26 de janeiro de 2017

Capítulo 15

Havia um único cavaleiro cavalgando pela ribanceira do norte do Canal Assaranyan, mantendo o passo com o navio, paralelo ao curso deles. O homem usava robes brancas e ondulantes e um turbante branco na cabeça, com uma cauda imensa de tecido que protegia o seu pescoço do sol. O propósito era similar ao kheffiyeh que Selethen usava, Will supôs.
— Agora, de onde vocês acham que ele veio? — perguntou Gundar, forçando os olhos para olhar mais de perto o recém-chegado.
— Há provavelmente um wadi logo atrás daquela crista  falou Selethen.
Gundar olhou para ele, sem compreender, e ele explicou:
— Um sulco raso.
Mais cedo, eles puderam ver a alguma distância pelo deserto em cada lado do canal. Naquele ponto, porém, a ribanceira aumentava um pouco, de forma que ficava vários metros mais alta do que o nível da água. Agora, eles não podiam ver nada mais do que ribanceiras elevadas.
— Ah... sim. Entendo — Gundar fez uma pausa. — O que acham que ele está planejando?
— Imagino que nada de bom para nós  falou para ele Selethen. — Olhem. Ele tem amigos.
Mais três cavaleiros apareceram, aparentemente se erguendo da areia no topo da ribanceira. Eles se juntaram ao primeiro cavaleiro numa formação frouxa. Nenhum deles parecia demonstrar qualquer interesse no navio que continuava a deslizar pelo canal, há sessenta ou setenta metros deles.
“Selethen tivera razão sobre a areia movediça”, Alyss pensou. Os cavaleiros ficavam logo atrás do chão desagregado e escurecido na beira do canal.
Halt estudou-os e pôde distinguir os curtos arcos de cavalaria pendurados nas costas deles. O povo de Selethen usava aqueles arcos. Eles eram eficazes a uma distância próxima, mas perdiam a precisão depois de cinquenta ou sessenta metros. Ainda assim, não doía estar preparado.
— Will  ele disse calmamente — poderia trazer os nossos arcos?
Will deu-lhe um rápido olhar, então assentiu. Os arcos deles estavam guardados nos baixos alojamentos fechados para dormir, na popa do navio. Ele saiu apressado para pegá-los.
— Esperando encrenca, Halt?  perguntou Evanlyn.
O arqueiro deu de ombros.
— Eu seria bobo se não esperasse  falou. — A menos que você possa sugerir um motivo do por quê aqueles quatro cavaleiros simplesmente estão cavalgando junto conosco.
— Sete  disse Evanlyn.
Halt olhou novamente, e viu que o número de fato cresceu. Ele também viu que o estilingue de Evanlyn aparecera na sua mão e estava balançando pra frente e pra trás lentamente num movimento pêndulo.
— Essa sua atiradeira lança bem longe  ele disse e Evanlyn deu de ombros.
— Nunca se sabe. Além disso  ela apontou para além da proa — o canal parecer estar se estreitando.
Naquele momento todos olharam para frente e puderam ver que ela tinha razão. Bancos de areia se formaram no lado norte do canal, diminuindo a largura consideravelmente.
Halt coçou a barba enquanto os estudava.
— Hmmm. Não tenho certeza se eles serão capaz de se aproximarem mais, até com aquilo. Aqueles bancos parecem bastante macios para mim.
Will voltou e passou para Halt o seu arco e uma aljava de flechas. Ele tinha a sua própria aljava pendurada no ombro, e o arco dele e de Halt já estavam encordoados.
Halt assentiu o seu agradecimento e flexionou o cordão do arco, experimentando.
— Talvez devêssemos margear para a ribanceira do sul, então?  sugeriu Selethen.
Aquele lado, eles podiam ver, estava expressivamente livre de bancos de areia. A ribanceira em si parecia ser reta e lisa, erguendo-se quase que na vertical da água a uma altura de cinco ou seis metros.
— É muito convidativo  Halt disse. — Talvez até demais.
— Está certo, arqueiro  disse Gundar a ele.
Os olhos de seu marinheiro, acostumados a procurar por sinais de obstáculos submersos, detectara várias correntes suspeitas na superfície no lado sul do canal.
— Eu diria que há obstruções logo abaixo da superfície naquele lado, esperando que nos enrolemos nelas.
— Bancos de areia, você quer dizer?  Perguntou Selethen.
Gundar sacudiu a cabeça.
— Mais provavelmente correntes, cepos e pesados cabos postos para parar e segurar-nos rapidamente.
— Então os rapazes além do cume deste lado podem vir nos visitar quando quiserem — interferiu Halt.
Ele estivera estudando a ribanceira do sul, suspeitando do fato de que os cavaleiros da ribanceira do norte se revelaram, e que a parte do sul do canal parecia oferecer segurança. Alguns segundos antes, ele captara um lampejo de luz, como se o sol brevemente tivesse refletido de uma espada ou elmo. Ele podia apostar que havia um grande número de guerreiros escondidos na ribanceira do sul, esperando o momento de quando o navio se enrolasse nas barreiras subaquáticas que Gundar detectara.
Ele contou aos outros o que vira e todos eles olharam com cautela para a ribanceira do sul. Depois de poucos segundos, Will também captou um pequeno movimento ali.
— Certamente tem alguém ali  ele falou.
— E com certeza é mais de um  acrescentou Selethen. — Ali tem uma fraca neblina de pó onde eles se moveram para a posição. Não há vento o suficiente para dispersar essa neblina.
— Na minha opinião, eles tinham esperanças que a nossa atenção estivesse voltada aos cavaleiros  Alyss disse.
Exatamente quando ela disse aquilo, os sete cavaleiros na ribanceira do norte aumentaram a velocidades de seus cavalos para se moverem um pouco à frente do navio. Então refrearam e desamarraram seus arcos, encaixando flechas nas cordas.
Halt olhou num sinal de alerta para Gundar, mas o capitão já notara o movimento.
— Escudos!  Ordenou, e a tripulação de ajuda aos remadores passou pelo grupo de remo e colocou oito dos grandes escudos escandinavos em suportes triangulares no costado para cobrir os remadores. Em tantos anos de invasões e lutas, os escandinavos haviam sido atingidos antes e sabiam como se proteger.
— Duvido que estejam a alcance para nos acertar  falou Halt. — Mas não dói evitar riscos.
Eles ouviram o familiar ruído e silvo das flechas deixando os arcos e subindo em arco no ar na direção do navio. Como Halt previra, eles não estavam a alcance para os pequenos arcos. Seis das flechas caíram inofensivamente na água. A sétima acertou o casco, um metro acima do nível da água, mas, sem energia, caiu com um vago splash.
— Fora de alcance  disse Will. — Você estava certo.
— Não sei se eles realmente queriam nos acertar ou só desviar a atenção — respondeu Halt. — Mas de um jeito ou de outro, acho que podemos mostrar a eles que é uma má ideia cavalgar ali.
Ele encaixou uma flecha no cordão de seu arco. Will fez o mesmo. Os cavaleiros lançaram outra saraivada, que caiu novamente a pouco alcance do WolfWill.
— Pegue aquele na traseira com o turbante roxo, Will. Eu vou pegar o que está ao lado dele  disse Halt com calma.
Will assentiu.
— Agora — Halt falou, e eles levantaram os arcos, puxaram e lançaram em quase um só movimento.
As duas flechas, uma preta e uma cinza foram lançadas com os tiros, subindo no ar quente, depois descendo em arco.
Os cavaleiros que Halt escolheu estavam no meio do ato de atirar novamente quando as duas longas flechas pesadas desceram silvando e os acertaram. O alvo de Halt gritou de dor, deixando cair o seu arco e apertando a flecha que de repente o golpeara no braço superior. O homem no turbante roxo não fez nenhum som. Ele tombou de lado da sela e caiu na areia castanha com um som monótono.
Houve gritos de confusão quando os cinco companheiros se dispersavam em pânico. A mensagem era clara. As saraivadas deles caíram a pouco alcance do alvo, enquanto os dois tiros de volta acertaram os alvos na retaguarda do grupo, os mais distantes do navio. O que significava que todos eles estavam ao alcance.
Subitamente, eles se sentiram absolutamente expostos. Viraram os cavalos da ribanceira e galoparam para a crista, em direção à segurança, o cavalo sem cavaleiro seguindo-os.
Apenas o homem no turbante púrpura permaneceu, deitado imóvel na areia.
Alguns segundos depois, os homens na ribanceira do sul pareceram perceber que a emboscada deles fora detectada. Eles apareceram sobre a crista da ribanceira, acenando armas e gritando insultos e maldições para o navio enquanto este passava deslizando arrogantemente. Eles tinham o dobro de pessoas, vestidos andrajosamente e armados com uma série de espadas, lanças e adagas, com vários arcos curtos entre eles. Os homens com os arcos atiraram algumas saraivadas imperfeitas, mas todos estavam bem longe do navio.
Will olhou para Halt, então para o arco nas mãos, mas o arqueiro barbudo sacudiu a cabeça.
— Deixe-os  disse Halt. — Eles não podem nos ferir e agora sabem que é mais seguro deixar-nos em paz.
Ele virou para Gundar.
— Ao mesmo tempo, pode não ser uma boa ideia ancorar em qualquer lugar no meio do rio para um descanso.


O sol estava se pondo atrás deles, uma gigante bola transformada em vermelho-sangue pelas minúsculas partículas de areia que flutuavam no ar do deserto quando eles saíram deslizando quietamente do Canal Assaranyan para o Mar de Sangue – um golfo estreito que levava no fim a espaços imensos do Oceano do Leste.
— Acho que é disso que o nome é derivado  falou Will, apontando um dedo para a superfície da água atrás deles.
O brilho intenso do pôr do sol estava refletido na superfície da água, transformando a mesma numa espetacular cor vermelha, tremeluzindo e se deslocando nas ondas enquanto prendiam e refletiam a última luz do dia, de forma que a água em si parecesse um mar de sangue.
Uma gentil brisa marinha ressaltou do sul quando eles estavam a vários metros da costa. Estava quente, contudo um calor bem-vindo após aquele mormaço que os engolfara enquanto remavam pelo canal.
— Levantar vela  ordenou Gundar.
Na falta de vento uivante e ondas, ele podia dar suas ordens numa voz muito mais calma do que o seu berro normal. Os manejadores de vela se apressaram para desenrolar a vela de bombordo e içar a retranca delgada que a suportava ao mastro. Quando o vento batia na lona e ela inchava, ele deu mais ordens rápidas.
— Remos.
Os compridos remos se ergueram, pingando, da água. Houve alguns segundos de ruídos e batidas enquanto os remadores os puxavam a bordo e os guardavam no navio.
Ao mesmo tempo, a tripulação de navegação puxava as escotas controlando a vela triangular. No início, inchando frouxamente no vento, agora se endureceu numa eficiente curva plana e os passageiros sentiram o empurrão encouraçado do vento tomar efeito.
O WolfWill adernou um pouco a bombordo, então Gundar inclinou o seu peso no leme, rumando o navio para os ângulos certos do vento.
— Afrouxem  ele gritou.
Pôde sentir que a vela, esticada com tanta firmeza, estava fazendo o navio adernar mais do que o necessário e aquilo estava custando velocidade a eles. O WolfWill se estabilizou, ficou um pouco mais perpendicular, então precipitou numa aceleração lenta e longa como uma gaivota.
Gundar virou para olhar os passageiros e não pôde evitar sorrir para eles.
— Nunca me canso disso!  Falou e eles sorriram em troca.
O clima do navio estava se alegrando, particularmente depois das horas de calor e tensão na travessia do Canal Assaranyan.
— Então, o que podemos esperar do Mar de Sangue, Gundar?  Will perguntou ao grande escandinavo robusto.
Gundar braceou o leme com o quadril e abriu as notas de navegação genovesas na pequena mesa de mapa ao lado dele. Consultou o manuscrito cuidadosamente escrito por alguns minutos, depois ergueu o olhar a Will.
— Nessa época do ano, devemos ter ventos constantes  ele disse. — Embora em um mês ou dois haja uma boa chance de se acalmar.
Marinheiros, Will notou, sempre queriam que você só soubesse das piores notícias, mesmo quando tudo parecia bem.
—  continuou Gundar — as notas dizem para evitar outros navios o máximo possível. Aparentemente, o mar aqui está transbordando de piratas.
— Piratas? — perguntou Halt.
Gundar assentiu, apontando um dedo para as notas.
— É o que diz aqui. Piratas.
Halt ergueu as duas sobrancelhas de uma vez.
— Piratas  ele falou. — Oh, céus.

4 comentários:

  1. Nós somos piratas, malvados de mais, bebe e amigos! Huo Huo! Só me lembra de Piratas dos Caribe!
    Ass Bina.

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  2. Quando eu penso q n pode ficar melhor, vem umas noticias dessa kkk

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  3. Os escandinavos é que são os piratas

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Boa leitura :)