30 de janeiro de 2017

Capítulo 1

A respiração de Elide Lochan queimava em sua garganta a cada inspiração ofegante enquanto ela mancava até o morro íngreme da floresta. Sob o chão encharcado coberto de folhas de carvalho caídas, pedras soltas tornavam a encosta traiçoeira, os carvalhos imponentes se estendendo muito acima para que ela pudesse se segurar em algum galho e evitar quedas. Enfrentando a queda potencial em favor da velocidade, Elide passou por cima da borda de uma cúpula escarpada, a perna latejando com dor quando ela caiu de joelhos.
Colinas arborizadas avultavam-se ao longe em todas as direções, as árvores semelhantes às barras de uma gaiola infinita.
Semanas. Fazia semanas desde que Manon Bico Negro e as Treze a deixaram na floresta, a Líder Alada ordenando-lhe que fosse para o norte. Para encontrar sua rainha perdida, agora crescida e poderosa, e também Celaena Sardothien, quem quer que fosse, para que Elide pudesse pagar a dívida de vida que devia a Kaltain Rompier.
Mesmo semanas depois, seus sonhos eram atormentados por aqueles momentos finais em Morath: os guardas que tentaram arrastá-la para ser implantada com a prole Valg, o massacre completo que a Líder da Alada provocou, e o ato final de Kaltain Rompier – arrancando a estranha pedra escura de onde fora costurada em seu braço e ordenando que Elide a levasse para Celaena Sardothien.
Logo antes de Kaltain transformar Morath em uma ruína fumegante.
Elide colocou uma mão suja e meio trêmula no nódulo duro enfiado no bolso do peito dos couros de voar que ela ainda vestia. Ela poderia jurar que um leve latejar ecoou em sua pele, uma batida de seu próprio coração acelerado.
Elide estremeceu sob o sol úmido aparecendo através do dossel verde. O verão pesava sobre o mundo, o calor agora opressivo o suficiente para que a água se convertesse em seu bem mais precioso.
Fora assim desde o início – mas agora o seu dia inteiro, sua vida, girava em torno dela.
Felizmente, a Floresta Carvalhal estava repleta de riachos após a última das neves derretidas da montanha serpenteara de seus picos. Infelizmente, Elide aprendera de maneira dura sobre que água poderia beber.
Durante três dias, ela esteve perto da morte com vômitos e febre após beber água de uma lagoa estagnada. Durante três dias, ela tremeu tanto que pensou que seus ossos se quebrariam. Durante três dias, chorou em silêncio desesperador e lamentável que iria morrer ali, sozinha na floresta sem fim, e ninguém jamais saberia.
E apesar de tudo, que a pedra no bolso do peito vibrava e pulsava. Em seus sonhos febris, ela podia jurar que aquilo sussurrou para ela, cantava canções de ninar em idiomas que ela não pensava que línguas humanas pudessem pronunciar.
Ela não tinha ouvido novamente, mas ainda se perguntava. Perguntava-se se a maioria dos seres humanos teria morrido. Se perguntava se ela carregava um presente ou uma maldição para o norte. E se Celaena Sardothien saberia o que fazer com aquilo.
Diga a ela que você pode abrir qualquer porta, se tiver a chave, Kaltain dissera. Elide muitas vezes estudava a pedra negra iridescente sempre que fazia uma pausa necessária. Certamente não se parecia com uma chave: grosseiramente lavrada, como se tivesse sido cortada de uma pedra maior. Talvez as palavras de Kaltain fossem um enigma inteligível somente para seu destinatário.
Elide puxou dos ombros a bolsa leve demais e abriu a aba de lona sem nunca soltar a bolsa. Suas provisões acabaram há uma semana e agora ela sobrevivia de frutas. Eram todas estranhas, mas um sussurro de uma memória de seus anos com sua babá, Finnula, a advertira para esfregá-las em seu pulso na primeira para ver se havia qualquer reação.
Na maioria das vezes, por muito tempo, havia.
Mas de vez em quando ela tropeçava em um arbusto cheio com as frutas certas, e devorava várias antes de encher sua mochila. Pescando no interior manchado de rosa e azul da bolsa, Elide trouxe o último punhado, envolto em sua camisa de reposição, o tecido branco agora sujo de vermelho e roxo.
Um punhado que duraria até que ela encontrasse a sua próxima refeição.
A fome a corroía, mas Elide comeu apenas metade. Talvez ela encontrasse mais antes de parar para a noite.
Ela não sabia como caçar e o pensamento de pegar outra coisa viva, de quebrar o pescoço ou bater em seu crânio com uma pedra... ela ainda não estava tão desesperada.
Talvez isso a fizesse não uma Bico Negro, afinal, apesar linhagem oculta de sua mãe.
Elide lambeu os dedos do suco da baga, sujeira e tudo, e grunhiu quando se ergueu sobre as duras pernas doloridas. Ela não duraria muito tempo sem comida, mas não podia correr o risco de se aventurar em uma vila com o dinheiro que Manon tinha dado a ela, ou se aproximar de qualquer uma das fogueiras de caçadores que ela vira nas últimas semanas.
Não, ela tinha visto o suficiente da bondade e da misericórdia dos homens. Nunca se esqueceria da maneira como aqueles guardas riam do seu corpo nu, por que seu tio a vendera para o Duque Perrington.
Estremecendo, Elide recolocou a alça sobre os ombros e cuidadosamente começou a descer ladeira, escolhendo seu caminho entre as rochas e raízes.
Talvez ela tivesse feito uma curva errada. Como ela saberia quando cruzasse a fronteira de Terrasen, de qualquer maneira?
E como ela encontraria sua rainha – a corte dela?
Elide afastou os pensamentos, mantendo-se nas sombras escuras e evitando as manchas de sol. Só iriam deixá-la mais sedenta, com mais calor.
Encontrar água, talvez mais importante do que encontrar bagas, antes que a escuridão se instalasse.
Ela chegou ao pé da colina, suprimindo um gemido no labirinto de madeira e pedra.
Parecia que estava agora em um leito seco entre as colinas. Ele se curvava acentuadamente para frente – norte. Um suspiro saiu dela. Graças a Anneith. Pelo menos a senhora das coisas sábias não a abandonara ainda.
Ela seguiria o leito do rio pelo maior tempo possível, mantendo-se para o norte, e então...
Elide não soube o que, exatamente, sentiu. Não foi um cheiro, visão ou som, nada além da umidade do barro, a luz do sol, as pedras e os sussurros das folhas acima eram fora do comum.
Mas... ali. Como se algum fio de uma grande tapeçaria tivesse sido roubado, seu corpo ficou parado.
O zumbido e o sussurro da floresta silenciaram um instante depois.
Elide examinou as colinas, o leito do rio. As raízes de um carvalho no topo da colina mais próxima se projetavam na lateral gramada da encosta, proporcionando uma cobertura de madeira e musgo acima do leito seco. Perfeito.
Ela mancou até lá, a perna ruim esfolando, pedras batendo e prendendo-se em seus tornozelos. Ela quase alcançou as pontas das raízes quando a primeira explosão ecoou.
Não era trovão. Não, ela nunca esqueceria aquele som em particular – ele, também, assombrava seus sonhos tanto acordada quanto dormindo.
O bater de poderosas asas de couro. Serpentes aladas.
E talvez mais mortais: as bruxas Dentes de Ferro que as montavam, com sentidos tão afiados e afinados quanto suas montarias.
Elide se lançou para as raízes grossas enquanto as batidas de asas se aproximavam, a floresta silenciosa como um cemitério. Pedras e galhos cortaram suas mãos, os joelhos caíram na terra rochosa enquanto ela se apertava na encosta e olhava para a copa através da treliça de raízes.
Uma batida – em seguida, outra, nem mesmo um piscar de olhos depois. Sincronizadas o suficiente para que uma pessoa na floresta pudesse pensar que era apenas um eco, mas Elide sabia: duas bruxas.
Ela passou tempo suficiente em Morath para saber que a Dentes de Ferro tinham ordens para manter seus números ocultos. Elas voavam em formação perfeita, espelhada, então ouvidos escutando poderiam relatar somente uma serpente alada.
Mas estas duas, quem quer que fossem, eram negligentes. Ou tão desleixadas quanto duas bruxas imortais e letais pudesse, ser. Membros de nível inferior no clã, talvez. Fora em uma missão de reconhecimento.
Ou à caça de alguém, uma vozinha petrificada sussurrou em sua cabeça.
Elide pressionou-se com mais força no solo, raízes cravando em suas costas enquanto ela monitorava através da copa.
E ali estava. O borrão de um rápido movimento, uma forma maciça deslizando direto acima do dossel, sacudindo as folhas. Um couro, uma asa membranosa, sua borda caindo em uma curva, uma garra venenosa brilhando à luz do sol.
Raramente – muito raramente – elas saíam à luz do dia. O que caçavam devia ser importante. Elide não se atreveu a respirar muito alto até que tais batidas de asas desaparecessem, navegando para o norte.
Em direção ao Desfiladeiro Ferian - onde Manon mencionara que a segunda metade do exército estava acampado.
Elide moveu-se somente quando os zumbidos e sussurros da floresta retornaram. Ficar parada por tanto tempo dera cãibra em seus músculos, e ela gemeu quando esticou as pernas, depois os braços, e, em seguida, girou os ombros.
Interminável – esta viagem era interminável. Ela daria qualquer coisa por um teto seguro sobre sua cabeça. E uma refeição quente. Talvez os procurasse, mesmo que apenas por uma noite. Valia a pena o risco.
Escolhendo seu caminho ao longo do leito seco, Elide deu dois passos antes de ter aquela sensação que não era um sentido novamente, como se uma mão quente e feminina tivesse segurado seu ombro para pará-la.
A madeira emaranhada murmurava com vida. Mas ela podia sentir aquilo – sentir alguma coisa lá fora.
Não bruxas ou serpentes aladas ou bestas. Mas alguém, alguém olhando para ela.
Alguém a estava seguindo.
Elide casualmente desembainhou a faca de combate que Manon lhe dera antes de deixá-la neste floresta miserável. Ela desejou que a bruxa tivesse lhe ensinado como matar.



Lorcan Salvaterre estivera correndo daquelas malditas bestas fazia dois dias agora.
Ele não as culpava. As bruxas ficaram chateadas quando ele entrou sorrateiramente em seu acampamento da floresta na calada da noite, abateu três de suas sentinelas sem elas ou suas montarias perceberem, e arrastou uma quarta para as árvores para interrogatório.
Levara duas horas para fazer a Perna Amarela quebrar, escondida tão profundamente na garganta de uma caverna que até mesmo os gritos dela foram contidos. Duas horas, e então ela estava cantando para ele.
Exércitos gêmeos de bruxas estavam agora prontos para tomar o continente: um em Morath, outro no Desfiladeiro Ferian. As Pernas Amarelas nada sabiam do poder que Duque Perrington exercia – nada sabiam do que Lorcan caçava: as outras duas chaves de Wyrd, irmãs da que ele usava em uma longa corrente no pescoço. Três lascas de pedra vindas de um portão de Wyrd profano, cada uma, uma chave de um poder tremendo e terrível. E quando todas as três fossem reunidas... elas poderiam abrir a porta entre os mundos. Destruir esses mundos, ou convocar seus exércitos. E muito, muito pior.
Lorcan havia concedido à bruxa o dom de uma morte rápida. Suas irmãs o caçavam desde então.
Agachado em um arvoredo dobrado na lateral de uma encosta íngreme, Lorcan observava a garota no esconderijo de raízes. Ele tinha se escondido ali primeiro, ouvindo o clamor de sua abordagem desajeitada, e a vira tropeçar e mancar quando finalmente ouviu o que vinha na direção deles.
Ela era delicadamente construída, pequena o suficiente para que ele pensasse que ela mal passara de seu primeiro sangramento se não fosse pelos seios cheios sob seus couros de montaria.
Tais roupas tinham capturado seu interesse de imediato. As Pernas Amarelas usavam trajes semelhantes – todas as bruxas usavam. No entanto, esta garota era humana.
No entanto, quando ela se virou na direção dele, aqueles olhos escuros vasculharam a floresta numa avaliação que era muito velha, muito praticada, para pertencer a uma criança. Pelo menos dezoito anos, talvez mais velha. Seu rosto pálido estava sujo e magro. Ela provavelmente estivera ali por um tempo, lutando para encontrar comida. E a faca que segurava balançava o suficiente para sugerir que ela provavelmente não tinha ideia do que fazer com ela.
Lorcan permaneceu escondido, observando-a varrer as montanhas, o leito seco, as copas. Ela sabia que ele estava lá fora, de alguma forma.
Interessante. Quando ele queria ficar escondido, poucos poderiam encontrá-lo.
Cada músculo no corpo dela estava tenso, mas ela terminou de esquadrinhar os arredores, forçando uma respiração suave através de seus lábios franzidos, e continuou. Para longe dele.
Mancava a cada passo; ela provavelmente tinha se machucado caindo por entre as árvores.
Sua trança comprida batia contra a bolsa que carregava, o cabelo escuro sedoso como o dele próprio. Mais escuro. Negro como uma noite sem estrelas.
O vento mudou, soprando o cheiro dela na direção dele, e Lorcan o respirou, permitindo que seu sentido feérico – os sentidos que herdara de seu pai inútil – avaliasse e analisasse, como fazia há mais de cinco séculos.
Humano. Definitivamente humano, mas...
Ele conhecia aquele cheiro.
Durante os últimos meses, abatera muitas, muitas criaturas que levavam aquele fedor.
Bem, não era conveniente. Talvez um presente dos deuses: alguém útil para interrogar. Mas mais tarde – depois que tivesse a chance de estudá-la. Saber suas fraquezas.
Lorcan saiu de seu esconderijo, sem nem mesmo um galho estalando em sua passagem.
A garota possuída por um demônio mancou até o leito do rio, e faca inútil ainda desembainhada, seu aperto no punho totalmente ineficaz. Bom.
E assim Lorcan começou sua caçada.

32 comentários:

  1. Obrigada por ter postado esse livro Karina❤ vc arrasa

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  2. Tadinha da Elide, espero q ela encontre logo a Aelin *^* LORCAN Ñ OUSE SE APROXIMAR DELA, ELA Ñ ESTÁ POSSUÍDA PELO CAPIROTO Ò.Ó
    mano por um momento muito louco eu shippei eles dois >.<

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    1. sabe foi muito loco mesmo mas,....acho que eu também O.o

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    2. nossa entao fomos tres , quem sabe ele nao deixa de ser tao cretino e muda

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    3. Por um brevíssimo momento eu também

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    4. Foi tão louco que até shippei eles

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    5. Hahahahahahahhahahahaha eu tb shippei.. Adoro ela é ele parece muito misterioso ❤

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    6. Por um momento eu shippei também, mas espero que se rolar mesmo demore para acontecer.

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    7. Lorcan salvaterre, eu amo Você.
      😻😻😻😻
      Xoxo.

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  3. estava ansiosa para ler esse livro!obrigada!

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  4. valew karina!muito bom o seu blog!estava louca para ler esse livro!!

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  5. Tinha que ser justo o Lorcan? Imagina quando ele descobrir o que Rowan e Cel fizeram t.t

    -B.Bunny

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    1. O q ele fizeram msm? Minha memória é mto ruim!!!!

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  6. Acho que ele sentiu o cheiro da pedra. ... ele tá achando que ela tá possuida! Próximo capítulo urgente!

    Flavia

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  7. Empolgadíssima com o livro!!!
    E o Lorcan está sendo fisgado por uma semi-bruxa!

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  8. Mas gente... Essa guria já sofreu muito e agora é perseguida pelo Lorcan, assim não dá, judiera...

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  9. Tadinha da Elide, tão ferrada na vida e ainda tem o Lorcan, se bem que eu tbm num momento louco shippei os dois.

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  10. coitada da Elide! Foi achar logo o Lorcan... Mas na moral tô ansiosa pra vr o q ele vai fzr dps q xonar por ela. Pq gnt esse shipp tm q dar certo!
    ~Leh

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  11. Lorcan sentiu o cheiro de bruxa ja q a mãe dela era bico negro mas seria bom eles se apaixonarem seria o máximo e Manon e o rei seria bom demais

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  12. Ameiiiiiii! Obrigada pelo livro. estava louca para começar a ler....

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  13. Gnt, eu li o ToG4, mas minha memória é horrorosa. Essa chabe de wyrd com o Lorcan, é verdadeira? ME AJUDEM PFV!

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    1. Não, é falso! Lembra-se, Aelin mandou fazer uma cópia do medalhão, escondeu o que guardava a pedra verdadeira e deu um falso pro Lorcan

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  14. Obrigada Karina por postar esse livro ;)

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  15. É o volume 1 e 2?
    Porque esse livro foi dividido em dois volumes.

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    1. O livro é dividido em duas partes, cada parte se tornou um tomo. Aqui temos o livro completo, as duas partes num post só

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  16. Acho que o cheiro que Lorcan sentiu foi o da pedra, por isso achou que ela estivesse possuída. Se bem que não sabemos muito sobre a Elide.... vai que... né? kkkkkkkkk

    Naylla Araujo

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  17. Devoradora de livros14 de julho de 2017 13:03

    Me chamem de louca mas...............eu shippo

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Boa leitura :)