atualmente no sul do continente – na própria Antica — Dorian acrescentou. — Ele os persuadirá a enviar uma frota. — Chaol não faria menos por ele, por Adarlan.
— Nada virá — disse Rolfe. — Eles não vieram há dez anos; certamente não virão agora. — Ele examinou Rowan e acrescentou com um pequeno sorriso. — Especialmente com as últimas notícias.
Isso não pode acabar bem, Dorian decidiu enquanto Rowan perguntou sem rodeios:
— Que notícias?
Rolfe não respondeu, em vez disso assistir a baía tempestuosa, ou o que quer lá fora que tivesse o seu interesse. Difíceis meses para o homem, Dorian percebeu. Alguém que mantinha este lugar por pura arrogância e vontade. E todas aquelas mesas abaixo, montadas a partir dos destroços de navios conquistados... Quantos inimigos rondavam, esperando por uma chance de vingança?
Rowan abriu a boca, sem dúvida, para exigir uma resposta, quando Rolfe bateu com a bota três vezes nas tábuas do assoalho desgastado. Um baque na parede respondeu o seu sinal.
Fez-se silêncio. Dado o ódio de Rolfe para os valg, Dorian duvidava que Morath estivesse prestes a saltar e fechar uma armadilha sobre eles, mas... ele deslizou profundamente em sua magia enquanto passos soavam no corredor. Pela expressão apertada no rosto tatuado de Rowan, ele sabia que o príncipe fazia o mesmo. Especialmente quando Dorian sentiu sua mágica alcançar a do príncipe feérico, como fizera naquele dia com Aelin no topo do castelo de vidro.
Esses passos pararam do lado de fora da porta do escritório, e mais uma vez aquele pulso de estranha magia poderosa ergueu-se. A mão de Rowan deslizou a distância casual da faca de caça em sua coxa.
Dorian focou em sua respiração, em transportar linhas e partes de sua magia. Pedaços de gelo formaram-se em suas palmas quando a porta do escritório foi aberta.
Dois machos de cabelos dourados apareceram na porta.
O grunhido de Rowan reverberou através do assoalho e ao longo pés de Dorian quando ele viu os músculos, as orelhas pontudas, as bocas escancaradas que revelaram caninos alongados...
Os dois estranhos, a fonte daquele poder... Eles eram feéricos.
Aquele com olhos escuros como a noite e um sorriso afiado olhou para Rowan e falou lentamente:
— Gostava do seu cabelo mais longo.
Um punhal acertando a parede a menos de dois centímetros da orelha do macho foi a única resposta de Rowan.

10 comentários:

  1. gentem, deixa o Rolfe descobrir que Aelin é na verdade Celaena kkkkkkk Pior é o Lorcan "chave de Wryd". Pobrezinha da Elide :(

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  2. Nuçaaaaa!!!!! Até parece as reuniões de família aqui em casa... Tretas mil.

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  3. Na última fala não seria: "Gostava do seu cabelo mais longo?" Acho que Rowan corta o cabelo, não?

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  4. Gnnnt
    Qro vr o Rowan chegar e o gatinho reconhecer o filho Lobo do Norte gatão
    Aí sim a treta vai ficar tretosa

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  5. SE ATACAR ROWAN E DORIAN MEUS AMORZINHOS EU VOU ATACAR!!!!

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  6. Devoradora de livros14 de julho de 2017 16:30

    — Gostava do seu cabelo mais longo.
    Um punhal acertando a parede a menos de dois centímetros da orelha do macho foi a única resposta de Rowan.

    Ele e Aelin tem q ficar juntos kkkk

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  7. Eu gostei do Rolfe , por ele ate me animou ler a lamina da assassina... kkk
    Quero q a Aelin conte o apelido que deu pro Gavriel kkk

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    Respostas
    1. Gatinho, não foi? Foi em Herdeira do Fogo

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    2. E leia Lâmina da Assassina sim! É muito bom

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Boa leitura :)