26 de janeiro de 2017

Capítulo 16

— Sim, eu sei o caminho para Ran-Koshi — o lenhador disse.
Shukin e Shigeru trocaram um rápido olhar. Eles começaram a temer que a lendária fortaleza de Ran-Koshi fosse só uma lenda. Agora perceberam que talvez tivessem achado um guia.
 Você já foi lá? — Shukin perguntou.
Uma coisa era saber onde era e outra era já ter estado lá.
 É onde recolhemos outro tipo de madeira, madeira perfumada  respondeu o aldeão.
Shigeru franziu o cenho, imaginando o que ele quis dizer, se seriam árvores. Vendo a expressão, Shukin disse baixinho:
— Madeira de cânfora.
Toru, o aldeão, assentiu.
— Sim. Eu já ouvi esse nome.
Ele viu a expressão aliviada nos rostos dos dois Senshi e acrescentou um aviso.
— É um lugar de difícil acesso. Vocês vão ter que ir a pé daqui. Cavalos nunca conseguirão seguir as trilhas da montanha.
— Então nós vamos caminhar  disse Shigeru com um sorriso. — Eu posso ser o imperador, mas não sou nem um pouco frágil como uma flor. Eu fiz a minha parte da viagem dura.
 Você pode, mas e eles?  disse Toru, varrendo a mão ao redor das amuradas, espaço comum no centro do Vilarejo da Margem.
Os três homens estavam sentados em banquinhos baixos na varanda de madeira polida da casa do chefe da aldeia. O chefe, Jito, tinha convocado Toru para falar com o imperador quando soube que o grupo Senshi procurava a antiga fortaleza de Ran-Koshi.
Agora, com o gesto de Toru, Shigeru e Shukin olhou para as fileiras de homens reunidos em torno de feridos na praça. Pelo menos um terço dos Senshi que haviam escapado do exército Ariska estavam feridos e alguns deles seriamente. Muitos tinham que viajar em macas ou padiolas, e mesmo os que podiam andar só poderiam viajar lentamente por causa de suas feridas.
— Nosso chefe da aldeia irá se oferecer para cuidar deles aqui se você lhe perguntar — Toru falou. — Mas você estaria causando grande sofrimento para os moradores se fizesse isso.
Shukin fez um gesto pedindo desculpas, colocando a mão no dinheiro da bolsa em seu cinto.
— Naturalmente, nós iríamos pagar  disse Toru, mas balançou a cabeça.
— O inverno está quase aqui. Os moradores mal armazenaram comida suficiente para durar os meses mais frios. Eles não podem comer dinheiro e não haveria comida suficiente no mercado local para eles e esses soldados.
Tinha sido um assunto diferente na vila anterior, Shukin pensou melancolicamente. Ele sabia que Toru estava certo. Eles não poderiam pedir a essa pequena aldeia para cuidar e alimentar trinta homens feridos durante vários meses. Seja como for, ele estava relutante em deixar os Senshi para trás. Muitos deles iriam se recuperar e daria a Shigeru um núcleo de guerreiros treinados.
Não era um exército, mas talvez fosse o início para um. Eles não podiam se dar ao luxo de abandonar uma força potencial como aquela.
— Os feridos virão conosco  disse Shigeru, interrompendo-os.
Seu tom de voz mostrava que não haveria discussão.
— Nós apenas temos de agir. E teremos de agir rapidamente.
Toru encolheu os ombros.
— Não é tão fácil de fazer.
Ele foi respeitoso para com o imperador, mas não em respeito a ele. Os Kikori eram pessoas práticas e ele não viu nenhuma razão para concordar com Shigeru quando sabia que ele estava errado. Isso não faria ao imperador e seus homens quaisquer favores.
— No entanto, nós o faremos  disse Shigeru. — Talvez alguns dos homens mais fortes da vila possam ajudar a carregar as macas para nós. Novamente, gostaríamos de pagar.
Toru considerou a questão. A estação de coleta de madeira acabou. Alguns dos homens mais jovens poderiam estar dispostos a complementar sua renda. Seria dinheiro que poderia ser reservado para os meses mais quentes, quando o mercado teria mais itens à venda.
 Isso é possível  ele concordou.
Como negociador, estava prestes a acrescentar que os homens teriam o direito de cobrar extras para as dificuldades de deixar suas casas e famílias e seguir através das montanhas no inverno que se aproximava quando vozes se levantaram a partir da borda da floresta distraíndo todos eles.
Eles se viraram para olhar e viram um grupo de pessoas saindo das árvores. Cerca de vinte deles. Seriam Kikori, por sua vestimenta, Shukin pensou. Depois, ele franziu a testa. O homem atarracado líder do grupo, com um machado pousado casualmente na mão, parecia familiar.
— Estranhos  disse Toru. — O que os traz aqui, eu me pergunto?
Ele olhou apontando para os dois primos. Seu processo de pensamento era óbvio. Foram eles que trouxeram os estrangeiros da outra vila. Então Shukin reconheceu o líder dos recém-chegados e parecia que Toru estava certo.
— É Eiko  disse ele, levantando-se do banquinho.
Shigeru e Shukin saíram da varanda caminhando em direção a Eiko e seus companheiros. Toru seguia com outros membros da aldeia e reuniram-se em torno dos recém-chegados. Aldeias individuais toleravam seus vizinhos, mas tendiam a ficar sozinhos. Cada grupo tinha suas próprias fontes secretas de madeira e eles guardavam as localizações destes recursos dos forasteiros. Os moradores receberam os estranhos educadamente, mas não efusivamente.
O chefe deu um passo adiante.
— Eu sou chefe Jito, do Vilarejo da Margem, o que o traz aqui, estranho, e como
podemos ajudar você ?
Seu tom de voz não deixou dúvidas de que sua oferta de ajuda foi apenas uma formalidade.
Eiko inclinou-se educadamente, uma rápida abaixada da cabeça que foi todo o protocolo exigido para um chefe de aldeia.
 Saudações Jito-San. Me chamo Eiko.
Olhando depois de Jito ele viu o imperador e Shukin, facilmente reconhecível dos aldeões com suas roupas Senshi. Desta vez, ele falou profundamente:
 Saudações, lorde Shigeru.
Jito olhou bruscamente para o imperador assim que ouviu as palavras ditas por Eiko. Ele não estava inteiramente feliz de ter mais estrangeiros em sua população. Os Senshi feridos tinham que exercer uma forte pressão nos recursos da vila. Num momento em que eles deveriam estar fazendo os preparativos finais para a próximo inverno, os moradores foram distraídos por ter de cuidar dos soldados feridos.
 Bom dia, Eiko. Há algum tipo de problema?
Os olhos aguçados do imperador tinham notado que alguns dos recém-chegados estavam feridos. Meia dúzia estavam enfaixados e outros três sendo ajudados por amigos.
— Você conhece essas pessoas, meu senhor? — Jito perguntou desconfiado.
Shigeru assentiu.
— Eles nos ofereceram abrigo noite passada. Temo que isso tenha lhes custado caro.
A última declaração foi uma pergunta a Eiko, mas antes mesmo de o morador responder Shigeru achava que sabia a resposta.
Eiko assentiu.
— É verdade, lorde Shigeru  ele disse. — Mas não foi nosso erro. Os homens de Arisaka chegaram ao nosso vilarejo pouco tempo depois que vocês se foram.
Shigeru ouviu uma rápida ingestão de ar do seu primo.
— Mas vimos o exército de Arisaka. Eles estavam dois ou três dias atrás de nós — disse Shukin.
— Sim, vocês viram a força principal. Esta foi uma das partes da escolta que tinham vindo na frente. Uma dúzia de guerreiros, bem montadas que viajavam à luz do dia  com o lábio de Eiko enrolado em desprezo. — Portanto, eles não se incomodaram trazendo os seus próprios suprimentos, simplesmente pegaram o que queriam de nossa gente.
Houve um murmúrio dos aldeões da vila que estavam ouvindo essa conversa. Foi uma mistura de raiva e medo em quantidades iguais. No passado, todos tinham experimentado as depredações de saqueadores das partes Senshi. Eiko reconheceu sua reação com um significativo aceno de cabeça.
— Você está certo em se preocupar com isso  disse ele. — Eles estão verificando todas as aldeias da região. Estão aqui por tempo demais.
Esta declaração provocou uma tempestade de exclamações dos aldeões. Alguns eram da opinião em abandonar a aldeia e se esconder na floresta. Outros queriam ficar e proteger seus pertences. Jito ergueu a mão para o murmúrio de vozes animado.
— Fiquem quietos!  ele gritou e as vozes se extinguiram a um silêncio constrangedor. — Nós precisamos armar um plano com calma, e não correr por aí como galinhas sem cabeça.
Ele olhou para trás de Eiko.
— Alguns de seus homens estão feridos. Presumo que estes Senshi não querem simplesmente roubar suprimentos?
Eiko balançou a cabeça com amargura.
— Não. Eles vasculharam a aldeia para qualquer coisa de valor – como costumam fazer.
— E eles encontraram as moedas que demos ao seu chefe  Shigeru concluiu para ele, o rosto sombrio
— Sim senhor. Eles viram a insígnia real nas moedas e quiseram saber de onde é que tínhamos pegado.
Horace tinha sido um espectador silencioso a tudo isto. Depois de dias de longas cavalgadas, ele havia participado da prática de todos os guerreiros experientes para pegar no sono, sempre que a oportunidade surgia.
Ouvira as vozes da praça da aldeia, e quando surgiu, estava esfregando os olhos e vestindo uma camisa. Ele chegou a tempo de ouvir Eiko contando os acontecimentos e lembrou-se das moedas que Shukin tinha dado ao Ayagi, o chefe. Elas eram de ouro, o que teria sido o suficiente para levantar suspeitas de uma aldeia pobre. Mas, para agravar o problema, eram claramente marcadas com o símbolo de três cerejas do imperador. Eles só poderiam ter vindo de uma fonte.
— Ayagi-san se recusou a dizer-lhes onde ele tinha conseguido as moedas  Eiko continuou. — Eles o mataram. Em seguida, eles corriam como loucos pela aldeia, colocando as cabanas em chamas, matando mulheres e os velhos.
Ele indicou seus companheiros.
— Alguns de nós conseguiram fugir para a floresta na confusão.
Shigeru balançou a cabeça com amargura.
— Ele deveria ter dito a eles — falou— Eles teriam sabido de qualquer maneira.
— Talvez, Shigeru. Mas Ayagi era um homem orgulhoso. E ele era fiel ao senhor.
— Então sou responsável por sua morte  disse Shigeru com uma voz cansada, derrotada.
Eiko e Jito trocaram olhares rápidos. As aldeias individuais Kikori podiam tratar uns aos outros com desconfiança. Mas eles eram fiéis aos costumes antigos e estavam unidos em sua lealdade ao imperador – tanto ao conceito como ao próprio homem.
Jito disse com firmeza:
— O senhor não foi a causa, senhor Shigeru. A culpa recai sobre o juramento.
— Se alguém tinha culpa, era eu  disse Eiko.
A dor era por demais evidente em sua voz.
— Nós fomos vistos como covardes da floresta, pois mataram nosso povo e destruíram a nossa aldeia. Nós não fizemos nada!
Shukin balançou a cabeça.
— Você não poderia fazer nada contra Senshi treinados  disse ele. — E perder sua própria vida não teria ajudado o seu povo.
Horace tinha sumido e no meio da multidão. Agora, ele decidiu, era hora de participar.
— Nem teria ajudado o imperador  falou, e todos os olhos se viraram para ele. — Ele precisa de homens para ajudá-lo a lutar contra os Arisaka, não para jogar fora suas vidas sem nenhum propósito.
O cavaleiro viu os ombros de Eiko endireitarem e sentiu a nova postura do trabalhador encorpado. Os murmúrios de concordância atravessavam as pessoas de ambas as vilas. Anos de ressentimento em sua arrogante tratamento pelos Senshi foram subitamente focado em uma oportunidade para o desafio – uma oportunidade centrada na pessoa de seu imperador.
— Bem dito, Kurokuma!  Shukin chamou-lhe, sorrindo.
Ele se virou para o Kikori montado. Ele também podia ver o novo sentido de propósito infundindo-lhe. O gaijin tinha um excelente senso de tempo, pensou ele, e uma excelente escolha de palavras para incitar, inflamando os espíritos dessas pessoas.
— Nós precisamos de vocês. Os Kikoris serão o coração leal do novo exército do imperador. Nós vamos treinar vocês. Vamos ensiná-los a lutar!
Um rugido de entusiasmo e desafio recebeu estas palavras. Muitos sentiram que um arrogante e prepotente Senshi como Arisaka tinha desfrutado à sua própria maneira muito tempo em Nihon-Ja. Mesmo sem contar a destruição a sangue frio da aldeia vizinha, Arisaka havia cometido um ato de traição para com o imperador, o que foi o suficiente para carregar os corações contra ele. Mas ainda havia alguns que pregavam cautela. Quando os gritos de desafio diminuíram de intensidade, uma mulher mais velha expressou seus pensamentos.
— Mas e se os homens de Arisaka vierem aqui agora? Nós não estamos prontos para combatê-los ainda.
Horace viu a dúvida começa a se espalhar entre os Kikori. Eles não acreditam na sua própria capacidade para enfrentar os guerreiros armados Senshi. Mas estavam esquecendo um fato importante. Ele deu um passo adiante no espaço livre ao redor do imperador, Eiko e Jito.
— Você disse que havia uma dúzia de batedores?  perguntou.
Eiko assentiu.
— Uma dúzia. Talvez um pouco mais.
Horace sorriu com a resposta. Ele olhou em torno do grupo reunido de Senshi leais ao imperador – uma dúzia de guarda-costas do círculo interior e pelo menos outros 25 ilesos sobreviventes da batalha de Ito.
— Parece-me  disse ele — que pela primeira vez, temos os homens Arisaka com séria desvantagem.

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