26 de janeiro de 2017

Capítulo 20

A cada dia que passava, seus números aumentavam. O grupo do imperador se agarrava e tropeçava nas íngremes trilhas lamacentas da montanha, subindo um cume, descendo do outro lado, em seguida, subindo o seguinte, que sempre parecia ser mais extenso e maior que o anterior, mais e mais os Kikori silenciosamente passavam por este grupo. Eles surgiam silenciosamente entre as árvores, tendo viajado por caminhos secretos e perigosos conhecidos apenas pelo povo da montanha, faziam uma reverência simples a Shigeru, então juntavam-se à coluna.
Os líderes da coluna souberam, sem muita surpresa, que a patrulha Senshi que tinham derrotado no Vilarejo da Margem não era o único grupo de batedores enviado por Arisaka.
Houve mais de meia dúzia de outros pequenos grupos escondidos nas montanhas, brutalizando os Kikori, queimando suas aldeias e torturando seus líderes, na tentativa de saber o paradeiro de Shigeru.
Esse comportamento bárbaro, mostrando-se como animais para os Kikori, era realmente autodefesa. Os Kikori eram um povo profundamente cumpridor da lei, e davam grande valor no conceito de sucessão legal e legítimo do trono – mesmo nunca tendo visto o imperador. Shigeru era o legítimo imperador, e o profundo sentido de moralidade deles mostrou-lhes que ele não deveria ser deposto pela força.
Os ataques de Arisaka só serviram para convencê-los de que ele era um possível usurpador, cujas tentativas de conquistar o poder limitado eram um sacrilégio e deveriam ser resistidas.
E, como consequência disso, Shigeru devia ser apoiado.
Assim, como aldeias foram saqueadas e queimadas, os Kikori se uniram ao grupo de Shigeru, aos poucos, até que haviam várias centenas deles – homens, mulheres e crianças que conheciam as trilhas precipitadas sobre as montanhas, ajudando a levar os feridos em macas e trazendo o seu fornecimento de alimentos tão necessário com eles. Era difícil ir, até mesmo para o povo da montanha, e a necessidade de transportar os feridos atrasou-os.
Shukin, Shigeru e Horace estavam conscientes que a principal força de Arisaka estava em algum lugar atrás deles, diminuindo a distância entre eles a cada dia.
— Se soubéssemos onde ele está...  disse Shukin.
Ele havia convocado uma breve parada ao meio-dia e os carregadores deixavam agradecidos as macas e estavam esparramados ao lado da estrada. Alguns aproveitaram a oportunidade para comer um pouco dos alimentos que transportavam. Outros simplesmente deitaram-se, descansaram e recuperaram suas forças, deixando a folga de alguns minutos para amenizar a dor dos músculos tensos.
Mesmo nada sendo anunciado, Horace tinha se tornado um do pequeno grupo de líderes da caminhada. Shigeru tinha reconhecido o seu valor como guerreiro especialista e militar experiente e foi grato por ter alguém bom do seu lado além de seu primo Shukin.
Olhando para os seus dois principais líderes agora, o imperador sorriu pesarosamente. Eles estavam muito longe da imagem idealizada de guerreiros. Exaustos, manchados de lama e encharcados, as suas vestes e túnicas foram rasgadas em uma dúzia de lugares por espinhos e galhos afiados ao longo da via, carregados com rústicas embalagens de alimentos e cobertores, mais pareciam um grupo de vagabundos errantes que o imperador e seus dois principais conselheiros.
Então ele olhou para as espadas que os dois homens usavam – a espada de Horace longa e reta, no estilo araluense e a de Shukin uma katana, mais curta, com lamina dupla e ligeiramente curvada. Não havia lama lá, ele sabia. Ambas as lâminas, dentro de suas bainhas, eram cuidadosamente limpadas e afiadas por seus proprietários a cada noite.
— Quando você espera que os batedores voltem?  Horace perguntou.
Dois dias antes, Shukin pediu voluntários entre os Kikori para voltar ao longo de seu caminho para procurar algum sinal da posição do Arisaka. Não havia falta de números dispostos a assumir a tarefa e ele enviou quatro dos homens jovens mais aptos de volta para baixo da montanha.
— Vai depender de quanto tempo vão levar para encontrar Arisaka  Shukin disse. — Estou esperando ouvirmos dele mais tarde, em vez de mais cedo.
Horace assentiu. Se os batedores voltassem esta noite, pensou, eles teriam um bom motivo para preocupar-se. Levando em conta o fato de que um Kikori levemente carregado, especialista em atravessar este país, viajava muito mais rápido do que os homens Arisaka, eles ainda teriam que viajar duas vezes a distância: a de ida e volta. Se eles voltarem nas próximas 12 horas, Arisaka não poderia estar superior a dois dias atrás deles.
— Quão longe está Ran-Koshi?  Shigeru perguntou.
Shukin encolheu os ombros em resposta.
— Toru diz cerca de cinco léguas, do modo que os corvos voam – em linha reta.
Horace fez uma careta.
— Nós não somos corvos  falou.
Shigeru sorriu cansado.
— O que é uma pena.
“Cinco léguas são mais de vinte quilômetros”, Horace estimou. “Mas, viajando para cima e para baixo em cristas como eles estavam, e atravessando as encostas das montanhas, a distância percorrida no solo poderia ser cinco ou seis vezes maior, o que seria difícil, de qualquer forma”.
— Nós devemos estar lá em quatro dias, se tudo correr bem — Shukin disse esperançoso.
Nem Horace nem Shigeru responderam, apesar disso Horace não poder deixar de perguntar a si mesmo: por que as coisas começariam a correr bem agora?
Eles ouviram vozes mais para trás na coluna e todos se levantaram para ver o que causava o distúrbio. Horace viu dois homens jovens trotando cansados até a estrada, após as linhas de repouso dos Kikori, o que causou a perguntas de como eles chegaram até ali. Os dois balançaram as cabeças, em resposta às perguntas.
Ao contrário da maioria dos viajantes, eles ficaram levemente vestidos, sem roupas pesadas ou casacos para protegê-los do ar frio das montanhas. Vestiam bermudas, camisetas e botas de couro forte, e levavam embalagens pequenas que poderiam ter levado apenas o mínimo possível de alimentos e água. Estavam vestidos e equipados para viagens de forma rápida e Horace sentiu uma mão fria fechar sobre o seu coração quando reconheceu dois dos batedores que Shukin tinha mandado.
— Isso não parece bom  disse ele, observando as expressões sérias no rosto dos recém-chegados.
Shukin grunhiu em resposta, e os três desceram o caminho para atingir os batedores.
Os rapazes os viram e redobraram o seu ritmo, deixando-se cair a um joelho e abaixando a cabeça diante do imperador. Delicadamente, Shigeru colocou-os à vontade.
— Por favor, levantem-se, meus amigos. Esta trilha barrenta não é lugar para cerimônias.
Ele olhou ao redor e viu vários espectadores interessados observando-os, curiosos para saber o que os batedores tinham descoberto.
— Alguém pode trazer comida e uma bebida quente para estes homens? E agasalhos.
Muitos dos espectadores correram para fazer sua oferta. O restante do grupo veio pouco mais perto, ansiosos para ouvir o relatório. Shukin olhou para eles e acenou de volta.
— Dê-nos espaço  disse ele. — Vocês ouvirão a notícia em breve.
Relutantemente, eles se afastaram, mas seus olhos permaneceram fixos no pequeno grupo. Shukin introduziu os dois batedores até o local onde ele estava descansando.
— Sentem-se e descansem em primeiro lugar  disse.
A dupla afundou agradecida no chão molhado, deixando as suas embalagens de lado. Um deles começou a falar, mas Shukin levantou a mão para detê-lo.
— Comer e beber em primeiro lugar  falou, e a comida e chá quente foram colocados diante deles.
As pessoas que tinham trazido a comida ali estavam querendo relaxar e ouvir o que os batedores tinham para relatar. Mas uma rápida olhada de Shukin e um aceno da sua cabeça moveu-os. Horace percebeu que sua ordem para os homens comerem primeiro era mais do que simples bondade. Ele não queria que ninguém ouvisse o que eles tinham a dizer.
Os batedores mastigaram ruidosamente as suas tigelas de caldo de carne de porco e macarrão. Enquanto comiam, Horace viu a tensão e o cansaço enfraquecendo em seus rostos.
Shukin esperou até que tivessem comido a maior parte do macarrão.
— Vocês encontraram Arisaka?  perguntou calmamente.
Os dois homens concordaram. Um deles, momentaneamente com a boca cheia de caldo quente, olhou para seu companheiro para ele responder.
— O seu exército está a um dia de viagem a partir daqui  disse o batedor e Horace ouviu Shukin prender a respiração.
Shigeru, como sempre, pareceu não se importar com a notícia, apenas aceitá-la como era.
— Um dia!  Shukin repetiu, sua voz perturbada.
Ele passou as mãos pelos cabelos.
Horace reconheceu o perigo em sua ação. Sobrecarregado com a tarefa de manter seu imperador seguro, Shukin podia ver seus inimigos cada vez mais perto.
— Como eles podem estar se movendo tão rapidamente?
O primeiro batedor ganhou a sua voz agora.
— Arisaka está conduzindo-os cruelmente, meu senhor  disse ele. — Está determinado a capturar o senhor Shigeru.
— Seus homens não vão lhe agradecer por isso  falou Horace, mas Shukin pensativo fez um gesto de desprezo.
— Seus homens vão aceitar. Estão acostumados com a falta de respeito por seu bem estar  ele olhou para os batedores. — Onde estão os seus dois companheiros?
— Eles ficaram para trás para vigiar Arisaka. Quando ele entrar na marca de meio dia de distancia, virão para nos avisar.
— No ritmo em que ele está recuperando do atraso, isso deve ser alguma hora amanhã à tarde  disse Shukin pensativo.
Ele desenrolou o mapa das montanhas que ele e Toru tinham elaborado e ponderou. Arisaka estava há um dia de sua posição atual. Se eles partissem agora e se mantivessem em movimento, estenderiam o tempo que levaria para pegá-los, mas mesmo assim, Arisaka estava ganhando chão sobre eles muito rapidamente.
Ele olhou para cima e acenou com gratidão para com os batedores.
— Obrigado a ambos. Vocês fizeram bem. Agora vão e consigam roupas quentes e um pouco de descanso. Nós partiremos em breve.
Eles se curvaram e se viraram para ir embora, mas Shukin os chamou de volta.
— Peçam a Toru para vir aqui, tudo bem? — disse.
Os jovens acenaram e trotaram para longe.
Horace e Shigeru não disseram nada enquanto Shukin estudou o mapa rude, batendo com os dedos no queixo, como fazia. Poucos minutos depois, Toru chegou.
— Me chamou, senhor Shukin?
— Sim. Sim. Isso não é necessário  Shukin disse, acenando sobre o gesto formal de Toru. — Sente-se aqui.
O guia Kikori caiu de joelhos, os pés dobrados sob ele. Horace balançou a cabeça. Ele poderia apenas manter essa posição por alguns minutos, então os joelhos e as coxas começariam a doer. Os locais, ele sabia, podiam sentar-se confortavelmente por horas naquela posição.
— Arisaka está a um dia de distância a partir deste ponto  Shukin disse a Toru.
O guia não mostrou nenhum sinal de emoção com a notícia.
— No ritmo atual, irá no alcançar em, provavelmente, um dia e meio. Talvez dois dias, se empurrarmos a coluna o máximo que podemos.
Ele fez uma pausa para deixar Toru absorver essa informação.
— Quanto tempo você acha que vai nos levar para chegar a Ran-Koshi?
O Kikori ergueu os olhos para atender a Shukin.
— Na nossa velocidade atual, pelo menos quatro dias.
Shukin afundou seus ombros. Ele esperava esta resposta, mas tinha esperança de que Toru pudesse ter uma melhor notícia.
— Então nós temos que encontrar alguma maneira de atrasá-lo  disse Shukin, após um momento de reflexão.
O rosto de Toru se iluminou e ele chegou para o mapa, virando-o em sua direção e estudando-o. Em seguida, ele apontou um dedo em um ponto.
— Aqui, senhor  disse ele. — Este desfiladeiro é intransponível, exceto por uma ponte simples. Se a destruirmos, Arisaka terá que tomar um longo desvio... descendo ao longo deste cume... então passar todo este vale estreito. E então vai ter que recuperar todo o terreno que perderam.
Sua mão percorreu por um tempo uma curva em todo o mapa.
— Ele levará pelo menos duas semanas.
Shukin assentiu com satisfação.
— Excelente. Nós vamos destruir a ponte. Quando é que vamos chegar lá?
O rosto de Toru desanimou quando viu a falha em sua sugestão.
— Senhor, a ponte é a dois dias de distância. Arisaka vai nos pegar antes de a alcançamos.
Houve um longo silêncio, então Shukin pegou o mapa e deliberadamente o enrolou e guardou-o no tubo de couro que protegia dos elementos.
— Então nós vamos ter que ganhar um pouco mais de tempo ao longo do caminho  disse ele.

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