26 de janeiro de 2017

Capítulo 14

Ayagi e o seu povo ficaram pálidos com a notícia da rebelião de Arisaka contra o imperador. O povo comum de Nihon-Ja pensava no imperador como uma pessoa cuja ascensão ao trono era guiada e consagrada pelos deuses. Revoltar-se contra ele era um sacrilégio impensável.
— Nós somos o seu povo, senhor Shigeru  o ancião de cabelo branco do vilarejo disse. — Diga-nos o que quer que façamos. Ficaremos do seu lado contra Arisaka.
Houve um estrondo de aprovação dos outros aldeões. Principalmente entre eles, Horace notou, estava Eiko, o corpulento lenhador que Shigeru apertara as mãos primeiro. Ayagi podia ser o ancião do vilarejo, mas Eiko era obviamente uma pessoa de considerável influência entre os Kikori mais novos.
— Agradeço, meus amigos  respondeu Shigeru. — Mas, no momento, espero evitar mais derramamento de sangue. Tudo que precisamos é de um guia para o vilarejo de...
Ele hesitou e olhou para Shukin, pedindo o nome do vilarejo que denominara como o ponto de encontro com Reito e os sobreviventes do exército.
— Kawagishi  disse Shukin. — O Vilarejo no Barranco.
Ayagi se curvou.
— Conhecemos este vilarejo  respondeu. — O meu sobrinho, Mikeru, mostrará o caminho para vocês pela manhã.
Shigeru se curvou de sua posição sentada.
— Obrigado, Ayagi. E agora paremos de falar nesse desentendimento com Arisaka. Algum de vocês tem alguma música favorita para todos nós cantarmos?
Um banho quente, comida quente, roupas secas e uma cama seca e aquecida para a noite causava maravilhas no corpo cansado de Horace.


Logo após o amanhecer, o imperador e o seu grupo acordaram, tomaram café da manhã e se prepararam para mudarem-se mais uma vez. A chuva parara durante a noite e o céu estava limpo num azul brilhante. A respiração de Horace emitia vapor no ar frio quando ele exalava. Uma das aldeãs pegara as roupas molhadas e sujas da viagem dele durante a noite, as limpou e secou. O mesmo serviço fora efetuado para o resto dos viajantes.
Vestindo roupas limpas, ainda quentes do fogo em que elas haviam secado na frente, era um luxo ilustre.
Houve o normal alvoroço e confusão envolvidos na hora de partir. Os cavaleiros inspecionaram as tiras dos seus cinturões. Armas foram verificadas, correias apertadas, armadura ajustada. Como era o seu hábito, Horace limpou e afiou a sua espada na noite anterior, antes de deslizar entre os cobertores aquecidos deixados no chão de esteiras do seu quarto. Ele supôs que cada um dos Senshi fizera o mesmo.
Enquanto o resto do grupo montava, Shukin ficou para trás. Ele pôs uma mão no bolso do seu cinto e tirou uma mão cheia de moedas de ouro, cada uma gravada com o brasão de três cerejas.
Ayagi viu o movimento e recuou, estendendo as mãos na frente dele.
— Não! Não, Senhor Shukin! Não queremos pagamento! Foi um prazer ter o imperador como nosso convidado!
Shukin sorriu para ele. Ele esperava aquela reação, mas sabia que aqueles tempos eram duros nas montanhas e os Kikori tinham pouco para economizar. Ele tinha a sua resposta pronta para o protesto de Ayagi.
— O imperador, talvez  disse. — Mas ninguém esperaria que vocês suprissem uma dúzia de Senshi famintos, ou um gaijin pesado com o apetite de um urso negro!
Ele indicou Horace quando disse isso, sorrindo para certificar-se que Horace sabia que ele estava brincando. Horace sacudiu a cabeça tristemente. Ele não podia disputar com o fato de que comera mais do que qualquer outro no grupo. As porções de comida dos nihon-jins pareciam tão poucas para ele, e ele era famoso até em Araluen pelo seu prodigioso apetite.
Os aldeões riram. Horace provou-se ser uma figura de grande interesse e popularidade entre os Kikori. Ele era refinado, modesto e pronto para juntar-se ao grupo de canto de músicas favoritas – ainda que houvesse mais entusiasmo do que melodia.
Até Ayagi sorriu. O seu senso de hospitalidade o deixou relutante em pegar o dinheiro, mas ele sabia que se não pegasse, seu povo ficaria com pouco dinheiro. Com o ouro que Shukin estava oferecendo, eles poderiam comprar mais suprimentos no mercado mensal em um dos vilarejos maiores.
— Tudo bem, então  ele disse, rendendo-se com boa graça — em respeito ao kurokuma...
Ele aceitou as moedas e foi dado a Horace o nome pelo qual ele seria conhecido entre o povo de Nihon-Jin – Kurokuma ou Urso Negro. Na hora, contudo, ele não prestava atenção. Estava ocupado fixando uma tira frouxa no saco de dormir amarrado atrás de sua sela e perdeu a afirmação de Ayagi.
Shukin curvou-se graciosamente e Ayagi retornou o gesto. Depois virou e curvou-se para o imperador, com todos os aldeões presentes fazendo o mesmo.
— Obrigado, Ayagi-san  disse Shigeru, levantando a mão para todos eles — e obrigado, Kikori.
Os aldeões permaneceram de cabeça abaixada enquanto o pequeno grupo ia embora galopando do vilarejo.
Mikeru, o sobrinho do ancião, era um jovem de aproximadamente dezesseis anos magro com um rosto sagaz. Ele estava montado num pequeno cavalo de corrida de pelo felpudo – o tipo que o povo Kikori usava como animais de carga quando iam buscar lenha. Ele era familiar com a área, naturalmente, e os levou por uma rota muito mais curta do que a rota mostrada no mapa que Shukin carregava.
Estiveram viajando por menos de uma hora quando alcançaram o vau no rio que Shukin esperava cruzar antes de anoitecer. Atravessaram em fila única, os cavalos pisando com cuidado nas pedras escorregadias debaixo de seus cascos. A água subiu até a altura do ombro nos cavalos e era gelada enquanto encharcava as perneiras e botas de Horace.
— Que bom não estar chovendo  murmurou enquanto subia a cavalo a grande ribanceira, seu cavalo sacudindo-se para tirar o excesso d’água.
Ele queria poder fazer o mesmo.
— O que disse, Kurokuma perguntou um da escolta cavalgando perto dele.
Os outros riram com o nome.
— Nada importante  falou Horace. Depois olhou para eles em suspeita. — Que negócio de “kurokuma” é esse?
O Senshi olhou para ele com um rosto totalmente impassível.
— É um termo de grande respeito  explicou ele.
Vários outros, ao alcance da voz, assentiram em confirmação. Eles também conseguiram manter o rosto sério. Era uma habilidade que o povo de Nihon-Ja dominava.
— Grande respeito  um deles ecoou.
Horace estudou todos, cautelosos. Ninguém sorria. Mas ele sabia agora que aquilo não tinha nada a ver com o nihon-jin. Ele sentia que havia uma piada que estava perdendo, mas não conseguiu pensar em uma maneira de descobrir o que poderia ser. Melhor manter a dignidade, ele pensou.
— Bem, eu já achava que sim  falou para eles, e avançou.
Logo após atravessarem o rio, Mikeru os levou para um pedaço de terra limpo na lateral da trilha, firmado na borda de um despenhadeiro plano que descia ao vale abaixo. Era aquela paisagem que Shukin queria chegar. Ele, Shigeru e Horace desmontaram e se aproximaram da beira.
Horace respirou fundo. A borda do despenhadeiro era abrupta, como se tivesse sido cortada por uma faca. A montanha descia vários milhares de metros para um vale. Eles podiam ver as montanhas em que estiveram escalando e, atrás delas, as baixas planícies.
Horace, que nunca gostava da sensação de estar em lugares altos, manteve distância da borda do despenhadeiro. Shukin e Shigeru não tinham tais aflições. Eles ficaram a menos de um metro da tremenda queda, olhando atentamente os vales lá embaixo, cobrindo os olhos do claro sol da manhã. Aí Shukin apontou.
— Lá  falou brevemente.
Shigeru seguiu a direção em que o dedo dele apontava, e grunhiu. Horace, de pé vários metros atrás da borda, tentou estender o pescoço e ver o que estavam olhando, mas sua visão estava obstruída. Shukin notou e o chamou.
— Aproxime-se, Ora’ss-san. É totalmente seguro.
Shigeru sorriu para o primo.
— Não deveria ser Kurokuma?
Shukin sorriu em troca.
— Naturalmente. Aproxime-se, Kurokuma. É totalmente seguro.
Horace aproximou-se arrastando os pés até a borda, por instinto mantendo o seu peso inclinado para fora da queda. Uma experiência amarga no passado o ensinou que, mesmo que odiasse estar em lugares altos, ele era paradoxalmente atraído à borda quando fica em uma, como se achasse a queda irresistível.
— Totalmente seguro é o meu pé  murmurou para si próprio. — E o que é esse Kurokuma que todos vocês insistem em me chamar?
— É um termo de grande respeito  contou Shigeru.
— Grande respeito  ecoou Shukin.
Horace olhou de um ao outro. Não havia sinais no rosto dos dois denunciando-os que aquilo era uma brincadeira.
— Muito bem  ele disse, continuou a avançar arrastando os pés.
Então, olhando na direção que Shukin indicou, ele esqueceu todo o seu ódio de alturas e termos de grande respeito.
No vasto vale, seguindo lentamente a trilha aferrada numa encosta de montanha oposta a eles, ele pôde distinguir uma fileira de homens. O sol cintilava por acaso no equipamento deles enquanto se mexiam e a luz batia nos elmos, pontas de lança e espadas.
— Arisaka  Shukin disse.
Ele olhou da fileira de minúsculas figuras até a crista da montanha em que estavam escalando, depois para a série seguinte de cumes.
— Ele está mais perto do que eu esperava.
— Tem certeza?  perguntou Horace. — Pode ser Reito e os sobreviventes do exército real.
Mas Shigeru sacudiu a cabeça.
— São muitos  ele falou. — E, além disso, Reito-san deveria estar mais perto de nós.
— Qual à distância deles a seu ver?  perguntou Horace.
Mesmo que estivesse viajando por aquele interior, não tinha certeza de qual a velocidade que um grande grupo pudesse cobrir terreno, e ele não tinha nenhuma ideia real de quanto separava o exército de Arisaka e eles.
— Acho que quatro dias atrás de nós  estimou Shigeru, mas Shukin sacudiu a cabeça.
— Mais perto de três  ele disse. — Vamos ter que ser mais rápidos se quisermos alcançar Ran-Koshi antes deles nos pegarem.
— Isso se pudermos encontrar Ran-Koshi  falou Horace. — Até agora ninguém parece saber onde é.
Shukin encontrou o seu olhar ao nível.
— Vamos encontrar  rebateu com firmeza. — Ou encontramos, ou não teremos chance.
— Ayagi-san estava confiante de que haveria pessoas no Vilarejo da Margem que saberiam sobre isso. Alguns dos mais velhos em particular, ele disse.
— Bem, não vamos chegar nem um pouco mais perto de lá ficando aqui batendo papo — falou Horace e Shukin sorriu apreciado.
— Bem dito, Kurokuma.
Horace inclinou a cabeça e olhou o líder Senshi.
— Acho que prefiro isso a Ora’ss-san — falou. — É meio inseguro, na verdade.
— É um termo de grande respeito  falou Shukin para ele.
— Grande respeito  confirmou Shigeru.
O olhar de Horace trocou de um lado para o outro entre eles.
— É isso que me deixa inseguro.
Shigeru abriu um sorriso e deu um tapinha no ombro dele.
— Vamos voltar aos cavalos. Como você diz, não vamos chegar nem um pouco mais perto do Vilarejo na Margem do Rio enquanto ficarmos aqui batendo papo.
Eles alcançaram o vilarejo em outras duas horas. Enquanto cavalgavam, uma figura familiar saiu a passos largos de um dos chalés para recebê-los. Horace reconheceu Reito, o Senshi que trouxera a eles a notícia da rebelião de Arisaka. Ele olhou o vilarejo e tornou-se ciente de que havia outros Senshi ali, os sobreviventes do exército de Shigeru em Ito. Vários deles estavam feridos, com bandagens manchadas de sangue nos ferimentos. Alguns vagueavam pelo vilarejo, na maioria das vezes coxeando duro. Mas vários estavam ainda deitados em macas. Ele ouviu Shukin dar um profundo suspiro.
— Vamos ter que ir muito mais devagar daqui em diante  o líder Senshi disse.

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