30 de janeiro de 2017

Capítulo 20

Rowan Whitethorn só precisava de um lugar para descansar. Ele não dava a mínima se fosse uma cama ou uma pilha de feno ou mesmo debaixo de um cavalo em um estábulo. Enquanto estivesse no silêncio e debaixo de um telhado para manter afastada a chuva, ele não se importava.
A Baía da Caveira era o que ele esperava, e ainda assim, não era. Edifícios em ruínas tingidos de todas as cores, mas principalmente de rachaduras, agitaram-se enquanto residentes fechavam janelas e recolhiam varais contra a tempestade que perseguira Rowan e Dorian no porto minutos atrás.
Encapuzados e camuflados, ninguém lhes fizera nenhuma pergunta depois que Rowan colocara cinco moedas de cobre nas mãos do mestre das docas. O suficiente para manter sua boca fechada, mas não o suficiente para justificar qualquer um dos supostos ladrões das docas seguindo-os.
Dorian mencionara duas vezes agora que não tinha certeza de como Rowan ainda estava funcionando. Para ser honesto, Rowan não tinha, também. Ele permitiu-se cochilar apenas algumas horas de cada vez ao longo dos últimos dias. O esgotamento assomava-se – constantemente desgastando seu controle sobre a magia, o seu foco.
Quando Rowan não estava incutindo os ventos para impulsionar seu barco pelas águas quentes e vibrantes do arquipélago das Ilhas Mortas, estava voando alto para monitorar a aproximação de inimigos. Ele não vira nenhum. Apenas o mar azul-turquesa e as areias brancas salpicadas de pedra escura vulcânica. Tudo isso tocando a densa folhagem esmeralda da costa das ilhas montanhosas que se espalhavam tão longe que nem mesmo o olho de um falcão podia ver.
Trovões ressoavam na Baía da Caveira, e o mar azul-turquesa além do porto parecia brilhar mais, como se um raio distante tivesse iluminado todo o oceano. Ao longo das docas, tabernas pintadas de cobalto permaneciam levemente guardadas, mesmo com a tempestade caindo sobre eles.
O Dragão Marinho. A sede do próprio Rolfe, em homenagem a seu navio, a partir das informações de Aelin. Rowan debateu consigo mesmo sobre ir direto para lá, não mais do que dois viajantes perdidos à procura de abrigo da tempestade.
Mas ele e o jovem rei tinham escolhido outro caminho durante as muitas horas em que ele fizera a sua promessa de ensinar Dorian sobre magia. Eles tinham trabalhado por apenas alguns minutos, uma vez que tudo seria inútil se o rei destruísse seu pequeno barco caso o poder escapasse de seu controle. Por isso, houveram exercícios com gelo: convocação de uma bola de gelo para a palma da mão, deixá-la derreter. De novo e de novo.
Mesmo agora, de pé como uma pedra no meio do fluxo de pessoas que transportavam mercadorias sob a fúria da tempestade, o rei flexionava e relaxava seus dedos, deixando para Rowan o trabalho de recolher seu transporte, enquanto ele olhava através da baía em forma de ferradura para a corrente colossal estendendo-se por toda a sua boca – atualmente abaixo da superfície.
Quebra-Navios, a corrente era chamada. Com crosta de cracas e envolta em cobertores de algas, era conectada a torres de vigia de ambos os lados da baía, onde os guardas erguiam e baixavam a corrente para permitir a passagem de navios. Ou impedir que eles saíssem até que se tivessem pago as pesadas taxas. Eles tiveram sorte que a corrente já tivesse sido baixada em antecipação à tempestade.
Uma vez que o plano para anunciar-se seria... calmo. Diplomático.
Teria que ser assim, já que da última vez que Aelin colocara os pés na Baía da Caveira, há dois anos, ela destruíra essa mesma corrente. E acabara com uma das agora reconstruídas torres de vigia (Rolfe, ao que parece, acrescentara uma terceira torre do outro lado da baía desde então), junto com de metade da cidade. E avariou o leme de cada navio do porto, incluindo o premiado de Rolfe, o Dragão Marinho.
Rowan não estava surpreso, mas vendo o escopo do inferno que ela desencadeara... santos deuses.
Assim, o anúncio da chegada de Dorian seria o oposto disso. Eles alugariam quartos em uma pousada respeitável e, em seguida, solicitariam uma audiência com Rolfe. Adequada e dignamente.
Relâmpagos, e Rowan rapidamente esquadrinhou a rua à frente, uma mão segurando o capuz para impedir o vento de revelar sua herança feérica.
Um hotel pintado de esmeralda ficava na outra extremidade do quarteirão, sua placa dourada balançando selvagemente ao vento. A ROSA DO OCEANO.
A pousada mais bonita da cidade, o mestre da doca dissera quando eles perguntaram. Uma vez que, pelo menos, deveria parecer que eles podiam oferecer um bom o dinheiro a Rolfe.
E ter algum descanso, mesmo que apenas por algumas horas. Rowan deu um passo naquela direção, quase cedendo com alívio, e olhou por cima do ombro para ver se o rei o seguia.
Mas como se os próprios deuses quisessem testá-lo, uma rajada fria de chuva e vento acertou seus rostos, e algum sentido o pôs alerta. Uma mudança no ar. Como se um grande bolso de poder estivesse por perto, acenando.
A faca de sua bainha estava instantaneamente na mão encharcada enquanto ele procurava pelos telhados, descobrindo apenas nuvens de chuva. Rowan acalmou sua mente, ouvindo a cidade e a tempestade ao seu redor.
Dorian varreu o cabelo molhado do rosto, a boca aberta para falar, até que notou a faca.
— Você sente isso também.
Rowan assentiu, chuva deslizando para baixo de seu nariz.
— O que você sente?
O poder bruto do rei poderia captar sensações diferentes, pistas diferentes, do que o que seu vento, gelo e instinto poderiam detectar. Mas sem o treinamento, poderia não ser claro.
— Parece... antigo — Dorian fez uma careta e falou por sobre a tempestade — Feral. Cruel. Não posso dizer mais nada.
— Será que lembra do valg?
Se havia uma pessoa que saberia, seria o rei diante dele.
— Não — Dorian respondeu, os olhos se fechando. — Eles pareciam abomináveis para a minha magia. Isto... só deixa a minha magia curiosa. Cautelosa, mas curiosa. Porém está oculta... de alguma forma.
Rowan embainhou a faca.
— Então fique perto e mantenha-se alerta.



Dorian nunca estivera em um lugar como a Baía da Caveira.
Mesmo com a chuva forte atacando-os enquanto eles caçavam a fonte desse poder pela rua principal, ele ficou maravilhado com a mistura de ilegalidade e ordem completa da cidade-ilha. Ela não se curvava a nenhum rei de sangue real – ainda que fosse governada por um Lorde Pirata que tinha descobrira seu caminho para o poder graças às mãos tatuadas com um mapa dos oceanos do mundo.
Um mapa, rumores alegavam, que revelavam onde inimigos, tesouro e tempestades o aguardavam. O custo: sua alma eterna.
Aelin uma vez confirmou que Rolfe era de fato desalmado, e de fato tatuado. Quanto ao mapa... ela dera de ombros, dizendo que Rolfe alegava que este parou de se mover quando a magia caiu. Dorian se perguntou se esse mapa já indicava que ele e Rowan caminhavam através de sua cidade – se ele os marcava como inimigos.
Talvez a chegada de Aelin fosse conhecida bem antes de ela colocar os pés nesta ilha.
Camuflados e encapuzados e completamente encharcados, Dorian e Rowan fizeram um amplo circuito das ruas circundantes. As pessoas tinham rapidamente desaparecido, e os navios no porto balançavam descontroladamente com as ondas que chegavam do amplo cais e sobre os paralelepípedos. Palmeiras balançavam e zumbiam, e nem mesmo gaivotas gritavam.
Sua magia permaneceu dormente, surda quando ele endureceu com os ruídos altos de dentro das tabernas, pousadas, casas e lojas por que passavam. Ao seu lado, Rowan andava através da tempestade, a chuva e o vento parecendo parte dele.
Eles chegaram ao cais, o enorme navio de Rolfe surgindo nas águas ondulantes, velas amarradas contra a tempestade.
Pelo menos Rolfe estava aqui. Pelo menos isso tinha saído certo.
Dorian estava tão ocupado observando o navio que trombou nas costas de Rowan quando o príncipe guerreiro parou de andar.
Ele cambaleou para trás, Rowan misericordiosamente sem comentar sobre isso, então examinou o edifício que tinha roubado a atenção do príncipe.
Sua magia ganhou vida como um cervo assustado.
— Eu não deveria sequer estar surpreendido — Rowan resmungou, olhando a placa pintada de azul sacudida pelos ventos acima da entrada taverna. O DRAGÃO MARINHO.
Dois guardas estavam na metade do quarteirão – guardas sem qualquer uniforme, mas era fato que eles estavam de pé nesta tempestade, as mãos sobre as espadas.
Rowan inclinou a cabeça de uma forma que disse a Dorian que ele provavelmente estava pensando se valia a pena dispensar esses homens no porto turvo. Mas ninguém os parou enquanto Rowan deu Dorian um olhar de advertência e abriu a porta para a taberna pessoal do lorde pirata. Luz dourada, especiarias, piso de madeira polida e paredes cumprimentaram.
Estava vazio, apesar da tempestade. Totalmente vazio, exceto pela dúzia de mesas.
Rowan fechou a porta atrás de Dorian, percorrendo a sala com os olhos, as pequenas escadas nos fundos. De onde estavam, Dorian podia ver as cartas que cobriam a maior parte das mesas.
Caçador de tempestades. Lady Ann. Tigre-Estrela.
As proas de navios. Cada mesa era feita a partir disso.
Eles não tinham sido tomados a partir de destroços. Não, esta era uma de sala troféus – um lembrete para aqueles que se encontravam com o lorde pirata de como, exatamente, ele ganhara a sua coroa.
Todas as mesas pareciam centradas ao redor de uma, maior e mais desgastada do que as outras. A moedora. As enormes tábuas estavam salpicadas com marcas de queimaduras e ranhuras, mas o aviso permanecia claro. Como se Rolfe nunca quisesse esquecer que navio era usado como sua mesa de jantar pessoal.
Porém do próprio homem e do poder que ele tinha sentido... Não havia sinal de nenhum.
Uma porta atrás do bar se abriu e uma jovem magra de cabelos castanhos saiu. O avental a marcava com garçonete, mas seus ombros para trás, sua cabeça erguida – olhos cinza cortantes e limpos enquanto os examinava sem se impressionar.
— Ele estava se perguntando quando vocês dois viriam bisbilhotar — disse ela, seu sotaque rico e diferente – como o de Aedion.
— Oh? — Rowan disse.
A garçonete fez um movimento com seu delicado queixo na direção das escadas estreitas de madeira dos fundos.
— O capitão quer vê-los – em seu escritório. Um andar acima, segunda porta seguindo o corredor.
— Por quê?
Mesmo Dorian sabia que não deveria ignorar aquele tom. Mas a garota apenas pegou um copo, ergueu-o à luz da vela em busca de manchas, e puxou um pano de seu avental. Tatuagens gêmeas de dragões cinza do mar rugindo serpenteavam em torno de seus antebraços bronzeados, os animais parecendo deslizar quando seus músculos se mexiam com o movimento.
Suas escamas, ele percebeu, combinavam perfeitamente com os olhos dela quando ela levou seu olhar para Dorian e Rowan mais uma vez e disse friamente:
— Não o deixem esperando.
Dorian murmurou para Rowan enquanto subiam as escadas rangentes e sujas:
— Pode ser uma armadilha.
— Possivelmente — Rowan respondeu com igual volume de voz. — Mas considere que fomos autorizados a encontrá-lo. Se fosse uma armadilha, o movimento mais inteligente teria sido nos pegar de surpresa.
Dorian acenou com a cabeça, algo em seu peito se acalmando.
— E você, sua magia está... melhor?
Aquele rosto duro não mostrou nada.
— Lidarei com isso.
Não era uma resposta.
Ao longo do corredor do segundo piso, quatro jovens sentinelas de olhos de aço estavam parados, cada um armado com espadas finas cujos punhos tinham a forma de dragões marinho ao ataque – certamente a marca de seu capitão. Nenhum se deu o trabalho de falar enquanto ele e Rowan seguiam para a porta indicada.
O príncipe feérico bateu uma vez. Um grunhido foi tudo o que tiveram em resposta. Dorian não sabia o que ele esperava do lorde pirata.
Contudo com certeza não um homem de cabelo escuro, um dia passado dos trinta, descansando em uma chaise de veludo vermelho diante das gotas de chuva salpicando as janelas.

8 comentários:

  1. lembrando de aelin(celeana) e sam indo ai e ela mexendo em tudo rsrs

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  2. Faz só dois anos que ela e o Sam tiveram ali? Aconteceu tanta coisa na vida dela que parece mais que sejam dez anos.

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  3. Acho q as lembranças vão ser um baque pra ela qndo ela chegar lá. E ela e o Aedion vão reconhecer o q esses dois não reconheceram: a menina e os sentinelas devem ser daqle povo q lutava junto cm os dragões marinhos
    A tattoo dela é mt intrigante e o nome do navio não deve ser atoa

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    1. NOSSA, bem pensado 🤔🤔🤔

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    2. Nossa, certeza de que são eles... a menina até tem o sotaque de Terrasen.

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    3. VERDADE, QUE BABADO, AGORA QUE LIGUEI UMA COISA A OUTRA

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    4. vdd so percebi isso agora

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Boa leitura :)